domingo, 29 de maio de 2016

J. G. de Araújo Jorge: Coveiro

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Suicidei-me há muitos anos
quando perdi a coragem de partir.

Tanta coisa que fazer, que colher, que encontrar,
e eu atracado a este cais sem itinerários
a jogar terra sobre a própria vida,
coveiro de mim mesmo, a me enterrar. . .

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Os Mais Belos Poemas que o Amor Inspirou — J. G. de Araújo Jorge — Livro 3, 1973, Editora Theor S/A, São Paulo — SP; J. G. de Araújo Jorge (1914 1987), acreano de Tarauacá, foi poeta, locutor e redator de programas radiofônicos, professor de História e Literatura e político; estudou nos colégios Anglo-Americano e Pedro II, no Rio de Janeiro, e formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, atual Faculdade de Direito UFRJ; escrevendo poemas desde os tempos ginasianos, teve seus textos divulgados pelos periódicos cariocas Correio da Manhã e Almanaque Bertrand; colaborou também nos jornais A Manhã, Tribuna da Imprensa, A Nação e nas revistas Carioca, Vamos Ler, etc.; escreveu e publicou Meu Céu Interior (1934), Bazar de Ritmos (1935), Cântico dos Cânticos (1937), Amo! (1938), Poesias (1938), Cântico do Homem Prisioneiro (1941), Um Besouro contra a Vidraça (1942), Eterno Motivo (1943), O Canto da Terra (1945), Festa de Imagens, Harpa Submersa e outros títulos, além de ter gravado 3 LPs poéticos: Poemas de Amor, Amor e A Sós.

sábado, 28 de maio de 2016

Charles Bukowski: Conselho de amigo para muitos jovens

Amor é Tudo que Nós Dissemos que não Era | Amazon.com.br
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[traduzido por Fernando Koproski]

Vá para o Tibete.
Viaje de camelo.
Leia a Bíblia.
Tinja de azul seus sapatos.
Deixe crescer a barba.
Dê a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assine o The Saturday Evening Post.
Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca.
Case com uma mulher sem uma perna e se barbeie com uma navalha.
E entalhe seu nome no braço dela.

Escove os dentes com gasolina.
Durma o dia todo e suba em árvores à noite.
Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja.
Fique com a cabeça debaixo d’água e toque violino.
Faça a dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mate seu cão.
Candidate-se para prefeito.
More num barril.
Arrebente sua cabeça com um machado.
Plante tulipas na chuva.

Mas não escreva poesia.

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Charles Bukowski

Friendly advice to a lot of young men

Go to Tibet
Ride a camel.
Read the bible.
Dye your shoes blue.
Grow a beard.
Circle the world in a paper canoe.
Subscribe to The Saturday Evening Post.
Chew on the left side of your mouth only.
Marry a woman with one leg and shave with a straight razor.
And carve your name in her arm.

Brush your teeth with gasoline.
Sleep all day and climb trees at night.
Be a monk and drink buckshot and beer.
Hold your head under water and play the violin.
Do a belly dance before pink candles.
Kill your dog.
Run for Mayor.
Live in a barrel.
Break your head with a hatchet.
Plant tulips in the rain.

But don’t write poetry.
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Amor é tudo que nós dissemos que não era — Charles Bukowski, Seleção e tradução de Fernando Koproski, 2012, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro — RJ; Henry Charles Bukowski Jr. ou Heinrich Karl Bukowski, (1920  1994), alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, contista e romancista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Itaci de Sousa Teles: Eu e Tu

232 Poetas Paulistas - Antologia Pedro De Alcântara Worms
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Se tu me beijas, eu também te beijo.
Se tu me abraças eu também te abraço;
O teu desejo é sempre o meu desejo
E o que queres que eu faça, eu sempre faço.

Pela luz dos teus olhos, tudo eu vejo,
Teu cansaço de amor, é o meu cansaço;
Da alegria de amar não tenho pejo,
Como escrava te sigo, passo a passo.

Sei que te cansa esta felicidade...
Eu e tu ... tu e eu... sem aventuras...
Sem brigas... sem adeus e sem saudade.

