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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Novalis: Anseio pela morte


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[traduzido por Felipe Vale da Silva

[Hinos à Noite (VI)]

Abaixo, no ventre da Terra
Muito aquém do reino do Dia
A fúria, a dor e a guerra
anunciam sua oportuna partida
Chegamos em canoa estreita
nas praias do paraíso
Bendita seja a Noite infinda!
Bendito, o sono infinito!
É certo que o Dia acalenta,
mitiga o antigo pesar.
Foi-se o anseio por reinos distantes,
junto ao Pai encontramos um lar.
O que resta fazer neste mundo,
do que vale o amor e apego?
O que é arcaico deixamos de lado,
ao moderno temos menosprezo.
Solitário e aflito é o estado
de quem ama o que está no passado.
Um passado em que a luz dos sentidos
já ardeu com imensa fulgência
Onde a face do Onipresente
era parte da humana vivência.
Em grandor, em sublimidade
remetíamos à diva imagem.
Em que troncos remotos da espécie
esbanjavam em emolumentos;
preferível era a morte e o martírio
pois assim chega-se ao firmamento.
E conquanto o desejo é constante
foi o amor que saiu triunfante.
Um passado onde, ainda jovem
Deus revela sua face à Terra
Por amor à verdade Ele morre
Como poucos, doce vida era
Não acossou de si medo e dor
Isso é prova de seu firme amor.
Com anseio, vivemos inquietos,
encobertos pela noite escura
Hoje nem toda a água do mundo
Poderá saciar esta secura,
Resta a ânsia de voltar para casa
Reviver uma era sagrada
E o que impede o nosso regresso?
Já repousam aqueles que amamos;
a tumba é o limite do nosso caminho;
a nos resta só horror e prantos
Esta busca não visa algo certo
o peito está cheio o mundo é um deserto.
Infinito e misterioso
Nos domina um terror doce e mudo
Creio ouvir, dos profundos recessos
O murmúrio de quem veste luto
É possível que um amigo aguarde,
nos envie um sinal de saudades.
Entreguemo-nos à noiva doce,
mais para além, a Jesus, o amado
Consolai-vos com as trevas da noite
os que amam e os conturbados
Pois, quiçá, em um sonho, nossa algema cai
E seremos entregues aos cuidados do Pai.

Novalis

Sehnsucht nach dem Tode

Hinunter in der Erde Schoß,
Weg aus des Lichtes Reichen,
Der Schmerzen Wut und wilder Stoß
Ist froher Abfahrt Zeichen.
Wir kommen in dem engen Kahn
Geschwind am Himmelsufer an.
Gelobt sei uns die ew’ge Nacht,
Gelobt der ew’ge Schlummer.
Wohl hat der Tag uns warm gemacht
Und welk der lange Kummer.
Die Lust der Fremde ging uns aus,
Zum Vater wollen wir nach Haus.
Was sollen wir auf dieser Welt
Mit unsrer Lieb und Treue.
Das Alte wird hintangestellt,
Was soll uns dann das Neue.
Oh! einsam steht und tiefbetrübt,
Wer heiß und fromm die Vorzeit liebt.
Die Vorzeit wo die Sinne licht
In hohen Flammen brannten,
Des Vaters Hand und Angesicht
Die Menschen noch erkannten.
Und hohen Sinns, einfältiglich
Noch mancher seinem Urbild glich.
Die Vorzeit, wo noch blütenreich
Uralte Stämme prangten
Und Kinder für das Himmelreich
Nach Qual und Tod verlangten.
Und wenn auch Lust und Leben sprach,
Doch manches Herz für Liebe brach.
Die Vorzeit, wo in Jugendglut
Gott selbst sich kundgegeben
Und frühem Tod in Liebesmut
Geweiht sein süßes Leben.
Und Angst und Schmerz nicht von sich trieb,
Damit er uns nur teuer blieb.
Mit banger Sehnsucht sehn wir sie
In dunkle Nacht gehüllet,
In dieser Zeitlichkeit wird nie
Der heiße Durst gestillet.
Wir müssen nach der Heimat gehn,
Um diese heil’ge Zeit zu sehn.
Was hält noch unsre Rückkehr auf,
Die Liebsten ruhn schon lange.
Ihr Grab schließt unsern Lebenslauf,
Nun wird uns weh und bange.
Zu suchen haben wir nichts mehr
Das Herz ist satt die Welt ist leer.
Unendlich und geheimnisvoll
Durchströmt uns süßer Schauer
Mir deucht, aus tiefen Fernen scholl
Ein Echo unsrer Trauer.
Die Lieben sehnen sich wohl auch
Und sandten uns der Sehnsucht Hauch.
Hinunter zu der süßen Braut,
Zu Jesus, dem Geliebten
Getrost, die Abenddämmrung graut
Den Liebenden, Betrübten.
Ein Traum bricht unsre Banden los
Und senkt uns in des Vaters Schoß.

