segunda-feira, 30 de junho de 2025

William Blake: Sobre a Dor de Um Outro Alguém

____________________
[traduzido por Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho]

Posso ver a dor de alguém
Sem que eu sinta dor também?
E ver o martírio do outro
Sem buscar próprio conforto?

Ver uma lágrima cair
E nenhum sofrimento sentir?
Pode um pai ver chorar o filho
Sem que a angústia venha a atingi-lo?

Pode uma mãe não dar ouvidos
Ao medo do filho aos gemidos?
Ah, não! Jamais poderão!
Nunca! Jamais poderão!

Pode ele, que a tudo sorri,
Ouvir o pássaro a fremir;
Ouvir a carriça que pena
E o choro de crianças pequenas,

Abandonando o próprio ninho
Onde, em dó, nutre os filhotinhos;
E afastar-se do berço enquanto
O próprio filho está em prantos,

Sem recostar-se em nenhum escoro,
Secando todo e qualquer choro?
Ó, não! Jamais poderá!
Nunca! Jamais poderá!

Ele dá a todos sua alegria;
Ele também se torna cria;
Torna-se um homem em agonia
E, como ele, se angustia.

Não podes suspirar em dor
Sem a presença do criador;
E não penses que podes chorar
Sem que ele steja a te olhar.

Ele nos dá contentamento,
Põe fim ao nosso sofrimento;
E até que a dor tenha passado
Ele lamenta ao nosso lado.

(Canções da Inocência — 1789)

William Blake

On Another’s Sorrow

Can I see another’s woe,
And not be in sorrow too?
Can I see another’s grief,
And not seek for kind relief?

Can I see a falling tear,
And not feel my sorrow’s share?
Can a father see his child
Weep, nor be with sorrow fill'd?

Can a mother sit and hear
An infant groan, an infant fear?
No, no! never can it be!
Never, never can it be!

And can he who smiles on all
Hear the wren with sorrows small,
Hear the small bird's grief & care,
Hear the woes that infants bear,

And not sit beside the nest,
Pouring pity in their breast;
And not sit the cradle near,
Weeping tear on infant's tear;

And not sit both night & day,
Wiping all our tears away?
O! no never can it be!
Never, never can it be!

He doth give his joy to all;
He becomes an infant small;
He becomes a man of woe;
He doth feel the sorrow too.

Think not thou canst sigh a sigh
And thy maker is not by;
Think not thou canst weep a tear
And thy maker is not near.

O! he gives to us his joy
That our grief he may destroy;
Till our grief is fled & gone
He doth sit by us and moan.

(Songs of Innocence — 1789)
____________________
William Blake — Canções da Inocência e Canções da Experiência, Edição bilíngue comentada, Tradução e Textos Introdutórios e Comentários de Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho, 2005, Disal Editora, São Paulo — SP; William Blake (1757 1827), inglês e londrino, foi tipógrafo, escritor, poeta, gravurista e artista plástico do pré-romantismo na Inglaterra; consta de sua biografia que, por decisão paterna, o poeta esteve alheio às escolas, não cumpriu a pedagogia oficial de então e foi incentivado a trilhar seu próprio caminho e desenvolver seus dotes artísticos; aprendeu técnicas de gravura e iniciou-se como gravurista; associou-se ao tipógrafo James Parker, abriu um atelier de impressão e passou a imprimir seus livros e suas gravuras; em 1779, foi admitido na Academia Real londrina, “a quem produziu gravuras para romances e catálogos em troca de instrução”; William Blake pode ser considerado um dos fundadores do movimento romântico, o Romantismo, na literatura inglesa; suas obras: Poetical Sketches (Esboços Poéticos, 1783), Songs of Innocence (Canções da Inocência, 1789), The French Revolution: A Poem in Seven Books (A Revolução Francesa, 1791), The Marriage of Heaven and Hell (O Casamento do Céu e do Inferno, 1793), Songs of Experience (Canções da Experiência, 1794), Milton (1804), Jerusalem (1820), “Rossetti” Manuscript (Manuscrito “Rossetti", publicação póstuma) e outros títulos, além de ilustrações e pinturas.

