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sábado, 9 de janeiro de 2021

Francisco de Carvalho: Canção diante do mar *

 
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Nuvem que passa, pássaro veloz
   rumo ao horizonte esguio.
   (Há um vento, um vento frio).

As penas da nuvem foram levadas
   pela correnteza do rio.
   (Há um vento, um vento frio).

Nuvem que lembra as aves de rapina
   com seu esporão em cio.
   (Há um vento, um vento frio).

Nuvem que passa, mas fica a memória
   do seu galopar sombrio.
   (Há um vento, um vento frio).

Esta nuvem é um rinoceronte negro
   pastando a alma do estio.
   (Há um vento, um vento frio).

Esta nuvem arrebatou meu pai
   no alazão do desvario.
   (Há um vento, um vento frio).


Chanson devant la mer

Nuage qui passe, oiseau rapide
   vers l’horizon efflanqué.
   (Il y a un vent, un vent froid).

Les plumes du nuage ont été emportées
   par le courent de la rivière.
   (Il y a un vent, un vent froid).

Nuage que rapelle les oiseaux de proie
    avec son éperon en rut.
    (Il y a un vent, un vent froid).

Nuage qui passe, mais il reste la mémoire
    de son galop sombre.
    (Il ya a un vent, un vent froid).

Ce nuage est un rhinocéros noir
    paissant l’âme de l’été.
    (Il y a un vent, un vent froid).

Ce nuage a enlevé mon père
    sur un alezan de délire.
    (Il y a un vent, un vent froid).

* Nota da edição: Poema compilado por Henrique Alves / Poème compilé par Henrique Alves
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Francisco de Oliveira Carvalho (1927 2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (poesias, 1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Francisco Carvalho: Canção da Ira

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Estou com raiva
de ser burguês
raiva do terçol
raiva do talvez.
Raiva dos tempos
que não são tão lindos
raiva do sino
todos os domingos.
Estou com raiva
de ser burguês
raiva dos outros
e de quem os fez.
Raiva da sopa
com metafísica
raiva do pijama
raiva de notícia.
Raiva do astronauta
e do café com leite
raiva da palavra
que fala em segredo.
Estou com raiva
do morto e seu jeito
raiva da calva
e do grito insalubre
a escorrer do peito.
Raiva do sigilo
por trás da parede
raiva da navalha
que nos arremeda
raiva da notícia
que nos mete medo.
Estou com raiva
de ser burguês
raiva da noite
assim de estrelas.
Raiva do mistério
raiva da metáfora
raiva de mim mesmo
raiva do balaço
raiva corrosiva
raiva que se enrosca
feito coisa viva.
Raiva da rotina
raiva poliglota
raiva do automóvel
raiva do cortejo
que corteja a morte.
Raiva essencial
do clamor profundo
que sobe das fezes
minerais do mundo.
Raiva dos sapatos
e da simetria
raiva paralela
à raiva da alegria.
Estou com raiva
da sede maior
que aumenta esta sede
da linfa do amor.

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Crônica das Raízes: poesia — Francisco Carvalho, texto da contracapa: Caio Porfírio Carneiro, Coleção Alagadiço Novo, 1992, Casa de José de Alencar — Programa Editorial, Fortaleza — CE; Francisco de Oliveira Carvalho (1927 2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (poesias, 1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Francisco Carvalho: Os Pêssegos

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Não me fales de amor com tal mistério,
pois o amor não se presta à hipocrisia.
Não passa o amor de efêmera utopia
que se evapora à sombra do hemisfério.

O amor não deve ser levado a sério.
Não passa o amor de incerta fantasia,
de um sonho que se busca e que se adia
sob o tropel do instante deletério.

Sou dos que se descobrem quando passas.
Sei que é difícil ver-te sem arder,
sem que não sinta um repentino susto.

Mas deixemos de lado essas trapaças.
Sinto mesmo é vontade de morder
os pêssegos dourados do teu busto.

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Crônica das Raízes: poesia — Francisco Carvalho, texto da contracapa: Caio Porfírio Carneiro, Coleção Alagadiço Novo, 1992, Casa de José de Alencar — Programa Editorial, Fortaleza — CE; Francisco de Oliveira Carvalho (1927 2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (poesias, 1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

domingo, 6 de outubro de 2019

Francisco Carvalho: Boimito

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De que tempo o boi
chega assim feérico?
Boi emancipado
de chifres pretéritos.

Este boi me chega
de um tempo infalível.
Refaz o mistério
do espaço abolido.

Passeia no asfalto
tão fora do tempo.
O andar deste boi
ondula com o vento.

Fita os automóveis
com sutil desprezo.
De que tempo o boi
chega tão disperso?

Este boi me pasta
rumina o meu sonho.
Chega a ser eterno
novilho entre os homens.

