segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Luiz Gama: Os chafarizes de São Paulo

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São seis horas e meia.
        A chuva cai a potes.
Passam os cidadãos acomodados
Nos seus amplos capotes.
Vão cabisbaixos, tristes e molhados.

Senhores do Governo,
Que estais aí enxutos e quietos,
Na missão doce de zelar do povo;
Vós que sois filhos, netos e bisnetos
        De grandes patriotas,
Olhai para este inferno.

Mandai guardar a chuva, que Deus dá,
        Em grandes caldeirões,
Para pô-la depois nos chafarizes.
Senão, em vindo a seca, a maior parte
Destas populações
Há de atirar, aos olhos e narizes
        De vossas excelências,
As suas respeitosas maldições.

Vós, cujo ofício é produzir artigos,
        Em prol das presidências;
Vós que as amais enquanto elas têm "figos":
Vós, chefes cabalistas,
Ponde em seguro a sede dos paulistas.

(O Polichinelo  1879; Tradições
 e Reminiscências Paulistanas 
Afonso de Freitas  pág. 28)

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Antologia da Poesia Paulista II — Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830  1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos 10 anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (1a. edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinelo  primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866  1867).

domingo, 23 de agosto de 2015

Afonso Schmidt: Zingarella


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Certa noite, na Itália, quando eu vinha
Para meu quarto, achei-a junto à porta;
Era tão bela, mas tão pobrezinha!
De fome e frio estava quase morta.
                    Ela, pálida e franzina,
                    Eu, de sobretudo roto:
                     Buona sera, signorina!
                     Buona sera, giovanotto!

Ofereci-lhe o quarto de estudante,
De minha estreita cama fiz a sua,
E enquanto ela dormia palpitante
Eu vagava, sem teto, pela rua.
                    De manhã, voltando à casa,
                    Perguntei o nome dela:
                     Come ti chiami, ragazza?
                     Io mi chiamo Zingarella.

Depois... Eu tinha vinte e três janeiros,
Ela contava quinze primaveras.
Eram tão juntos nossos travesseiros...
Veio a paixão. Amamo-nos deveras...
                    Foi o quadro mais risonho
                    Desta vida fugidia:
                    — Zingarella, sei mio sogno!
                    — E tu sei la vita mia.

Mas, um dia, ao voltar do meu estudo,
Cheio de mágoas, de ânsias e de frio,
Não encontrei seus olhos de veludo:
O quarto estava gélido e vazio.
                    Grito embalde o nome dela,
                    Numa tristeza infinita:
                   
 Dove sei, ó Zingarella?
                     Dove sei, ó mia vita?

E a minha vida prosseguiu inglória...
Fiz coisas de rapaz... Não me envergonho
De recordar ainda aquela história,
Quase desvanecida como um sonho:
                    Ela, pálida e franzina;
                    Eu, de sobretudo roto:
                    
 Buona sera, signorina!
                     Buona sera, giovanotto!


(Janelas abertas, 1923 
 2ª edição, págs. 32 e 33)

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Antologia da Poesia Paulista II — Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Afonso Frederico Schmidt (1890 1964), nascido em Cubatão, foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista do anarquismo brasileiro; fundou os jornais Vésper (Cubatão), Voz do Povo (Rio de Janeiro) que a seu tempo tornou-se o órgão de imprensa da Federação Operária , fez parte da redação dos importantes periódicos libertários A Plebe e A Lanterna (ambos em São Paulo), ao lado de pessoas lendárias do movimento anarquista como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori, e, também como redator, ocupou posições nos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo; entre outros títulos, escreveu e publicou, em poesia, Lírios Roxos (1907), Janelas Abertas (1911), Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934), Poesia (edição definitiva, 1945) e, em prosa, Brutalidade, Os impunes, O Dragão e as Virgens (fantasia), Pirapora, As levianas, Passarinho verde, A revolução brasileira (crônicas), A nova conflagração, O evangelho dos livros, Os negros, A sombra de Júlio Frank (romance), Colônia Cecília (romance), A vida de Paulo Eiró (crônicas), São Paulo de meus amores (crônicas), Zanzalá (novela, 1938), A primeira viagem (autobiografia); ganhou destaque também pelas diversas campanhas que realizou contra o fascismo e o clericalismo e foi preso diversas vezes por expressar o que pensava como ativista libertário.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Genésio dos Santos: tecer a idade

Clique no título acima e... boa viagem.



primavera? não.
sou dono do meu outono.
inverno? verão...



São Paulo  maio de 2015

Minha foto
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Genésio dos Santos Ferreira, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991  1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Genésio dos Santos: plano b



pra não desandar
dê razão ao coração
deixe ele mandar



São Paulo  agosto de 2015

Minha foto
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Genésio dos Santos Ferreira, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Djalma Andrade: Artista

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Que graças pões, Maria, e que cuidado
No arranjo e na feitura do teu ninho!
Eu nunca vi um quarto de noivado
Feito com arte tal, com tal carinho...