domingo, 29 de junho de 2025

S. T. Coleridge: As Dores do Sono

 
____________________
[traduzido por Paulo Vizioli]

Antes de no meu leito repousar,
Não tem sido meu hábito rezar
Movendo os lábios em genuflexão;
Mas em silêncio, sem afobação,
Disponho o espírito ao Amor aberto,
Na humilde fé as pálpebras aperto,
E com reverencial resignação
Nenhum desejo ou pensamento expresso
Somente um senso de suplicação;
E, apesar das fraquezas que confesso,
N’alma um senso de bênção fica impresso,
Pois sinto dentro, em volta, em tudo mais,
Saber e Força que são eternais.

Ontem à noite, entanto, rezei alto
Com angústia e agonia uma tortura!
Sob as formas e idéias em assalto
De multidão diabólica e perjura:
Lúrida luz, tirânica coorte,
Senso de culpa sem qualquer suporte,
E só o que desprezo, sempre forte!
Quer vingança a vontade ineficaz,
Ainda frustrada, e ainda a arder sem paz!
Às repulsas misturam-se os anseios,
Fixados em objetos rudes, feios!
Fantásticas paixões! Louco furor!
Tudo no opróbrio, tudo no terror!
Expunha ações que eu ocultar devia,
Sem distinguir sequer, de tão confuso,
Se era eu que as praticava ou as sofria,
Pois tudo era remorso, dor, abuso;
E, meus ou de outros, eis na minha lida
O pejo que à alma afoga, o horror que afoga a vida.

E assim duas noites: e a melancolia
Com seu torpor contaminava o dia.
O sono, larga bênção, era então
A desgraça pior da disfunção.
Dei, na terceira noite, horrendo grito
Que me acordou desse íncubo maldito,
E, em estranha e cruel desesperança,
Chorei como se fosse uma criança;
E tendo assim com pranto conduzido
A minha angústia a um grau menos dorido
Tal castigo disse eu fora adequado
A uma alma mais manchada de pecado,
Que turbilhona sem cessar o centro
Do inferno imensurável que tem dentro;
Que, ao contemplar o horror das ações más,
Sabe e abomina, mas deseja e faz!
Essas dores convêm a uma alma assim;
Mas por que, mas por que caem sobre mim?
Ser amado é-me a só necessidade,
E quem eu amo, eu amo de verdade.

S. T. Coleridge

The Pains of Sleep

Ere on my bed my limbs I lay,
It hath not been my use to pray
With moving lips or bended knees;
But silently, by slow degrees,
My spirit I to Love compose,
In humble trust mine eye-lids close,
With reverential resignation,
No wish conceived, no thought exprest,
Only a sense of supplication;
A sense o'er all my soul imprest
That I am weak, yet not unblest,
Since in me, round me, every where
Eternal strength and Wisdom are.

But yester-night I prayed aloud
In anguish and in agony,
Up-starting from the fiendish crowd
Of shapes and thoughts that tortured me:
A lurid light, a trampling throng,
Sense of intolerable wrong,
And whom I scorned, those only strong!
Thirst of revenge, the powerless will
Still baffled, and yet burning still!
Desire with loathing strangely mixed
On wild or hateful objects fixed.
Fantastic passions! maddening brawl!
And shame and terror over all!
Deeds to be hid which were not hid,
Which all confused I could not know
Whether I suffered, or I did:
For all seemed guilt, remorse or woe,
My own or others still the same
Life-stifling fear, soul-stifling shame.

