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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Mário Prata: Da importância do diploma

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          Desde que os meus filhos se fizeram entender, coloquei na cabeça deles a importância de se ter um diploma no Brasil.
           Um homem sem diploma está perdido! Não é nada!
          Eles foram crescendo e quando já poderiam e quando já poderiam entender a importância no Brasil, fui logo explicando. 
            O diploma é importante, meu filho, porque se você for preso e tiver diploma, você não fica com os bandidos. Você fica numa sala especial, com geladeira, televisão e telefone, sozinho.
           Mesmo se for bandido?
           Mesmo se for bandido. Principalmente. Entendeu? Tendo um diploma  de qualquer coisa, de qualquer faculdade , você tem privilégios. Quando você vê aquele bando de gente amassado dentro de uma cela de dois metros por dois metros, pode ter certeza que ali ninguém tem diploma. Quem mandou não estudar, não é mesmo? Se tivessem estudado, tirado seu diplominha, estariam numa boa.
           O Lalau tem diploma?
           Vários, meu filho. Vários.
           Mas em todo lugar do mundo é assim? É para isso que o diploma serve?
           Não, claro que não. Só no Brasil. Por isso que tem tanta faculdade sobrando por aí e ensinando porcaria. É para os caras serem presos com o mínimo de educação.
           Mas é só para isso que existe diploma no Brasil, pá?
           Claro que não. Serve de decoração também. Quanto maior, melhor fica na moldura e na parede. Se tiver aquela fitinha verde-e-amarela então é um luxo. Tem uns que têm um brasão bonito que só vendo. Tem gente que compra só para colocar na parede. Tem analfabeto que tem quatro, cinco diplomas.
          Coleciona. Esses, se forem presos, vão ficar numa cobertura com vista para o mar.
          Antes que alguém venha criticar minhas aulas aos meus filhos, vou logo avisando que o Antonio está quase terminando Ciências Sociais (estará apto à Presidência da República?), a Maria se forma no fim do ano em Moda e o Pedro estuda Arquitetura em Sevilha.
          Quanto a mim, quase consegui um. Larguei a Faculdade de Economia da USP no último ano. Fui aluno do Delfim Neto, com muito orgulho. Mas as letras me pescaram com mais força. Confesso que em certa época de minha vida temia a prisão e pensava que não tinha o bendito do diploma. Mas passou.
          Agora falando sério (se é que possível falar sério sobre diploma), eu gostaria muito de saber em que governo inventaram esse negócio de preso com diploma superior (superior!!!) ter regalias. Quando conto isso para um estrangeiro, ele não acredita. Sim, na cabeça deles, significa que o judiciário brasileiro considera que o analfabeto tem de sofrer até o dia da morte (provavelmente assassinado dentro da prisão) e o diplomado não deve ser tão bandido assim, tão ladrão assim, tão corrupto assim, tão mentiroso assim, tão mau assim. Afinal, o cara estudou tanto...
          Minha mãe tem diploma de normalista, mas nunca usou, porque nunca foi presa e se casou com o meu pai, que tinha um de médico. Para tanto estudou uns 15 anos e trabalhou mais 40. Morreu no ano passado e o diploma dele está comigo. Nem sei bem por quê. Mas eu dizia que trabalhou 40 anos e, se eu contar a pensão que a minha mãe recebe hoje, você não vai acreditar.
          Quem sabe um dia, um presidente sem diploma resolva olhar com mais carinho para todos os nossos aposentados com diploma que vivem quase na miséria...
          Quem sabe?

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Crônica Brasileira Contemporânea — Antologia de Crônicas, Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 2005, 1a. edição, Editora Moderna, São Paulo — SP; Mário Alberto Campos de Morais Prata, nascido em 1946, mineiro de Uberaba, é escritor, dramaturgo, jornalista e cronista; no jornalismo, foi repórter da Gazeta de Lins, trabalhou no Última Hora (São Paulo), escreveu crônicas para os periódicos O Pasquim (Rio de Janeiro), O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, revistas Isto É e Época; sua bibliografia: para o teatro, estreou com a peça O Cordão Umbilical (1970), depois vieram E se a Gente Ganhar a Guerra? (1971), Fábrica de Chocolate (1979), Besame Mucho (1982) etc; para o cinema, roteirizou e escreveu argumentos para O Jogo da Vida e da Morte (1971), Chico Rei (1985), Besame Mucho (em parceria com Francisco Ramalho Jr., 1987), Banana Split (1988) e outros; para a televisão, escreveu a novela Estúpido Cupido (Rede Globo, 1976), além de ter colaborado e escrito para várias outras novelas, minisséries, telerromances e programas das TV Cultura, TV Tupi e Rede Globo; na literatura, estreou com O Morto que Morreu de Rir (1969), depois vieram Besame Mucho (peça teatral, editada em 1987), Schifaizfavoire (1993), Mas Será o Benedito? (1996), Diário de um Magro 1 e 2 (1997 e 2004), A Verdadeira História de Dante e Beatriz (2008), Sete de Paus e Os Viúvos (ambos do gênero policial, 2008 e 2010) e outros, além de produções para o público infantil e participação em coletâneas; recebeu premiações por suas obras; nos anos 60/70, abandonou a Faculdade de Economia —  USP e pediu demissão do Banco do Brasil, onde trabalhara por 8 anos, para se dedicar inteiramente à vida de escritor; atualmente reside em Florianópolis  SC.