Hymnen an die Nacht [VI]
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; teve textos publicados no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos, dos quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Novalis: Erguida está a rocha . . .


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[traduzido por Felipe Vale da Silva

[extrato da seção V de Hinos à Noite]

Erguida está a rocha
A humanidade, elevada
seguimos sendo teus filhos
Enfim livres de amarras
O mais forte apreço
verte o teu cálice argênteo;
a última ceia é chegada
chegado é o fim dos tempos.
As bodas evocam a morte
E tochas queimam intensas;
pela unção do consorte
a virgem aguarda tesas
E se de longe se ouvisse
sons de uma tal comitiva
E se a estrela clamasse
Com língua humana, o faria.
A ti, ó Maria, já batem
forte milhares de peitos
Pois nesta vida de trevas
és alvo de nosso anseio.
Do esperar por uma cura
com presciente desejo
Aperta-nos, ó divina,
achega-nos em teu seio.
Tantos que ardem e consomem
padecem angústias amaras
Tantos que do mundo fogem
Voltam-se a ti, virgem amada;
Pois és a auxiliadora
Das almas necessitadas
voltamo-nos todos a ti
Em busca de eterna morada.
Não deite lágrimas aos mortos
Não sofra, pois tua fé
no amor doce e devoto
Não será abalada, sequer
Terás teu anseio saciado
A noite será teu entusiasmo
teu coração está guardado
Pelos fiéis filhos do céu
Com tal consolo, a vida segue
perdura o seu percurso eterno,
expande-a um imo ardor
que transfigura o intelecto.
O céu estrelado então dissipa
chegada é a hora do repasto
Reflui o néctar da áurea vinha
converte-nos na luz dos astros
O amor não encontra mais barreiras
as velhas divisões são findas
Ressoam aí a plena vida
tal qual um mar ilimitado.
A vida será um longo êxtase
uma noite eterna, doce hino
e o Sol que a todos ilumina
terá a face do divino.

Novalis

[ . . . ]

V

Gehoben ist der Stein
Die Menschheit ist erstanden
Wir alle bleiben dein
Und fühlen keine Banden.
Der Herbeste Kummer Fleucht
Vor deiner goldnen Schale,
Wenn Erd und Leben weicht
Im letzten Abendmahle.
Zur Hochzeit ruft der Tod
Die Lampen brennen helle
Die Jungfraun sind zur Stelle
Um Öl ist keine Not
Erklänge doch die Ferne
Von deinem Zuge schon,
Und ruften uns die Sterne
Mit Menschenzung' und Ton.
Nach dir, Maria, heben
Schon tausend Herzen sich.
In diesem Schattenleben
Verlangten sie nur dich.
Sie hoffen zu genesen
Mit ahndungsvoller Lust
Drückst du sie, heilges Wesen,
An deine treue Brust.
So manche, die sich glühend
In bittrer Qual verzehrt
Und dieser Welt entfliehend
Nach dir sich hingekehrt;
Die hülfreich uns erschienen
In mancher Not und Pein
Wir kommen nun zu ihnen,
Um ewig da zu sein.
Nun weint an keinem Grabe
Für Schmerz, wer liebend glaubt,
Der Liebe süße Habe
Wird keinem nicht geraubt
Die Sehnsucht ihm zu lindern,
Begeistert ihn die Nacht
Von treuen Himmelskindern
Wird ihm sein Herz bewacht.
Getrost, das Leben schreitet
Zum ew’gen Leben hin;
Von innrer Glut geweitet
Verklärt sich unser Sinn.
Die Sternwelt wird zerfließen
Zum goldnen Lebenswein,
Wir werden sie genießen
Und lichte Sterne sein.
Die Lieb ist frei gegeben,
Und keine Trennung mehr.
Es wogt das volle Leben
Wie ein unendlich Meer.
Nur eine Nacht der Wonne
Ein ewiges Gedicht
Und unser aller Sonne
Ist Gottes Angesicht.

