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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Cruz e Sousa: O padre

 
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A João Lopes

Um padre escravocrata!... Horror!

          Um padre, o apóstolo da Igreja, que deveria ser o arrimo dos que sofrem, o sacrário da bondade, o amparo da inocência, o atleta civilizador da cruz, a cornucópia do amor, das bênçãos imaculadas, o reflexo do Cristo...
          Um padre que comunga, que bate nos peitos, religiosamente, automaticamente, que se confessa, que jejua, que reza o  Orate fratres, que prega os preceitos evangélicos, bradando aos que caem surge et ambula.
          Um escravocrata de... batina e breviário... horror!
          Fazer da Igreja uma senzala, dos dogmas sacros leis de impiedade, da estola um vergalho, do missal um prostíbulo...
          Um padre, amancebado com a treva, de espingarda a tiracolo como um pirata negreiro, de navalha em punho, como um garoto, para assassinar a consciência.
          Um canibal que pega nos instintos e atira-os à vala comum da noite da matéria onde se revolvem as larvas esverdeadas e vítreas da podridão moral.
          Um padre que benze-se e reza, instante a instante, que gagueja à frente do cadáver o aforismo de Horácio  Hodie mihi cras tibi.
          Um padre que deixando explosir todas as interjeições da ira, estigmatiza a abolição.
          Ela há de fazer-se malgrado os exorcismos crus dos padres escravocratas; depende de um esforço moral e os esforços morais são, quase sempre, para a alta filosofia, mais do que os esforços físicos o fio condutor da restauração política de um país!...
          O interesse egoístico de um indivíduo não pode prevalecer sobre o interesse coletivo de uma nação, disse-o um moço de alevantado talento, Artur Rocha.
          Não é com a ênfase dogmática do didatismo ou com a fraseologia tecnológica dos cinzelados folhetins de Teófilo Gautier que o trabalho da abolição se fará.
          Mas com a palavra educada, vibrante essa palavra que fulmina profunda, nova, salutar como as teorias de Darwin.
          Com a palavra inflamável, com a palavra que é o raio e dinamite, como o era na boca de Gambetta, a maior concretização do estupendo — depois do sol.
          A palavra que ri... de indignação; um riso convulso... de réprobo, funambulesco... de jogral.
          Um riso que atravessa séculos como o de Voltaire.
          Um riso aberto, franco, eloquentemente sinistro.
          O riso das trevas, na noite do calvário.
          O riso de um inferno... dantesco.
          Ouves, padre?...
          Compreendes, sacerdote?...
          Entendes, apóstolo?...
          Então para que empunhas o chicote e vais vibrando, vibrando, sem compaixão, sem amor, sem te lembrares daquele olhar doce e aflitivo que tinha sobre a cruz, o filho de Maria?...
          O filho de Maria, sabes?!...
          Aquele revolucionário do bem e aquele cordeiro manso, manso como um ósculo da alvorada nas grimpas da montanha, como o luar a se esbater num lago diamantino...
          Lembras-te?!...
          Era tão triste aquilo...
          Não era padre, ó padre?!...
          Não havia naquela suprema angústia, naquela dor cruciante, naquela agonia espedaçadora, as mesmas contorções de uma cólica frenética, os mesmos arrancos informes de um escravo?...
          Não compreendes se açoitares um mísero que for pai, uma desgraçada que for mãe, as bocas dos filhinhos, daquelas criancinhas negras, sintetizando o remorso, o aguilhão da tua consciência, se abrirão nuns gritos desoladores que, como uns bisturis envenenados, trespassar-te-ão as carnes?...
          Não compreendes que de seus olhos, acostumados a paralisarem-se ante o terror, irromperão as lágrimas, esse líquido precioso das alminhas inocentes?!!...
          Pois tu, nunca choraste?!...
          Nunca sentiste os engasgos de um soluço saltarem-te pela garganta, quando te lembras de trocar as tuas magníficas conquistas, os teus manjares especiais, os teus licores dulçorosíssimos pela noite escura, muito escura, onde grasnam surdamente as aves da treva, onde Dante se acentua no Lasciate ogni speranza, onde os espíritos vis desaparecem e os Homeros e Camões e Virgílios surgem e se levantam pelo braço hercúleo da posteridade, pelo fôlego intérmino e secular da História?
          Nunca?!...
          Sim, tu estás comigo, padre!...
          Estás!...
          És bondoso, eu sei, tens a alma tão serena e tão lúcida como uma imagem de N. S. da Conceição.
          Eu sei disso!...
          Olha, quando morreres se é que morres, irás de palmito e capela, na mudez dos justos e as virgens tímidas e cloróticas, entoando grave De profundis, murmurarão lacrimosas:
           Coitado, foi o pai carinhoso das donzelas...
          Requiescat in pace!...
          Que bonito será, não!...
          E depois o céu!
          Sim, porque tu irás para o céu!
          Não crês no céu, padre?
          Pois crê, esses filólogos mentem, têm princípios errôneos e tu, padre, és um sábio...
          Tu és bom...
          Porém... por Deus, como é que vendes a Cristo como um quilo de carne verde no mercado?!...
          Ah! É verdade, és muito pobre, andas com os sapatos rotos, não tens que comer e... és muito caridoso...
          Mas, escuta, vem cá:
          Eu tenho também minhas fantasias; gosto de sonhar às vezes com o azul.
          O Azul!...
          Deslumbro-me quando o sol se atufa no oceano, espadanando os raios purpureados, como flechas de fogo, pela enormidade côncava do espaço; inebrio-me quando a natureza com seu tropicalismo, ergue-se do banho de alvoradas, jorrando nos organismos de ouro o licor olímpico e santo do ideal, as músicas maviosíssimas e puras da inspiração, nos crânios estrelejados!...
          Pois façamos uma cousa:
          Eu escrevo um livro de versos que intitularei:

