domingo, 30 de junho de 2019

Alceu Wamosy: Demoníaca

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Não me tentes assim. Fechar esses braços.
Nas dobras da mantilha oculta as pomas.
Volve esses olhos mágicos e lassos,
E essa boca sensual, cheia de aromas.

Quero fugir do mal dos teus abraços,
Das trágicas cadeias das tuas comas,
E me fazes rojar, trás os teus passos,
Mal o teu vulto tentador assomas!

O meu ser te repele e te procura,
Mulher fatal, diabólica e divina,
Geradora de amor e de loucura!

Beija-me mais! Afoga-me o desejo!
Pois, se sei que teu beijo me assassina,
Sei que sucumbo à falta desse beijo!...

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Sonetos de Amor & Desamor (vários autores), Organização de Ivan Pinheiro Machado e Notas de Sergio Faraco, vol. 1095 da Coleção L&PM Pocket, 2016, Porto Alegre — RS; Alceu de Freitas Wamosy (1895  1923), gaúcho de Uruguaiana, foi poeta da fase do simbolismo; trabalhou como colaborador no jornal A Cidade (de propriedade de seu pai, em Alegrete  RS) e também nos periódicos A Notícia, A Federação, O Diário e na revista A Máscara; tornou-se proprietário do jornal O Republicano, a partir de 1917; obra poética: Flâmulas (1913), Terra Virgem (1914), Coroa de Sonhos (1923); postumamente publicou-se  Poesias Completas (1925, Editora Globo) Poesia Completa (1994, Coleção Memória, da EDIPUCRS).

sábado, 29 de junho de 2019

Carlos Queiroz Telles: Cruel dilema

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Ir ou não ir
à escola...

Fazer da terça,
domingo.
Fazer da tarde,
recreio.
Fazer da classe,
preguiça.
Fazer da aula,
passeio...

Ir ou não ir
à escola...

Trocar a carteira
pela rua.
Trocar a prova
pelo vento.
Trocar a mochila
pelo sol.
Trocar o futuro
pelo momento.

Ir ou não ir
à escola...

Aprender a fazer,
olhando.
Aprender a falar,
ouvindo.
Aprender a saber,
fazendo.
Aprender a viver,
vivendo.

Ir ou não ir
à escola...

Eis a maior,
a única,
a verdadeira questão!

Carlos Queiroz Telles
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Sementes de sol — Carlos Queiroz Telles, Capa e Ilustrações de May Shuravel, 1996, 6ª edição, Editora Moderna — São Paulo — SP; José Carlos Botelho de Queiroz Telles (1936 1993), paulista e paulistano, formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP Largo São Francisco), foi dramaturgo, escritor e poeta; trabalhou em jornalismo e publicidade, tendo sido também professor universitário; teve participação ativa na fundação do Teatro Oficina, em cuja inauguração, 1958, estreou a peça A Ponte, de sua autoria; como dramaturgo, foi autor de obras para o teatro e televisão (novela e seriados), adaptou textos de Shakespeare, Camões e Calderón de La Barca; recebeu dois prêmios Moliére (1972 e 1976); além deste Sementes de sol (poesias), escreveu Sonhos, grilos e paixões (poesias), Tirando de letra, Asas brancas, Quase Cachorro e Quase Menino, Mulher Manual do Proprietário, Homem Manual da ProprietáriaOs Amantes da chuva, O Pirilampo Telegrafista, O Rock das Estrelas, e tantos outros títulos da literatura infanto-juvenil.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Georg Trakl: Calma e silêncio

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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou
A lua do lago gelado em áspera rede.

No cristal azul
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.

Mas sempre comove o voo negro dos pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.

De novo anoitece a fronte em pedra lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.

(1913)

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Georg Trakl

Ruch und Schweigen

Hirten begruben die Sonne im kahlen Wald.
Ein Fischer zog
In härenem Netz den Mond aus frierendem Weiher.

