____________________
O meu consolo1
Os debates
financeiros e econômicos cessaram na tribuna da Câmara e nas colunas dos
jornais.
Foi um
regalo este debate, com o qual muito gozei, ao apreciar a dança de apaches dos
algarismos.
Apareciam
tantos que me estonteavam; eu, porém, teimava em ler os discursos e os artigos.
Falava-se
de dinheiro, de libras, de francos, de dólares e as cifras enormes,
fantásticas, de todas as moedas do mundo, só com a leitura delas, eu me sentia
um pouco rico.
Tenho esse
mau hábito de sonhar, de representar nitidamente o que me sugere a leitura; de
modo que, vendo falar em milhões, em milhares de contos, eu apalpava, eu acariciava
montões de libras nas minhas algibeiras ou as fazia escachoar lentamente das
minhas mãos para cima da minha mesa de trabalho.
Nunca vi
ronda tão inverossímil de dinheiro como nessa discussão.
O Brasil
é assim tão rico, pensei eu; e eu sou brasileiro, devo ser também alguma coisa
rico. Convenci-me de tal fato, que já me havia ensinado um preto velho que
tinha em casa. Muitas vezes ele me disse:
— Seu F.!
— Que é?
— O
senhor por que não compra uma casa?
— Porque
não tenho dinheiro.
— Quá! O
senhor tem?
— Onde?
— No
Banco do Brasil.
— Como?
— O
senhor é brasileiro; o banco é do Brasil; o senhor chega lá e tira o dinheiro.
Está aí — rematava o velho africano.
Não segui
o conselho dele. Não fui ao Banco do Brasil; mas, cada vez que me sinto mais
pobre, mais me extasio com os algarismos das discussões financeiras. É o meu
consolo.
— o —
A lição2
Todos os transeuntes
e habitantes desta nossa cidade do Rio de janeiro estão fartos de observar a
proliferação da mendicidade que vai por ela.
Não há
bairro, não há esquina, não há rua, não há praça, em que não se topem às
dezenas com mendigos de todas as nacionalidades, de todos os sexos, de todas as
idades.
Um coração
piedoso que desse as esmolas pedidas diariamente teria que ter a fortuna de um
milionário para não arrebentar as finanças ao fim de um mês.
Eu não
sou de todo coração duro, de modo que, às vezes, me rendo aos pedidos que me
fazem os pobres na rua.
Recebi,
porém, em um dia destes uma lição que quase me tornou insensível perante às
misérias dos outros.
Estava eu
em um restaurante dos subúrbios, quando se acercou de mim uma criança, dizendo:
— Moço, o
senhor me dá um tostão para comprar um pão? Não comi nada hoje etc. etc.
Olhei a
criança bem e perguntei:
— Você
quer mesmo o pão?
— Quero,
sim, moço. Não comi nada hoje.
Pensei
que o melhor modo de beneficiar a criança era comprar o pão e dar-lhe.
Exultei com
o alvitre e fiquei contente com a minha consciência. Exercia a caridade e não
corromperia o infante.
Chamei o
caixeiro, pedi um tostão de pão, que foi embrulhado, e entreguei ao menino.
Ele recebeu
com muita humildade, agradeceu até, e encaminhou-se com o embrulho para a
porta.
Tive satisfação
com a coisa e julguei que a comida que ingeria tinha um sabor melhor.
Quando o
pequeno chegou à porta da rua, voltou-se e gritou:
— Seu
besta! Eu não queria pão; queria dinheiro.
Fiquei zonzo
e quase arrependido da minha caridade.
* Nota
do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página
registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução
deste Sátiras e outras subversões:
“Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.”
Notas do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1 Assinado por Jonathan. Publicado em Careta, nº 640, 25set. 1920;
2 Assinado por J. Caminha. Publicado em Careta, nº 373, 14 ago. 1915.
____________________
Sátiras e
outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa
e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São
Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 — 1922), carioca, estudou
no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio
de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista
e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta,
Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905,
redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido
como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista
Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão
Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins,
1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida
e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação
póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado
em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...