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sábado, 17 de fevereiro de 2024

Ariano Suassuna: Ode a Capiba


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Quem quiser saber se eu padeço
pergunte aos canaviais.
Capiba

Não basta que a ventania, vinda do Mar,
seja cortada pelo Gume de Pedra dos canaviais,
e, pejada de fatos sem memória, chegue ao Sertão,
curvando para a terra os Lombos dos patriarcas
que cerram os olhos, nos Algodoais, olhando a Distância.

Não basta que toda a terra do Nordeste
receba o impacto de legiões de Arcanjos
que vão deixando, no seu Rastro de fogo,
cicatrizes de Espadas e armaduras.

É preciso lembrar o povo dos Anjos da noite,
que cruzou o Mar, gravando na pedra da nova terra
a Queda em que o Sol o despenhou.

É preciso lembrar que todos somos Negros:
legião sem Olhos, precipitada nas Chagas da noite,
esperando que espadas e Mantos sagrados
venham curar nossos Dorsos que o chicote castigou.

Por isso achei-me, Amigo, no teu grande Ritmo negro,
nas Canções tocadas por Rebanhos incendiados,
paridos por graves Atabaques que deuses negros fazem vibrar.
Cantei, assim, os Rifles do sertão, cruzando a Tempestade,
traspassando com balas de Sol corpos amorenados,
e hei de lembrar sempre a epopeia de meu povo
que revive ainda, no Sertão, a marcha dos corcéis épicos.

Agora, porém, quero cantar tua Música severa,
sentindo meu sangue curvar-se ao Sangue coletivo
do grande Povo que cruzou desertos e mares, na Queda.

Meu canto é, portanto, a Canção do Povo Negro:
parte de mim, fraterno, e marcha ombro a ombro com Ele,
enquanto o vento vindo do Mar caminha para o sertão,
ao encontro de rifles e Velhos de pedra,
ferido de morte pelo Gume de faca dos canaviais.

1949
(Poemas, 1999)

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A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI [antologia poética: 81 autores e autoras, 221 poemas] — Organização e Introdução de Alexei Bueno, 1ª edição, 2022, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, O Santo e a Porca, Auto da Compadecida, ...); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980) ..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra e foi traduzido para o polonês, inglês, francês, holandês, alemão, espanhol, ...; o dramaturgo e poeta também se formou em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.