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sábado, 9 de outubro de 2021

Mauro Mota: O Cão

 
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A Edson Nery da Fonseca

É um cão negro. É talvez o próprio Cão
assombrado e fazendo assombração.
Estraçalha o silêncio com seus uivos.
A espada ígnea do olhar na escuridão

separa a noite, abre um canal no escuro.
Cão da Constelação do Grande Cão,
tombado no quintal, espreita o pulo:
duendes, fantasmas de ladrão no muro.

O latido ancestral liberta a fome
de tempo, e o cão, presa do faro, come
o medo e a treva. Agita-se, devora

sua ração de cor. Pois, louco e uivante,
lambe os pontos cardeais, morde o levante
e bebe o sangue matinal da aurora.

(Os epitáfios — 1959)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP; Mauro Ramos de Mota e Albuquerque (1911 — 1984), pernambucano de Recife, formado pela Faculdade de Direito de Recife PE, foi jornalista, professor, poeta, cronista e ensaísta; trabalhou como redator-chefe e diretor do Diário de Pernambuco e colaborador literário do Correio da Manhã, do Diário de Notícias e do Jornal de Letras do Rio de Janeiro; exerceu funções de direção no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais e no Arquivo Público de Pernambuco; obras; Elegias (poesias, 1952), O Cajueiro Nordestino (crônicas, 1954), A tecelã (poesias, 1956), Os epitáfios (poesias, 1959), Imagens do Nordeste (1961), Geografia Literária (1961), O galo e o cata-vento (poesias, 1962), Itinerário (poesias, 1975), Modas e Modos (1977), Pernambucânia ou Cantos da comarca e da memória (1979) Alfinetes e bombons: aforismos (1984) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Mauro Mota: Leilão

Resultado de imagem para Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50
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 Quanto dão? Quanto dão?

 Quem dá mais?, grita mais o leiloeiro.
 Esta bengala de castão de ouro!

(Onde anda sem levá-la o dono antigo?)
 Esta arca colonial!

(Falam dedicatórias de retratos,
falam cartas de amor, a voz trancada.)
 Esta mobília de jacarandá!

(As visitas na sala, o pai, a mãe,

a irmã, a avó cochila no sofá.)
 Este faqueiro de prata!

(Cruzados os talheres, as mãos cruzadas.)
 Esta cômoda do século XIX!

(Soluçam as gavetas, dentro delas,
cheiro de roupa branca e de alecrim.)
 Esta louça azul de Macau!

(A fumaça (da sopa?) na terrina.

Na borda (asa quebrada) desta xícara
os vestígios dos lábios da menina.)

Quem tira as rosas que a moça bota
nos jarros de opaline do consolo?
E a moça presa dentro deste espelho
do toucador do quarto de dormir?
 Quem dá mais?, grita mais o leiloeiro.
Bate o martelo, bate aqui, dói longe.


Itinerário (1975)

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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP;  Mauro Ramos de Mota e Albuquerque (1911   1984), nascido em Recife  PE, foi poeta, cronista, ensaísta e também dedicou-se ao jornalismo e ao magistério; publicou O Cajueiro Nordestino (1964),  Imagens do Nordeste  (1961), Geografia Literária (1961), Modas e Modos  (1977), Alfinetes e bombons: aforismos  (1984)...; obra poética:  Elegias  (1952), A tecelã (1956), Os epitáfios (1959), O galo e o catavento  (1962),  Itinerário (1975), Pernambucânia ou Cantos da comarca e da memória  (1979) etc.