In blauem Kristall
Wohnt der bleiche Mensch, die Wang an seine Sterne gelehnt;
Oder er neigt das Haupt in purpurnem Schlaf.

Doch immer rührt der schwarze Flug der Vögel
Den Schauenden, das Heilige blauer Blumen,
Denkt die nahe Stille Vergessenes, erloschene Engel.

Wieder nachtet die Stirne in mondendem Gestein;
Ein strahlender Jüngling
Erscheint die Schwester in Herbst und schwarzer Verwesung.

(1913)
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Poesia Expressionista Alemã: uma antologia, Organização e Tradução de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue ilustrada, 2000, Estação Liberdade, São Paulo  SP; Georg Trakl (1887 — 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco),  mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em edições da revista Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em agosto de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Magalhães de Azeredo: Melancolia Crepuscular

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Quando se esconde o sol, e a tarde fria
desce envolvida em sua bruma escura,
mais pungente me acossa a má ventura,
e a tristeza me enluta mais sombria.

Da taciturna treva na clausura
desmaia a minha efêmera alegria;
de minha alma também some-se o dia:
com a noite a saudade se conjura.

Lembro o tempo, em que, livre e sossegado,
vivia sem paixões. Minha alma sente
quanto, do que já fui, estou mudado.

E entre lágrimas vejo, então, somente
mais lúgubre o presente, que o passado,
mais lúgubre o futuro que o presente.

(Memórias, AZEREDO, Carlos Magalhães de.
Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2003, p. 93.)

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Magalhães de Azeredo — Série Essencial 38, Academia Brasileira de Letras, Organização de Haron Jacob Gamal, 2011, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Carlos Magalhães de Azeredo (1872 1963), carioca, fez seus primeiros estudos no Porto Portugal, complementados no Colégio São Luís, em Itu SP, formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi advogado, diplomata, embaixador, jornalista, escritor e poeta; colaborou nos jornais paulistas Diário Popular, Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo, entre outros veículos informativos; bibliografia: Alma Primitiva (contos, 1895), José de Alencar (ensaio, 1895), Procelárias (poesia, 1898), Baladas e Fantasias (contos, 1900), Homens e Livros (estudos, 1902), Horas Sagradas (poesia, 1903), Odes e Elegias (poesia, 1904), Vida e Sonho (poesia, 1919), Ariadne (conto, 1921), Casos do Amor e do Instinto (contos, 1924), O Eterno e o Efêmero (contos, 1936) etc.; na diplomacia exerceu funções no Uruguai, em Cuba, na Grécia, e no Vaticano, em Roma; Magalhães de Azeredo foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Leila Míccolis: Três números de mágica

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O espetáculo começa;
faço sair da cartola
televisão a cores,
automóveis,
e imóveis no Leme
a pagar em 180 prestações.
Depois te serro ao meio no caixão,
para salvar-te a seguir:
surges inteiro e pareces tão ileso
que nem dá para notar a castração.
Por último me cubro  abracadabra! 
e volto aos tempos de menina,
tirando da vagina objetos contundentes
que fizeram a minha vida
e o meu hímem complacentes.

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26 Poetas Hoje — antologia, Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro —  RJ; Leila Míccolis, nascida em 1947, fluminense de Maricá, formada em advocacia pela antiga Faculdade Nacional de Direito (hoje UFRJ), mestrado e doutorado em Ciência da Literatura (Teoria Literária) também pela UFRJ, é poetisa, ensaísta, romancista, contista, roteirista de cinema e televisão, dramaturga, editora e professora; estreou na poesia com Gaveta da Solidão (1965) e fez parte da geração de poetas da década de 1970, conhecida como ‘Poesia Marginal’ e ‘Geração Mimeógrafo’, no Rio de Janeiro, em São Paulo e algumas outras capitais; escreveu roteiros para a televisão, tendo sido co-autora de telenovelas; possui 30 livros editados (poesia e prosa), com obras publicadas em países como França, México, Colômbia, Estados Unidos e Portugal.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Maciel Monteiro: Formosa

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Formosa, qual pincel em tela fina
debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
formosa, qual jamais desabrochara
na primavera a rosa purpurina;

Formosa, qual se a própria mão divina
lhe alinhara o contorno e a forma rara;
formosa, qual jamais no céu brilhara
astro gentil, estrela peregrina;

formosa, qual se a natureza e a arte,
dando as mãos em seus dons, em seus lavores,
jamais soube imitar no todo ou parte;

mulher celeste, oh! anjo de primores!
Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!

