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segunda-feira, 3 de abril de 2023

Safo de Lesbos: "Ode de Óstraco" *

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[traduzido por Giuliana Ragusa]

Para cá, até mim, de Creta . . . templo
sagrado onde . . . e agradável bosque
de macieiras, e altares nele são esfumeados
com incenso.

E nele água fria murmura por entre os ramos
de macieiras, e pelas rosas todo o lugar
está sombreado, e das trêmulas folhas
torpor divino desce.

E nele o prado pasto de cavalos viceja
. . . com flores, e os ventos
docemente sopram . . .

Aqui tu . . . tomando, ó Cípris,
nos áureos cálices, delicadamente,
néctar, misturado às festividades,
vinho-vertendo . . .

Safo de Lesbos

†δευρυμμ̣εκρητε̣σ̣ιπ[.]ρ[ ].† ναῦον
ἄγνον ὄππ[αι ] χάριεν μὲν ἄλσος
μαλί[αν], βῶμοι δ’ ἔ<ν>ιθυμιάμε-
νοι [λι]βανώτω<ι>·

ἐν δ’ ὔδωρ ψῦχρον κελάδει δι’ ὔσδων
μαλίνων, βρόδοισι δὲ παῖς ὀ χῶρος
ἐσκίαστ’, αἰθυσσομένων δὲ φύλλων
κῶμα †καταιριον·

ἐν δὲ λείμων ἰππόβοτος τέθαλε
†τω̣τ…ι̣ριννοις† ἄνθεσιν, αἰ <δ’> ἄηται
μέλλιχα πν[έο]ισιν [
[ ]

ἔνθα δὴ σὺ †συ.αν† ἔλοισα Κύπρι
χρυσίαισιν ἐν κυλίκεσσιν ἄβρως
<ὀ>μ<με>μείχμενον θαλίαισι νέκταρ
οἰνοχόαισον

* Registro de Giuliano Ragusa, pesquisadora, organizadora e tradutora dos fragmentos/poemas deste Hino a Afrodite e outros poemas: Fragmento 2 ou "Ode de Óstraco Eis outro hino clético, em que se destaca o detalhamento do local ao qual Afrodite é convidada a vir, saindo de Creta. [...] Atente-se para o caráter ativo da epifania, que reforça a idéia da fusão num fragmento de linguagem intensamente sinestésica. Claramente, há o desejo de proximidade entre a voz poética e a deusa. A fonte principal do texto é um óstraco ou caco de cerâmica  material abundante na Grécia antiga e muito utilizado para a escrita , datado do século III a.C., o que faz desta a fonte de transmissão a mais antiga da obra de Safo, e a única anterior à época das edições alexandrinas.
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Safo de Lesbos: Hino a Afrodite e outros poemas Organização, Introdução, Texto e Tradução dos fragmentos/poemas, por Giuliana Ragusa, 2011, Editora Hedra, São Paulo — SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre 630 a.C. e 604 a.C. com morte em data incerta), grega de Éresos, ilha de Lesbos, muito pouco ou quase nada se sabe; viveu a maior parte de sua vida em Mitilene, também em Lesbos, e foi poetisa, além de tecelã e sacerdotisa; Safo é tida como a primeira poetisa de quem se tem registro na história do nosso mundo ocidental; de sua obra, chegaram até nós apenas 650 versos (fragmentos de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a Ode a Afrodite ou Hino a Afrodite, preservado que fora em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); além da poesia lírica, os antigos comentadores registraram que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; além de tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; é tido que Safo criou uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, onde estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção da deusa Afrodite e das musas; a poetisa foi chamada de ‘décima musa’, por Platão (428/427 a.C. 348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Catulo (87 a.C.? 57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778 1827) e Giacomo Leopardi (1798 1837); são vários os poetas que, em suas criações, se referem a Safo e a sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Safo de Lesbos: Hino a Afrodite


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[traduzido por Giuliana Ragusa]

De flóreo manto furta-cor, ó imortal Afrodite,
filha de Zeus, tecelã de ardis, suplico-te:
não me dormes com angústias e náuseas,
veneranda, o coração,

mas para cá vem, se já outrora 
a minha voz ouvindo de longe  me
atendeste, e de teu pai deixando a casa
áurea a carruagem

atrelando viste. E belos te conduziram
velozes pardais em torno da terra negra 
rápidas asas turbilhonando, céu abaixo e
pelo meio do éter.