So two nights passed: the night's dismay
Saddened and stunned the coming day.
Sleep, the wide blessing, seemed to me
Distemper's worst calamity.
The third night, when my own loud scream
Had waked me from the fiendish dream,
O'ercome with sufferings strange and wild,
I wept as I had been a child;
And having thus by tears subdued
My anguish to a milder mood,
Such punishments, I said, were due
To natures deepliest stained with sin
For aye entempesting anew
The unfathomable hell within,
The horror of their deeds to view,
To know and loathe, yet wish and do!
Such griefs with such men well agree,
But wherefore, wherefore fall on me?
To be beloved is all I need,
And whom I love, I love indeed.

* Nota de Paulo Vizioli, tradutor e organizador deste S. T. Coleridge — Poemas:
Mesmo sem ter plena consciência do fato, Coleridge descreve neste poema os sofrimentos e angústias por que passou durante um dos períodos em que procurou se afastar do ópio, a fim de livrar-se dos sentimentos de culpa e reconquistar o auto-respeito. Suas descrições se aproximam muito das que Thomas de Quincey, nas Confissões de um Consumidor de Ópio, fez daquilo que ele chamou de “as dores do ópio”.
____________________
S. T. Coleridge — Poemas e excertos da “Biografia Literária”, texto poético bilíngue, Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Paulo Vizioli, 1995, Editora Nova Alexandria, São Paulo — SP; Samuel Taylor Coleridge (1772 1834), inglês de Ottery St. Mary, Devonshire, frequentou o liceu do Christ’s Hospital Scholl, em Londres, e o Jesus College University of Cambridge, foi poeta do Romantismo, crítico literário, fílósofo e teólogo; criou o periódico The Watchman (O Sentinela), de curta duração, e ali publicou seus textos, e os primeiros poemas em 1796; posteriormente, criou outro periódico, o The Friend (O Amigo) o qual, por falta de sustentação financeira, também durou pouco; suas obras: Poems on various subjects [or Sonnets from Various Authors] (1796), Lyrical Ballads (coletânea em conjunto com o poeta William Wordsworth, 1798), Dejection: An Ode (Desalento: Uma Ode, 1892), Biographia Literaria (crítica literária, escrita em 1815 e publicada em dois volumes, 1817), Sibylline Leaves (Folhas Sibilinas, 1817), Aids to Reflection (1825), Church and State (1830) e outros textos; a obra Lyrical Ballads (1798), vinda a público com três poemas de Coleridge (The Rime of the Ancient Mariner, Kubla Khan e Christabel [excerpt]) e outros dezessete do poeta e amigo Wordsworth, e em cuja 2ª edição fora acrescida de um Prefácio de autoria de Wordsworth, é considerada um marco inicial do movimento romantista, o Romantismo, na Inglaterra; em 1824 foi eleito membro da Royal Society of Literature; durante sua vida adulta, Coleridge, que na infância fora acometido de febre reumática e outras doenças, fizera tratamento médico com láudano, um “anódino composto de ópio e diluído em álcool”, além de sofrer as dores de sua enfermidade, também viu-se dependente daquela droga.

sábado, 28 de junho de 2025

Antônio Osório: Sócrates

 
____________________
... seria mais seguro para mim não partir,
sem primeiro me ter liberdade deste
escrúpulo, compondo poemas
e obedecendo ao sonho.
Platão, Fédon

A Ángel Crespo

Entrei na morada que me competia.
Entre seres sociáveis e pacíficos:
pertenço, como desejei, a um núcleo
de abelhas. Retomarei a antiga
forma, talvez dê origem a um homem
temperante. Vi a parte ínfima
do Tártaro, lobos e abutres
infindamente em pedras desertas.
Breve nelas estarão os onze
magistrados dos Atenienses.
No fim da vida compus poemas
e com aquela beberagem libei a Apolo.
Ainda o não contemplei. Sem repugnância
ousei crer na subterrânea vida.
Platão, não falaste da entrada nas plantas
da alma humana: aí se acolhem,
purificados, os mais valorosos
e ainda as nuvens decorrentes
(por isso parecem dissolúveis
nas árvores emergentes da floresta).

