segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Lindolf Bell: O poeta descobre-se no sebo

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O poeta, ansioso, silencioso, vaidoso
como sempre,
caminha no centro da cidade.

Em busca de si mesmo, considera o poeta,
em busca de mim
e também do povo
que tanto precisa de mim.

Encontra o sebo:
no mesmo lugar
o sebo de sempre
no mesmo lugar.
O sebo que liquida livros de poesia
como sempre,
como sempre anuncia o cartaz
escrito a pincel atômico
que a luz consome.

Quer dizer: o sebo liquida duplamente
a poesia,
pensa o poeta,
sem revolta
nem meta.

O poeta abre caminho entre os títulos.
Polvo de curiosidade.
Mil dedos
entre mil páginas.
E o poeta, herdeiro dos deuses,
hierático, enigmático como sempre
mas de suor frio na testa,
entre tantos livros empilhados
pilhou-se no flagrante
folheando o próprio livro.

Leu comovido a dedicatória.
O que sobra de um tempo feliz, pensa.
Em íntima dedicatória, amiga, íntegra entrega:
ofereço essas palavras
para que a ponte da amizade
cresça perfeita em nós
seres humanos.

O poeta deixa o sebo
o sente o ruidoso bafo da vida.
E neste instante começa a escrever
o próprio epitáfio.

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘a Cidade, Os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; sua bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Requiem (1994);  o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições  de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

domingo, 27 de agosto de 2017

Tácito de Almeida: Desenho

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Vamos vivendo, vamos vivendo...

Não imaginamos como deve ser,
como queremos que seja a nossa vida...

Vamos vivendo, vamos vivendo...

Deixemos que a nossa vida
seja como essas figuras despreocupadas
que a nossa mão vai desenhando sem querer...

Essas figuras que só depois de terminadas
começamos a achar parecidas com alguém...

Vamos vivendo, vamos vivendo...

(Túnel)

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Tácito de Almeida — Túnel e Poesias Modernistas — 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, 1987, Coleção Toda Poesia 3, Art Editora, São Paulo — SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889 1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos com o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

sábado, 26 de agosto de 2017

Carlos Vogt: Soneto de ocasião

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Se de lembrar não fosse tempo agora
nem de outros frutos estação aqui 
se não passasse a chuva fina espora 
da longa espera de esperar por ti 

certo haveria acaso novidade 
tardes tranqüilas filas dolorosas 
insinuações de amor fragilidade 
torcidos homens torturadas rosas 

portas de aço a solidão por dentro 
riso ternura trampolim da sorte 
o antigo medo a procurar um centro 

hoje a viagem a despedida o pranto 
corta a memória aprofundando o corte 
na dor insiste o velho amor e quanto

Cantografia, 1982

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Carlos Alberto Vogt, nascido em 1943, paulista de Sales de Oliveira, formado em Letras pela USP, com mestrado em Letras Modernas, pela Universidade de Besançon França e doutorado em Ciências pela Unicamp, Campinas SP, poeta, professor, tradutor, também exerceu diversas funções e cargos nas áreas de educação, cultura e da ciência; sua bibliografia: O intervalo semântico (1977), Linguagem, pragmática e ideologia (1980), Cantografia  o itinerário do carteiro cartógrafo (poemas, 1982), Paisagem doméstica (poemas, 1984), Geração (poemas, 1985), Metalurgia (poemas, 1991), Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida Seleção e Comentários (1993), Mascarada (poemas, 1997), Ilhas Brasil (poemas, 2002) e outros títulos, além de ter publicado artigos e ensaios em jornais e revistas, e em órgãos especializados nacionais e estrangeiros; traduziu textos de Marcel Proust e de Algernon Charles Swinburne (poeta inglês da época vitoriana).

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Ernani Rosas: Neste poema cismático, agoniza . . . [soneto]

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Neste poema cismático, agoniza
a luz de um sol como um delírio a Deus!
num nevoeiro genial se concretiza,
Dúvida e sombra num debuxo a Zeus...

Ritmo e rima irrompem na harmonia
da orquestra d’oiro da asa, que esvoaça...
no pó do som, em vã melancolia,
como um sonho num voo de fumaça!...