Hymnen an die Nacht [V]
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; teve textos publicados no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; suas obras: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos, dos quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Novalis*: Certa vez, quando derramava lágrimas amargas; . . . [Hinos à Noite — III]

 Hinos à Noite - Novalis - Sebo ClepsidraPDF) Três paradoxos para entender Novalis | Felipe Vale da Silva ...
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[traduzido por Felipe Vale da Silva]

III

Certa vez, quando derramava lágrimas amargas; quando, desintegrado pela dor, a esperança me escapava, encontrava-me sobre um outeiro escarpado que, na escuridão, ocultava meu aspecto de ser vivo —  solitário como nenhum recluso jamais esteve, levado por angústia indizível; destituído de forças, restava-me apenas um pensamento de aflição.  Conforme olhei ao redor, buscando por ajuda, foi impossível me mover para frente ou para trás, como se estivesse ancorado, pela vida fugidia e morrediça, a um anseio infinito: então veio de longínquos ermos azulados, das alturas de minha antiga felicidade, um arrepio crepuscular  com um só golpe romperam-se os grilhões da Luz  e assim pude renascer.

Daí em diante esvaiu-se o esplendor terreno e, com ele, minha aflição   o pesar fluiu para um mundo novo, insondável  por ti fui acometido, entusiasmo noturno, sono celestial  toda a região pôs-se a erguer, lentamente; sobre ela pairava meu espírito absolto, recém-nascido. O outeiro reverteu-se em uma nuvem poeirenta  avistei, através dela, os traços transfigurados de minha amada. Em seus olhos repousava a eternidade  tomei-lhe as mãos e as lágrimas se transformaram em um liame estrelado, inquebrantável. À distância, os anos se passavam aos milhares, como tempestades. No colo dela derramei lágrimas, extasiado com minha nova vida.  Aquele foi o primeiro e único sonho  e desde então fui tomado por uma crença eterna, imutável no paraíso noturno e seu fulgor, a minha amada.

Friedrich Novalis - Citações, Frases e Aforismos - Citador
Novalis

(Hymnem an die Nacht III)

Einst da ich bittre Thränen vergoß, da in Schmerz aufgelöst meine Hoffnung zerrann, und ich einsam stand am dürren Hügel, der in engen, dunkeln Raum die Gestalt meines Lebens barg  einsam, wie noch kein Einsamer war, von unsäglicher Angst getrieben  kraftlos, nur ein Gedanken des Elends noch.  Wie ich da nach Hülfe umherschaute, vorwärts nicht konnte und rückwärts nicht, und am fliehenden, verlöschten Leben mit unendlicher Sehnsucht hing:  da kam aus blauen Fernen  von den Höhen meiner alten Seligkeit ein Dämmerungsschauer  und mit einem Male riß das Band der Geburt  des Lichtes Fessel. Hin floh die irdische Herrlichkeit und meine Trauer mit ihr  zusammen floß die Wehmut in eine neue, unergründliche Welt  du Nachtbegeisterung, Schlummer des Himmels kamst über mich  die Gegend hob sich sacht empor; über der Gegend schwebte mein entbundner, neugeborner Geist. Zur Staubwolke wurde der Hügel  durch die Wolke sah ich die verklärten Züge der Geliebten. In ihren Augen ruhte die Ewigkeit  ich faßte ihre Hände, und die Thränen wurden ein funkelndes, unzerreißliches Band. Jahrtausende zogen abwärts in die Ferne, wie Ungewitter. An Ihrem Halse weint ich dem neuen Leben entzückende Thränen.  Es war der erste, einzige Traum  und erst seitdem fühl ich ewigen, unwandelbaren Glauben an den Himmel der Nacht und sein Licht, die Geliebte.

* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: no Posfácio deste Hinos à Noite..., conforme os pequenos traços biobibliográficos anotados pelo tradutor Felipe Vale da Silva, ficamos sabendo que o poeta Novalis, “ao testemunhar os dez anos da Revolução Francesa e contrastá-los com a vida pacata dos alemães, assumiu que a tarefa de sua geração era ainda maior. A mente humana deveria ser amplificada para que se pudesse atingir um estágio de plenitude e libertação almejado por todos. Para isso, toda a cultura humana deveria ser revolucionada. O nome dessa revolução, discutida  em um círculo seleto de amigos e publicada na revista Athenäum, ficou conhecido mais tarde como Romantismo. De 1798 até sua morte prematura em 1801, Novalis produziu as bases da teoria romântica com os amigos Friedrich Schelling, os irmãos Friedrich e August Schlegel, Dorothea Veit e Ludwig Tieck: foram três anos de trabalho intenso que alteraram para sempre a forma como lemos literatura (...) a arte literária foi declarada autônoma, independente dos ditames do entretenimento, da defesa da religião, da moral ou do Estado, e mesmo da coerência...”.
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; bibliografia: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Novalis*: Para cima me ergo, . . . (Hinos à Noite — IV, excerto)

Hinos à Noite - Novalis - Sebo Clepsidra
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[traduzido por Felipe Vale da Silva]

IV

(. . .)

