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[traduzido por Gilberto
Sorbini e Weimar de Carvalho]
Posso ver a dor de alguém
Sem que eu sinta dor também?
E ver o martírio do outro
Sem buscar próprio conforto?
Ver uma lágrima cair
E nenhum sofrimento sentir?
Pode um pai ver chorar o filho
Sem que a angústia venha a
atingi-lo?
Pode uma mãe não dar ouvidos
Ao medo do filho aos gemidos?
Ah, não! Jamais poderão!
Nunca! Jamais poderão!
Pode ele, que a tudo sorri,
Ouvir o pássaro a fremir;
Ouvir a carriça que pena
E o choro de crianças
pequenas,
Abandonando o próprio ninho
Onde, em dó, nutre os
filhotinhos;
E afastar-se do berço enquanto
O próprio filho está em
prantos,
Sem recostar-se em nenhum
escoro,
Secando todo e qualquer choro?
Ó, não! Jamais poderá!
Nunca! Jamais poderá!
Ele dá a todos sua alegria;
Ele também se torna cria;
Torna-se um homem em agonia
E, como ele, se angustia.
Não podes suspirar em dor
Sem a presença do criador;
E não penses que podes chorar
Sem que ele steja a te olhar.
Ele nos dá contentamento,
Põe fim ao nosso sofrimento;
E até que a dor tenha passado
Ele lamenta ao nosso lado.
(Canções da Inocência — 1789)
On
Another’s Sorrow
Can I see another’s woe,
And not be in sorrow too?
Can I see another’s grief,
And not seek for kind relief?
Can I see a falling tear,
And not feel my sorrow’s share?
Can a father see his child
Weep, nor be with sorrow
fill'd?
Can a mother sit and hear
An infant groan, an infant
fear?
No, no! never can it be!
Never, never can it be!
And can he who smiles on all
Hear the wren with sorrows small,
Hear the small bird's grief
& care,
Hear the woes that infants
bear,
And not sit beside the nest,
Pouring pity in their breast;
And not sit the cradle near,
Weeping tear on infant's tear;
And not sit both night &
day,
Wiping all our tears away?
O! no never can it be!
Never, never can it be!
He doth give his joy to all;
He becomes an infant small;
He becomes a man of woe;
He doth feel the sorrow too.
Think not thou canst sigh a
sigh
And thy maker is not by;
Think not thou canst weep a
tear
And thy maker is not near.
O! he gives to us his joy
That our grief he may destroy;
Till our grief is fled &
gone
He doth sit by us and moan.
(Songs of Innocence — 1789)
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William Blake — Canções da
Inocência e Canções da Experiência, Edição bilíngue comentada, Tradução e
Textos Introdutórios e Comentários de Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho,
2005, Disal Editora, São Paulo — SP; William Blake (1757 — 1827), inglês e londrino,
foi tipógrafo, escritor, poeta, gravurista e artista plástico do pré-romantismo
na Inglaterra; consta de sua biografia que, por decisão paterna, o poeta esteve
alheio às escolas, não cumpriu a pedagogia oficial de então e foi incentivado a
trilhar seu próprio caminho e desenvolver seus dotes artísticos; aprendeu técnicas
de gravura e iniciou-se como gravurista; associou-se ao tipógrafo James Parker,
abriu um atelier de impressão e passou a imprimir seus livros e suas gravuras;
em 1779, foi admitido na Academia Real londrina, “a quem produziu gravuras para
romances e catálogos em troca de instrução”; William Blake pode ser considerado
um dos fundadores do movimento romântico, o Romantismo, na literatura inglesa; suas
obras: Poetical Sketches (Esboços Poéticos, 1783), Songs of Innocence (Canções da
Inocência, 1789), The French Revolution: A Poem in Seven Books (A Revolução Francesa,
1791), The Marriage of Heaven and Hell (O Casamento do Céu e do Inferno, 1793),
Songs of Experience (Canções da Experiência, 1794), Milton (1804), Jerusalem (1820),
“Rossetti” Manuscript (Manuscrito “Rossetti", publicação póstuma) e outros
títulos, além de ilustrações e pinturas.