
____________________
São seis horas e meia.
A chuva cai a potes.
Passam os cidadãos acomodados
Nos seus amplos capotes.
Vão cabisbaixos, tristes e molhados.
Senhores do Governo,
Que estais aí enxutos e quietos,
Na missão doce de zelar do povo;
Vós que sois filhos, netos e bisnetos
De grandes patriotas,
Olhai para este inferno.
Mandai guardar a chuva, que Deus dá,
Em grandes caldeirões,
Para pô-la depois nos chafarizes.
Senão, em vindo a seca, a maior parte
Destas populações
Há de atirar, aos olhos e narizes
De vossas excelências,
As suas respeitosas maldições.
Vós, cujo ofício é produzir artigos,
Em prol das presidências;
Vós que as amais enquanto elas têm "figos":
Vós, chefes cabalistas,
Ponde em seguro a sede dos paulistas.
(O Polichinelo — 1879; Tradições
e Reminiscências Paulistanas —
Afonso de Freitas — pág. 28)
____________________
Antologia da Poesia Paulista II
— Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho
da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960,
Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Luiz Gonzaga Pinto
da Gama (1830 — 1882), baiano de Salvador, foi poeta,
jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e
pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como
escravo aos 10 anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever,
conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo
das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de
Getulino (1a. edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e
de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época,
tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical
Paulistano, redator de O Polichinelo — primeiro periódico político e
satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de
São Paulo, Diabo Coxo (1864 — 1865) e Cabrião (1866 — 1867).






