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terça-feira, 24 de junho de 2025

Joaquim Branco: “Oh Sir, the good die first”

 
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Oh Sir, the good die first
(Wordsworth)

          Com este livro sobre Ascânio Lopes, iniciamos uma série sob o título geral de Cataguases Cartazes, focalizando escritores que fazem parte da história da literatura de nossa cidade, de Minas e do Brasil.
          Fomos achar no alto romantismo do inglês Wordsworth o verso definidor (Ó Senhor, os bons morrem primeiro.) do nosso poeta que ainda hoje, lá do final da década de 20, exerce um estranho magnetismo sobre todos que o lêem, especialmente sobre nós, cataguasenses: Ascânio Lopes.
          Entre os esboços da noivinha, a mãe bordando os serões da casa, um passado hoje quase impossível de ser reconstruído, brotam incríveis versos que resistem ao tempo, como se não tivessem sido suficientemente conhecidos por todos os seus conterrâneos e pedissem para ser lidos e relidos pelas gerações mais novas e outras e outras.
          Não existe maior lugar-comum do que dizer que os poetas mortos prematuramente poderiam ter escrito uma obra mais completa e importante, e que sua carreira foi cortada cedo, etc., etc. Mas também não se poderia fazer injustiça maior do que negar a Ascânio após a releitura de seus poemas um futuro de autor exponencial dentro da literatura brasileira se a doença não o tivesse levado.
          Se se comparar o Serão do menino pobre com o famoso Infância, de Carlos Drummond de Andrade seu companheiro e contemporâneo sobra um saldo qualificativo em favor de Ascânio, já afirmou um crítico.
          De seus poemas vem uma finura, uma leve teia, uma aragem que só se vêem nos artistas especiais, aqueles que chegam, mal têm tempo de deixar o seu recado e se vão rapidamente para algum outro lugar talvez. Mas ninguém os esquece mais.
          Ascânio Lopes foi assim. Sendo introspectivo, liderou um grupo era o mais velho do quarteto da Revista Verde (os outros: [Rosário] Fusco, [Francisco] Chico [Inácio] Peixoto e Guilhermino Cesar). Do seu canto, silencioso, foi o “motor” do movimento, juntamente com Fusco. Tímido, colocou em verso a sua curta história pessoal. Mas tornou tudo isso de tal maneira universal que transformou-a na sua própria trajetória poética.
          Sua morte em 1929 traçou o fim da Verde como movimento. Cada um foi para o seu canto, mas por outro lado, alguns, felizmente, puderam construir, com o tempo, obras que ficaram registradas, pela sua importância, na história da literatura brasileira.
          A edição deste volume, basicamente constituído pelos textos publicados no suplemento Cataguarte, editado por mim e publicado no dia 20 de abril de 1997 anexo ao jornal Cataguases tem como objetivo principal o sentido maior de permanência e registro que têm os livros em relação a revistas e jornais, viando à preservação da história literária de Cataguases e ao conhecimento das gerações futuras de que aqui, nos anos 20, já existia um grande poeta.

Cataguases — 1998

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Ascânio, o poeta da Verde [várias autorias], coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Joaquim Branco Ribeiro Filho, nascido em 1940, mineiro e cataguasense, formou-se em Direito pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em Letras pela FIC Faculdades Integradas de Cataguases, mestrado em Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora MG e doutorado em Literatura Comparada pela UERJ, além de ter atuado como bancário do Banco do Brasil em várias agências mineiras e no Rio de Janeiro, e ali se aposentado, foi professor universitário, lecionou por 17 anos nas Faculdades Integradas de Cataguases, é poeta, cronista, contista, crítico literário e pesquisador; suas obras: Concreções da fala (poemas, 1969), Consumito (poemas, 1975), Laser para lazer (poemas, 1984), 500 anos do descobrimento da América (1993), O caça-palavras (poemas, 1997), Do pré ao pós-moderno (manual de literatura, 1998), Ascânio, o poeta da Verde ([várias autorias], homenagem a Ascânio Lopes, 1998), Recr(e,i)ações críticas (artigos críticos, 1999), Passagem para a Modernidade (2002), O menino que procurava o reino da poesia (narrativa de ficção, 2005), Verdes Vozes Modernistas (crítica literária, 2006), Totem e as vanguardas dos anos 1960/70 (crítica literária, 2009, 1ª reimpressão, 2013), Janelas de Leitura (vários temas, 2010), Zona de Conflito (poemas, 2024), etc.; colaborou publicando seus textos em jornais e revistas no Brasil (Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Suplemento Literário de Minas Gerais, ...) e no exterior; Joaquim Branco participou de edições dos jornais O Muro, SLD — Suplemento de Literatura e Difusão e Totem; recebeu premiações por sua obra, atualmente reside em Cataguases.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Francisco Inácio Peixoto: Bapo