Ritmo e forma em nevoeiro se eternizam,
encarnam a ideia em uma extrema velada...
para viver à luz que a divisa

Dúvida e treva: a noute constelada...
só dúvida e Tristeza a sintetizam,
nesse ritmo aureal da madrugada!

1946

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Cidade do ócio: entre sonetos e retalhos — Ernani Rosas, Organizado por Zilma Gesser Nunes, 2008, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida (1886 1955), catarinense de Desterro, atual Florianópolis, foi poeta; desde os três anos de idade passou a residir na cidade do Rio de Janeiro e, depois, com a morte do pai (Oscar Rosas, político e também poeta, que basicamente lhe garantia as mesadas), mudou-se com a mãe e irmãs para Nova Iguaçu, também no Rio, onde morreu em difíceis condições; levou uma vida boêmia e sofreu discriminação pela sua gagueira e homossexualidade; foi um homem reservado que tentou ficar o máximo possível no anonimato; colaborou com os periódicos O Imparcial, Maçã e A Época; sua bibliografia: Certa Lenda numa Tarde Paráfrasis de Narciso (assina Rictus da Cruz, 1917), Poemas do Ópio (1918) e Silêncios (sem data); após sua morte, houve o resgate de sua obra poética: em Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro Organização de Andrade Muricy (1952), foram incluídos vinte e sete de seus poemas e, em Poesias — Organização de Iaponan Soares e Dalila Carneiro da Cunha Luz Varella (1989), estão reunidos oitenta e oito poemas, manuscritos e plaquetes * encontrados, já nos arquivos da Academia Catarinense de Letras; depois, vieram outros estudos: História do Gosto e Outros Poemas Organização de Ana Brancher (1997) e este Cidade do Ócio  entre sonetos e retalhos.

Notaplaquetes: este aprendiz de blogueiro faz constar que, conforme o História do Gosto e Outros Poemas (1997), as plaquetes, em torno de trinta e sete, organizadas pelo poeta, são pequenos livros costurados à mão e com barbante, com capa de papel “de embrulho”, onde foi escrito à mão o título da plaquete; pelas plaquetes, tem-se que Ernani Rosas também fez uso de alguns pseudônimos para assiná-las: N. Cáspio, A. Luzo, N. Luzo, além do já anteriormente citado Rictus da Cruz; neste Cidade do Ócio, a autora relata os pseudônimos Narciso Cáspio, Antonio Luzo, Narciso Luzo e Alda Trigueiros, além de Rictus da Cruz.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Tácito de Almeida: Meditação [Noturno da Sorocabana]

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“O céu que alimenta a ciência dos Homens
Porque nada lhes diz...”
Carlos Alberto de Araújo
 (d’A planta flexível)

I

Ó as noites aladas!

Como o comboio longo voa,
todo solto,
mastigando a treva!

Uma brasa leve, livre, ardente,
cada vez mais viva,
toda entregue ao vento...

Ó os sonhos dos velhos pobres!

Ó meu céu, meu bom São Jorge,
como é b elo o teu capacete cheio de plumas,
e como está brilhante a tua armadura escamada!

II

Ó as noites aladas!

Um choque mole,
um silvo afiado
e a serpente luminosa que para,
tonta, perdida na paisagem silenciosa...

Ó os sonhos dos olhos pobres!

Porque baixaste, meu bom São Jorge,
a estrela cadente de tua espada
contra o ar azul, contra o mundo frágil
e contra a minha serpente encantada?

III

Ó as noites aladas!

O silêncio vazio dos campos parados...

O céu largo, de asas fosforescentes,
debatendo-se no espaço inviolável...

Imobilidade,
perfume das planícies noturnas.

Rumor surdo,
rumor rouco
no peito da noite crivada de setas.

Rumor surdo...

A noite é uma grande bobina elétrica,
muito encerrada,
dentro de fortes cilindros de aço polido...

A noite é uma usina,
uma enorme fábrica negra, invisível...

Rumor surdo,
rumor rouco
das grandes máquinas loucas que fervem,
que trabalham desesperadamente,
interminavelmente,
para fabricar silêncio...

