Conheci a Beleza que não
morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o batismo dos poetas,
E, assentado entre as formas incompletas,
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o batismo dos poetas,
E, assentado entre as formas incompletas,
Para sempre fiquei pálido e triste.

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Antero de Quental — Sonetos,
Coleção de Clássicos Sá da Costa, edição organizada e anotada por Antônio
Sérgio e prefaciada por Oliveira Martins, terceira edição, 1968, Livraria Sá da
Costa Editora, Lisboa — Portugal; Antero Tarquínio de
Quental (1842 — 1891), natural de Ponta Delgada — Portugal, formado
em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica
seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo
socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã,
polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução
intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de
operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando
igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos
de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão
Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade
das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã,
1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras
Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária
Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A
Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se
com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.