Abelha, prossigo na mesma curiosidade:
indago a natureza do pólen,
partilho como obreiro do que germina
e perfuma e frutifica
por obediência a um mandato solar,
sou insaciável de seiva, copulo
equânime, cada flor,
componho doçura não oprimente.
Nunca usarei este aguilhão
cuja utilidade agasta e maldigo.
Lembrai-vos do galo
que todos devemos a Asclépio
e do guarda que me deu a taça
que bebi sem enfado, da sua generosidade
vertendo por mim lágrimas.
Dizei-lhe que me orgulho da minha morte.
Confio em que alguém ainda me exceda,
os mártires sejam inumeráveis
a ponto de transformarem o mundo, e eu possa,
transmigrando, obedecer de novo ao sonho.

____________________
Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; António Gabriel Maranca Osório de Castro (1933 2021), português de Setúbal, formado em Direito e em Ciências Jurídicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi poeta, ensaísta e advogado; desde 1954 colaborou em revistas literárias, fundou a revista Anteu (1972) e, no mesmo ano, estreou com seu livro A Raiz Afetuosa; colaborou regularmente com o J.L. — Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), foi diretor da Foro das Letras, revista da Associação Portuguesa de Escritores Juristas e, como advogado, fundou e dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e Ordenamento do Território; suas obras: a já citada A Raiz Afetuosa (1972), A Ignorância da Morte (1978), O Lugar do Amor (1981), Antologia de um Emigrante do Paraíso (1981), Décima Aurora (1982), Adão, Eva, e o Mais (1983), Planetário e Zoo dos Homens (1990), Casa das Sementes (2006), A Luz Fraterna (2009), todos de poesia, e A Mitologia Fadista (ensaios, 1974); tem obras traduzidas e publicadas no Brasil, Espanha, França, Bélgica, Itália, Alemanha, Romênia, Croácia, Estados Unidos ..., além de poemas em revistas francesas, inglesas e catalãs; pertenceu à Academia de Ciências de Lisboa; recebeu premiações: Prêmio Literário Município de Lisboa (1982), Prêmio P.E.N. Clube Português de Poesia (1991), Prêmio Autores (2010); o poeta António Osório foi também fazendeiro na Aldeia de Irmãos, Azeitão.

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Ribeiro Couto: Tágide

 
____________________
Alta, contra os grandes ventos,
Leve, a resistir ao rio,
Firmes, os pés e braços lentos
Pelo horizonte vazio.
Na espuma o sol fulgurava.
Ela, também sol e espuma,
Ora andava, ora voava,
Mas não tinha asa nenhuma.

Alta, presa por um fio
Um fio só de cabelo ,
O sol a secá-lo, e o rio
Amoroso a umedecê-lo;

Alta e leve, clara e firme,
Irreal nos movimentos,
Via-a subir e fugir-me,
Levada dos grandes ventos.

(Entre Mar e Rio, Lisboa: Editora
Livros do Brasil, 1952.)

____________________
Ribeiro Couto, por Elvia Bezerra — Série Essencial, Academia Brasileira de Letras, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 1963), paulista de Santos, cursou a Escola de Comércio José Bonifácio dessa cidade, estudou na Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, onde bacharelou-se, foi jornalista, magistrado, promotor público, diplomata, poeta, contista e romancista; trabalhou/colaborou nos periódicos Jornal do Commercio e Correio Paulistano, em São Paulo, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil e O Globo, no Rio de Janeiro, A Província, em Pernambuco, e em outros periódicos; suas obras: em poesia: O Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem na multidão (1926), Canções de amor (1930), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951), Entre Mar e Rio (1952), Le jour est long (O dia é longo, 1958), Longe (1961) ...; em prosa: A casa do gato cinzento (contos, 1922), O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas, 1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha (romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Histórias de Cidade Grande — contos escolhidos (1960), Sentimento lusitano (ensaio, 1961), entre outros  títulos; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado para televisão; escreveu poemas em francês, o livro Le jour est long (O dia é longo); pertenceu à Academia Brasileira de Letras; como diplomata, atuou na França, em Portugal, Holanda e Iugoslávia, neste país, foi embaixador e ali se aposentou.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Miodrag Pavlović: Réquiem