Silêncio!
Porque tanto silêncio?...

Porque vigiar tanto a terra,
vigiar tanto os homens que pensam, que sofrem
e espreita, todos os gestos do Mistério?...

Ó céu, meu bom São Jorge,
quando terminará essa velha cruzada?

Porque tanto silêncio? tanto silêncio?...

Porque vigiar tanto a voz fraca dos homens?!...

(Túnel)

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Tácito de Almeida  Túnel e Poesias Modernistas 1922/23, Estabelecimento de texto e estudo por Telê Porto Ancona Lopez, 1987, Coleção Toda Poesia 3, Art Editora, São Paulo  SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos com o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sérgio Milliet: Revolta

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Em que pese a nossa revolta...
mas que somos nós!
mas que somos nós!

Terror dos olhos que se voltam para dentro,
impotência das mãos presas à vida.

Jamais aceitaremos essa lei terrível!
Mas que somos nós!
Mas que somos nós!

Pobre cousa agora sorridente
nesse descanso que não queria,
já sem problemas,
sem perspectivas,
já sem gritos para dizer do inconformismo,
barro que torna ao barro
em que pese a nossa revolta!

Como uma estufa se constrói um cérebro
e dentro desabrocha um pensamento,
              flor de requinte
       e se afinam as células sensíveis,
              os olhos vêem mais longe
                     e fundo,
os ouvidos ouvem melhor,
distinguem Bach, Noel Rosa,
as narinas se adelgaçam
o tato se faz ligeiro
abre-se o coração em simpatia,
mas a morte está de atalaia
e eis que tudo se afoga em um pouco de sangue...

E que se creia em Deus!
E que se creia em Deus!

Mas Deus chama os melhores
em que pese a nossa revolta...
Ele se cerca dos mais puros
dos mais fortes e perspicazes,
Ele quer tropas aguerridas
de lúcidas almas que lhe possam ouvir
e entender os desígnios inescrutáveis.

Sim Deus chama os melhores
porque os criou para si próprio
frágeis mudas para o jardim celeste.
Ele os arranca desta terra negra e suja
nessa hora exata em que começam a florescer...

Ah! que somos nós!
apenas recipientes.
potes de faiança ou porcelana
e se vinga a semente plantada.
Ele colhe a flor
e transplanta a muda
em que pese a nossa revolta.

Jamais aceitaremos essa lei terrível,
essa lei inumana,
e que só justifica a metafísica.
Jamais a aceitaremos.
nós que somos de carne, ossos, sangue e vísceras,
nós que somos fraquezas e imperfeições,
solidão, angústias, esperanças malogradas.
Jamais aceitaremos o destino subalterno
de instrumentos de sua vontade.

Mas que somos nós!
Mas que somos nós!

Poema do Trigésimo Dia  1950
  Edição fora de comércio.

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Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna — Apresentação, Seleção e Notas Biobibliográficas de Mário da Silva Brito, 1972, Livraria Martins Editora, São Paulo — SP; Sérgio Milliet da Costa e Silva (1898 1966), paulista e paulistano, tendo feito seus estudos iniciais na capital paulista, cursou Ciências Econômicas e Sociais na Escola do Comércio de Genebra e na Universidade de Berna (Suiça), foi escritor, crítico de arte, sociólogo, professor, tradutor, pintor e poeta; na Europa, colaborou com a revista Le Carmel, escreveu e publicou Par le Sentier (poesia, 1917) e Le Départ Sur la Pluie (poesia, 1919); de retorno ao Brasil, participou da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, aderindo ao Modernismo e tornando-se defensor e incentivador das nova idéias sobre arte e literatura divulgadas pelo grupo modernista; de volta à Europa, em Paris, passou a acompanhar o desenvolvimento das novas teorias a respeito da arte e colaborou com as revistas brasileiras Klaxon, Terra Roxa, Ariel e Revista do Brasil, todas de viés modernista; divulgou seus poemas na revista Lumiére, vertendo-os para o francês; no retorno definitivo ao Brasil, radicando-se em São Paulo, ajudou a criar a revista Cultura juntamente com Oswald de Andrade e Afonso Schmidt , ocupou funções públicas, atuou como professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, colaborou com artigos versando sobre arte e literatura para o jornal O Estado de São Paulo e deu início a um período de intensa produção na área de crítica de arte; colaborou também na revista Clima e nos jornais O Tempo, A Manhã e Folha da Manhã; participante ativo na área cultural e artística, ocupando diversas funções nas instituições do gênero, dirigiu a Biblioteca Municipal de São Paulo, foi um dos articuladores da criação do Museu de Arte Moderna de São Paulo MAM-SP, ajudou na fundação e dirigiu a Associação Brasileira de Críticos de Arte ABCA...; sua bibliografia: L’oeil de Boeuf (1923), Poemas Análogos (1927), Pintores e Pintura (1940), O Sal da Heresia (1941), Fora de Forma (1942), A Marginalidade da Pintura Moderna (1942), Oh! Valsa Latejante (1943), A Pintura Norte-Americana (1943), Pintura Quase Sempre (1944), Diário Crítico (antologia em 10 volumes, pulicados de 1944 a 1959), Poesias (1946), Poema do Trigésimo Dia (1950), Panorama da Moderna Poesia Brasileira (crítica literária, 1952).

