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A Edson Nery da Fonseca
É um cão negro. É talvez o próprio Cão
assombrado e fazendo assombração.
Estraçalha o silêncio com seus uivos.
A espada ígnea do olhar na escuridão
separa a noite, abre um canal no escuro.
Cão da Constelação do Grande Cão,
tombado no quintal, espreita o pulo:
duendes, fantasmas de ladrão no muro.
O latido ancestral liberta a fome
de tempo, e o cão, presa do faro, come
o medo e a treva. Agita-se, devora
sua ração de cor. Pois, louco e uivante,
lambe os pontos cardeais, morde o levante
e bebe o sangue matinal da aurora.
(Os epitáfios — 1959)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio
de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP;
Mauro Ramos de Mota e Albuquerque (1911 — 1984), pernambucano de Recife, formado
pela Faculdade de Direito de Recife — PE, foi jornalista, professor, poeta, cronista
e ensaísta; trabalhou como redator-chefe e diretor do Diário de Pernambuco e colaborador
literário do Correio da Manhã, do Diário de Notícias e do Jornal de Letras do Rio
de Janeiro; exerceu funções de direção no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas
Sociais e no Arquivo Público de Pernambuco; obras; Elegias (poesias, 1952),
O Cajueiro Nordestino (crônicas, 1954), A tecelã (poesias, 1956), Os epitáfios (poesias,
1959), Imagens do Nordeste (1961), Geografia Literária (1961), O galo e o cata-vento
(poesias, 1962), Itinerário (poesias, 1975), Modas e Modos (1977), Pernambucânia
ou Cantos da comarca e da memória (1979) Alfinetes e bombons: aforismos (1984) e
outros títulos; recebeu premiações por sua obra.