O abutre de batina

puros alexandrinos, todos iguais, corretos, com os acentos indispensáveis, com aquele tic da sexta, tipo elzevir, papel melado e ofereço-to, dou-to.
          Prescindo dos meus direitos de autor e tu o assinas!...
          Com os diabos, hás de ter influência no teu círculo.
          Imprimes um milhão de exemplares, vende-os e assim terás loiras para a tua subsistência, porque tu és paupérrimo, padre, e necessitas mesmo de dinheiro, porque tens família, muitos afilhados que te pedem a bênção e precisas dar-lhes no dia de teu santo nome um mimo qualquer.
          Faz isso, mas... não te metas com o abolicionismo; é a ideia que se avigora.
          Talvez digas, mastigando o teu latim:  Primo vivere deinde philosophari.
          Mas é porque tu és míope e os míopes não podem encarar o sol...
          Mas eu dou-te uns óculos, uns óculos feitos da mais fina pele dos negros que tu azorragas...
          Pode ser que a influência animal da matéria excite o espírito e que tu... vejas.
          Pode ser...
          Há cegos de nascença que veem... pelos olhos da alma.
          E se tu és padre e se tu és metafísico... deves ter alma...
          Compreendes?...
          Faz-se preciso que desapareçam os Torquemadas, os Arbues, maceradores da carne, como tu, padre.
          Em vez de prédicas beatíficas, em vez de reverências hipócritas, proclama antes a insurreição...
          Tens dentro de ti, bate-te no peito, nas palpitações da seiva, um coração que eu penso não ser um músculo oco.
          Vibra-o pois, fibra por fibra, se não queres que os meus ditirambos e sarcasmos, quentes, inflamados, como brasas, persigam-te eternamente, por toda a parte, no fundo de tua consciência, como uns outros medonhos Camilos de Zola; vibra-o se não queres que eu te estoure na cabeça um conto sinistro, negro de Edgar Poe.
          É tempo de zurzirmos os escravocratas no tronco do direito, a vergastadas de luz...
          Sejam-te as virtudes teologais, padre, a liberdade, a igualdade e a fraternidade maravilhosa trilogia do amor.
          Unge-te nas claridões modernas e expansivas dessas três veias artérias da verdadeira Filosofia Universal.

[texto publicado em Tropos e Fantasias — 1885]

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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Adelaide Petters Lessa: Crente

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Cantava hinos luminosamente.
Gritante a formosura de seu rosto.
Cabelos longos, Bíblia aos domingos.

Beleza de seu corpo disfarçada
pelos babados fartos
do vestido engomado, rosa nívea.