Nada te prende! Vai, se assim preferes,
Serás a mais feliz das criaturas
E eu a mais desgraçada das mulheres.
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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; sobre a poetisa Itaci de Sousa Teles, ou Itaci de Souza Telles, muito pouco ou quase nada se obteve em registros captados no mundo virtual da internet; consta ter escrito uma peça, Athenéa, cuja estréia foi em 1948, no Teatro Coliseu, em Santos  SP; Pedro Worms, organizador deste 232 Poetas Paulistas, escreveu: “Itaci de Sousa Teles é paulista, segundo informação oral que recebemos. Pouco publicada, talvez e ainda não distinguida pelos antologistas, seus versos, todavia, parecem-nos dignos de menção.”; fica a dica para os estudiosos, curiosos e/ou amantes da poesia pesquisarem e ampliarem a biografia da poetisa.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Guimarães Rosa *: Ou . . . Ou . . .


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A moça atrás da vidraça 
Espia o moço passar. 
O moço nem viu a moça, 
Ele é de outro lugar. 

O que a moça quer ouvir 
O moço sabe contar: 
Ah, se ele a visse agora, 
Bem que havia de parar. 

Atrás da vidraça, a moça 
Deixa o peito suspirar. 
O moço passou depressa, 
Ou a vida devagar?


Ave, palavra 1970

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* Escreveu Manuel Bandeira,  sobre Guimarães Rosa, à guisa de mini-traços bio-bibliográficos: "Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos  Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa.
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908  1967), mineiro de Cordisburgo, formado em Medicina, foi diplomata, escritor e também poeta; seu único livro de poesias, Magma (1936), participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, também nesse ano, e, embora tendo sido premiado com louvor, em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, além de Magma, escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim  (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia  Terceiras estórias (contos, 1967), os póstumos Estas estórias (contos, 1969) Ave, palavra (diversos, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia).

terça-feira, 24 de maio de 2016

Paulo Leminski: dois loucos no bairro

LIVRO PAULO LEMINSKI
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um passa os dias
chutando postes para ver se acendem

o outro as noites
apagando palavras
contra um papel branco

todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também


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Paulo Leminski — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Apresentação de Fred Góes e Álvaro Marins, 2013, 6ª  reimpressão, Global Editora, São Paulo — SP; Paulo Leminski Filho (1944 1989), paranaense de Curitiba, foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor, professor, músico e letrista; como seminarista da Ordem dos Beneditinos, no Mosteiro de São Bento em São Paulo, iniciou seus estudos de latim e grego; como judoca faixa-preta, estudou o idioma japonês e tomou contato com a cultura e a poesia do Oriente; participante, em 1963, do I Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, conheceu o poeta Haroldo de Campos, de quem se tornou amigo e parceiro em várias obras; cursou Direito e desistiu, cursou Letras e desistiu várias vezes; foi professor de História e de Redação em cursos pré-vestibulares, professor de judô, atuou em publicidade; após estréia com seus textos, na revista Invenção, do poeta Décio Pignatari, colaborou em outros periódicos e revistas de vanguarda; teve textos musicados e fez parcerias com Caetano Veloso e outros músicos-compositores-letristas; traduziu obras de Petrônio, Alfred Jarry, James Joyce, John Fante, John Lennon, Samuel Beckett, Yukio Mishima, conhecedor que era dos idiomas inglês, francês, latim, grego, japonês e espanhol; sua bibliografia: Matsuo Bashô (ensaio biográfico, 1983), Caprichos e Relaxos (poesia, 1983), Cruz e Sousa (ensaio biográfico, 1983), Descartes com lentes (conto, 1983), Jesus a.C. (ensaio biográfico, 1983), Agora é que são elas (romance, 1984), Anseios crípticos (1986), Leon Trotski: a paixão segundo a revolução (ensaio biográfico, 1986), Distraídos venceremos (poesias, 1987), Guerra dentro da gente (1988), Catatau (prosa poética experimental, 1989), 40 Clics (poesia, com fotografias de Jack Pires, 1990), La vie en close (poesia, 1991), Uma carta uma brasa através: cartas a Régis Bonvincino  1976 a 1981 (1992), Metamorfoses: uma viagem pelo imaginário grego (1994), Winterverno (1994), O ex-estranho (1996) e outros; recebeu premiações por sua obra.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Florbela Espanca: Os meus versos

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Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento.
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...

Rasga os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...

Reliquiae  1931

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Poesia de Florbela Espanca, Volume 2 (Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 298, L&PM, 2002, Porto Alegre — RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), portuguesa do Alentejo, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicaram-se Reliquiae, Charneca em Flor e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro (todos em 1931).

quinta-feira, 19 de maio de 2016

J. G. de Araújo Jorge: Variações sobre o mesmo tema (à maneira de "hai-kais")

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Hoje sinto que nada mais poderá alterar
o acontecido.
O vento acena apenas os ramos
e redemoinha as folhas.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Fundamente permaneço
como a raiz no chão.


