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sábado, 27 de abril de 2024

Carvalho Júnior*: Antropofagia**

 
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[a Fontoura Xavier, poeta socialista]

Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede a presa infeliz por dar-lhe o bote a jeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t'estreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

Os átomos sutis, os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, esplêndidos sobejos!

(Parisina, pág. 89)


Notas:
* Do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: em 60 Poetas Trágicos [L&PM, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca do poeta Carvalho Junior:
Foi um dos nossos primeiros parnasianos, aposto aos românticos por um traço que um crítico chamou de realismo urbano. Ele chocou os contemporâneos pelo naturalismo com que abordava temas eróticos, mas não chocou quem era sábio: foi elogiado por Machado de Assis, que comentou seus sonetos no livro Crítica [e variedades], nos seguintes termos: ‘Nunca, em nenhum outro poeta nosso, apareceu essa nota violenta, tão exclusivamente carnal [...]. Crus em demasia são os seus quadros; mas não é comum aquele vigor, não é vulgar aquele colorido’. E conclui: ‘Um poeta de raça’. Carvalho Junior é o nosso Baudelaire. Esse poeta soberbo morreu quando era pouco mais do que um menino e nos legou apenas duas dúzias de poemas.
** De Péricles Eugênio da Silva Ramos, organizador deste Panorama da Poesia Brasileira, Volume III – Parnasianismo:
Antropofagia — dedicada “a Fontoura Xavier, poeta socialista”’.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume III — Parnasianismo, por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), nascido no Rio de Janeiro, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do simbolismo; Péricles registra que “junto com Teófilo Dias, Carvalho Júnior pode ser tomado como o principal poeta do realismo brasileiro”; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; foi colaborador do jornal paulistano A República; morreu jovem, sofria do coração.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Carvalho Júnior *: Lusco-fusco

 
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Da alcova na penumbra andavam flutuando
Em tênue confusão fantasmas indecisos,
Gerados ao fulgor da luz reverberando
Nos límpidos cristais e nos dourados frisos.

Era como um sabbat fantástico e nefando!
Das velhas saturnais talvez tivesse uns visos
A enorme projeção das sombras vacilando
Esguias e sutis sobre os tapetes lisos.

Havia no ambiente uns mórbidos perfumes;
Os bronzes, os biscuits se olhavam com ciúmes,
Nos dunkerques, de pé, por dentro das redomas.

Enquanto eu, sem temor, ao lado de uma taça,
Um conto oriental relia entre a fumaça
De um charuto havanês de excêntricos aromas.

(Parisina, pág. 91)


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: em 60 Poetas Trágicos [L&PM, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca do poeta Carvalho Junior:
Foi um dos nossos primeiros parnasianos, aposto aos românticos por um traço que um crítico chamou de realismo urbano. Ele chocou os contemporâneos pelo naturalismo com que abordava temas eróticos, mas não chocou quem era sábio: foi elogiado por Machado de Assis, que comentou seus sonetos no livro Crítica [e variedades], nos seguintes termos: ‘Nunca, em nenhum outro poeta nosso, apareceu essa nota violenta, tão exclusivamente carnal [...]. Crus em demasia são os seus quadros; mas não é comum aquele vigor, não é vulgar aquele colorido’. E conclui: ‘Um poeta de raça’. Carvalho Junior é o nosso Baudelaire. Esse poeta soberbo morreu quando era pouco mais do que um menino e nos legou apenas duas dúzias de poemas.”
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume III — Parnasianismo, por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), nascido no Rio de Janeiro, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do simbolismo; Péricles registra que “junto com Teófilo Dias, Carvalho Júnior pode ser tomado como o principal poeta do realismo brasileiro”; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; foi colaborador do jornal paulistano A República; morreu jovem, sofria do coração.

domingo, 26 de março de 2023

Carvalho Junior *: Après le combat


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Quando, pela manhã, contemplo-te abatida,
amortecido o olhar e a face descorada,
imersa em languidez profunda, indefinida,
o lábio ressequido e a pálpebra azulada,

relembro as impressões da noite consumida
na lúbrica expansão, na febre alucinada,
do gozo sensual, frenético, homicida,
como a lâmina aguda e fria de uma espada.

E ao ver em derredor o grande desalinho
das roupas pelo chão, dos móveis no caminho,
e o boudoir enfim do caos um fiel plágio,

suponho-me um herói da velha antiguidade,
um marinheiro audaz após a tempestade,
tendo por pedestal os restos dum naufrágio!


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Sergio Faraco, organizador deste 60 Poetas Trágicos, registra acerca do poeta Carvalho Junior: “Foi um dos nossos primeiros parnasianos, oposto aos românticos por um traço que um crítico chamou de realismo urbano. Ele chocou os contemporâneos pelo naturalismo com que abordava temas eróticos, mas não chocou quem era sábio: foi elogiado por Machado de Assis, que comentou seus sonetos no livro Crítica [e variedades], nos seguintes termos: ‘Nunca, em nenhum outro poeta nosso, apareceu essa nota violenta, tão exclusivamente carnal (...). Crus em demasia são os seus quadros; mas não é comum aquele vigor, não é vulgar aquele colorido’. E conclui: ‘Um poeta de raça’. Carvalho Junior é o nosso Baudelaire. Esse poeta soberbo morreu quando era pouco mais do que um menino e nos legou apenas duas dúzias de poemas."
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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), nascido no Rio de Janeiro, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado um dos precursores do simbolismo; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; foi colaborador do jornal paulistano A República; morreu jovem, sofria do coração.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Carvalho Júnior: Quando, pela manhã, contemplo-te abatida, . . . [soneto]

Resultado de imagem para sonetos de amor e desamor l&pM
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Quando, pela manhã, contemplo-te abatida,
amortecido o olhar e a face descorada,
imersa em languidez profunda, indefinida,
o lábio ressequido e a pálpebra azulada,

relembro as impressões da noite consumida
na lúbrica expansão, na febre alucinada,
do gozo sensual, frenético, homicida,
como a lâmina aguda e fria de uma espada.

