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Quem quiser saber se eu padeço
pergunte aos canaviais.
Capiba
Não basta que a ventania,
vinda do Mar,
seja cortada pelo Gume de
Pedra dos canaviais,
e, pejada de fatos sem
memória, chegue ao Sertão,
curvando para a terra os
Lombos dos patriarcas
que cerram os olhos, nos
Algodoais, olhando a Distância.
Não basta que toda a terra do
Nordeste
receba o impacto de legiões de
Arcanjos
que vão deixando, no seu
Rastro de fogo,
cicatrizes de Espadas e
armaduras.
É preciso lembrar o povo dos
Anjos da noite,
que cruzou o Mar, gravando na
pedra da nova terra
a Queda em que o Sol o
despenhou.
É preciso lembrar que todos
somos Negros:
legião sem Olhos, precipitada
nas Chagas da noite,
esperando que espadas e Mantos
sagrados
venham curar nossos Dorsos que
o chicote castigou.
Por isso achei-me, Amigo, no
teu grande Ritmo negro,
nas Canções tocadas por
Rebanhos incendiados,
paridos por graves Atabaques que
deuses negros fazem vibrar.
Cantei, assim, os Rifles do
sertão, cruzando a Tempestade,
traspassando com balas de Sol
corpos amorenados,
e hei de lembrar sempre a epopeia
de meu povo
que revive ainda, no Sertão, a
marcha dos corcéis épicos.
Agora, porém, quero cantar tua
Música severa,
sentindo meu sangue curvar-se
ao Sangue coletivo
do grande Povo que cruzou
desertos e mares, na Queda.
Meu canto é, portanto, a
Canção do Povo Negro:
parte de mim, fraterno, e
marcha ombro a ombro com Ele,
enquanto o vento vindo do Mar
caminha para o sertão,
ao encontro de rifles e Velhos
de pedra,
ferido de morte pelo Gume de
faca dos canaviais.
1949
(Poemas, 1999)
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A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI [antologia poética:
81 autores e autoras, 221 poemas] — Organização e Introdução de Alexei Bueno, 1ª
edição, 2022, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ariano
Vilar Suassuna (1927 — 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa),
fez seus primeiros estudos em Taperoá — PB, em 1942, então em Recife — PE, continuou
seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois,
formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do
poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba
Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher
Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor,
escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção
de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério,
tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre
produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou
o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento
e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas
para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do
Reino, O Santo e a Porca, Auto da Compadecida, ...); escreveu e publicou: para teatro:
Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João
da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca
(1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor
de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do
Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta
em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980) ..., ensaios:
O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha
Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976);
recebeu diversas premiações por sua obra e foi traduzido para o polonês, inglês,
francês, holandês, alemão, espanhol, ...; o dramaturgo e poeta também se formou
em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco; Ariano Suassuna ocupou a
cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.