Em mim sei que encontra o alvo último de tua missão liberdade celestial, regresso abençoado. Baixo uma dor furiosa, reconheço que te afastarás de nosso lar; prestarás resistência ao céu antigo e grandioso. Tua fúria e teu clamor serão inúteis. A cruz não se deixa reduzir a cinzas ela é uma flâmula de vitória de nossa espécie.

Para cima me ergo,
e as dores que ensejo
hão de ser pontadas
de ardente desejo.
Dentro de um momento
serei libertado,
deitar-me-ei ébrio
junto ao ventre amado.
Eterna existência
dentro de mim pulsa;
meu olho se inclina
percorre em tua busca.
Em todos os outeiros
teu brilho desbota,
uma sombra se espalha
e traz uma grinalda
Arrebata-me, ó amada,
pega-me, violenta,
de forma que eu ame
e enfim adormeça.
Sinto a morte avante
a galgar, vigorante,
Em bálsamo e éter
se verte meu sangue
Vivo pelos dias
com fé e destemor
às noites me esvaio
em sacro fervor.

(. . .)

Novalis

(Hymnem an die Nacht IV)

(. . .)

In mir fühl ich deiner Geschäftigkeit Ende himmlische Freiheit, selige Rückkehr. In wilden Schmerzen erkenn ich deine Entfernung von unsrer Heymath, deinen Widerstand gegen den alten, herrlichen Himmel. Deine Wuth und dein Toben ist vergebens. Unverbrennlich steht das Kreutz eine Siegesfahne unsers Geschlechts.

Hinüber wall ich,
Und jede Pein
Wird einst ein Stachel
Der Wollust sein.
Noch wenig Zeiten,
So bin ich los,
Und liege trunken
Der Liebe im Schoß.
Unendliches Leben
Wogt mächtig in mir
Ich schaue von oben
Herunter nach dir.
An jenem Hügel
Verlischt dein Glanz
Ein Schatten bringet
Den kühlenden Kranz.
O! sauge, Geliebter,
Gewaltig mich an,
Daß ich entschlummern
Und lieben kann.
Ich fühle des Todes
Verjüngende Flut,
Zu Balsam und Äther
Verwandelt mein Blut
Ich lebe bey Tage
Voll Glauben und Muth
Und sterbe die Nächte
In heiliger Glut.

(. . .)

* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: no Posfácio deste Hinos à Noite..., conforme os pequenos traços biobibliográficos anotados pelo tradutor Felipe Vale da Silva, ficamos sabendo que o poeta Novalis, “ao testemunhar os dez anos da Revolução Francesa e contrastá-los com a vida pacata dos alemães, assumiu que a tarefa de sua geração era ainda maior. A mente humana deveria ser amplificada para que se pudesse atingir um estágio de plenitude e libertação almejado por todos. Para isso, toda a cultura humana deveria ser revolucionada. O nome dessa revolução, discutida  em um círculo seleto de amigos e publicada na revista Athenäum, ficou conhecido mais tarde como Romantismo. De 1798 até sua morte prematura em 1801, Novalis produziu as bases da teoria romântica com os amigos Friedrich Schelling, os irmãos Friedrich e August Schlegel, Dorothea Veit e Ludwig Tieck: foram três anos de trabalho intenso que alteraram para sempre a forma como lemos literatura (...) a arte literária foi declarada autônoma, independente dos ditames do entretenimento, da defesa da religião, da moral ou do Estado, e mesmo da coerência...”.
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäumbibliografia: Klageneines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (textos filosóficos, Pólen, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.

sábado, 25 de abril de 2020

Novalis*: Mas algo avançou na mesa de jantar . . . (Hinos à Noite — V, excerto)

Hinos à Noite - Novalis - Sebo ClepsidraHinos à Noite - Novalis - Sebo Clepsidra
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[traduzido por Felipe Vale da Silva]

V

( . . . )

