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[a Fontoura Xavier, poeta socialista]
Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.
Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede a presa infeliz por dar-lhe o bote a jeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t'estreito:
E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,
— Os átomos sutis, — os
vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, — esplêndidos sobejos!
(Parisina, pág. 89)
Notas:
* Do
atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: em 60 Poetas Trágicos
[L&PM, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca do poeta Carvalho
Junior:
“Foi um dos nossos primeiros parnasianos, aposto aos românticos por um traço que um crítico chamou de realismo urbano. Ele chocou os contemporâneos pelo naturalismo com que abordava temas eróticos, mas não chocou quem era sábio: foi elogiado por Machado de Assis, que comentou seus sonetos no livro Crítica [e variedades], nos seguintes termos: ‘Nunca, em nenhum outro poeta nosso, apareceu essa nota violenta, tão exclusivamente carnal [...]. Crus em demasia são os seus quadros; mas não é comum aquele vigor, não é vulgar aquele colorido’. E conclui: ‘Um poeta de raça’. Carvalho Junior é o nosso Baudelaire. Esse poeta soberbo morreu quando era pouco mais do que um menino e nos legou apenas duas dúzias de poemas.”
** De
Péricles Eugênio da Silva Ramos, organizador deste Panorama da Poesia Brasileira,
Volume III – Parnasianismo:
‘Antropofagia — dedicada “a Fontoura Xavier, poeta socialista”’.
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Panorama
da Poesia Brasileira, Volume III — Parnasianismo, por Péricles Eugênio da Silva
Ramos, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Francisco
Antônio de Carvalho Júnior (1855 — 1879), nascido no Rio de Janeiro, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP — Largo São Francisco), foi
promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do
simbolismo; Péricles registra que “junto com Teófilo Dias, Carvalho Júnior pode
ser tomado como o principal poeta do realismo brasileiro”; escreveu e publicou
Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título
“Hespérides”, contém 22 composições poéticas; foi colaborador do jornal
paulistano A República; morreu jovem, sofria do coração.