Nas fronhas lindas e no cortinado,
Na alvura dos lençóis de puro linho,
Transparece o teu gosto requintado.
Benditas sejam tuas mãos de arminho!

No teu leito há talento, eu te asseguro,
E ninguém poderia, amor, supô-lo:
— Em tão pequena coisa, tanto apuro...

E eu penso vendo o teu bom gosto e zelo,
Se tal arte tu mostras em compô-lo
Que perícia terás em revolvê-lo!...

(Poemas de Ontem e de Hoje,
 sem data, págs. 39 e 40)

Djalma_Andrade_2
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Djalma Andrade (1891 1975), mineiro de Congonhas do Campo, formado em Direito, foi jornalista, professor e poeta; durante muitos anos, com os pseudônimos de Guilherme Tell ou Félix D'Arruda, colaborou com jornais de Minas Gerais; escreveu e publicou Vinha Ressequida (1922), Balas de Estalo (sob o pseudônimo de Guilherme Tell), Brasil, Ditosa Pátria (coletânea de versos patrióticos, 1925), Versos Escolhidos (1928), Sátiras (1939), Cartuchos de Festim, Poemas de Ontem e de Hoje (1937), Versos Escolhidos e Epigramas (1946); lecionou História e Literatura Brasileira.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

José Albano: Cantigas


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I

Já quis tentar formas novas
Foi mais ou menos em vão:
Hoje nestas velhas trovas
Falará meu coração.

II

Tudo que sinto e padeço
Posso descrever assim:
O prazer não tem começo
E a tristeza não tem fim

III

Trago há muito no sentido,
De que vem maior cuidado?
Será dum bem já perdido
Ou dum bem nunca alcançado?

IV

Dá-me essa voz tão amena
Para cantar este enlevo,
Ave que me deste a pena
Com que meus versos escrevo.

V

Tudo já me persuade
Que a ti me não hei de opor:
Longe mata de saudade
E perto matas de amor.

VI

Anda a violeta chorosa
E a rosa alegre e faceta,
Só porque eu te chamei rosa
E não te chamei violeta.

VII

As estrelas no alto abrigo,
Mais alegre fico a vê-las
Todas as vezes que digo
Que teus olhos são estrelas.

VIII

Das flores mais preciosas
O doce molho é composto:
Não trago jasmim nem rosas,
Porque já os tem no rosto.

IX

Quanto é forte o meu desejo
Nesta afeição insensata:
Morro, porque te não vejo
E sei que ver-te me mata.

X

A pensar-me as vezes ponho
E não posso compreender
Porque sempre acaba o sonho,
Quando começa o prazer.

XI

Guardo penas inimigas
Nestas cantigas amenas
E quando canto as cantigas,
O coração sente as penas.

XII

Há no coração sombrio
Um eco brando e sonoro
Que adormece quando rio
E desperta quando choro.

XIII

Disto enfim já não duvido,
No mundo o maior cuidado
Vem do bem que foi perdido
Antes de ser alcançado.

XIV

Ó coração, quando choras,
Bate com arquejos lentos,
Marca o tempo, não por horas,
Mas sim por meus sofrimentos.

Rimas de José Albano  Redondilhas,
1912, págs. 29 a 31.

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; José d'Abreu Albano (1882 1923), cearense de Fortaleza, iniciou seus estudos em seminário da cidade e, depois, em colégios religiosos da Inglaterra, da Áustria e da França; bem jovem ainda, de volta à terra natal, começou a publicar seus poemas no jornal A República; estudou no Liceu do Ceará, onde também foi professor de Latim; poliglota, escrevia em francês, inglês e alemão, contudo, como lembra Manoel Bandeira, "tão versado em idiomas estrangeiros, prezava como ninguém a pureza do vernáculo"; após ter trabalhado no Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro, e no consulado brasileiro, em Londres, abandonou a carreira pública para viajar pelo mundo; Europa, Ceará e Rio de Janeiro marcaram as várias etapas de sua vida; publicaram-se suas obras em Barcelona Espanha: Rimas de José Albano — Redondilhas, Rimas de José Albano — Alegoria e Rimas de José Albano — Cançam a Camoens (1912), e Ode à Língua Portuguesa, Four Sonets by José Albano, with Portuguese prosetranslation e Antologia Poética de José Albano (1918); Manuel Bandeira e Braga Montenegro foram os responsáveis pela divulgação de seus escritos em terras brasileiras, ao publicarem Rimas, de José Albano (1948).

domingo, 16 de agosto de 2015

Maria Eugênia Celso: Canção de quem é só

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Por encontrar na alegria,
Como em tudo, o mesmo pó,
Foi que se fez mais vazia
Minh'alma comigo só.

E tão completa e fechada
Quis a minha solidão
Que, de mim mesmo isolada,
Não te ouço mais, coração!

Do meu ermo na friagem,
Nada mais sou que o pintor
Da desolada paisagem
Desse mundo interior.