       Queria um namorado, um servo do Senhor,
              candeia de Jeová.

              De iron horse o sedutor lançou
              convite à mais bonita na calçada.
Cantante, pia, acreditou
que iria, na garupa, conhecer
a mãe, o pai, a casa dele, a avó
após o culto de uma Páscoa santa.
Branco engomou o seu melhor vestido
de cassa rebordada.
Derrubada voltou, em lágrimas e suja,
mordida, violada, gaga, em soluços
de lírio praguejante:

                     — Siquém deflorador. Maldito.
                       Piolho das terras do Egito.
                       Profanador. Sacrílego. Maligno.
                       Debulha de satã. Plebeu das Trevas.
                       Agora sou Diná, contaminada...

Chamava pela espada
de seu irmão do Norte,
              tão distante de Hamor,
              pai de Siquém.

                                     (Gênese, 34)

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Quase poética do meu próximo — Adelaide Petters Lessa, 2000, Escrituras Editora, São Paulo — SP; Adelaide Petters Lessa, nascida em 1926, paulista e paulistana, licenciada em Pedagogia e doutora em Ciências Humanas (ambas pela USP-SP), é educadora, psicóloga clínica, professora universitária, tradutora e poeta; escreveu e publicou, em poesia, Badalo (1949), Amoressência (1970), O Jogo do Êxtase (1995), Augusto (1999), Quase Poética do meu Próximo (2000), Deus — o Sol da Meia-Noite e, em prosa, Precognição, Paragnose do Futuro, Videntes de Cristo...

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Voltaire: O Poema sobre o Desastre de Lisboa — 1755 (Trad. de Vasco Graça Moura)