De pronto chegaram. E tu, ó venturosa,
sorrindo em tua imortal face,
indagaste por que de novo sofro e por que
de novo te invoco,

e o que mais quero que me aconteça em meu
desvairado coração. “Quem de novo devo persuadir
(?) ao teu amor? Quem, ó
Safo, te maltrata?

Pois se ela foge, logo perseguirá;
e se presentes não aceita, em troca os dará;
e se não ama, logo amará,
mesmo que não queira”.

Vem até mim também agora, e liberta-me
dos duros pesares, e tudo que cumprir meu
coração deseja, cumpre, e, tu mesma,
sê minha aliada de lutas.

Safo de Lesbos

Ποικιλόθρον᾽ ὰθάνατ᾽ ᾽Αφροδιτα,
παῖ Δίοσ, δολόπλοκε, λίσσομαί σε
μή μ᾽ ἄσαισι μήτ᾽ ὀνίαισι δάμνα,
πότνια, θῦμον.

ἀλλά τυίδ᾽ ἔλθ᾽, αἴποτα κἀτέρωτα
τᾶσ ἔμασ αύδωσ αἴοισα πήλγι
ἔκλυεσ πάτροσ δὲ δόμον λίποισα
χρύσιον ἦλθεσ

ἄρμ᾽ ὐποζεύξαια, κάλοι δέ σ᾽ ἆγον
ὤκεεσ στροῦθοι περὶ γᾶσ μελαίνασ
πύκνα δινεῦντεσ πτέῤ ἀπ᾽ ὠράνω
αἴθεροσ διὰ μέσσω.

αῖψα δ᾽ ἐχίκοντο, σὺ δ᾽, ὦ μάσαιρα
μειδιάσαισ᾽ ἀθάνατῳ προσώπῳ,
ἤρἐ ὄττι δηὖτε πέπονθα κὤττι
δἦγτε κάλημι

κὤττι μοι μάλιστα θέλω γένεσθαι
μαινόλᾳ θύμῳ, τίνα δηὖτε πείθω
μαῖσ ἄγην ἐσ σὰν φιλότατα τίσ τ, ὦ
Πσάπφ᾽, ἀδίκηει;

καὶ γάρ αἰ φεύγει, ταχέωσ διώξει,
αἰ δὲ δῶρα μὴ δέκετ ἀλλά δώσει,
αἰ δὲ μὴ φίλει ταχέωσ φιλήσει,
κωὐκ ἐθέλοισα.

ἔλθε μοι καὶ νῦν, χαλεπᾶν δὲ λῦσον
ἐκ μερίμναν ὄσσα δέ μοι τέλεσσαι
θῦμοσ ἰμμέρρει τέλεσον, σὐ δ᾽ αὔτα
σύμμαχοσ ἔσσο.
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Safo de Lesbos: Hino a Afrodite e outros poemas Organização, Introdução, Texto e Tradução dos fragmentos/poemas, por Giuliana Ragusa, 2011, Editora Hedra, São Paulo SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre 630 a.C. e 604 a.C. com morte em data incerta), grega de Éresos, ilha de Lesbos, muito pouco ou quase nada se sabe; viveu a maior parte de sua vida em Mitilene, também em Lesbos, e foi poetisa, além de tecelã e sacerdotisa; Safo é tida como a primeira poetisa de quem se tem registro na história do nosso mundo ocidental; de sua obra, chegaram até nós apenas 650 versos (fragmentos de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a Ode a Afrodite — ou Hino a Afrodite, reservado que fora em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); além da poesia lírica, os antigos comentadores registraram que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; além de tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; é tido que Safo criou uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, onde estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção da deusa Afrodite e das musas; a poetisa foi chamada de ‘décima musa’, por Platão (428/427 a.C. 348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Catulo (87 a.C.? 57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778 1827) e Giacomo Leopardi (1798 1837); são vários os poetas que, em suas criações, se referem a Safo e a sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.