 
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          Bapo era a água, o rio, a chuva, o fiozinho cristalino que fluía no tanque do fundo da chácara, quase um pequeno lago de margens recobertas de musgo. Se, de manhã cedo, passeando no jardim, via o orvalho brilhando nos tinhorões, largava a mão da empregada, corria para eles, desajeitado, os braços tentando o equilíbrio dos passos inseguros. Possivelmente, idealizava coisas durante o percurso, porque ia de testa enrugada, compenetrado, martelando monossílabos incompreensíveis. Puxava as folhas carnudas, sacudia-as violentamente e as gotas lhe borrifavam o rosto, entrecortando-lhe em arrepios a respiração, já de si ofegante do esforço e da alegria da descoberta sempre renovada. Um repelão mais forte largava-lhe nos dedos inábeis pedaços de folhas. Esmagava-as, meticuloso. Examinava-as, atento, procurando as gotas irisadas que haviam fugido. Então, num sorriso meio de desdém, meio de desaponto, indagava da criada:
           Bapo?
           É água, sim, mas larga isso aí. Você está se molhando todo.
          Não percebia a censura inútil. Olhava outra vez para os tinhorões, olhava para a ama e confirmava, gravemente:
           Bapo!
          Era como se dissesse: “Está vendo como eu já conheço as coisas?”
          Um dia, ganhou um peixinho de cauda com véu ondulante. Jogaram-no no tanque. E Bapo ficou sendo também aquele pequeno e vivo ludião vermelho.
          Era um desses peixinhos lindos de aquário, habituados à transparência de sua bola de cristal. Esta, agora vazia e empeirada, estava num canto da sala, pois tiveram medo de que algum gesto estouvado das crianças a derrubasse, molhando tudo, estragando os móveis e os tapetes. Só isso preocupava. Não pensavam que Bapo também poderia morrer. Passando-o, assim, para o tanque, acabaram-se para ele as coisas coloridas e familiares que via através da lente deformadora de seu aquário. Acabou-se a areia fina e clara do fundo, onde se deitava, morta e decorativa, uma minúscula estrela-do-mar. Que mundo escuro e feio, aquele onde o atiraram! Esbarrava nas paredes de lodo e, deste, partículas em suspensão entravam-lhe na boca, que as expelia em seu constante movimento de fole. O menino ria:
           Papá?
           Bapo está com fome, sim. Joga um pedacinho de pão para ele.
          As migalhas caíam em chuva na superfície da água e Bapo, assustado, escondia-se sob as folhas das ninfeias, enquanto um cardume de barrigudinhos vorazes disputavam os fragmentos de pão que flutuavam um momento e logo desciam, levíssimos, pontilhando de branco o fundo do lago.
          De tarde, vinha não se sabe donde, aparecia, encarapitada numa pedra da margem, uma sapa gorda com um sapinho colado às costas. Não fosse o latejar constante do papo, que gargarejava de tempo em tempo um soído rouquenho, e a gente diria que eram bichos de louça. O sapo velho rondava, escondido nas folhagens e, às vezes, como que desatado por uma mola, caía, de um pulo, na água e, em pernadas de nadador, atravessava para o outro lado do tanque. Bapo, medroso, se esgueirava para o emaranhado de hastes e raízes.
          Passava dias sumido. Ninguém mais se lembrava de vê-lo ou de jogar-lhe comida. Só o menino insistia no seu amor pelo peixinho e ousava avançar mais perto da água para descobri-lo. A empregada repreendia-o e afastava-o para longe. Ele teimava:
           Bapo!
           Bapo foi-se embora. Não chega lá, não. Você está ficando muito levado!
          E o menino repetia, fazendo com as mãozinhas um gesto desolado:
           Foi bó!
          Arisco, mal sentia um vento mais leve encrespando o lago, Bapo refugiava-se. E só a cauda, seda esgarçada, permanecia de fora, debaixo de alguma folha.
          Um dia, numa manhã de julho, sentiu que não podia locomover-se. Era como se a água houvesse virado um bloco de gelo, prendendo-o. Tudo tão frio, tão escuro! Mais escuro pela cerração que cobria a superfície do tanque. O corpo perdera a flexibilidade e só a custo se contraía sem direção. Era uma pequena alga que as águas levassem. Recurvara-se em “s”, sinuoso e hirto.
          Certa tarde quanto tempo depois? , deram com ele engastalhado no talo de uma ninfeia, como uma flor vermelha. As guelras batiam, ritmando o incessante abrir e fechar da boca. De vez em quando, buscava libertar-se em contrações bruscas e inúteis.
          Desvencilharam-no com um pedaço de pau e puxaram-no para a margem, como uma coisa, como um papel amarrotado que estivesse boiando no tanque. Algumas escamas haviam perdido os reflexos dourados e esfiapavam, formando manchas maceradas. Talvez o tivesse bicado algum bicho ou, então, se houvesse ferido nas bordas ásperas de cimento. Talvez também que, indefeso e doente, o houvessem beliscado outros peixes.
          Quando o agarraram, ainda tentou fugir às mãos, que o seguravam e que, rápidas, o tiraram fora d’água, ligando-o entre duas talas de madeira. Bapo chiava convulsamente:
           Fiu! Fiu! Fiu!
          O menino, aflito, apontava para o pobre corpo ferido e aleijado:
           Dodói! Dodói!
          Soltaram-no de novo. E Bapo foi descendo lentamente, lentamente, como um esquifezinho, até mergulhar no lodo a pequenina cabeça vermelha.
          Quando o tiraram dali, estava morto.