E ao ver em derredor o grande desalinho
das roupas pelo chão, dos móveis no caminho,
e o boudoir*, enfim, do caos um fiel plágio,

suponho-me um herói da velha antiguidade,
um marinheiro audaz após a tempestade,
tendo por pedestal os restos de um naufrágio!


* Nota da edição: Saleta de uso exclusivo da mulher.
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Sonetos de Amor & Desamor (vários autores), Organização de Ivan Pinheiro Machado e Notas de Sergio Faraco, vol. 1095 da Coleção L&PM Pocket, 2016, Porto Alegre — RS; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), carioca, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do simbolismo; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; morreu jovem, sofria do coração.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Carvalho Júnior: Profissão de Fé

Antologia dos Poetas Brasileiros, Poesia da Fase Parnasiana ...
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Odeio as virgens pálidas, cloróticas, *
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos do lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.

(Parisina. edição organizada por Artur
Barreiros, Rio de Janeiro, 1879, p. 87)


* Nota da Edição: Cf. o soneto "L'Idéal", de Baudelaire: "Ce ne seront jamais ces beautés de vignettes..."
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira e Nota Editorial de Alexei Bueno, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), nascido no Rio de Janeiro, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do simbolismo; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; morreu jovem, sofria do coração.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Carvalho Júnior: Nêmesis

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Há nesse olhar translúcido e magnético
A mágica atração de um precipício;
Bem como no teu rir nervoso, cético,
As argentinas vibrações do vício.

No andar, no gesto mórbido esplinético,
Tens não sei quê de nobre e de patrício,
E um som de voz metálico, frenético,
Como o tinir dos ferros de um suplício.

És o arcanjo funesto do pecado,
E de teu lábio morno, avermelhado,
Como um vampiro lúbrico, infernal,

Sugo o veneno amargo da ironia,
O satânico fel da hipocondria,
Numa volúpia estranha e sensual.



Nota do Organizador:
Os epítetos proparoxítonos prenunciam a dicção de Teófilo Dias, de notável fluidez. A atmosfera do soneto é “decadente”, com suas referências “às argentinas vibrações do vício”, ao esplim (spleen) e à hipocondria, ao sadismo dos suplícios, ao arcanjo do pecado, ao vampiro que suga os lábios, etc. É de resto perceptível a sombra de Baudelaire sobre toda essa engrenagem de danação.

(No verso 11,) vampiro: os vampiros, que já surgiam em Byron, também aparecem em Baudelaire (“Le Vampire”, por exemplo), mas com sentido transposto: e assim em Carvalho Júnior. No Brasil, antes de Cardoso de Meneses e Sousa (A Harpa Gemedora, 1847  1849), o vampiro era o morcego, em Silva Alvarenga.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), nascido no Rio de Janeiro, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP  Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do simbolismo; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; morreu jovem, sofria do coração.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Fontoura Xavier: Carvalho Júnior

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Um instante, coveiro! o morto é meu amigo,
E como vês cheguei para dizer-lhe adeus;
Depois podes levá-lo, a Satanás, contigo,
Que sei que não pretende a salvação de Deus.

Eu descuidei-me, sim; nós dávamo-nos muito!
Há meses abracei-o e nunca mais o vi...
Alguém, quem quer que seja! aproveitou o intuito,
Matou-o em minha ausência e trouxe-o para aqui.

Vim despedir-me dele... (Escuta-me, primeiro.
Tu deves conhecer os mortos que aqui somes;
Muitas vezes Hamleto a dúvida, coveiro,
Visita este lugar interrogando nomes.

Estuda esta cabeça, o príncipe há de vê-la;
Repara bem, é loura, esplendida, à Van-Dick!
Pois bem, gasta a mortalha, então roída a tela,
Não tomes Baudelaire por um jogral Yorick !).

Vim despedir-me, pois! A morte já começa
A martelar caixões na porta dos ateus!...
Sentido, batalhões! caiu uma cabeça...
Que importa uma vitória às legiões de Deus?...


Nota do Organizador:
A última estrofe, que figura na edição definitiva, 1905, não vem reproduzida na 4ª. Edição de Opalas, e a poesia inteira não consta da ed. Príncipe. Os versos são decadentes com seu satanismo e também com seu intuito escandalizador de profanar. Se foram recitados à beira-túmulo de Carvalho Júnior, devem datar de 1879. Os títulos também variam: na ed. definitiva, é o que se lê acima; na 4ª., “Nos Funerais de um Poeta”.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856  1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; escreveu e publicou O Régio Saltimbanco (versos contra a monarquia, 1877) Opalas (poesias, 1ª. edição em 1884 e edição definitiva em 1905); serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suiça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).