10
Seria fácil desabafar em confidências,
mas prefiro debater-me a sós
até que novamente me salves.


21
Destino de porto
e de navio. . .

Nem bem lançamos as amarras
e já marcamos a hora da partida. . .


29
Não nos vemos.
Parece que apenas nossas mãos
Se tocam e falam.
e viajamos neste amor
como dois clandestinos.


66
Viemos matar saudades?
Ou de saudades morrer?


70
Por que tantos namorados
Por toda parte?

Parecem perseguir-me. . .

Me lembram que sigo só
e que não sei onde estás.

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Os Mais Belos Poemas que o Amor Inspirou — J. G. de Araújo Jorge — Livro 3, 1973, Editora Theor S/A, São Paulo — SP; J. G. de Araújo Jorge (1914 1987), acreano de Tarauacá, foi poeta, locutor e redator de programas radiofônicos, professor de História e Literatura e político; estudou nos colégios Anglo-Americano e Pedro II, no Rio de Janeiro, e formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, atual Faculdade de Direito UFRJ; escrevendo poemas desde os tempos ginasianos, teve seus textos divulgados pelos periódicos cariocas Correio da Manhã e Almanaque Bertrand; colaborou também nos jornais A Manhã, Tribuna da Imprensa, A Nação e nas revistas Carioca, Vamos Ler, etc.; escreveu e publicou Meu Céu Interior (1934), Bazar de ritmos (1935), Cântico dos Cânticos (1937), Amo! (1938), Poesias (1938), Cântico do Homem Prisioneiro (1941), Um Besouro contra a Vidraça (1942), Eterno Motivo (1943), O Canto da Terra (1945), Festa de Imagens, Harpa Submersa e outros títulos, além de ter gravado 3 LPs poéticos: Poemas de Amor, Amor e A Sós.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Leonete de Oliveira: A Louca

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... E ela ria e chorava, a pobre louca, e ria
Apertando, com fúria, em seus braços mirrados,
O filhinho faminto, os olhos desvairados,
Num abraço fatal como a própria agonia...

E ela, a doida, cantava e a cantar não ouvia
Do filho os tristes ais, de fome, angustiados,
E aperta-o mais e mais contra os seios fanados,
E ele frio e gelado em seus braços morria!

Num olhar onde o amor inda solta lampejos,
Olha a criança, a sorrir, enche de doidos beijos
O seu rosto já frio e os seus olhos já baços.

E inconsciente a esperar que ele acorde, baixinho
Vai cantando a canção de amizade e carinho,
O cadáver do filho embalando nos braços!

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Sonetos Brasileiros — Séculos XVII ao XX, Coletânea organizada por Laudelino Freire, 1929, F. Briguiet & Cia. Editores, Rio de Janeiro — RJ; Leonete Fernanda de Oliveira Lima Rocha (1888  ? ), maranhense de São Luís, foi professora, bibliotecária da Biblioteca Pública do Estado do Maranhão e poeta; escreveu e publicou Flocos (1910), Miragens, Cambiantes, Folhas de Outono (1959) e outros títulos; publicou na imprensa maranhense e carioca; faleceu no Rio de Janeiro.

domingo, 15 de maio de 2016

J. G. de Araújo Jorge: Migalhas

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[A Oscar Przevodowski]

O resto do teu prato, o resto
de milhares de outros pratos enfastiados
são o auto-flagrante do crime sem protesto
perpetrado
 por aqueles que têm pão e teto
e a segurança de seu próprio nome
contra os que vivem sem um lar sequer
e os que caem esquálidos de fome!

Como uma gota d’água pequenina
a gigantesca massa de um oceano
pode fazer, um dia, transbordar,
é essa migalha,  a sobra e o desperdício, 
que há de fazer rolar num dia adiante
no mais sombrio e rude precipício
a avalanche da fome e da miséria!

E essa avalanche há de arrastar, passando,
a humanidade toda,
e há de deixar um campo devastado
só com o sangue dos homens adubado
para uma nova criação. . .

Das ruínas de uma tal devastação
dos destroços e escombros
da nossa humanidade derrubada,
surgirá
uma outra humanidade mais perfeita
e uma mentalidade mais formada!