(Poesias. Organização de José Aderaldo Castello, 1962, São Paulo:
Conselho Estadual de Cultura/Comissão de Literatura, pp. 82—83.)

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Maciel Monteiro, Série essencial 74, Academia Brasileira de Letras, Organização de André Seffrin, 2014, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Antônio Peregrino Maciel Monteiro (1804 1868), pernambucano de Recife, formado pela Universidade de Paris em Letras, Ciências e Medicina, foi médico, poeta, jornalista, orador, político e diplomata; como médico, clinicou em Recife; como jornalista, foi redator e colaborador de O Lidador, jornal do Partido Republicano, colaborador d’A Carranca, periódico político-moral-satírico-cômico, d’A União, órgão do Partido Conservador, d’O Progresso, revista social, literária e científica, todos de Recife, e de Álbum Sentimental e Revista Popular, ambos do Rio de Janeiro; foi diretor da Faculdade de Direito de Olinda; bibliografia: Poesias (Organização de João Batista Regueira e Alfredo de Carvalho, 1905), Poesias (Organização de José Aderaldo Castello, 1962)...; Maciel Monteiro exerceu funções públicas e diplomáticas; foi escolhido patrono da cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Carvalho Júnior: Quando, pela manhã, contemplo-te abatida, . . . [soneto]

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Quando, pela manhã, contemplo-te abatida,
amortecido o olhar e a face descorada,
imersa em languidez profunda, indefinida,
o lábio ressequido e a pálpebra azulada,

relembro as impressões da noite consumida
na lúbrica expansão, na febre alucinada,
do gozo sensual, frenético, homicida,
como a lâmina aguda e fria de uma espada.

E ao ver em derredor o grande desalinho
das roupas pelo chão, dos móveis no caminho,
e o boudoir*, enfim, do caos um fiel plágio,

suponho-me um herói da velha antiguidade,
um marinheiro audaz após a tempestade,
tendo por pedestal os restos de um naufrágio!


* Nota da edição: Saleta de uso exclusivo da mulher.
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Sonetos de Amor & Desamor (vários autores), Organização de Ivan Pinheiro Machado e Notas de Sergio Faraco, vol. 1095 da Coleção L&PM Pocket, 2016, Porto Alegre — RS; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), carioca, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do simbolismo; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; morreu jovem, sofria do coração.

domingo, 23 de junho de 2019

Manuel António Pina: Neste preciso tempo, neste preciso lugar

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No princípio era o Verbo
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3° andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!

Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviesado
olhar da ironia?

Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença.

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Manuel António Pina: O coração pronto para o roubo — poemas escolhidos, Seleção e posfácio de Leonardo Gandolfi, 2018, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Manuel António Pina (1943 2012), português de Sabugal, licenciado em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, dramaturgo, poeta, cronista e autor de livros infantis; trabalhou por três décadas no Jornal de Notícias, do Porto, cidade onde viveu desde a idade de dezessete anos; colaborou com o Jornal de Música e com a revista Notícias Magazine; bibliografia: em poesia, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calmo é apenas um pouco tarde (1974), Aquele que quer morrer (1978), A lâmpada do quarto? A criança? (1981), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989), Um sítio onde pousar a cabeça (1991), Farewell happy fields (1993), Cuidados intensivos (1994), Nenhuma palavra e nenhuma lembrança (1999), Atropelamento e fuga (2001), Os livros (2003), Como se desenha uma casa (2011) etc., em prosa, Os papéis de K (novela, 2003), O anacronista (crônicas, 1994), Porto, modo de dizer (crônicas, 2002), Por outras palavras & mais crónicas de jornal (2010), para teatro e literatura infantil, O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Gigões & Amantes (1974), O Inventão (1987), entre outros textos em verso e prosa; teve sua obra difundida em diversos países e idiomas: França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária; foi premiado diversas vezes, tendo sido laureado, em 2011, com o Prêmio Camões, a maior honraria para autores em língua portuguesa.