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Marginais do Pomba [diversas autorias], contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Ribeiro Couto: Baianinha

 
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[trechos]

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          Zezé Flores chegou à pensão numa segunda-feira. O marido fora nomeado engenheiro da Inspetoria de Portos. Vinham de São Salvador, de mudança, com três pesadas malas de roupa e um acento baiano horroroso, em que os rr eram aspirados como hh ingleses.
          Era morena, miúda, flexível. Ao rir-se, a boca pequena e fina descobria dentes alvos, que sugeriam mordidelas gostosas em nacos de carne polpuda. Tinha atitudes imperativas, um olhar vitorioso quando encarava as pessoas. Usava vestidos de cores berrantes, amarelos em oca, vermelho sangrento de urucum.

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          A baianinha empolgou-me. A iniciação do nosso amor foi simples.
          O quarto dela era nos fundos do edifício, cujos compartimentos davam para um pátio com jardim. O chuveiro era no extremo do pátio. Sempre que eu passava, enfiado no roupão de banho, via Zezé costurando, numa cadeira de braços, entre os tinhorões dos canteiros.
          Acanhado, eu cumprimentava.
          Às vezes, o chuveiro estava ocupado. O professor de Inglês cantarolava lá, com uma voz estertorante de barítono gasto.
          A princípio timidamente, fui tomando o hábito de parar junto de Zezé Flores antes de ir para a ducha. Como sentisse nela uma ironia maliciosa que zombava do meu acanhamento, animei-me aos poucos. Passamos a conversar coisas picantes.
          Ela gostava de frases:
           O déstino de uma móler bonita é o amorr. Não é nãão?
          Essa literatura avançada ficava chocante na sua boca provinciana de baianinha.
          Em todo caso, que fazer? Um dia beijei-a.
          Não teve o menor susto. Lambeu a boca, como que recolhendo o beijo e continuou a conversa, muito calma.
          Olhei para trás, com o terror de que houvessem visto: à janela de um quarto havia o gato da casa, que dormia ao sol. Uma abelha zumbia em torno de uma flor, quase no meu nariz.
          Corri ao chuveiro para isolar-me, para pôr de novo as ideias em ordem, porque o meu instintivo rompante me abalara as fibras, agora desmanchadas pela comoção.

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(Histórias de Cidade Grande [Contos Escolhidos].
Rio de Janeiro: Cultrix, 1960, pp. 93-96.)

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Ribeiro Couto, por Elvia Bezerra — Série Essencial, Academia Brasileira de Letras, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 1963), paulista de Santos, cursou a Escola de Comércio José Bonifácio dessa cidade, estudou na Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, onde bacharelou-se, foi jornalista, magistrado, promotor público, diplomata, poeta, contista e romancista; trabalhou/colaborou nos periódicos Jornal do Commercio e Correio Paulistano, em São Paulo, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil e O Globo, no Rio de Janeiro, A Província, em Pernambuco, e em outros periódicos; suas obras: em poesia: O Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem na multidão (1926), Canções de amor (1930), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951), Le jour est long (O dia é longo, 1958), Longe (1961) ...; em prosa: A casa do gato cinzento (contos, 1922), O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas, 1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha (romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Histórias de Cidade Grande — contos escolhidos (1960), Sentimento lusitano (ensaio, 1961), entre outros  títulos; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado para televisão; escreveu poemas em francês, o livro Le jour est long (O dia é longo); pertenceu à Academia Brasileira de Letras; como diplomata, atuou na França, em Portugal, Holanda e Iugoslávia, neste país, foi embaixador e ali se aposentou.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Lima Barreto: O cemitério

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          Pelas ruas de túmulos, fomos calados. Eu olhava vagamente aquela multidão de sepulturas, que trepavam, tocavam-se, lutavam por espaço, na estreiteza da vaga e nas encostas das colinas aos lados. Algumas pareciam se olhar com afeto, roçando-se amigavelmente; em outras, transparecia a repugnância de estarem juntas. Havia solicitações incompreensíveis e também repulsões e antipatias; havia túmulos arrogantes, imponentes, vaidosos e pobres e humildes; e, em todos, ressumava o esforço extraordinário para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas.
          Amontoavam-se esculturas de mármore, vasos, cruzes e inscrições; iam além; erguiam pirâmides de pedra tosca, faziam caramanchéis extravagantes, imaginavam complicações de matos e plantas coisas brancas e delirantes, de um mau gosto que irritava. As inscrições exuberavam; longas, cheias de nomes, sobrenomes e datas, não nos traziam à lembrança nem um nome ilustre sequer; em vão procurei ler nelas celebridades, notabilidades mortas; não as encontrei. E de tal modo a nossa sociedade nos marca um tão profundo ponto, que até ali, naquele campo de mortos, mudo laboratório de decomposição, tive uma imagem dela, feita inconscientemente de um propósito, firmemente desenhada por aquele acesso de túmulos pobres e ricos, grotescos e nobres, de mármore e pedra, cobrindo vulgaridades iguais umas às outras por força estranha às suas vontades, a lutar...
          Fomos indo. A carreta, empunhada pelas mãos profissionais dos empregados, ia dobrando as alamedas, tomando ruas, até que chegou à boca do soturno buraco, por onde se via fugir, para sempre do nosso olhar, a humildade e a tristeza do contínuo da Secretaria dos Cultos.
          Antes que lá chegássemos, porém, detive-me um pouco num túmulo de límpidos mármores, ajeitados em capela gótica, com anjos e cruzes que a rematavam pretensiosamente.
          Nos cantos da lápide, vasos com flores de biscuit e, debaixo de um vidro, à nívea altura da base da capelinha, em meio corpo, o retrato da morta que o túmulo engolira. Como se estivesse na rua do Ouvidor, não pude suster um pensamento mau e quase exclamei:
           Bela mulher!
          Estive a ver a fotografia e logo em seguida me veio à mente que aqueles olhos, que aquela boca provocadora de beijos, que aqueles seios túmidos, tentadores de longos contatos carnais, estariam àquela hora reduzidos a uma pasta fedorenta, debaixo de uma porção de terra embebida de gordura.
          Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência, nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo e fugaz.
          Abalei-me! Eu que dizia a todo o mundo que amava a vida, eu que afirmava a minha admiração pelas coisas da sociedade eu meditar como um cientista profeta hebraico! Era estranho! Remanescente de noções que se me infiltraram e cuja entrada em mim mesmo eu não percebera! Quem pode fugir a elas?
          Continuando a andar, adivinhei as mãos da mulher, diáfanas e de dedos longos; compus o seu busto ereto e cheio, a cintura, os quadris, o pescoço, esguio e modelado, as espáduas brancas, o rosto sereno e iluminado por um par de olhos indefinidos de tristeza e desejos...
          Já não era mais o retrato da mulher do túmulo; era de uma, viva, que me falava.
          Com que surpresa, verifiquei isso.
          Pois eu, eu que vivia desde os dezesseis anos, despreocupadamente, passando pelos meus olhos, na rua do Ouvidor, todos os figurinos dos jornais de modas, eu me impressionar por aquela menina do cemitério! Era curioso.
          E, por mais que procurasse explicar, não pude.