 
____________________
[traduzido por Aleksandar Jovanović]

desta feita
morreu alguém por perto

Réquiem
no cinzento parque
sob o céu carrancudo

As mulheres seguem o corpo morto
e no quarto vazio restou a morte
fechando as cortinas

Senti
as flores ficaram mais leves
por um cérebro humano
E o agradável silêncio da tarde
e menino descalço sentado à porta
mastiga uvas

Quem permanece fiel
àquele que perde
Sem pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam nos brinquedos
Sem despedidas nas partidas
isso é risível e censurável

Miodrag Pavlović

Rekvijem

ovoga puta
umro je neko blizu

Rekvijem
u sivom parku
pod zatvorenim nebom

Žene su pošle za mrtvim telom
smrt je ostala u praznoj sobi
i spustila zavesu

Osetite
svet je postao lakši
za jedan ljudski mozak
Prijatna tišina posle ručka
bosonog dečak sjedi na kapiji
i jede groždje

Zar iko ostane veran
onome što izgubi
Ne žurite sa smrću
niko ni na koga ne liči
sinovi misle na igračke
i ne opraštajte se pri odlasku
to je smešno I pogrdno

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
____________________
Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Miodrag Pávlovitch (1923[?] 1928 2014), nascido em Novi Sad, região norte da Sérvia, formou-se pela Faculdade de Medicina de Belgrado, atuou como médico num breve período, passou a dedicar-se “exclusivamente” à literatura, foi poeta, contista, ensaísta, dramaturgo, editor, tradutor, professor universitário e antologista; estreou em 1953 com seu livro 87 Pesama e a partir daí tornou-se conhecido; por longo período foi editor da editora Prosveta, em Belgrado; também em Belgrado, foi diretor do Teatro Nacional e atuou como dramaturgo; suas obras: 87 Pesama ([87 песама] 87 canções, coleção de poemas, 1952), Stub sećanja ([Стуб сећања], Pilar da Memória, 1953), Hododarje ([Хододарје], 1971), Svetli i tamni praznici ([Светли и тамни празници] Feriados brilhantes e escuros, 1971), Pevanja na Viru ([Певања на Виру] Canções sobre a fonte, 1977), Bekstvo po Srbiji ([Бекства по Србији] Fuga para a Sérvia, 1979), Ulazak u Kremonu ([Улазак у Кремону] Entrando em Cremona, 1989), Cosmologia profanata ([Цосмологиа профаната] Cosmologia do Profano, 1990), e outros títulos; teve poemas e ensaios traduzidos para todas as línguas europeias e diversas línguas orientais; Miodrag Pávlovitch organizou várias antologias poéticas, com destaque para a “Antologija srpskog pesništva od XIII do XX veka ([Антологија српског песништва од XIII до XX века] Antologia de Poesia Sérvia do Século XIII ao Século XX, 1ª edição em 1964, e várias vezes reeditada); o poeta foi membro da Academia Europeia de Poesia e da Academia Sérvia de Ciências e Artes; recebeu premiações por várias de suas obras.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Wislawa Szymborska: Recital da autora

 
____________________
[traduzido por Regina Przybycien]

Musa, não ser um boxeador é literalmente não existir.
Nos recusaste a multidão ululante.
Uma dúzia de pessoas na sala,
já é hora de começar a fala.
Metade veio porque está chovendo,
o resto é parente. Ó Musa.