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Stefan George: Nietzsche

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[traduzido por Eduardo de Campos Valadares]

Escuras nuvens avançam sobre a montanha
Gélidas tempestades fustigam  ainda meio outono
Meio primavera... Eis a muralha
Que encarcerou o Trovejador — era o único
Entre os milhares de pó e névoa ao seu redor?
Ali lançou seus últimos relâmpagos rebotos
Sobre planícies e cidades extintas
Transpondo a longa noite para a noite eterna.

Crassa trota abaixo a massa · não a espantem!
Seria ferir medusa · ceifar erva!
Em instantes impera o silêncio celestial
O animal que o polui com elogios
E se ceva em fumos de mofo sufocando-o
Está prestes ao fim!
E então radiante reinarás através dos tempos
Com a coroa ensanguentada como outros guias.

Tu redentor! de todos o mais infeliz 
Marcado pelo destino atroz
Nunca viste a sede da saudade sorrir?
Criaste deuses para logo despedaçá-los
Nunca uma obra te deu alegria ou alívio?
Aniquilaste em ti próprio o próximo
E ao sentires sua falta na absoluta solidão
Soltaste um grito de dor e desespero.

Tarde demais chegou o suplicante para revelar-te:
Não existem caminhos sobre cimos nevados
E pássaros apavorados ouviste — na miséria:
Exilado no círculo onde o amor inexiste ..
E quando a implacável e atormentada voz
Soa como canto de louvor em soturnas noites
De luar — assim lamenta-se: devia ter cantado
Essa nova alma e a palavra evitado!

(O sétimo Anel  1907)

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Stefan George

Nietzsche

Schwergelbe wolken ziehen überm hügel
Und kühle stürme — halb des herbstes boten
Halb frühen frühlings... Also diese mauer
Umschloss den Donnerer — ihn der einzig war
Von tausenden aus rauch und staub um ihn?
Hier sandte er auf flaches mittelland
Und tote stadt die lezten stumpfen blitze
Und ging aus langer nacht zur längsten nacht.

Blöd trabt die menge drunten · scheucht sie nicht!
Was wäre stich der qualle · schnitt dem kraut!
Noch eine weile walte fromme stille
Und das getier das ihn mit lob befleckt
Und sich im moderdunste weiter mästet
Der ihn erwürgen half sei erst verendet!
Dann aber stehst du strahlend vor den zeiten
Wie andre führer mit der blutigen krone.

Erlöser du! selbst der unseligste 
Beladen mit der wucht von welchen losen
Hast du der sehnsucht land nie lächeln sehn?
Erschufst du götter nur um sie zu stürzen
Nie einer rast und eines baues froh?
Du hast das nächste in dir selbst getötet
Um neu begehrend dann ihm nachzuzittern
Und aufzuschrein im schmerz der einsamkeit.