sábado, 22 de junho de 2019

Federico García Lorca: A Monja Cigana

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[traduzido por Floriano Martins]

Silêncio de cal e mirto.
Malvas nas pastagens finas.
A monja borda alelis
sobre uma tela de palhinha.
Voam na aranha cinza,
sete pássaros do prisma.
A igreja grunhe à distância
como um osso pança acima.
Como borda bem! E com que graça!
Sobre a tela de palhinha,
ela quisera bordar
flores de sua fantasia.
Que girassol! Que magnólia
de lantejoulas e fitas!
Que açafrões e que luas,
no mantel da missa!
Cinco toronjas se adoçam
na cozinha ali próxima.
As cinco chagas de Cristo
cortadas em Almería.
Pelos olhos da monja
galopam dois cavalariços.
Um rumor último e surdo
lhe desgruda a camisa,
e ao ver nuvens e montanhas
nas ásteras distâncias,
parte-se seu coração
de açúcar e erva-heloísa.
Oh que planície empinada com
vinte sóis acima!
Que rios postos de pé
vislumbra sua fantasia!
Porém segue com suas flores,
enquanto que de pé, na brisa,
a luz joga o xadrez
alto da gelosia.

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Federico García Lorca

La Monja Gitana

Silencio de cal y mirto.
Malvas en las hierbas finas.
La monja borda alhelíes
sobre una tela pajiza.
Vuelan en la araña gris,
siete pájaros del prisma.
La iglesia gruñe a lo lejos
como un oso panza arriba.
¡Qué bien borda! ¡Con qué gracia!
Sobre la tela pajiza,
ella quisiera bordar
flores de su fantasía.
¡Qué girasol! ¡Qué magnolia
de lentejuelas y cintas!
¡Qué azafranes y qué lunas,
en el mantel de la misa!
Cinco toronjas se endulzan
en la cercana cocina.
Las cinco llagas de Cristo
cortadas en Almería.
Por los ojos de la monja
galopan dos caballistas.
Un rumor último y sordo
le despega la camisa,
y al mirar nubes y montes
en las yertas lejanías,
¡Oh!, qué llanura empinada
con veinte soles arriba.
¡Qué ríos puestos de pie
vislumbra su fantasía!
Pero sigue con sus flores,
mientras que de pie, en la brisa,
la luz juega el ajedrez
alto de la celosía.
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Poemas de Amor — García Lorca, Organização de Luiz Raul Machado e Tradução de Floriano Martins, edição bilíngue, 1999, 2ª edição, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Federico García Lorca (1898  1936), espanhol nascido em Fuente Vaqueros, região da Andaluzia, foi dramaturgo e poeta; escreveu e publicou Impressões e Paisagens (prosa, 1918), Livro de Poemas (Libro de poemas, 1921), Ode a Salvador Dali (Oda a Salvador Dalí, 1926), Dona Rosita, a solteira (teatro, 1927), Canciones — 1921 a 1924 (1928), Romancero Gitano — 1924 a 1927 (1928), Ode a Walt Whitman (1933), Bodas de Sangue (teatro, 1933), Yerma (teatro, 1934), Sonetos do amor obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, 1936), A Casa de Bernarda Alba (teatro, 1936) e muitos outros títulos em verso e prosa ou dramaturgia; Lorca, que teve parte de sua obra só publicada postumamente (Diván del Tamarit, em 1940, e outros), foi uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola; morreu fuzilado pelas tropas nacionalistas do General Franco, que acabou por instalar a ditadura franquista na Espanha.