(Histórias e sonhos — 1920)

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Lima Barreto: obra reunida — volume 2 — 2ª edição revista, texto/apresentação Lima Barreto: A autoridade do malogro, de Lêdo Ivo, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e sonhos (contos, 1920), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros ...

sábado, 18 de janeiro de 2025

João Alphonsus: O Guarda-freios

 
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          Ao embarcar pelas 7 horas da manhã em Dores do Indaiá, o guarda-freios1 logo despertou minha curiosidade na plataforma da estação. Com o uniforme de ferroviário da R. M. V., lépido2 e desenvolto3, logo se via que era o guarda-freios. Do trem que acabara de chegar. São indivíduos necessariamente magros e ágeis, para o ofício de saltar várias vezes de um carro para outro, de andar por cima dos vagões. O da estação de Dores estava conversando com a mocinha morena que só sabia rir, bons dentes! enquanto ele falava com os olhos fixos na sua boca. Fixos não nos olhos dela, como exige o namoro comum: na boca risonha, grande, úmida. Não havia uma conversa contínua entre os dois, pois estavam carregando e descarregando encomendas e bagagens, inclusive minhas grandes malas de amostras, e o rapaz se dividia entre o serviço e o amor.
          O trem sertanejo viera do fim da linha, cortando o matinho rasteiro dos descampados, e a moça de vestido de seda vegetal e tamancos bordados, com a sua melhor indumentária4 logo se via, já o estava esperando na estação. Não ao trem, mas ao guarda-freios que descera lépido para ela, e um abraço, e perguntas, e sorrisos. Ela não parava de sorrir enquanto ele transitava se fingindo importantemente azafamado5, entre os volumes que iam enchendo o carro de bagagens e as doçuras que vinha falar a ela, parado de instante a instante, momentos inesquecíveis, como o demonstrava o riso de bons dentes.
          A máquina apitou, outro abraço, parece até que ela esperava um beijo, de tanto oferecer no riso aquela boca úmida... Ficou na plataforma agitando o lenço costumeiro, lenço branco de paz, parecendo um passarinho que queria voar na manhã sertaneja, parecendo um coração que palpitava desordenadamente; coração branco, me desculpem, mas é o amor...
          As viagens de um viajante comercial não comportam bota-foras, despedidas, adeuses, salvo de um ou outro freguês que está atrasado com a Casa e quer nos agradar. Por isto mesmo, pela razão da nenhuma poesia ou sentimentalidade das minhas viagens, chego quase a ficar poeta, ao lembrar um lenço palpitando na plataforma, como um coração que quer voar, para o guarda-freios... Quando eu era moço na profissão, embora não muito atreito6 a artes de Cupido, ainda acontecia um lenço feminino às vezes se agitar por mim numa estação qualquer. Mas agora quase que vive de observações e recordações.
          Saímos de Dores e o guarda-freios, postado7 entre os dois únicos carros de passageiros, depois de soltar os freios permanecia com os cotovelos sobre a roda, mas apenas ornamentalmente, pois o trem estava se esforçando para ganhar velocidade. Notei que logo à saída o rapaz se desinteressara do lenço e do coração que lhe pertenciam, desviando os olhos pro chão que corria debaixo de seus pés. E agora estava debruçado, derreado8 sobre a roda, de olhos baixos, indiferentes. Como não tinha com quem conversar, nem jornais novos para ler, pois só ia no carro um padre de batina cinzenta e viajante não gosta de batina de qualquer cor, fiquei olhando pelo vidro da porta o rapaz, de uns 25 anos talvez, mulato ou moreno, produto de muitos sangues quentes. De repente, sorriu de leve, fugitivamente, sorriso que seria uma conclusão de considerações íntimas especializadas em morenas; sacudiu os ombros que me importa! ; saiu do lugar e atravessou o meu carro gingando. Nem todos os seus gestos denunciavam o que lhe ia lá dentro, nem me pareceram froideanamente9 analisáveis, que já li um pouco de Freud... mas era certo que os seus pensamentos se prendiam a amores, de um modo particular e pessoal.
          Foi quando ele passou por mim equilibrando na velocidade o corpo magro, forte, seco, ágil, que eu comecei a desconfiar da importância daquele tipo. Ou melhor, da sua importância como tipo, que entraria desde logo pra minha coleção de lembranças de viagem, no arquivo de memórias somente. Porque eu viajo por obrigação, como meio de vida, mas gosto de fazer umas observaçõezinhas sobre pessoas e paisagens.
          O guarda-freios me impressionou como tipo. É preciso que explique. Indivíduo de meia altura, de estatura mais ou menos igual à minha, fino de corpo, mas visivelmente bem disposto, e sobretudo moço. Sua roupa não apresentava nenhum cuidado especial, uniforme azul desbotado e velho, largo e deselegante; um boné gasto e ensebado posto meio de banda sobre o cabelo crespo, não muito crespo; mas não exageradamente de banda à moda capadócia10. Uma certa distinção no indistinto, compreendem? O rapaz não dava nenhuma atenção a detalhes do vestir e isso não desmerecia a sua condição de galã ferroviário e sertanejo. Tinha a barba por fazer, de uns três dias; mas também isso não o desvalorizava, antes pelo contrário. As gerações antigas eram mais sexuais mais mulherengamente diretas, menos complexas no amor, pelo prestígio que davam aos pelos. Deus fez o homem peludo e raspá-los é ir contra a lei divina da multiplicação dos homens... Aqueles formidáveis bigodões antigos, aquelas barbas solenes, responsáveis por muitas séries de filhos naturais! O amor escanhoado11 é doentio, dessorado12, pervertido, falsificado, etc. É certo que ando cuidadosamente escanhoado; porém, além de não estar em causa o meu aspecto exterior, um viajante comercial barbado talvez não arranje freguês para a Casa: as barbas hoje costumam provocar o ridículo, desde que o cinema americano começou a explorá-las como um elemento cômico por excelência. Mundo decadente de homens que tiram diariamente da cara as insígnias13 pilosas14 dos atributos masculinos! Insígnias antigas da reprodução da espécie, tanto que para marcar o seu celibato15 os padres começaram a fazer a barba. Hoje tudo está mudado. Mas... o guarda-freios é que importa: quero lhes falar somente a seu respeito. O guarda-freios não tinha barbas grandes porque o uso não permite, e era moço, nascido já num mundo escanhoado. Mas teria, logo o percebi uma justificada prevenção contra o barbear-se muito a miúdo16.