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Ó míseros mortais! ó terra deplorável!
De todos os mortais monturo inextricável!
Eterno sustentar de inútil dor também!
Filósofos que em vão gritais: "Tudo está bem;
Vinde pois, contemplai ruínas desoladas,
restos, farrapos só, cinzas desventuradas,
os meninos e as mães, os seus corpos em pilhas,
membros ao deus-dará no mármore em estilhas,
desgraçados cem mil que a terra já devora,
em sangue, a espedaçar-se, e a palpitar embora",
que soterrados são, nenhum socorro atinam
e em horrível tormento os tristes dias finam!
Aos gritos mudos já das vozes expirando,
à cena de pavor das cinzas fumegando,
direis: "Efeito tal de eternas leis se colha
que de um Deus livre e bom carecem de uma escolha"?
Direis do amontoar que as vítimas oprime:
"Deus vingou-se e a morte os faz pagar seu crime"?
As crianças que crime ou falta terão, qual?,
esmagadas sangrando em seio maternal?
Lisboa, que se foi, pois mais vícios a afogam
que a Londres ou Paris, que nas delícias vogam?
Lisboa é destruída e dança-se em Paris.
Tranquilos a assistir, espíritos viris,
vendo a vossos irmãos as vidas naufragadas,
vós procurais em paz as causas às trovoadas:
Mas se à sorte adversa os golpes aparais,
mais humanos então, vós como nós chorais.
Crede-me, quando a terra entreabre abismo ingente,
ais legítimos dou, lamento-me inocente.
Tendo a todo redor voltas cruéis da sorte,
e malvado furor, e ar madilhada a morte,
dos elementos só sofrendo as investidas,
deixai, se estais conosco, as queixas ser ouvidas.
É o orgulho, dizeis, em sedição maior,
que quer que estando mal, ‘stivessemos melhor.
Pois ide interrogar as margens lá do Tejo;
nos restos remexei sangrentos do despejo;
perguntai a quem morre em tão medonho exílio
se é o orgulho a gritar: "Céu, vem em meu auxílio!
desta miséria humana, ó céu, sê solidário!"
"Tudo está bem, dizeis, e tudo é necessário."
Todo o universo então, sem o inferno abissal,
sem Lisboa engolir, se acresceria em mal?
Seguros estarei de a causa eterna aqui,
que tudo sabe e faz, tudo criou pra si,
não nos poder lançar em tão triste clima
sem acender vulcões, andando nós por cima?
Pois assim limitais a mais alta potência?
Assim a proibis de exercitar clemência?
O eterno artesão em suas mãos não tem
prontos meios sem fim aos fins que lhe convêm?
Quisera humilde, e sem que ao mestre recalcitre,
que esse gosto a inflamar o enxofre e o salitre
seu fogo fosse atear lá no deserto imerso.
Eu respeito o meu Deus, porém amo o universo.
Se ousa o homem gemer de um flagelo horrível,
não é orgulho, não! Apenas é sensível.
Os que habitam em dor os bordos desolados,
dos tormentos, do horror, seriam consolados
se lhes dissesse alguém: "Caí, morrei tranquilos;
para um mundo feliz, perdeis vossos asilos;
outras mãos erguerão vosso palácio a arder,
nos muros a ruir, mais povos vão nascer;
o Norte ganha mais com tudo o que perdeis;
vosso mal é um bem, segundo as gerais leis;
Deus vê-vos tal e qual ele olha os vermes vis
de que na cova sois a presa e que nutris?"
Aos desvalidos é horrível tal linguagem!
Minha dor, ó Cruéis, não consintais que ultrajem.
Não, não me apresenteis ao peito em ansiedade
as imutáveis leis de uma necessidade,
corpos a encadear, e espíritos e mundos.
Ó sábios a sonhar! Quiméricos profundos!
Deus segura a cadeia e não é encadeado;
seu benfazejo ser tudo há determinado;
é livre e justo, e não cruel nem vingativo.
Porque sofremos pois num jugo equitativo?
Mister o nó fatal seria desatar,
nosso mal curareis tratando de o negar?
Cada povo, a tremer, sob uma mão divina,
na origem para o mal que vós negais se obstina.
E se essa eterna lei que move os elementos
penhascos faz cair sob o esforçar dos ventos,
se aos carvalhos o raio a vasta fronde abrasa,
não sentem todavia o golpe que os arrasa:
Mas vivo, mas sinto eu, mas, coração opresso,
a esse Deus que o formou o seu socorro peço.
Filhos do Omnipotente e míseros nascemos
e para o pai comum as mãos eis que estendemos.
O vaso, sabido é, não diz nunca ao oleiro:
"Porque sou eu tão vil, tão fraco e tão grosseiro?"
Da fala não tem dom, não tem um pensamento;
essa urna que ao formar-se cai no pavimento,
não recebeu da mão do oleiro um coração
que bens quisesse ter e sentisse aflição.
"Essa aflição, dizeis, é o bem de um outro ser."
Do meu corpo a sangrar mil vermes vão nascer;
quando a morte põe fim ao mal que eu hei sofrido,
bela consolação, por bichos ser comido!
Calculadores vãos dos dramas humanais,
não me consoleis pois, que as penas me azedais;
em vós não vejo eu mais que esforço impotente
de orgulho em sorte má que finge ser contente.
Do grande todo só fraca parte hei-de eu ser:
sim, mas os animais, forçados a viver,
e todo ser que sente e à mesma lei nasceu
têm de viver na dor e de morrer como eu.
Sob a tímida presa, o encarniçado abutre
dos membros dela em sangue a bel-prazer se nutre;
para ele tudo é bem; porém e sem demora
a águia de bico de aço o abutre já devora;
o homem com mortal chumbo atinge a águia altaneira:
e ele em campo de Marte acaba sobre a poeira,
dos golpes a sangrar, junto aos mais moribundos,