Mas algo avançou na mesa de jantar,
cobrindo os ânimos de abalo tétrico
terrível ao ponto de Deus malograr
de verter consolo nos peitos opressos.
Sina horrenda foi, plena de mistérios
fúria que não aplaca a súplica ou o gênio
pois a própria Morte invadiu o banquete
alastrando lágrima e ranger de dentes.
Cindidos para sempre de tudo aquilo
que atiça o peito com doce deleite;
para longe da amada, de entes queridos
tomou-lhes um anseio, uma dor pungente
Como um sonho penoso, para os mortos urdido
pois a luta fatal não convém aos viventes
quebrou-se a onda da glória e do gozo
Na rocha que os liga ao eterno desgosto.
Com espírito bravo e paixão elevada
Humano é buscar o belo na desgraça;
um jovem se deita com lume apagado
seu fim se aproxima tal e qual sons de harpas
Lembranças se fundem no abismo gelado
Assim soa o canto da triste verdade;
a Noite eterna persiste insondável;
emblema solene do Inalcançável.

( . . . )

A Vida Secreta das Palavras: Novalis
Novalis

(Hymnem an die Nacht
V)

( . . . )

Das furchtbar zu den frohen Tischen trat
Und das Gemüth in wilde Schrecken hüllte.
Hier wußten selbst die Götter keinen Rath,
Der die beklommne Brust mit Trost erfüllte.
Geheimnißvoll war dieses Unholds Pfad,
Des Wuth kein Flehn und keine Gabe stillte;
Es war der Tod, der dieses Lustgelag
Mit Angst und Schmerz und Thränen unterbrach.
Auf ewig nun von allem abgeschieden,
Was hier das Herz in süßer Wollust regt,
Getrennt von den Geliebten, die hienieden
Vergebne Sehnsucht, langes Weh bewegt,
Schien matter Traum dem Todten nur beschieden,
Ohnmächtiges Ringen nur ihm auferlegt.
Zerbrochen war die Woge des Genusses
Am Felsen des unendlichen Verdrusses.
Mit kühnem Geist und hoher Sinnenglut
Verschönte sich der Mensch die grause Larve,
Ein sanfter Jüngling löscht das Licht und ruht
Sanft wird das Ende, wie ein Wehn der Harfe.
Erinnerung schmilzt in kühler Schattenflut,
So sang das Lied dem traurigen Bedarfe.
Doch unenträthselt blieb die ewge Nacht,
Das ernste Zeichen einer fernen Macht.

( . . . )

* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: no Posfácio deste Hinos à Noite..., conforme os pequenos traços biobibliográficos anotados pelo tradutor Felipe Vale da Silva, ficamos sabendo que o poeta Novalis, “ao testemunhar os dez anos da Revolução Francesa e contrastá-los com a vida pacata dos alemães, assumiu que a tarefa de sua geração era ainda maior. A mente humana deveria ser amplificada para que se pudesse atingir um estágio de plenitude e libertação almejado por todos. Para isso, toda a cultura humana deveria ser revolucionada. O nome dessa revolução, discutida  em um círculo seleto de amigos e publicada na revista Athenäum, ficou conhecido mais tarde como Romantismo. De 1798 até sua morte prematura em 1801, Novalis produziu as bases da teoria romântica com os amigos Friedrich Schelling, os irmãos Friedrich e August Schlegel, Dorothea Veit e Ludwig Tieck: foram três anos de trabalho intenso que alteraram para sempre a forma como lemos literatura (...) a arte literária foi declarada autônoma, independente dos ditames do entretenimento, da defesa da religião, da moral ou do Estado, e mesmo da coerência...”.
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Hinos à Noite — Novalis, Tradução e Posfácio de Felipe Vale da Silva, Apresentação de Claudio Willer e Colagens de Filipe Florence Rios, edição bilíngüe, 2019, Clepsidra, São Paulo — SP; Novalis (1772 1801) ou Freiher von Hardenberg, ou ainda Georg Phillip Friedrich von Hardenberg, alemão de Wiederstedt, Saxônia, estudou Direito na Universidade de Jena, completou seus estudos jurídicos em Wittenberg, foi poeta, escritor e filósofo; o poeta sofreu influências de Goethe, Fichte e de outros pensadores de sua época; parte de sua obra foi publicada no periódico Der Neue teutsche Merkur e na revista Athenäum; bibliografia: Klagen eines Jünglings (Lamento de um jovem, 1791), Blumen (Flores, 1798), Blüthenstaub (Pólentextos filosóficos, 1798), Hymnen an die Nacht (Hinos à Noite, 17991800), Sammlung von Fragmenten und Studien (Coletânea de Fragmentos e Estudos, 17991800), Geistliche Lieder (Canções espirituais, 1802) e outros textos em verso e prosa e filosóficos os quais, devido a sua morte prematura, muitos vieram à luz de forma incompleta e/ou inacabada.