____________________
Desde que
ao mundo fui arremessado,
Meu
destino é igual de Sul a Norte;
Um “Não”,
somente um “Não” tenho encontrado,
“Não” no
amor, “Não” na gaita*, “Não” na sorte.
E assim
venho vivendo amargurado,
Maldizendo
a vida e bendizendo a morte;
Nascer
foi das asneiras a mais forte
Que
involuntariamente hei praticado.
Entretanto,
esse “Não” que não me deixa,
Essa
constante e eterna negativa,
A direta
razão de minha queixa,
Esse “Não”
que da mente não me sai
É
consequência de uma afirmativa,
De um “Sim”
que minha mãe deu a meu pai.
* Nota do
blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página
aduz acerca do uso da palavra 'gaita', e seu sentido, no soneto ora apresentado:
gaita [gíria] = dinheiro, grana, bufunfa, dindin, prata, cascalho, tutu.
____________________
Lili Leitão,
o Café Paris e a vida boêmia de Niterói & Niterói, Poesia e Saudade — Lyad de
Almeida, Apresentação de João Sampaio e Prefácio de Luiz Antonio de Farias Mello,
1996, Niterói Livros, Niterói — RJ; Luiz Antônio Gondim Leitão (1890 — 1936),
mais conhecido como Lili Leitão, fluminense e niteroiense, além de funcionário municipal,
foi jornalista, comediógrafo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes
do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, o Café Paris, os quais,
numa autêntica “roda”, para ali se dirigiam, e ali discutiam, os boêmios, profissionais
liberais, artistas plásticos, jornalistas ...; colaborou em vários jornais, entre
os quais n’A Capital, no Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã, Niteroiense, O Fluminense,
muitas vezes sob o pseudônimo Bacorinho, e editava, uma vez por ano, às vésperas
do carnaval, o tablóide O Almofadinha (de 1922 a 1936); escreveu e publicou: Sonetos (em parceria
com Sylvio Figueiredo, 1913), Vida apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu
peças para o teatro de revista: Tudo na rua (1914), Então não sei? (1915), Pra cima
de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas
de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes
(1924, paródia de A ceia dos coronéis, de Bastos Tigre), O rendez-vous amarelo (1930,
caricatura de O reposteiro verde, de Júlio Dantas), Minha sogra é de outro mundo
(1933), Caiu no laço, Niterói em cuecas e outras ...; com o pseudônimo Armando Prazeres,
o poeta-humorista reuniu em Comidas bravas (edição reduzida, 192?) os poemas pornográficos
recitados por ele aos integrantes da Roda do Café Paris.