          Como pormenor pessoal e importante, um lenço de seda creme enrolado no pescoço e com as pontas enfiadas numa aliança de ouro no lugar da gravata. As pontas voavam dentro do vento e do pó... Um tipo! O lenço talvez não estivesse com a cor intacta, mas a região é quente e há suor entre nuvens de poeira. A aliança, sim, pareceu-me de ouro legítimo, e devia sê-lo, para definir o tipo, a sinceridade dos seus momentos gloriosos e efêmeros17, pelos menos efêmeros ou simplesmente poéticos dentro do que eu presenciei naquela famosa viagem.
* * *
          Ele tinha voltado para o posto entre os carros, em minha frente, à minha vista através do vidro da porta Na verdade  já quase que me esquecera dele e começava a cochilar quando vozes femininas à beira da linha me fizeram olhar pra fora. Junto das três casas pequenas de uma turma de conserva18 da linha da Oeste, duas moças, ou duas mulheres moças, falavam alto, quase gritavam, ao mesmo tempo que repetiam incessantemente com os braços um cumprimento festivo, tudo para alguém que ia conosco: o guarda-freios! E o guarda-freios lhes correspondia risonho, agitando o braço direito, vozes e gestos no barulho dos truques. As moças ficaram envolvidas na nuvem de pó levantada pelo comboio19. E o rapaz colocou os olhos no chão que corria debaixo dos seus pés, como que se desinteressando delas.
          Ah, os olhos tinham importância: verdes. Moreno, mais talvez mulato, de olhos verdes. Já leram Machado de Assis, um escritor brasileiro que andou muito falado nos jornais por causa do centenário do seu nascimento? Esse escritor tem uma personagem do barulho, uma mulher por nome Capitu, que tinha os olhos de ressaca. Pois o guarda-freios era um homem de olhos de ressaca. Ressaca de amar e não de bebida, para atrair e afundar as pequenas daqueles rincões20... Não estou exagerando, nem gastando tempo com um sujeito qualquer: o tipo tinha alguma coisa de excepcional, que me metia inveja...
          Chegou uma estaçãozinha sem importância e confesso que me decepcionou não ver morena alguma na plataforma à espera do guarda-freios. Nem mesmo depois que o trem parou surgiram mulheres; mas o rapaz, passando junto às janelas do nosso carro, parecia indiferente a essa ausência, começando a conversar sobre coisas vagas com o guarda-chaves21, até que o comboio, como descobrindo de súbito22 a inutilidade daquele estacionamento, se  pôs novamente em marcha.
          Com a continuação da viagem, apontaram numa curva outras três casinholas23 de uma turma de conserva. Quando a composição passou por elas, o que vi satisfez minha impressão a respeito do rapaz. De uma das janelas humildes, a mocinha adolescente muito penteadinha, de vestido alegre e limpo, clara de tez24 e de aspecto, positivamente à espera daquele instante... a mocinha ria doidamente para o nosso guarda-freios que ria também, que ria e passava... E quando o nosso carro passou bem em frente dela, vi-a agitar o braço roliço25 e a mão pequena, no gesto costumeiro de quem promete pancada:
           Ah, diabo!
          Com o melhor semblante26 deste mundo... A adolescente ficou para trás, entre o pó, os meninos e os cachorros em profusão nesses lugares. Logo depois, eis o ar de desinteresse de olhos baixos, ou de distância, do nosso guarda-freios que tornava a transitar pelo carro!
* * *
          Naquela zona do Oeste, o trem costuma demorar mais de uma hora entre duas paradas, tamanhas são as distâncias entre os núcleos de população. Às vezes, “acontece” uma estação e a gente nota que só existem no local as casas dos ferroviários necessários ali; é como se estabelecessem uma interrupção arbitrária27 do percurso, para descansar por uns minutos a locomotiva extenuada28.
          Eu tinha que descer em Bom Despacho. A paisagem de matinho rasteiro, com arbustos retorcidos pelo esforço de arrancar seiva29 daquele chão difícil, a paisagem sem variação e sem elevações sempre me dava sonolência, principalmente naquela manhã, por causa de um pôquer30 mal jogado durante a noite. Cochilava. Mas por felicidade só dormi depois de presenciar uma cena que me encheu as medidas.
          Vi uma casa na beira da linha. Nem sei bem se era ou não casa de ferroviário. Quando o trem se aproximou, vi duas mulheres em atitude de expectativa. Uma já trintona, gorda e desmanchada31, com os braços cruzados por cima dos grandes seios que pertenciam a uma porção de meninos espalhados por ali, tinha um sorriso de simpatia bonachona32 dirigido para o nosso guarda-freios. A outra, uma pequena pra cidade, meio alourada, espigadinha33, sorria igualmente mas de modo diverso, ao vê-lo trafegar triunfante na plataforma. E quando o nosso carro estava bem em frente dela, eis senão quando o rapaz atira o busto para fora rapidamente, com os pés fixos na escada, como se fosse voar sobre a pequena, o malandro! Movimento mesmo de voar, uma projeção do corpo no ar vazio até que os braços presos aos corrimões da escada o puxaram pra trás, agindo tal-qualmente34 a dois cabos elásticos. Ao mesmo tempo a pequena moveu um pouco os braços, descontrolada pelo imprevisto, quase os levantando como se esperasse realmente acolher neles o corpo do voador. Ele ria divertidíssimo; mas a moça não ria, unindo bem ao longo do corpo esguio35 os dois braços caídos como se ainda tivesse dificuldade em dominá-los, com uma expressão de desapontamento sorridente pelo manejo36 que os fizera mover. Por ela percebi que era a primeira vez que o guarda-freios lhe fazia aquela brincadeira. Tinha sido bonito... e poético!
          Despertei em Bom Despacho, onde desembarquei, alheando-me37 do guarda-freios com a preocupação de retirar depressa as minhas malas. Quando embarquei no dia seguinte, já não tive a sua companhia. Talvez estivesse de folga. E quando voltei a fazer aquela zona, nunca mais o vi.
          Um dia, ao ver passar na beira da beira da linha as três casas de uma turma de conserva, me lembrei de perguntar por ele ao chefe de trem. Que fim teria levado o guarda-freios? Expliquei-o como o rapaz que usava um lenço de seda no pescoço, preso por uma aliança. Morrera, me disse o chefe. Facadas. Uma questão de rabo de saia.
          Não tive a mínima surpresa: um homem como aquele não podia viver muito.