de pasto indo servir aos pássaros imundos.
Os seres de todo o mundo assim todos padecem;
nados para o tormento, uns por outros perecem:
e vós arranjareis, nesse caos fatal,
do mal de cada ser, ventura universal!
Que ventura! Ó mortal, que és fraco e miserável!
Gritais: "Tudo está bem" e a voz é lamentável,
o mundo vos desmente e vosso coração
cem vezes vos refuta a errada concepção.
Humanos, animais, elementos em guerra.
Preciso é confessar que o mal está na terra:
seu princípio secreto é-nos desconhecido.
Do autor de todo o bem o mal terá saído?
Pois o negro Tifão, o bárbaro Arimano,
nos forçam a sofrer por seu mando tirano?
Meu espírito não crê em monstros odiosos
de que o mundo a tremer fez deuses poderosos.
Mas como conceber, só de bondade, um Deus
que os bens prodigaliza aos caros filhos seus
e neles derramou só males às mãos cheias?
Que olhar poderá ver-lhe o fundo das ideias?
Não ia o mal nascer do ser que é mais perfeito;
não vem de mais ninguém, se é Deus o só sujeito.
E todavia existe. Oh, bem tristes verdades!
Oh, mistura de espanto e de contrariedades!
A nossa raça aflita um Deus vem consolar
e a terra visitou sem a modificar!
Que o não pôde, um sofista em arrogância diz;
diz outro "Pode sim, o ponto é que o não quis;
decerto há-de querer"; e enquanto se arrazoa
há fogo subterrâneo a engolir Lisboa
e de cidades trinta os restos a espalhar,
do ensanguentado Tejo ao gaditano mar.
Ou nasce o homem culpado e Deus pune-lhe a raça,
ou único senhor que ser e espaço traça,
sem pena e sem se irar, tranquilo, indiferente,
da sua própria lei vai na eterna torrente;
ou contra ele a matéria informe se rebela
e em si defeitos traz necessários como ela;
ou Deus nos põe a prova e essa mortal viagem
para um eterno mundo estreita é a passagem.
Nós sofremos aqui dor passageira, sim:
a própria morte é um bem que às misérias põe fim.
Mas um dia ao sair desse caminho atroz,
dirá que mereceu ventura algum de nós?
Seja lá como for, é certo que se trema.
Nada sabido é, nada há que não se tema.
À natureza muda as questões pôr não vale;
precisa-se de um Deus que ao género humano fale.
Só ele poderá a sua obra explicar,
ao fraco dar consolo e ao sábio iluminar.
Sem ele, abandonado erra, duvida e falha,
o homem que busca em vão apoio numa palha.
Leibniz não me ensinou por quais nós invisíveis,
na ordem do melhor dos mundos já possíveis,
em desordem eterna, um caos de desventura
a nosso vão prazer a dor real mistura,
nem por que é que os dois, culpado e inocente,
o inevitável mal sofrer hão-de igualmente.
Nem posso conceber tudo estivesse bem:
sendo eu como um doutor, ah, nada sei porém.
O homem, diz Platão, já teve asas; e mais:
impenetrável corpo às agressões mortais;
o passamento, a dor não vinham a seu lado.
Quão diverso hoje ele é desse brilhante estado!
Rasteja, sofre, morre; e assim quanto se gera;
e na destruição a natureza impera.
Frágil composto pois, de nervos e ossos feito,
e a qualquer colisão de elementos atreito;
tal mistura de sangue e líquidos e pó,
para se dissolver se reuniu tão-só;
e em seu pronto sentir, os nervos delicados
se submetem à dor, ministra de finados:
da voz da natureza é quanto me asseguro.
Abandono Platão, mando embora Epicuro.
Mais que os dois sabe Bayle; e eu vou-o consultar:
de balança na mão, ensina a duvidar,
sábio e grande demais para não ter sistema,
a todos destruiu, e é contra si que rema:
como o cego a lutar que os Filisteus prenderam
sob os muros caiu que as mãos dele abateram.
Do espírita que pode a mais vasta conquista?
Nada; o livro da sorte encerra à nossa vista.
O homem, estranho a si, é do homem ignorado.
Onde estou, onde vou, quem sou, donde tirado?
Átomos em tortura em lama que se empasta,
cuja sorte se joga e a morte então arrasta,
mas postos a pensar, e átomos que viram,
guiados pela mente os céus que já mediram;
ao seio do infinito aspira o nosso ser,
sem um momento só nos ver, nos conhecer.
O mundo, este teatro, orgulho e erro abalam,
e é de infortúnios só que de ventura falam.
Busca-se o bem-estar em queixas a gemer:
a morte ninguém quer, ninguém quer renascer.
Às vezes, quando à dor os dias consagramos,
pela mão do prazer os prantos enxugamos;
mas o prazer se vai e como a sombra passa;
sem conta nossos são perdas, choro e desgraça.
O passado é-nos só uma lembrança triste;
e o presente é atroz, se o porvir não existe,
se a noite tumular no ser que pensa avança.
Bem será tudo um dia, é essa a nossa esp’rança;
hoje tudo está bem, é essa a ilusão.
Com sábios me enganei e só Deus tem razão.
Humilde nos meus ais, sofrendo em impotência,
eu não atacarei porém a Providência.
Viram que outrora em tom não lúgubre cantei
do mais doce prazer a sedutora lei:
outro tempo e costume: a idade dá sageza,
do humano extraviar partilho ora a fraqueza,
quero na treva espessa a mim iluminar,
e apenas sei sofrer e já não murmurar.
Um califa uma vez, como a sua hora desse,
ao seu Deus foi dizer apenas uma prece:
"Ser sem limite e rei único na verdade,
trago-te o que não tens na tua imensidade,
faltas, erro, ignorância e males em pujança."
Mas inda ele juntar podia a esperança.


