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sábado, 16 de agosto de 2014

Camões: Transforma-se o amador na cousa amada... (soneto)

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Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como um acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia:
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

Retrato de Luís de Camões numa gravura do séc. XIX.
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Poesia Clássica — Literatura Portuguesa, seleção de Francisco Maciel Silveira, 1988, Global Editora, São Paulo — SP; Luís Vaz de Camões (1524 — 1580), português, teria nascido em Lisboa ou em Coimbra, foi poeta e é considerado um dos maiores vultos da literatura em língua portuguesa da Renascença e um dos grandes poetas do mundo ocidental; foi através de sua obra poética que a língua portuguesa passou a expressar sentimentos, sensações, fatos e idéias de uma forma até então jamais alcançada por ninguém; retratou o humanismo e a expansão ultramarina, dois elementos que caracterizaram o Renascimento Português; celebrizou-se não tão somente por ter escrito Os Lusíadas, longo poema épico que expõe a história e a cultura portuguesa até à época vigentes, mas também pelo desenvolvimento de uma obra lírica na qual se encontram, entre os poemas mais famosos, os sonetos; foi só após a sua morte que teve reunida, na coletânea Rimas, sua obra lírica.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Diogo Bernardes: Se com rigor, senhora, vos parece... (Soneto XXI)


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Se com rigor, senhora, vos parece
Que podeis desviar do seu cuidado
Um firme coração, que s'oferece
A ser inda de vós pior tratado;

Além de ser engano, se conhece
Que mal sabeis d'amor desenganado,
Qu'o verdadeiro amor muito mais cresce
Ali, onde se vê mais desamado.

Por isso o desamor, que me mostrais,
Mudai em amor já, se não quereis
Que com desgosto vosso mais vos ame:

Vencer-me com desprezos não cuideis;
Bem me podeis matar, bem me matais;
Mas não podeis fazer que vos desame.

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Poesia Clássica  Literatura Portuguesa, seleção de Francisco Maciel Silveira, 1988, Global Editora, São Paulo — SP; Diogo Bernardes Pimenta (1532?  1596?), português nascido em Ponte da Barca, foi poeta participante do círculo literário renascentista; em expedição do monarca Dom Sebastião a Marrocos, o poeta caiu prisioneiro dos mouros na batalha de Alcácer Quibir (1578), tendo sido resgatado em 1582; recebeu duas pensões do rei Felipe II de Espanha, e novamente desempenhando função na corte, desta vez junto ao Cardeal Alberto de Áustria, regente do reino, pode dedicar-se à sua obra; publicou Várias Rimas ao Bom Jesus (1594), Rimas Várias  Flores do Lima (1596), O Lima (1596); o “poeta do Lima”, porque nasceu na região banhada por esse “claro e fresco rio”, situado no estremo norte de Portugal, versejou em português e em espanhol.