Notas da edição: 1. guarda-freios: empregado que vigia e manobra os freios dos trens; 2. lépido: alegre, ágil; 3. desenvolto: desembaraçado; 4. indumentária: roupa; 5. azafamado: muito atarefado; 6. atreito: acostumado; 7. postado: posicionado; 8. derreado: inclinado; 9. froideanamente: à maneira de Freud, o pai da psicanálise; 10. capadócio: da Capadócia (província da Ásia Menor); 11. escanhoado: bem barbeado; 12. dessorado: enfraquecido; 13. insígnia: sinal de distinção, emblema; 14. piloso: que tem pelos; 15. celibato: estado da pessoa que se mantém solteira; 16. a miúdo: com frequência; 17. efêmero: passageiro; 18. turma de conserva: empregados que, nas estradas de ferro, mantêm a linha em bom estado; 19. comboio: conjunto de carros e vagões engatados e movidos por uma locomotiva; 20. rincão: lugar afastado, recanto; 21. guarda-chaves: empregado que vigia e manobra as chaves dos desvios e ramais dos trilhos; 22. de súbito: de repente; 23. casinhola: casa pequena; 24. tez: pele; 25. roliço: arredondado, gordo; 26. semblante: aspecto; 27. arbitrário: casual; 28. extenuado: cansado; 29. seiva: energia, vigor; 30. pôquer: jogo de cartas; 31. desmanchado: desleixado; 32. bonachão: que tem bondade natural; 33. espigado: alto e magro; 34. tal-qualmente: igualmente; 35. esguio: alto e magro; 36. manejo: manobra, artimanha; 37. alhear-se: distrair-se, esquecer-se.
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Contos de João Alphonsus, Apresentação de Ivan Marques e Ilustração de Rogério Coelho, Coleção O Encanto do Conto, 2003, DCL — Difusão Cultural do Livro Ltda., São Paulo — SP;  João Alphonsus de Guimaraens (1901 1944), mineiro de Conceição do Serro, hoje Conceição do Mato Dentro, iniciou seus estudos com professora particular, conclui os estudos primários no Grupo Escolar Dr. Gomes Freire, em Mariana MG, depois estudou no Seminário Arquiepiscopal de Mariana e, mudando-se para Belo Horizonte, fez 2 anos de Medicina, desistiu do curso, formou-se em Direito, foi advogado, funcionário público, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta modernista; trabalhou no Diário de Minas, na companhia dos então jovens literatos Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, Pedro Nava e outros, jornal este “que virou uma espécie de ‘quartel-general’ do Modernismo mineiro.”; publicou seus primeiros poemas na revista Fon-Fon, em 1918; colaborou com a cataguasense e modernista revista Verde, criada em 1927 por Antonio Mendes e outros companheiros e poetas de Cataguases e região; suas obras: Galinha Cega (contos, 1931), Totônio Pacheco (romance, 1934), Rola-Moça (romance, 1938), Pesca da Baleia (contos, 1942), Eis a noite! (contos, 1943), Contos e Novelas (1965); teve obras premiadas.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Dalton Trevisan: Sábado