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Poème Sur Le Désastre De Lisbonne, Voltaire  O Poema Sobre o Desastre de Lisboa de Voltaire, Tradução de Vasco Graça Moura; François Marie Arouet (1694  1778), de pseudônimo Voltaire, nascido em Paris, foi escritor, ensaísta, polemista satírico e filósofo do iluminismo francês; tornou-se conhecido literária e filosoficamente pelo seu pseudônimo; escritor prolífico produziu algumas dezenas de obras nas mais diversas formas literárias  peças de teatro, poemas, romances, ensaios, textos científicos e históricos, milhares de cartas e panfletos; alguns de seus escritos: Édipo (peça teatral, 1715), La Henríade (poema épico, 1728), Cartas Filosóficas (1734), Poème Sur Le Désastre De Lisbonne (1756), Cândido ou o Otimismo (novela satírica, 1759), Tratado sobre a Tolerância (1763), Dictionnaire philosofhique Portatif (1764)...; por usar suas obras para criticar a Igreja Católica e o Absolutismo, os privilégios do clero e da nobreza, foi preso duas vezes.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Augusto de Lima: Evangelho e Alcorão


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Num tom de voz que a piedade ungia,
falava o padre ao crente do Alcorão,
que no leito de morte se estorcia:
— "Implora de Jesus a compaixão".

"Deixa Mafoma, ó filho da heresia,
e abraça a sacrossanta religião
do que morreu por nós..." E concluía:
"Se te queres salvar morre cristão."

Ao filho de Jesus, o moribundo,
ergueu o olhar esbranquiçado e fundo,
onde da morte já descia o véu.

Mas logo se estorceu na ânsia extrema
e ao ver da Redenção o triste emblema,
ruge expirando: "Alá nunca morreu!".
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Poesia Parnasiana  Antologia, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo —  SP; Antônio Augusto de Lima (1859  1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje, cidade de Nova Lima ), fez seus estudos no Seminário de Mariana, no Colégio do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto e graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1882); além de poeta, foi jornalista, magistrado, jurista, professor e político; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro) e Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro).

sábado, 21 de abril de 2012

Drauzio Varella: Sou ateu!

Reproduzo texto de Drauzio Varella, médico cancerologista formado pela USP e escritor (Folha de São Paulo, 21.04.2012):

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Intolerância religiosa
     SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.
     A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.
     Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.
     Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.
     Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.
     Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.
     Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?
     Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?
     Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?
     O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.
     Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.
     Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.
     O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.
     Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.
     Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.
     Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.

domingo, 12 de dezembro de 2010

De homens e de deuses... (2)

Reproduzo texto da Folha de São Paulo (23.12.2006) no qual o pensador e articulista Renato Janine Ribeiro tece seus comentários a respeito da frase "Se Deus não existe, tudo é permitido" contida no romance "Irmãos Karamazov" de Fiódor Dostoiévski. Com um clique no título acima, entra-se em contato com um outro texto de um outro articulista sobre o mesmo assunto aqui abordado.
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Folha de São Paulo - São Paulo, sábado, 23 de dezembro de 2006

TENDÊNCIAS/DEBATES

"Se Deus não existe, tudo é permitido"? ("Irmãos Karamazov", Fiódor Dostoiévski)
NÃO