Der kam zu spät der flehend zu dir sagte:
Dort ist kein weg mehr über eisige felsen
Und horste grauser vögel — nun ist not:
Sich bannen in den kreis den liebe schliesst ..
Und wenn die strenge und gequälte stimme
Dann wie ein loblied tönt in blaue nacht
Und helle flut — so klagt: sie hätte singen
Nicht reden sollen diese neue seele!

(Der siebente Ring  1907)
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Crepúsculo — Stefan George, Seleção, Ensaio e Tradução de Eduardo de Campos Valadares, 2000, Iluminuras, São Paulo — SP; Stefan Anton George (1868 1933), alemão de Büdesheim, região do Reno, foi tradutor e poeta maior do Simbolismo; fez seus estudos secundários no Ludwig-Georgs-Gymnasium, em Darmstadt, e ali passou a se interessar por teatro e poesia; editou um jornalzinho escolar de literatura, o Rosen und Disteln (Rosas e Cardos); a partir daí, toma contato com o mundo exterior, viajando a Londres, Montreux, na Suiça, Milão, Turim e, depois, Paris, onde se encontra com o poeta Albert Saint-Paul, que o apresenta a Stéphane Mallarmé; dedicando-se ao Simbolismo, as portas são abertas para um mundo novo da experiência poética, a arte pela arte, o que o faz tomar impulso na produção de versos e na tradução de textos de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Mallarmé e outros tantos poetas contemporâneos; faz cursos de literatura e filosofia na Universidade de Berlim, cria a revista literária Blätter für die Kunst (Folhas de Arte), publicada de 1892 a 1919, isso fazendo com que o poeta passe mesmo a ser referência de um círculo literário e acadêmico denominado George-Kreis; neste período, sua roda de amigos inclui franceses, italianos e mexicanos, o que lhe possibilita falar francês e ouvir espanhol com mais assiduidade do que alemão; bibliografia: Hymnen (Hinos, 17 poemas, 1890), Algabal (1892), Das Jahr des Seele (O ano da alma, 1897), Der Teppich des Lebens und die Lieder von Traum und Tod mit einem Vorspiel (Tapete da Vida e Canções de Sonho e Morte com um Prelúdio, 1899) Der siebente Ring (O sétimo Anel, 1907), Der Stern des Bundes (A estrela da Aliança, 1914), Das neue Reich (O novo Reino, 1928) e outros; Roger Bastide (1898 — 1974), estudioso francês, nos propõe uma "tríade sagrada do Simbolismo" e cita o poeta Stefan George ao lado de Stéphane Mallarmé e do nosso Cruz e Sousa.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Félix Contreras Rodrigues: quero-quero

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Sentinela avançada em descoberta
pela campina o quero-quero está,
teso o topete, em posição de alerta,
puas em riste, a catadura má.

Não senta em árvore, seu posto é lá
no chão e no ar que o seu clarim desperta
pronto a investir contra quem vem ou vá
com certeiros puaços, de asa aberta.

Notícias - “Lá vem o quero-quero, te cuida com o 'ferrão' do bicho ...

Em vôos de picada, audaz e fero
aos gritos chega, bate o bico-quero!
roçando seus encontros de condor.

O primitivo dono do Rio Grande
quer ser quem nestes pagos inda mande,
não se entregou ainda ao invasor!

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Livro dos Poemas — uma antologia de poetas brasileiros e portugueses, Organização e Notas de Sergio Faraco, 2009, L&PM Editores, Porto Alegre  — RS; Félix Contreras Rodrigues (1884 1960), ou Félix Contreiras Rodrigues, gaúcho de Bagé, iniciou a vida escolar no colégio Carneiro, em Bagé, bacharelando-se em Porto Alegre RS, foi advogado, professor, escritor, historiador e poeta; lecionou no Curso Pré-Jurídico, na Escola de Comércio e na Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas da PUC Porto Alegre; usou o pseudônimo Piá do Sul em muitas de suas obras, particularmente as mais antigas; sua bibliografia: Compêndio de Economia Política, Farrapo memórias de um cavalo, Amores do Capitão Paulo Centeno, Gauchadas e Gauchismos (1926), Nair, Moça Moderna (1930) No Rastro d’Alma (1952).