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          Hoje é sábado; não, eu é que estou sábado. Organizo o domingo assim a cozinheira o seu bolo de nozes: aparo o cabelo, engraxo o sapato, escolho a gravata de bolinha. Pouca gente na rua, os plátanos enfeitam-se da conversa de pardais.
          Meninas já brincam, vestidinho branco no portão. Debruçando no livro de capa preta diz o escriturário, com o lápis no ar: não te gastes, amanhã é domingo. Os cães conspiram na esquina: se amanhã é domingo, tem osso de galinha.
          Solteirona descansa o cotovelo na janela: ai, tomara não chova domingo. Um gordo antegoza o domingo no prato fundo de macarrão. A amada não veio, João? Amanhã domingo estará na missa.
          Alma de artista, domingo você rabisca o retrato da menina, fita azul no cabelo, mãe e filha chateadas. Noivo, a sambiquira é com vinho na casa da sogra. Dor de dente? Que dia desgraçado: o dentista não atende domingo.
          Se você morre no sábado mais depressa esquecido.
          Eis o domingo e, como todo domingo, um dia perdido amanhã é segunda-feira.

(O conto Sábado, publicado originalmente em
Mistérios de Curitiba — 1968, foi revisto pelo autor
para a edição deste Quem tem medo de vampiro?)

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Quem tem medo de vampiro? — contos, Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Lima Barreto: Uma vagabunda