É essa migalha de pão
que tu jogaste fora sem notar,
 a gota pequenina que há de um dia
fazer todo um oceano transbordar!

1935

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O Canto da Terra  poemas  J. G. de Araújo Jorge, 1945, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro  RJ; J. G. de Araújo Jorge (1914 1987), acreano de Tarauacá, foi poeta, locutor, redator de programas radiofônicos, professor de História e Literatura e político; estudou nos colégios Anglo-Americano e Pedro II, no Rio de Janeiro, e formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, atual Faculdade de Direito  UFRJ; escrevendo poemas desde os tempos ginasianos, teve seus textos divulgados pelos periódicos cariocas Correio da Manhã e Almanaque Bertrand; colaborou também nos jornais A Manhã, Tribuna da Imprensa, A Nação e nas revistas Carioca, Vamos Ler, etc.; escreveu e publicou Meu Céu Interior (1934), Bazar de ritmos (1935), Cântico dos Cânticos (1937), Amo! (1938), Poesias (1938), Cântico do Homem Prisioneiro (1941), Um Besouro contra a Vidraça (1942), Eterno Motivo (1943), O Canto da Terra (1945), Festa de Imagens, Harpa Submersa e outros títulos, além de ter gravado 3 LPs poéticos: Poemas de Amor, Amor e A Sós.

sábado, 14 de maio de 2016

Maria Eugênia Celso: A figura velada

Bandeira, Manoel. (org) - Obras-primas Da Lírica Brasileira - R ...
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Surgiu-me um dia, estranha e dura,
Sem traços, sem contornos, sem semblante,
Mal debuxada a hierática figura
Nesse bloco de mármore alvacento.
Tão hirta e tão sozinha
Dentro do véu de pedra que a retinha,
Que era, em verdade, sob o céu cinzento
Como o espectro da tarde agonizante.

Forma sem formas, vulto pressentido
De alguém que não se sabe ao certo quem será,
Oh! figura velada,
Do mistério emanada,
De mãos juntas, procuro-te o sentido,
Interrogo-te o enigma apavorante
E, diante
Da sombra que projeta a tua sombra,
Mal grado meu, minh’alma, que se assombra
De dúvida e de medo,
Tento em vão descobrir o que haverá
No silêncio do teu segredo?...

Oh! figura velada, vi-te um dia
Surgir tranqüila e misteriosa assim.
E, desde, então, angustiadamente,
Eu tenho a sensação indefinida
Que não era a primeira vez em que via...
E assim muda, assim triste, assim indiferente,
Há muito eu te trazia
Indecifrável como a própria vida,
Oculta dentro em mim...

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Obras Primas da Lírica Brasileira — Volume XII, Seleção de Manuel Bandeira e Notas de Edgard Cavalheiro, 1943, Livraria Martins Editora, São Paulo — SP; Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886 1963), mineira de São João Del Rey, filha do Conde e Condessa Afonso Celso e neta do Visconde de Ouro Preto —  presidente do Gabinete Imperial por ocasião da deposição do Imperador Dom Pedro II , foi jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista; ainda criança, com a deposição da Família Imperial, mudou-se para Petrópolis RJ e ali estudou no Colégio Sion, onde aprendeu o idioma francês, o qual dominava tão bem quanto à nossa língua; colaborou com os jornais da época, entre os quais o Correio da Manhã, O Jornal, Diário Carioca, Jornal do Comércio e Jornal do Brasil; participante ativa do Movimento Feminista, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se a trabalhos de assistência junto às Damas da Cruz Verde, tornou-se uma das lideranças a criarem a maternidade Pro Mater do Rio de Janeiro e batalhou pelo direito das mulheres ao voto; escreveu Em Pleno Sonho (poesia, 1920), Vicentinho (prosa, 1925), Fantasias e Matutadas (poesia, 1925), Desdobramento (contos, 1926), Alma Vária (poesia), Jeunesse (poesia), O Solar Perdido (poesia, 1945), O Diário de Ana Lúcia, De Relance (crônicas), Ruflo de Asas (teatro em verso), Síntese Biográfica da Princesa Isabel (biografia); uma de suas facetas na literatura foi o humorismo matuto; em 1955, teve suas Poesias Completas (sem conter os versos em francês) editadas por José Olímpio; representou o Brasil em Conferência da Unesco, em Paris, e em outras missões culturais.