Francisco Carvalho
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Crônica das Raízes: poesia — Francisco Carvalho, texto da contracapa: Caio Porfírio Carneiro, Coleção Alagadiço Novo, 1992, Casa de José de Alencar — Programa Editorial, Fortaleza — CE; Francisco de Oliveira Carvalho (1927 2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (poesias, 1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Francisco Carvalho: Desta esperança incauta que se eriça . . . [soneto]

Francisco Carvalho
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Soneto XXXV

Desta esperança incauta que se eriça
como se fosse o pelo de uma fera;
desta vaga que dorme e se espreguiça,
deste vento que afaga e que incinera...

Do momento que passa e do que fica,
da razão que se indaga e que pondera;
do tijolo, da rosa e da caliça,
do breve adeus e da infinita espera...

Do bagaço do vinho que beberes
do lenho desse instante em que partires
do umbigo azul de todas as mulheres

ceifadas pelo alfanje do arco-íris...
Do espinho da saudade e do acalanto
farei meus versos e cantarei meu canto.

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Quadrante solar — poesia, Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira,  1982, L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Francisco de Oliveira Carvalho (1927  2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966),  Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969),  Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Francisco Carvalho: Beber do amor sem perguntar se a taça . . . [soneto]

Francisco Carvalho
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Soneto XXIV

Beber do amor sem perguntar se a taça
contém veneno ou mórbido licor.
Este vinho é da vide que se amassa
no lagar de um monarca enganador.

Beber do amor, brindar a essa argamassa
do corpo que te oferta ardil e ardor,
de modo que haja incêndio onde há fumaça,
que o caçado se mude em caçador.

Beber do amor, como boiar num barco
sem bússola e farol, que não se perde
na estrada desse abismo, âncora verde

dos teus olhos, que são a flecha e o arco
com que me envenenas, com que me acertas
o dardo das pestanas entreabertas.

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Quadrante solar — poesia, Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, 1982, L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Francisco de Oliveira  Carvalho (1927  2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes  (1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Francisco Carvalho: Burocracia

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Eles te advertem que a aurora foi abolida
por tempo indeterminado.
Eles te comunicam que o trigo e o vento
vão ser exportados para o arco-íris.
Eles te aconselham a esquecer
o corpo ensanguentado dos acontecimentos.
Eles te ensinam que o orvalho não cai
sobre aqueles que semeiam dúvidas.
Eles te mandam esvaziar as palavras
de toda a possível reminiscência.
Eles te fiscalizam do alto dos edifícios
escanchados nalgum dragão lunar.
Eles te dão um ataúde azul
e te ordenam que é tempo de morrer.

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Quadrante solar — poesia, Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, 1982, L. R. Editores Ltda., São Paulo — SP; Francisco de Oliveira  Carvalho (1927  2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes  (1966),  Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

domingo, 8 de julho de 2018

Francisco Carvalho: As compoteiras

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Minha existência esvaída
no tempo das compoteiras.
Primas de coxas de vidro
confabulam sobre as mesas.

Compoteiras desenhadas
na teia de muitas lendas.
Rede branca de saudade
nos esteios da fazenda.

De repente os mortos descem
pelo espaldar das cadeiras,
os olhos fitos nos olhos
volúveis das compoteiras.

Compoteiras coloridas
pela infância e o devaneio.
Mesma a forma, o mesmo gosto
adocicado de um seio.

Compoteiras adoçadas
pela amargura esvaída
do coração das escravas
embalando a nossa vida.

Fossem de vidro lavrado
ou do cristal que reluz,
meu coração transbordava
das compoteiras azuis.

Resultado de imagem para francisco carvalho poeta cearense
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Revista do Clube da Poesia de São Paulo — Poesia nº 3, (vários autores), Ano II, dezembro de 1978, Editor: Geraldo Pinto Rodrigues, São Paulo —  SP; Francisco de Oliveira Carvalho (1927  2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967),  Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro  (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997),  Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Francisco Carvalho: Explicação do poema

Resultado de imagem para Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50
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O poema é uma teia
de sombra e sol.
Uivo de alcatéia

para a lua cheia.
O poema é o fluxo
e o cio da sereia.

O poema é o que pulsa
no vértice de fogo
dos olhos da Ursa.

Não é o cachimbo
de ópio. É o voo dos
pássaros do limbo.

A dança da chama
que devora o peito
de quem ama.

O lugar da ágora
onde os deuses amam
musas e medusas.

O poema é um meio
de beber ao seio
das guitarras lusas.

Romance da nuvem pássaro  1998

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Roteiro da Poesia Brasileira Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, primeira edição, 2007, Editora Global, São Paulo — SP; Francisco de Oliveira Carvalho (1927  2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; sua bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.