 
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          É um caso bem curioso o que te vou contar e que me parece digno de registro. Para muitos parecerá fantástico; mas, como tu sabes, já houve quem dissesse que a realidade é mais fantástica do que imaginamos.
           Dostoiévski?
           Sim; creio que foi ele, embora não afiance que fosse com estas palavras. Sabes bem como são as palavras dele?
           Não; mas estou certo que não lhe trais o pensamento… Enfim! Isso não vem ao caso. Conta lá a história.
           Conto-a a ti com todos os detalhes, para que possas tirar dela todo o profundo sentido que tem. Se tratasse de outro, havia de abreviá-la, transformá-la-ia em anedota; mas, tratando-se de ti, não há nada que seja prolixo para a compreensão de semelhante fato.
          Eles estavam no Campo de Sant’Ana e aquelas cutias sempre ariscas e aquelas saracuras de galinheiro, apesar de tudo, não deixavam de dar um toque selvagem naquele jardim educado.
          O narrador continuou:
           Foi isto há alguns anos passados. Bebia eu muito nesse tempo, muito mesmo porque tinha por divisa ou tudo ou nada. Além disso adotam uma frase não sei de que autor, como complemento da divisa.
           Qual é? perguntou o outro.
           “O burguês bebe champanha; o herói bebe aguardente.”
           Essas duas sentenças cobiçadas deviam dar resultados surpreendentes.
           Deram, como tu sabes, mas eu te quero contar uma que tu não sabes.
           Duvido.
           Pois vais ver.
           Não acredito, pois sei todas as tuas proezas desse tempo.
           Essa proeza, porém, não é minha; é de outro ou de outra.
           Que outra?
           Conheceste a Alzira?
           Sim! Aquela vagabunda que ia à casa do “Guaco”, na rua do Carmo.
           É isso mesmo: aquela vagabunda que ia à casa do “Guaco”, na rua do Carmo. É isso.
           Homem! Pelo modo por que falas, parece que tiveste paixão por ela…
           Não tive paixão, mas sou-lhe grato.
           Por quê?
           Lembras-te bem que ela bebia conosco calistos de “Guaco”.
           Lembro-me bem.
           E que ela tivera um passado de lustre, de opulência, no alto mundanismo?
           Perfeitamente. Contudo, Frederico, eu penso que ela exagerava um pouco.
           É verdade. Aquele caso que ela nos contou de ter perdido uma noite, não sei em que jogo, em São Paulo, oitenta contos, não me parece verossímil; entretanto…
           Não é só isso. Todas as sumidades da República haviam sido seus amantes. Ora, isso não é possível, porquanto muitas delas, quando começaram, eram pobretões que não podiam aspirar a semelhante “objeto de luxo”.
           Tens razão; mas…
           Uma coisa: quando me recordo da Alzira, só me vem à mente o seu famoso chapéu de chuva de alpaca, com que, às vezes, quando embriagada, desancava um qualquer e ia parar no xadrez.
           Eu, quando me vem ela à lembrança, com a sua fisionomia triste, fanada, é com o seu orgulho de ter tido muito dinheiro, por meios tão baixos…
           A observação é boa. Ela não parecia ter dor em recordar os belos dias passados; parecia antes ter prazer… Afinal, que tem ela com a tua história?
           Estavas fora, lá, para Alagoas. Continuei a frequentar o “Guaco”, onde ia todas as tardes encontrar os companheiros. Ocasionalmente topava com Alzira e pagava-lhe um cálice. As nossas relações eram as mais amistosas possíveis. Ela me contava as histórias de aventuras passadas, quer as de jogo, quer as de amor; e eu as ouvia para aprender a vida com aquela mulher batida pela sorte, pelo infortúnio e pela maldade dos homens. Gostava até da emoção que ela sentia, narrando o seu triunfo, quando, trepada no alto dos carros de Carnaval, era aclamada pelas famílias, nas ruas apinhadas por onde passava. Pelo modo que ela me contava esses episódios, julguei que Alzira nesses dias se supunha resgatada. Talvez tivesse razão…
           Coitada! fez o outro.
           Bem. Como te contava, ia sempre ao “Guaco” e, em certo dia do pagamento, lá fui. Tinha os vencimentos quase intactos na algibeira. Encontrei-a, sentei-me e pedi cerveja. Ela não quis, ficou no seu cálice habitual. Em dado momento, ao passar o proprietário, o Martins tu te lembras dele?
           Pois não.
           Disse-lhe: Martins, vê quanto te devo.
          Ele respondeu e, logo que ele se afastou, Alzira perguntou-me: “Frederico, tens dinheiro?”. Disse-lhe que sim; e ela me pediu: “Podes ‘passar’ cinco mil-réis?”. Não me fiz esperar e dei-lhe uma nota de cinco mil-réis que tinha na algibeira do colete. Ela guardou e continuou a conversa. Veio a hora de sair e de pagar a despesa atual e as passadas. Martins fez a soma e tirei da algibeira da calça o grosso do dinheiro, dando-lhe uma nota que satisfizesse a conta. Logo que o Martins se dirigiu ao balcão, ela me disse ao ouvido: “Tu não podes dar mais cinco mil-réis?”. Disse-lhe peremptoriamente: não! Não teve um momento de hesitação: levantou-se e atirou-me a nota na cara. Foi saindo e descompondo-me baixamente.
           Era muito malcriada.
           Pensei isso e o Martins aconselhou-me a evitá-la, por isso. Um acontecimento posterior, porém, fez-me julgá-la melhor.
           É daí que…
           Vais ouvir: passaram-se meses e, para publicar um livro, meti-me em complicações. Se o livro deu dinheiro eu não sei, porque só perdi com ele; entretanto, fez um sucessozinho; mas, caí de roupas etc. etc. Uma noite estava sentado entre desanimados, como eu, num banco do largo da Carioca, considerando aqueles automóveis vazios, que lhe levam algum encanto. Apesar disso, não pude deixar de comparar aquele rodar de automóveis, rodar em torno da praça, como que para dar ilusão de movimento, aos figurantes de teatro que entram por um lado e saem pelo outro, para fingir multidão; e como que me pareceu que aquilo era um truque do Rio de Janeiro, para se dar ares de grande capital movimentada…  Estava assim, quando me bateram ao ombro: “Oh! Frederiquinho!”.
           Quem era?
           Era a Alzira.
           Queria ela alguma coisa?
           Queria dar-me. Nada mais.
           O quê?
           A passagem do bonde.
           Tu não a tinhas?
           Tinha. Disse-lhe isso até; mas o meu aspecto era da mais completa miséria. Minha roupa estava sebosa, meu chapéu de palha muito sujo, cabeludo, barba velha; e, além de tudo, sobreviera-me uma fraqueza de pálpebras, que me obrigava a usar uns sinistros óculos escuros de mendigo semicego. Apesar da minha recusa, ela insistiu de tal modo, de forma tão cheia de piedade e ternura, que me pareceu uma cruel desfeita não lhe aceitar o cruzado.
           Aceitaste?
           Aceitei.
           Curioso.
           Está aí a vagabunda do “Guaco”, meu caro Chaves.
          Levantaram-se, saíram do jardim e o advento da noite, misteriosa e profunda, era anunciado pelo acender dos lampiões de gás e o piscar dos globos de luz elétrica, naquele magnífico fim de crepúsculo.

(Histórias e sonhos — 1920)

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Lima Barreto: obra reunida — volume 2 — 2ª edição revista, texto/apresentação Lima Barreto: A autoridade do malogro, de Lêdo Ivo, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e sonhos (contos, 1920), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros ...