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quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Teófilo Dias: Latet Anguis

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O som que tua voz límpida exala,
Grato feitiço mágico resume:
A frase mais vulgar, na tua fala,
Colorido, matiz, brilhando, assume.

Afaga como a luz; como um perfume
Pela alma filtra, e se insinua e cala,
E, só de ouvi-la, o espírito presume
Que um éter, feito de torpor, o embala.

Quando a paixão altera-lhe a frescura,
Quando o frio desdém lhe tolda o acorde
À viva polidez, vibrante e pura,

Não se lhe nota um frêmito discorde:
Apenas do primor com que fulgura,
Às vezes a ironia salta e morde.

(Fanfarras. São Paulo: Dolivaes Nunes, 1882, pp. 28-29.)

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Teófilo Dias — Série Essencial 54, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Wellington de Almeida Santos, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP — Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político, tradutor e poeta; colaborou com os jornais Província de São Paulo, A República, O Meridional, Provinciano, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participou da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; suas obras: Flores e Amores (1874), Cantos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888); o poeta é considerado por nomes consagrados Antonio Candido, Manuel Bandeira, Silvio Romero entre outros , autor inaugural do Parnasianismo ou, no mínimo, precursor deste período literário, embora haja vozes discordantes; traduziu, com inovação criativa, Charles Baudelaire, Alfred de Musset, Edgar Quinet.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Baudelaire: Manhã de inverno*

 
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[‘traduzido’ por Teófilo Dias]

(Baudelaire)

O inverno é para mim a mais doce estação.
Como sinto-me bem! Amortalhando o lago,
A névoa, que me envolve a fronte e o coração,
Se fecha sobre mim como um túmulo vago.

Nos plainos, que percorre o bulcão frio e torvo,
E aonde à longa noite os mochos enrouquecem,
Melhor do que no tempo em que os bosques florescem,
Minha alma largamente abre as asas de corvo!

(Fanfarras. São Paulo: Dolivaes Nunes, 1882, p. 56.)

Baudelaire

Brumes et pluies

Ô fins d'automne, hivers, printemps trempés de boue,
Endormeuses saisons ! je vous aime et vous loue
D'envelopper ainsi mon coeur et mon cerveau
D'un linceul vaporeux et d'un vague tombeau.

Dans cette grande plaine où l'autan froid se joue,
Où par les longues nuits la girouette s'enroue,
Mon âme mieux qu'au temps du tiède renouveau
Ouvrira largement ses ailes de corbeau.

Rien n'est plus doux au coeur plein de choses funèbres,
Et sur qui dès longtemps descendent les frimas,
Ô blafardes saisons, reines de nos climats,

Que l'aspect permanent de vos pâles ténèbres,
Si ce n'est, par un soir sans lune, deux à deux,
D'endormir la douleur sur un lit hasardeux.

* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Acerca do poema Manhã de Inverno, uma ‘tradução’ do poema Brumes et pluies, de Baudelaire, Wellington de Almeida Santos anota neste Teófilo Dias — Série Essencial 54...:
     ‘... observa-se um sutil trabalho de manipulação literária, em que Teófilo Dias, a pretexto de engendrar uma tradução de um soneto de Baudelaire (“Brumes et Pluies”, de Les Fleurs de Mal), efetua uma criação verdadeiramente autoral, em que se misturam apropriação de texto e invenção. Em nota ao texto, “traduzido” sob o título de “Manhã de Inverno” (Fanfarras [1857]), Antonio Candido registrou, sem desenvolver a ideia, que se trata de “um caso interessante de redução poética” e que, nessa operação, Teófilo Dias, “fez um pequeno poema autônomo, alterando os dois primeiros versos” (Candido, [“Introdução”. Dias, Teófilo. Poesias Escolhidas.] 1960: [pg] 113).
     Na verdade, com abono da moderna teoria da intertextualidade, é possível considerar o resultado literário como um estramboto inspirado, no qual, se há a matriz baudelairiana, cujo crédito foi consignado pelo autor, sem escamoteação, mais forte foi a capacidade inventiva, pela “redução poética” e pela alteração dos “dois primeiros versos”, uma surpreendente elaboração poética, travestida de “tradução”.
     O procedimento não é caso isolado na poética de Teófilo Dias, indicando tratar-se de atitude consciente e intencional. ...”
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Teófilo Dias — Série Essencial 54, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Wellington de Almeida Santos, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

sábado, 27 de agosto de 2022

Teófilo Dias: Os Seios

 
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Como serpente arquejante
Se enrosca em férvida areia,
Meu ávido olhar se enleia
No teu colo deslumbrante.

Quando o descobres, no ar
Morno calor se dissolve
Do aroma em que ele se envolve
Como em neblina o luar.

Se ao corpo te enrosco os braços,
A terra e os céus estremecem,
E os mundos febris parecem
Derreter-se nos espaços!

E tu nem sequer presumes
Que então, querida, até creio
Sorver, desfeito em perfumes,
Todo o sangue do teu seio.

Depois que aspiro, ansiado,
Do teu níveo colo o incenso,
Minh'alma semelha um lenço
De viva essência molhado.

Deixa que a louca se deite
Nesse torpor que extasia,
E que o vinho do deleite
Me espume na fantasia:

Pois não há ópio ou hachis
Que me abrilhante as ideias
Como as fragrâncias sutis
Que fervem nas tuas veias!

(Fanfarras. São Paulo: Dolivaes Nunes, 1882, pp. 20-21.)

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Teófilo Dias — Série Essencial 54, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Wellington de Almeida Santos, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político, tradutor e poeta; colaborou com os jornais Província de São Paulo, A República, O Meridional, Provinciano, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participou da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; suas obras: Flores e Amores (1874), Cantos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888); o poeta é considerado por nomes consagrados Antonio Candido, Manuel Bandeira, Silvio Romero entre outros , autor inaugural do Parnasianismo ou, no mínimo, precursor deste período literário, embora haja vozes discordantes; traduziu, com inovação criativa, Charles Baudelaire, Alfred de Musset, Edgar Quinet.

terça-feira, 15 de março de 2022

Baudelaire: Don Juan nos Infernos

 
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[traduzido por Teófilo Dias]

Quando D. Juan desceu ao subterrâneo rio
E pagou a Caronte o óbolo supremo,
Antístenes soberbo, um mendigo sombrio
Um braço vingador lançou a cada remo.

Como um grande tropel de vítimas expostas
Mulheres mil e mil, ao atro firmamento,
Erguiam, seios nus, as roupas descompostas,
Enquanto o herói passava, um lúgubre lamento

Sganarello, a rir, lhe reclamava as pagas,
Enquanto D. Luís, com o dedo, que tremia,
Mostrava a cada morto errante sobre as plagas
O filho, que das cãs do velho escarnecia.

A casta e magra Elvira, um último tributo
Em que do amor primeiro inda provasse o mel,
Parecia implorar, fremente sob o luto,
Ao que lhe fora amante e marido infiel.

Sob as armas ereto, abrindo o torvo rio,
Um alto homem de pedra estava ao leme posto;
Mas, curvado, fitando a espuma, calmo e frio,
Não se dignava o herói sequer voltar o rosto!

(Fanfarras. [Teófilo Dias], São Paulo:
Dolivaes Nunes, 1882, pp. 578.)

Charles Baudelaire

Don Juan aux enfers

Quand Don Juan descendit vers l'onde souterraine
Et lorsqu'il eut donné son obole à Charon,
Un sombre mendiant, l'oeil fier comme Antisthène,
D'un bras vengeur et fort saisit chaque aviron.

Montrant leurs seins pendants et leurs robes ouvertes,
Des femmes se tordaient sous le noir firmament,
Et, comme un grand troupeau de victimes offertes,
Derrière lui traînaient un long mugissement.

Sganarelle en riant lui réclamait ses gages,
Tandis que Don Luis avec un doigt tremblant
Montrait à tous les morts errant sur les rivages
Le fils audacieux qui railla son front blanc.

Frissonnant sous son deuil, la chaste et maigre Elvire,
Près de l'époux perfide et qui fut son amant,
Semblait lui réclamer un suprême sourire
Où brillât la douceur de son premier serment.

Tout droit dans son armure, un grand homme de pierre
Se tenait à la barre et coupait le flot noir,
Mais le calme héros, courbé sur sa rapière,
Regardait le sillage et ne daignait rien voir.
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Teófilo Dias — Série Essencial 54, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Wellington de Almeida Santos, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), nascido em Paris França, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia no Quartier Latin (região parisiense no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição póstuma, 1869) e outros.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Teófilo Dias: A Poesia Moderna*

 
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A Pompílio de Albuquerque

Ó cândida poesia, ó virgem branca e pura!
Águia do pensamento, errante, foragida!
Onde pairas, que em vão te anseia, te procura,
Sequiosa de luz, minha alma consumida?
De que monte sublime, aos altos céus vizinho,
Foste ouvir de mais perto os cantos siderais?
Que nova brisa embala o palpitante ninho
De novos ideais?

Envolve a tua fronte a tênebra sombria?
Que ignota mão sustém o pomo do futuro
Sobre o abismo do tempo, ó santa poesia,
Que rebrame a teus pés, profundo, horrendo, escuro?
Como, quando remuge a rábida tormenta,
Resvala a indócil nau aos férvidos parcéis,
Ó Arte, rolarão na onda que rebenta
Teus válidos pincéis?

Poesia, onde estás? Teu corpo voluptuoso
No bosque do ideal repousa adormecido,
Na alfombra que margeia o rio harmonioso,
Que beija-te chorando o trêmulo vestido?
Esmoreceu-te o sono a pálpebra brilhante
Por onde irradiava a luz do teu olhar,
De que uma réstia só talvez fosse bastante
Para o mundo salvar?

Estancou-se o caudal fresquíssimo e fecundo
Onde os bravos leões, batidos pela calma,
Vinham umedecer o lábio sitibundo,
E reviver de novo à sombra de tua alma?
Já não ousam volver os plainos devastados?
Ó sagrada vestal, é certo, pois, que em vão
Espreita o teu dormir, com os olhos encovados,
O estudo, teu irmão?

Do mundo que desaba a poeira te sufoca?
Das lepras sociais minada surdamente,
Sentindo a vasa rir, cerraste a casta boca,
E o rosto virginal voltaste descontente?
Oh! Não! Voaste além, librada nos espaços,
De onde vibres melhor a tua ardente voz,
Enquanto a sociedade estorce-se nos braços
Da corrupção atroz.

Ergueste o vôo além e viste das alturas,
Nas amplas espirais do vasto precipício
Torcerem-se do mal as vítimas escuras,
A luta das paixões, a cólera do vício;
Depois, sobre um altar, com diamantinos cravos,
Tu viste um áureo Cristo, enorme, preso à cruz,
E ouviste soluçar nas trevas os escravos
Repelidos da luz.

O nédio aristocrata o corpo preguiçoso
Viste estirar, e abrindo a boca enfastiada
Contratar sem pudor. Com riso caviloso,
O preço por que deve a honra ser comprada;
A altiva Liberdade, a tua irmã divina,
Sofismada, negada; e ouviste sussurrar
Da febre da vingança a onda purpurina
No peito popular.

Tu viste a populaça, amarelenta e nua,
No lodo da miséria exausta se arrastando;
Um prostíbulo infame aberto em cada rua;
A embriaguez a rir; crianças soluçando;
O poder apoiando as pontas das espadas
Ao corpo social que verga-se ao grilhão,
E nota espavorido as fauces esfaimadas
Que fitam, do canhão.

Viste mais… E um tropel de Eumênides e harpias,
Minaz fermentação de ignívomo elemento,
Lançaste sobre o mundo em legiões sombrias,
Com o surdo horror do mar e as cóleras do vento.
“Roei da sociedade a vacilante base!”
Bradaste à inundação com lábio varonil;
“O edifício fatal de uma só vez se arrase,
Desfeito em cinza vil!”

E és hoje a grande luz da tempestade invicta!
De cada consciência entraste nos arcanos,
E o militar venal, e o ignóbil jesuíta
Ameaçam-te em vão com o cetro dos tiranos!
És a deusa viril da Ilíada sagrada!
És o raio de paz com brados de trovão!
Empunhas da Justiça a lança imaculada,
E o escudo da Razão!


* Nota do Organizador Wellington de Almeida Santos: In Cantos Tropicais. Rio de Janeiro; Agostinho Gonçalves Guimarães, 1878, pp. 136-9.
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Teófilo Dias — Série Essencial 54, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Wellington de Almeida Santos, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político e poeta; colaborou com os jornais Província de São Paulo, A República, O Meridional, Provinciano, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participou da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; obras: Flores e Amores (1874), Cantos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888); o poeta é considerado por nomes consagrados Antonio Candido, Manuel Bandeira, Silvio Romero entre outros , autor inaugural do Parnasianismo ou, no mínimo, precursor deste período literário, embora haja vozes discordantes.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Teófilo Dias: A Locomotiva

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A Mariano de Oliveira

Pela noite do tempo, escura, horrenda e feia,
O corcel do progresso os olhos inflamados
Acende,  sorve a terra, empina-se, e lhe ondeia
Solta  a crina de fumo aos ventos irritados.

Evade-se da aldeia o índio foragido;
O cantor timorato agita as asas grandes;
E, enquanto o medo acossa o tigre espavorido,
Recolhe-se assustado aos píncaros dos Andes.

Salve, raio de luz brilhante que fulgiste
Do cérebro-vulcão febril da humanidade,
E no teu rutilar de lavra lhe imprimiste
Um vestígio que a exalta igual à divindade!


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Não queimas o teu seio ao facho da discórdia,
Que oferece às nações o devorante leito,
Mas harmonia e paz fraternal concórdia
Propagam os trovões que rugem no teu peito.

Tu levas no teu ventre o enxofre que cerceia
Os ferros que o poder tirânico nos lança,
A fé que há de limar dos povos a cadeia
E de vê-los irmãos certíssima esperança.

De um século és nascida esplêndido em memórias;
Filho dele também, saúdo-te de novo,
E altivo mais um louro enfeixo a tuas glórias,
E ajunto mais um bravo às bendições de um povo.

Cantos Tropicais  1878

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Teófilo Dias — Série Essencial 54, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Wellington de Almeida Santos,  2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Teófilo Odorico Dias  de Mesquita (1854 — 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político e poeta; colaborou com os jornais Província de São PauloA RepúblicaO Meridional, Provinciano, e também com a Revista Brasileira, de José  Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participou da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; escreveu e publicou Flores e Amores (1874), Cantos Tropicais (1878),  Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses  (1888); o poeta é considerado por nomes consagrados  Antonio Candido, Manuel Bandeira, Silvio Romero entre outros , autor inaugural do Parnasianismo ou, no mínimo, precursor deste período literário, embora haja vozes discordantes.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Teófilo Dias: Carta

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Não sei que afã de ver-te me tortura
Desde que longe estás de mim, criança!
Só me alimenta a febre da esperança.
Tenho no olhar o espasmo da loucura.

De fundo abismo na espiral escura,
Que só de imaginá-lo a ideia cansa,
Mergulha-me o desgosto, a dor me lança,
Dor que só em te ver tivera cura.

Por isso é que ao mandar-te, angustiado,
Este soneto, de minh'alma cheio,
Comprimo o coração despedaçado

Com a mão palpitante, com receio
Que em ímpetos de amor arrebatado
Me fuja para ti, pelo  correio.

Fanfarras — 1882

Teófilo Dias
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Poesias Escolhidas, Teófilo Dias — Seleção, Prefácio, Introdução e Notas por Antonio Candido, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político e poeta; colaborou com os jornais Província de São Paulo, A República, O Meridional, Provinciano, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participa da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; escreveu e publicou Flores e Amores (1874), Contos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Baudelaire: A fonte do sangue

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[traduzido por Teófilo Dias]

Sinto o sangue escapar-me à veia enfebrecida,
Como fonte fugaz; 
 harmônico e purpúreo,
Escuto-o soluçar com lírico murmúrio,
Porém me apalpo em vão; não encontro ferida.

É-lhe leito a cidade, e nela se despenha;
Referve, e cada pedra em ilha transfigura;
E vai matando a sede a cada criatura,
Colorindo de rubro as coisas que desenha.

O vinho aguça a vista e apura mais o ouvido:
Talvez, por isso, em vão, que adormeça, hei pedido
O meu roaz terror um momento sequer;

Em vão também no amor procuro o esquecimento;
Mas o amor, quanto a mim, não é mais que um invento
Com que nos suga o sangue a seda da mulher.

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Baudelaire

La Fontaine de Sang

Il me semble parfois que mon sang coule à flots,
Ainsi qu'une fontaine aux rythmiques sanglots.
Je l'entends bien qui coule avec un long murmure,
Mais je me tâte en vain pour trouver la blessure.

À travers la cité, comme dans un champ clos,
Il s'en va, transformant les pavés en îlots,
Désaltérant la soif de chaque créature,
Et partout colorant en rouge la nature.

J'ai demandé souvent à des vins captieux
D'endormir pour un jour la terreur qui me mine;
Le vin rend l'oeil plus clair et l'oreille plus fine!

J'ai cherché dans l'amour un sommeil oublieux;
Mais l'amour n'est pour moi qu'un matelas d'aiguilles
Fait pour donner à boire à ces cruelles filles!


Nota de Antonio Candido: ‘La Fontaine de Sang’. Tradução muito boa, ajustando-se rigorosamente ao original.
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Poesias Escolhidas, Teófilo Dias — Seleção, Prefácio, Introdução e Notas por Antonio Candido, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês de Paris, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX. Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854  1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político, poeta e tradutor; colaborou com os jornais Província de São Paulo e A República, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participa da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; escreveu e publicou  Flores e Amores (1874), Contos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888).

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Teófilo Dias: Spleen

Minha alma é um velho arsenal,
Cheio de armas assassinas;
Tem a mudez sepulcral
Que paira sobre as ruínas.

Das paredes denegridas,
Da mão do tempo gretadas,
Pendem fúnebres espadas
Pela ferrugem comidas.

Há punhais de gumes tredos,
Cuja lâmina sinistra
Rápida morte ministra
A quem lhe perpassa os dedos.

Sobre os ladrilhos sombrios
Rolam farrapos poentos,
Que pelas malhas dos fios
Mostram vestígios sangrentos.

Neste recinto funéreo
Não entra o rumor diurno:
O seu aspecto soturno
Lembra a paz de um cemitério.

Mas, como um monge piedoso,
Lento, grave, a passo incerto,
Cheio de horror religioso
Percorre um claustro deserto,

Também eu, mudo, contemplo,
Concentrado e recolhido,
As solidões do meu templo
Todo em ruínas caído.

E de as ver, 
 de um vago imenso 
Desola-me o peso atroz,
Como um mar profundo, extenso,
Que, num silêncio feroz,

Cerca-me surdo e sombrio,
E após, refluindo ao largo,
Só me deixa ao lábio frio
Vestígios do lodo amargo.

(Fanfarras, editor Dolivais Nunes,
 São Paulo, 1882, p. 64  66.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político e poeta; colaborou com os jornais Província de São Paulo e A República, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participa da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; escreveu e publicou Flores e Amores (1874), Contos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888).