As mulheres adorariam desmaiar nesta noite outonal,
e vão, mas só ao assistir a uma luta colossal.
Só lá as cenas dantescas.
E o ascenso aos céus. Ó musa.

Não ser boxeador, ser poeta,
estar condenado a duras florbelas,
por falta de musculatura mostrar ao mundo
a futura leitura escolar na melhor das hipóteses
Ó musa. Ó Pégaso,
anjo equestre.

Na primeira fila um velhinho sonha docemente
que a finada esposa ressuscitou e
assa para ele um bolo com passas.
Com fogo, mas não alto, para o bolo não queimar,
começamos a leitura. Ó musa.

(Sal 1962)

Wislawa Szymborska

Wieczór autorski

Muzo, nie byc bokserem to nie być wcale.
Ryczącej publiczności poskąpiłaś nam.
Dwanaście osób jest na sali,
już czas, żebyśmy zaczynali.
Połowa przyszła, bo deszcz pada,
reszta to krewni. Muzo.

Kobiety rade zemdleć w ten jesienny wieczór,
zrobią to, ale tylko na bokserskim meczu.
Dantejskie sceny tylko tam.
I wniebobranie. Muzo.

Nie być bokserem, być poetą,
mieć wyrok skazujący na ciężkie norwidy,
z braku muskulatury demonstrować światu
przyszłą lekturę szkolną — w najszczęśliwszym razie 
o Muzo. O Pegazie,
aniele koński.

W pierwszym rządku staruszek słodko sobie śni,
że mu żona nieboszczka z grobu wstała i
upiecze staruszkowi placek ze śliwkami.
Z ogniem, ale niewielkim, bo placek sie spali,
zaczynamy czytanie. Muzo.

(Sól 1962)
____________________
Wislawa Szymborska [poemas], Seleção, Tradução e Prefácio por Regina Przybycien, edição bilíngue, 2ª reimpressão, 2012, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wislawa Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; assim, Wislawa deu início a seu processo criativo: fez suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, já em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996) e Prêmio Niki de Literatura (2006).

terça-feira, 24 de junho de 2025

Joaquim Branco: “Oh Sir, the good die first”

 
____________________
Oh Sir, the good die first
(Wordsworth)

          Com este livro sobre Ascânio Lopes, iniciamos uma série sob o título geral de Cataguases Cartazes, focalizando escritores que fazem parte da história da literatura de nossa cidade, de Minas e do Brasil.
          Fomos achar no alto romantismo do inglês Wordsworth o verso definidor (Ó Senhor, os bons morrem primeiro.) do nosso poeta que ainda hoje, lá do final da década de 20, exerce um estranho magnetismo sobre todos que o lêem, especialmente sobre nós, cataguasenses: Ascânio Lopes.
          Entre os esboços da noivinha, a mãe bordando os serões da casa, um passado hoje quase impossível de ser reconstruído, brotam incríveis versos que resistem ao tempo, como se não tivessem sido suficientemente conhecidos por todos os seus conterrâneos e pedissem para ser lidos e relidos pelas gerações mais novas e outras e outras.
          Não existe maior lugar-comum do que dizer que os poetas mortos prematuramente poderiam ter escrito uma obra mais completa e importante, e que sua carreira foi cortada cedo, etc., etc. Mas também não se poderia fazer injustiça maior do que negar a Ascânio após a releitura de seus poemas um futuro de autor exponencial dentro da literatura brasileira se a doença não o tivesse levado.
          Se se comparar o Serão do menino pobre com o famoso Infância, de Carlos Drummond de Andrade seu companheiro e contemporâneo sobra um saldo qualificativo em favor de Ascânio, já afirmou um crítico.
          De seus poemas vem uma finura, uma leve teia, uma aragem que só se vêem nos artistas especiais, aqueles que chegam, mal têm tempo de deixar o seu recado e se vão rapidamente para algum outro lugar talvez. Mas ninguém os esquece mais.
          Ascânio Lopes foi assim. Sendo introspectivo, liderou um grupo era o mais velho do quarteto da Revista Verde (os outros: [Rosário] Fusco, [Francisco] Chico [Inácio] Peixoto e Guilhermino Cesar). Do seu canto, silencioso, foi o “motor” do movimento, juntamente com Fusco. Tímido, colocou em verso a sua curta história pessoal. Mas tornou tudo isso de tal maneira universal que transformou-a na sua própria trajetória poética.
          Sua morte em 1929 traçou o fim da Verde como movimento. Cada um foi para o seu canto, mas por outro lado, alguns, felizmente, puderam construir, com o tempo, obras que ficaram registradas, pela sua importância, na história da literatura brasileira.
          A edição deste volume, basicamente constituído pelos textos publicados no suplemento Cataguarte, editado por mim e publicado no dia 20 de abril de 1997 anexo ao jornal Cataguases tem como objetivo principal o sentido maior de permanência e registro que têm os livros em relação a revistas e jornais, viando à preservação da história literária de Cataguases e ao conhecimento das gerações futuras de que aqui, nos anos 20, já existia um grande poeta.