E é tanta a tristeza, é tanto
Em mim o silêncio atroz
Que eu canto para, em meu canto,
Dar-me a ilusão de outra voz.

(Alma Vária  1937, pág. 33)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V — Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886 1963), mineira de São João Del Rey, filha do Conde e Condessa Afonso Celso e neta do Visconde de Ouro Preto presidente do Gabinete Imperial por ocasião da deposição do Imperador Dom Pedro II , foi jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista; ainda criança, com a deposição da Família Imperial, mudou-se para Petrópolis RJ, e ali estudou no Colégio Sion, onde aprendeu o idioma francês, o qual dominava tão bem quanto à nossa língua; colaborou com os jornais da época, entre os quais o Correio da Manhã, O Jornal, Diário Carioca, Jornal do Comércio, Jornal do Brasil, Revista da Semana e Fon-Fon; participante ativa do Movimento Feminista, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se a trabalhos de assistência junto às Damas da Cruz Verde, tornou-se uma das lideranças a criarem a maternidade Pro Mater do Rio de Janeiro e batalhou pelo direito das mulheres ao voto; escreveu Em Pleno Sonho (poesia, 1920), Vicentinho (prosa, 1925), Fantasias e Matutadas (poesia, 1925), Desdobramento (contos, 1926), Alma Vária (poesia, 1937), Jeunesse (poemas em francês, 1938), O Solar Perdido (poesia, 1945), O Diário de Ana Lúcia, De Relance (crônicas), Ruflo de Asas (teatro em verso), Síntese Biográfica da Princesa Isabel (biografia); uma de suas facetas na literatura foi o humorismo matuto; em 1955, teve suas Poesias Completas (sem conter os versos em francês) editadas por José Olímpio; representou o Brasil em Conferência da Unesco, em Paris, e em outras missões culturais.

sábado, 15 de agosto de 2015

Baudelaire: O Homem e o Mar

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[traduzido por Ivo Barroso]

Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.

Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.

Sempre fostes os dois reservados e tredos:
Homem 
 ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar  ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.

Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!

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Baudelaire

L’Homme et la Mer

Homme libre, toujours tu chériras la mer!
La mer est ton miroir; tu contemples ton âme
Dans le déroulement infini de sa lame,
Et ton esprit n’est pas un gouffre moins amer.

Tu te plais à plonger au sein de ton image;
Tu l’embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage

Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets:
Homme, nul n’a sondé le fond de tes abîmes,
O mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!

Et cependant voilà des siècles innombrables
Que vous vous combattez sans pitié ni remords,
Tellement vous aimez le carnage et la mort,
O lutteurs éternels, ô frères implacables!

(Les Fleurs du Mal
 “Collection & Pastels”
Editions du Panthéon — 1947 p. 24)
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821  1867), francês de Paris, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Alfonsina Storni: Súplica

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[traduzido por Ivo Barroso]

Senhor, Senhor, há muito tempo, um dia,
Um grande amor sonhei, que não pudera
Ninguém sonhar igual, um amor que era
A minha vida inteira de poesia.

Passava o inverno e, entanto, o amor não via;
E tornava a chegar a primavera,
O verão novamente aparecia
E o outono vinha me encontrar à espera.

Senhor, Senhor, meus ombros desnudados
Deixam-vos ver os golpes retalhados
Que ali deixaram látegos perversos...

E tomba a tarde já na minha vida!
E essa paixão ardente e desmedida,
Eu a perdi, Senhor, fazendo versos!...

Alfonsina Storni

Súplica

Señor, Señor, hace ya tiempo, un día,
Soñé un gran amor como jamás pudiera
Soñarlo nadie; algún amor que fuera
La vida toda, toda la poesía.

Y pasaba el invierno e no venía
Y volvía a llegar la primavera,
Y el verano de nuevo persistía
Y me hallaba el otoño con mi espera.

Señor, Señor, mi espalda está desnuda;
Hay retallos allí con mano ruda
Del látigo que sangras a los perversos!

Que está la tarde ya sobre mi vida
Y esta pasión ardiente y desmedida
La he perdido, Señor, haciendo versos!...
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Alfonsina Storni Martignoni (1892  1938), nascida em Sala Capriasca  Suíça, filha de pais argentinos, foi poeta, atriz e professora; aos 4 anos de idade retornou à Argentina, tendo, a partir daí, levado uma vida com dificuldades financeiras e, para o sustento da família, trabalhou como costureira e operária; escreveu e publicou La inquietud del rosal (1916), El dulce daño (1918), Irremediablemente (1919), Languidez (1920), Ocre (1925), Mundo de siete pozos (1934) e outros títulos em verso, prosa e peças teatrais; consta que a poeta suicidou-se caminhando para dentro do mar, tendo sido tal ato registrado poeticamente na canção ‘Alfonsina y el mar’ gravada por Mercedes Sosa; seu corpo foi resgatado do oceano no dia 25 de outubro de 1938; três dias antes de suicidar-se enviara para publicação em um jornal o soneto ‘Voy a dormir’.