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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Pierre Ronsard: À Cassandra

 
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Vejamos, meu bem, se a tal rosa
Que de manhã abriu, formosa,
Ao sol o vestido vermelho,
Já perdeu à tarde o esplendor
As pregas de encarnada cor,
E o tom ao vosso tão parelho.

Ai! Vede como em pouco tempo,
Meu bem, veio-lhe o tombamento,
Ai! E o viço deixou morrer!
É mesmo madrasta a Natura,
Pois semelhante flor só dura
Da manhã ao entardecer!

Assim, meu bem, eis a verdade,
Enquanto estais na flor da idade,
Nos primeiríssimos verdores,
Colhei, colhei a juventude:
Pois como à flor a senectude
Há-de ofuscar vossos primores.

Pierre de Ronsard

Mignonne, allons voir si la rose . . .

A Cassandre

Mignonne, allons voir si la rose
Qui ce matin avoit déclose
Sa robe pourpre au soleil,
A point perdu cette vesprée
Les plis de sa robe pourprée,
Et son teint au votre pareil.

Las! voyez comme en peu d'espace,
Mignonne, elle a dessus la place
Las! las! ses beautés laissé choir!
Ô vraiment marâtre Nature,
Puisqu'une telle fleur ne dure
Que du matin jusques au soir!

Donc, si vous me croyez, mignonne,
Tandis que votre âge fleuronne
En sa plus verte nouveauté,
Cueillez, cueillez votre jeunesse:
Comme à cette fleur la vieillesse
Fera ternir votre beauté.

(Les Odes, I, 17 — 1550)
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Introdução, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Pierre de Ronsard (1524 1585), francês de Vendôme, próximo à aldeia de Couture-sur-Loir, à época Reino da França, teve “educação confiada a um tutor”, por alguns meses estudou no Collège de Navarre, tomou contato com textos de autores latinos, foi poeta, participou das guerras italianas e, invariavelmente, prestou serviços à Corte: foi pajem do delfim Francisco [filho de Francisco I, rei da França, patrono das artes e iniciador/impulsionador do Renascimento francês] e, depois ainda, esteve com Carlos Duque de Orleans, Madalena de França, esposa do Rei Jaime V da Escócia, depois, com o próprio Jaime V, esteve ainda a serviço na Escócia, em Londres, em Flandres [hoje, região da Bélgica]; após uma doença tê-lo feito perder parte da audição, interrompeu seus serviços [diplomáticos] à Corte, dedicou-se aos estudos [processos literários da literatura italiana: Dante, Petrarca, Boccaccio], leu Lemaire de Belges, Guillaume Coquilard, Clément Marot, compôs algumas odes orácicas [de Horácio], mas também prestou serviços ao Rei Charles d’Orleans [Carlos II] e, após a morte deste, a seu delfim Henri [II]; suas obras: Odes (Les Odes, 1550 1552), Amores (Les Amours, 1552 1578), Hinos (Les Hymnes, 1555 1556), Discursos (Les Discours, 1562 1563), Sonetos para Helena (Sonnets pour Hélène, 1578), Os Amores de Cassandra [Les Amours de Cassandre, coleção de poemas em decassílabos, extraídos de Les Amours) ...; Pierre Ronsard fez parte da Plêiade, grupo literário que, à época, atuando pela renovação da língua francesa, produziu textos “inspirados pelos poetas da Grécia e Roma antigos”, “buscaram criar uma poesia mais rica e complexa, tanto em termos de forma quanto de conteúdo” e contribuíram para trazer modernidade à língua; teve vários poemas musicados por compositores de diversas épocas.

terça-feira, 29 de abril de 2025

Pierre Ronsard: Sonetos para Helena

 
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[traduzido por Mário Laranjeira]

XLIII

Quando fores bem velha, à noite, à luz da vela,
Sentada ao pé do fogo, e dobando e fiando,
Dirás, aos versos meus, e te maravilhando:
“Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela.”

Não terás serva então que, a ouvir notícia tal,
Ao peso do labor meio cochilando,
Ao meu nome não vá logo se despertando,
Bendizendo o meu nome em louvor imortal.

Eu, debaixo da terra, um fantasma sem osso,
Pela sombra murtosa acharei meu repouso;
Tu, ao pé da lareira, uma velha encolhida,

Vais chorar meu amor e tua soberba vã.
Vive, se me dás fé, não deixes pra amanhã:
Colhe já, sem temor, as rosas desta vida.

-o-

Espero e temo, calo-me e suplico,
Ora sou gelo, e ora fogo ardente,
Admiro tudo e nada me é atraente,
Solto-me e logo ligo-me e complico.

Nada me apraz, entediado eu fico,
Meu coração é fraco, e sou valente,
Do ardor à baixa fé vou de repente,
De Amor duvido, e quando o desafio,

Mais eu me pico, e mais me torno esquivo,
Amo ser livre e quero estar cativo,
Cem vezes morro e tenho outra nascença.

Prometeu de paixões por ser eu passo,
E perco, para amar, toda potência,
Nada podendo, o que eu posso faço.

Pierre Ronsard

Second Livre des Sonnets pour Hélène

XLIII

Quand vous serez bien vieille

Quand vous serez bien vieille, au soir, à la chandelle,
Assise auprès du feu, dévidant et filant,
Direz, chantant mes vers, en vous émerveillant:
“Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.”

Lors, vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,
Déjà sous le labeur à demi sommeillant,
Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant
Bénissant votre nom de louange immortelle.

Je serai sous la terre, et fantôme sans os,
Par les ombres myrteux je prendrai mon repos;
Vous serez au foyer une vieille accroupie,

Regrettant mon amour et votre fier dédain.
Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:
Cueillez dès aujourd’hui les roses de la vie.