Cataguases — 1998

____________________
Ascânio, o poeta da Verde [várias autorias], coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Joaquim Branco Ribeiro Filho, nascido em 1940, mineiro e cataguasense, formou-se em Direito pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em Letras pela FIC Faculdades Integradas de Cataguases, mestrado em Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora MG e doutorado em Literatura Comparada pela UERJ, além de ter atuado como bancário do Banco do Brasil em várias agências mineiras e no Rio de Janeiro, e ali se aposentado, foi professor universitário, lecionou por 17 anos nas Faculdades Integradas de Cataguases, é poeta, cronista, contista, crítico literário e pesquisador; suas obras: Concreções da fala (poemas, 1969), Consumito (poemas, 1975), Laser para lazer (poemas, 1984), 500 anos do descobrimento da América (1993), O caça-palavras (poemas, 1997), Do pré ao pós-moderno (manual de literatura, 1998), Ascânio, o poeta da Verde ([várias autorias], homenagem a Ascânio Lopes, 1998), Recr(e,i)ações críticas (artigos críticos, 1999), Passagem para a Modernidade (2002), O menino que procurava o reino da poesia (narrativa de ficção, 2005), Verdes Vozes Modernistas (crítica literária, 2006), Totem e as vanguardas dos anos 1960/70 (crítica literária, 2009, 1ª reimpressão, 2013), Janelas de Leitura (vários temas, 2010), Zona de Conflito (poemas, 2024), etc.; colaborou publicando seus textos em jornais e revistas no Brasil (Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Suplemento Literário de Minas Gerais, ...) e no exterior; Joaquim Branco participou de edições dos jornais O Muro, SLD — Suplemento de Literatura e Difusão e Totem; recebeu premiações por sua obra, atualmente reside em Cataguases.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Vinicius de Moraes: O poeta Hart Crane* suicida-se no mar

 
____________________
Quando mergulhaste na água
Não sentiste como é fria
Como é fria assim na noite
Como é fria, como é fria?
E ao teu medo que por certo
Te acordou da nostalgia
(Essa incrível nostalgia
Dos que vivem no deserto...)
Que te disse a Poesia?

Que te disse a Poesia
Quando Vênus que luzia
No céu tão perto (tão longe
Da tua melancolia...)
Brilhou na tua agonia
De moribundo desperto?

Que te disse a Poesia
Sobre o líquido deserto
Ante o mar boquiaberto
Incerto se te engolia
Ou ao navio a rumo certo
Que na noite se escondia?

Temeste a morte, poeta?
Temeste a escarpa sombria
Que sob a tua agonia
Descia sem rumo certo?
Como sentiste o deserto
O deserto absoluto
O oceano absoluto
Imenso, sozinho, aberto?