Uma ética humana
RENATO JANINE RIBEIRO

A FRASE , acima convertida em pergunta, é do século 19, mas a resposta "não" a ela somente se torna possível no século 18. Parece um paradoxo, mas me explico. Até o tempo das "Luzes", a esmagadora maioria dos pensadores ocidentais concordaria com o enunciado devido a Dostoiévski, isto é, com a idéia de que o ateu é imoral. Quem não acredita no Criador não seria capaz de respeitar nenhuma regra ética.
Assim, por volta de 1650, o bispo anglicano John Bramhall, um dos críticos mais ásperos do inglês Thomas Hobbes (que, por sinal, não era ateu), acusa o filósofo de não crer em Deus: "Hobbes acaba com o céu", diz ele, "e, pior: com o inferno".
Gosto muito desse "pior", que dá a chave do enigma. A acusação de ateísmo na verdade oculta o que realmente importa. O problema, para o fiel Bramhall, não é tanto se o céu existe. É que precisa haver um inferno, para que a multidão parva obedeça. Anos depois, quando o libertino conde Rochester agoniza, o pastor o convence, no leito de morte, a dizer-se arrependido. O conde não crê em Deus, mas é persuadido pelo argumento de que, se um grande do reino morrer sem os sacramentos, o populacho não será mais contido pelo medo do inferno.
Com as "Luzes", isso muda. A idéia de que, para ser moral, seria preciso acreditar em Deus (isto é, no Deus que amedronta, que pune: o Deus do inferno) é contestada em nome de uma ética humana, que possa valer mesmo sem o medo do castigo eterno.
Talvez seja Kant quem deu o passo decisivo para tanto, quando formulou um princípio cujo legado pode ser assim simplificado: a cada ação que cometo, estou reconhecendo o direito (ou o dever) de todo ser humano a também cometê-la.
Isso -que em "kantês" significa cada ser humano se tornar legislador ético- implica que, se desobedeço aos sinais de trânsito, se procuro levar vantagem em tudo, confiro a todos os meus semelhantes os mesmos direitos. Ora, é óbvio que, assim, o convívio social seria impossível. Provavelmente, teremos vidas sórdidas, sofridas, cruéis e curtas se agirmos dessa maneira. Por conseguinte, a cada ação que eu pratique, devo refletir muito bem se quero autorizar todos os outros a praticá-la. Se sim, ótimo. Se não, devo rever minha posição.
A partir dessa teoria, que resumi em linguagem que já não é kantiana, fica possível uma ética somente dos humanos entre si. Não é mais imprescindível a Revelação, menos ainda a punição por toda a eternidade. O conteúdo dos mandamentos não depende mais de Deus. Pode ser constituído em nosso próprio mundo. A moral e a ética deixam de apelar a uma transcendência, ao poder do Altíssimo, e se constroem neste mundo imanente, o nosso, o único que conhecemos.
Não quer dizer que essa idéia de uma ética sem o medo a Deus se tenha tornado unanimidade. Muitos ainda acham que Deus é necessário para explicar o que é certo e errado (nós não seríamos capazes disso) ou para punir quem se desvie do bom caminho (idem, ibidem). Mas, se hoje a conduta ética dos ateus ou indiferentes não tem nada a dever à dos religiosos e sobretudo à dos intolerantes, é porque essa tese moderna de uma ética humana tem valor e validade.
É importante concluir com duas notas. A primeira é que uma ética assim inspirada em Kant (mas que altera algumas de suas teses) é capaz de evoluir. No século 18, possivelmente ela admitiria a pena de morte; hoje, provavelmente, não. Muitas questões ficam em aberto, como aborto e eutanásia. O crucial é a forma da escolha ética (que cada um seja desafiado a enunciar seus valores, sob a condição de reconhecê-los como universais ou, pelo menos, recíprocos), mais que um conteúdo fixado de vez por todas.
A segunda e curiosa conclusão é que uma ética assim humana não é necessariamente atéia. Posso ou não acreditar em Deus, mas eu ser ou não ético deixa de estar subordinado ao medo de um Deus assustador. Uns serão éticos, mesmo não acreditando n'Ele. Por sua vez, outros cultuarão um Deus da justiça e do amor, mais que da repressão e do castigo. A crença em Deus ganha, em vez de perder, quando Ele corta o vínculo preferencial com o inferno e o medo.


RENATO JANINE RIBEIRO, 57, é professor titular de ética e filosofia política da USP. É autor, entre outros livros, de "Ética na Política" (Sesc) e de "A Sociedade contra o Social" (Cia. das Letras).