-o-

J'espère et crains

J'espère et crains, je me tais et supplie,
Or je suis glace et ores un feu chaud,
J'admire tout et de rien ne me chaut,
Je me délace, et puis je me relie.

Rien ne me plaît sinon ce qui m'ennuie,
Je suis vaillant et le cœur me défaut,
J'ai l'espoir bas, j'ai le courage haut,
Je doubte Amour, et si je le défie,

Plus je me picque, et plus je suis rétif,
J'aime être libre et veux vivre en captif,
Cent fois je meurs, cent fois je prends naissance.

Un Prométhée en passions je suis;
Et pour aimer perdant toute puissance
Ne pouvant rien je fais ce que je puis.

[Sonnets pour Hélène — 1578], (Poésies diverses — 1587)
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Poetas franceses da Renascença [edição bilíngue], Seleção, Apresentação e Tradução de Mário Laranjeira, 1ª edição, agosto de 2004, Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Pierre Ronsard (1524 1585), francês de Vendôme, próximo à aldeia de Couture-sur-Loir, à época Reino da França, foi poeta, invariavelmente prestou serviços à Corte: foi pajem do delfim Francisco [filho de Francisco I, rei da França, patrono das artes e iniciador/impulsionador do Renascimento francês] e, depois, esteve com Carlos Duque de Orleans, Madalena de França, esposa do Rei Jaime V da Escócia, depois, com o próprio Jaime V, esteve ainda a serviço na Escócia, em Londres, em Flandres [hoje, região da Bélgica]; após uma doença tê-lo feito perder parte da audição, teve que interromper seus serviços [diplomáticos] à Corte, dedicou-se aos estudos [processos literários da literatura italiana: Dante, Petrarca, Boccaccio], leu Lemaire de Belges, Guillaume Coquilard, Clément Marot, compôs algumas odes orácicas [de Horácio], mas também prestou serviços ao Rei Charles d’Orleans [Carlos II] e, após a morte deste, a seu delfim Henri [II]; suas obras: Odes (Les Odes, 1550 1552), Amores (Les Amours, 1552 1578), Hinos (Les Hymnes, 1555 1556), Discursos (Les Discours, 1562 1563), Sonetos para Helena (Sonnets pour Hélène, 1578), Os Amores de Cassandra [Les Amours de Cassandre, coleção de poemas em decassílabos, extraídos de Les Amours) ...; teve poemas musicados por músicos de várias épocas.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Pierre Ronsard: Os amores de Cassandra [Sonetos, II]

 
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Sonetos (II)

Céu, ar e ventos, montes e vargedos,
Bífidos cerros, matas verdejantes,
Ribas tortuosas, fontes ondulantes,
Capões de mato, e vós, verdes bosquedos;

Antros musgosos, fendas nos rochedos,
Prados, botões, capins, flores rubentes,
Morros, vinhas, e praias fulvescentes,
Gastine, Loir, e vós, versos não ledos,

Pois que, ao partir, roído de pesar,
Ao teu olhar o adeus não pude dar,
Que perto e longe o amor me prende assim,

Eu vos suplico, céus, planícies, montes,
Capões, florestas, ribas, antros, fontes,
Prados e flores lho digais por mim.

Pierre Ronsard

Les amours de Cassandre

Sonnets (II)

Ciel, air et vents, pleine et monts découverts,
Tertres fourchus et forêts verdoyantes,
Rivages tors, et sources ondoyantes,
Taillis rasés, et vous, bocages verts;

Antres moussus à demi front ouverts,
Prés, boutons, fleurs et herbes rousoyantes,
Côteaux vineux et plages blondoyantes,
Gastine, Loir, et vous, mes tristes vers,

Puisqu’au partir, rongé de soin et d’ire,
A ce bel oeil l’adieu je n’ai su dire,
Qui près et loin me détient em émoi,

Je vous suplli’, ciel, air, vents, monts et plaines,
Taillis, fôrets, rivages et fontaines,
Antres, prés, fleurs, dites-le-lui pour moi.
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Poetas franceses da Renascença [edição bilíngue], Seleção, Apresentação e Tradução de Mário Laranjeira, 1ª edição, agosto de 2004, Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Pierre Ronsard (1524 1585), francês de Vendôme, próximo à aldeia de Couture-sur-Loir, à época Reino da França, foi poeta, invariavelmente prestou serviços à Corte: foi pajem do delfim Francisco [filho de Francisco I, rei da França, patrono das artes e iniciador/impulsionador do Renascimento francês] e, depois, esteve com Carlos Duque de Orleans, Madalena de França, esposa do Rei Jaime V da Escócia, depois, com o próprio Jaime V, esteve ainda a serviço na Escócia, em Londres, em Flandres [hoje, região da Bélgica]; após uma doença tê-lo feito perder parte da audição, teve que interromper seus serviços [diplomáticos] à Corte, dedicou-se aos estudos [processos literários da literatura italiana: Dante, Petrarca, Boccaccio], leu Lemaire de Belges, Guillaume Coquilard, Clément Marot, compôs algumas odes orácicas [de Horácio], mas também prestou serviços ao Rei Charles d’Orleans [Carlos II] e, após a morte deste, a seu delfim Henri [II]; suas obras: Odes (Les Odes, 1550 1552), Amores (Les Amours, 1552 1578), Hinos (Les Hymnes, 1555 1556), Discursos (Les Discours, 1562 1563), Sonetos para Helena (Sonnets pour Hélène, 1578), Os Amores de Cassandra [Les Amours de Cassandre, coleção de poemas em decassílabos, extraídos de Les Amours) ...; teve poemas musicados por músicos de várias épocas.