Que te falou o Universo
O Infinito a descoberto?
Que te disse o amor incerto
Das ondas na ventania?
Que frouxos de zombaria
Não ouviste, ainda desperto
Às estrelas que por certo
Cochichavam luz macia?

Sentiste angústia, poeta
Ou um espasmo de alegria
Ao sentires que bulia
Um peixe nadando perto?
A tua carne não fremia
À ideia da dança inerte
Que teu corpo dançaria
No pélago submerso?

Dançaste muito, poeta
Entre os véus da água sombria
Coberto pela redoma
Da grande noite vazia?
Que coisas viste, poeta?
De que segredos soubeste
Suspenso na crista agreste
Do imenso abismo sem meta?

Dançaste muito, poeta?
Que te disse a Poesia?

Rio, 1953

(Novos Poemas II — 1959)


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, registra o contido no ‘tag’ ‘Hart Crane’ desta página:
Harold Hart Crane (1899 — 1932), estadunidense de Garretsville, Ohio, foi poeta e escritor; de sua biografia, por seus principais estudiosos, ficamos sabendo que o poeta, que em parte de sua infância e juventude morou com a avó, nunca superou seu problema psicológico originado pelos desentendimentos com o pai e, deste, com a mãe, problema de resto não resolvido, e talvez daí derivasse a raiz de seu homossexualismo e também de seu alcoolismo incontrolável; bibliografia: White Buildings (Edifícios Brancos, 1926), The Bridge (A Ponte, 1930), The Collected Poems of Hart Crane (Os poemas coletados de Hart Crane, 1933); o poeta, depois de ter obtido uma bolsa de estudos no México e lá ter permanecido por algum tempo, em sua viagem de retorno por via marítima, cometeu suicídio atirando-se às águas.
____________________
50 poemas macabros [inclui poemas inéditos]: Vinicius de Moraes, Organização e Posfácio de Daniel Gil, Ilustrações de Alex Cerveny, 2023, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Vinicius de Moraes (1913 1980), carioca, estudou no Colégio Santo Inácio, na Faculdade Nacional de Direito (atual UFRJ) e língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford Inglaterra; foi poeta, crítico de cinema, autor teatral (escreveu Orfeu da Conceição, que serviu de roteiro para o filme Orfeu Negro, que se tornaria premiado), letrista concorrido da Música Popular Brasileira e diplomata; seus principais parceiros na música: Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque, Carlos Lyra ...; como crítico de cinema, trabalhou no jornal A Manhã; foi colaborador da revista Clima e dirigiu o suplemento literário de O Jornal; obras poéticas: O caminho para a distância (1933), Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos Poemas (1938), Poemas, Sonetos e Baladas (1946), Novos Poemas II (1959), Para viver um grande amor (1964) etc.; produção musical, discografia: Orfeu da Conceição (1956), Vinicius e Odette Lara (1963), Vinicius e Caymmi (1965), Os Afro-Sambas: Baden e Vinicius (1966), Vinicius: poesia e canção (volumes I e II, 1966), Vinicius em Portugal (1969), Como dizia o poeta: Vinicius, Marilia Medalha e Toquinho (1971), Vinicius, Bethânia e Toquinho: En La Fusa — Mar del Plata (1971), Poeta, moça e violão: Vinicius, Clara Nunes e Toquinho (1973), O Poeta e o Violão: Toquinho e Vinicius (1975), A Arca de Noé (músicas para crianças, 1980), Um pouco de ilusão: Toquinho e Vinicius (1980) ...; como diplomata, atuou em Los Angeles Estados Unidos, Paris França, Roma Itália e Montevidéu Uruguai; em 1968, período de ditadura militar, foi afastado da carreira diplomática e aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional nº 5, com a alegação de ter comportamento boêmio, e que isso o impedia de cumprir funções diplomáticas; em 1998, o poeta foi anistiado (post-mortem) pela Justiça brasileira.