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quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Boris Vian: Irei cuspir-vos nos túmulos [XXII]

 
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[traduzido por Cascais Franco]

                    . . .

                    XXII

                    O sargento Culloughs tornou a colocar o cachimbo sobre a secretária.
                     Nunca mais o apanhamos  disse ele.
                    Carter abanou a cabeça.
                     Podemos experimentar.
                     Não se pode caçar com duas motos um tipo que vai a cem milhas à hora num chaço de oitocentos quilos!
                     Podemos experimentar. Arriscamos a pele, mas podemos experimentar.
                    Barrow ainda nada dissera. Era um tamanhão esgrouviado e moreno, desengonçado, com um sotaque arrastado.
                     Eu alinho  disse ele.
                     Vamos?  inquiriu Carter.
                    Culloughs olhou para os dois.
                     Rapazes  avisou ele , vocês arriscam a pele, mas se forem bem sucedidos sobem de posto.
                     Não se pode deixar um negro imundo pôr toda a região a ferro e fogo  disse Carter.
                    Culloughs nada respondeu e consultou o relógio.
                     São cinco horas  disse ele.  Telefonaram-nos há dez minutos. O tipo deve passar dentro de cinco minutos... se passar  duvidou ele.
                     Matou duas raparigas  disse Carter.
                     E um garagista  acrescentou Barrow.
                    Ele verificou que o seu coldre lhe batia na coxa e dirigiu-se para a porta.
                     Já vem gente atrás dele  disse Culloughs.  Segundo as últimas notícias, eles não lhe perderam o rasto. O carro do Super partiu agora e aguarda-se outro.
                     Faríamos melhor se abalássemos  disse Carter.  Levamos só uma moto.
                     Não é regulamentar  protestou o sargento.
                     Barrow sabe disparar  disse Carter.  Um gajo sozinho não pode guiar e disparar.
                     Oh, desenrasquem-se!  disse Culloughs.  Lavo daí as minhas mãos.
                    A Indian arrancou de rompante. Barrow estava amarrado a Carter, que por pouco não caiu do selim. Ele sentara-se ao contrário, de costas para Carter, ligados um ao outro por uma correia de couro.
                     Abranda logo que saíres da cidade  disse Barrow.
                     Não é regulamentar  resmoneou Culloughs mais ou menos na mesma altura, e olhou para a moto de Barrow com ar melancólico.
                    Encolheu os ombros e entrou na esquadra. Voltou a sair quase imediatamente e viu desaparecer a retaguarda do grande Buick branco que acabava de passar atroando tudo em redor com o ronquido do motor. E depois ouviu as sirenas e viu passar quatro motos — eram portanto quatro  e uma carripana que as seguia de perto.
                     Porcaria de estrada!  tornou a resmungar Culloughs.
                    Desta vez ele quedou-se cá fora.
                    Ouviu decrescer o ruído das sirenas.

                    . . .

Boris Vian

J’irai cracher sur vos tombes

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                    XXII

                   Le sergent Culloughs reposa sa pipe sur le bureau.
                     Jamais nous ne pourrons l’arrêter, dit-il.
                    Carter hocha la tête.
                     On peut essayer.
                     On ne peut pas arrêter avec deux motos un type qui va à cent milles à l’heure dans une bagnole de huit cents kilos!
                     On peut essayer. On risque sa peau, mais on peut essayer.
                    Barrow n’avait encore rien dit. C’était un grand gars, maigre et brun, dégingandé, avec un accent traînant.
                     Moi, j’en suis, dit-il.
                     On y va, dit Carter.
                    Culloughs les regarda.
                     Les gars, dit-il, vous risquez votre peau, mais vous aurez de l’avancement si vous y arrivez.
                     On ne peut pas laisser un sacré nègre mettre tout le pays à feu et à sang, dit Carter.
                    Culloughs ne répondit rien et regarda sa montre.
                     Il est cinq heures, dit-il. Ils ont téléphoné voici dix minutes. Il doit passer dans cinq minutes… s’il passe, ajouta-t-il.
                     Il a tué deux filles, dit Carter.
                     Et un garagiste, ajouta Barrow.
                    Il vérifia que son colt lui battait la cuisse et se dirigea vers la porte.
                     Il y en a déjà deux derrière lui, dit Culloughs. Aux dernières nouvelles, ils tenaient toujours. La voiture du super est partie maintenant et on en attend une autre.
                     On ferait mieux de démarrer, dit Carter. Mets-toi derrière moi, dit-il à Barrow. On prend une seule moto.
                     C’est pas régulier, protesta le sergent.
                     Barrow sait tirer, dit Carter. À soi tout seul, on ne peut pas conduire et tirer.
                     Oh, débrouillez-vous, dit Culloughs. Moi je m’en lave les mains.
                    L’Indian démarra d’un coup. Barrow était accroché à Carter qui faillit décoller. Il s’était assis à l’envers, le dos contre celui de Carter, ficelés l’un à l’autre par une sangle de cuir.
                     Ralentis sitôt sorti de la ville, dit Barrow.
                     C’est pas régulier, marmonna Culloughs, à peu près au même moment, et il regarda la moto de Barrow d’un air mélancolique.
                    Il haussa les épaules et rentra dans le poste. Il ressortit presque aussitôt et vit disparaître l’arrière de la grande Buick blanche qui venait de passer dans un tonnerre de moteur. Et puis il entendit les sirènes et vit passer quatre motos  il y en avait donc quatre  et une bagnole qui les suivait de près.
                     Saloperie de route, grommela encore Culloughs.
                    Cette fois, il resta dehors. Il entendit décroître le bruit des sirènes.

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Irei cuspir-vos nos túmulos — Boris Vian, Tradução de Cascais Franco, Coleção Clube do Crime 28, 1973, Publicações Europa-América, Mira-Sintra, Mem Martins — Portugal; Boris Paul Vian (1922 1959), francês de Ville-d’Avray, foi poeta, romancista, compositor, crítico musical, instrumentista, dramaturgo e engenheiro, além de outras incursões artísticas e literárias; fez seus estudos iniciais no Liceu de Sévres, onde aprendeu latim, grego e alemão; depois, no Liceu Hoche Versalhes, bacharelou-se em Matemática, Filosofia e, ampliando seus estudos em línguas, também bacharelou-se em latim, grego e alemão; nesse período, como trompetista, participou da orquestra do Hot Clube de França, envolvendo-se no mundo do jazz; estudou matemáticas especiais no Liceu Condorcet Paris e formou-se engenheiro especializado em Metalurgia na Escola Central de Paris; em 1943, já trompetista reconhecido, escreveu sua primeira novela, Trouble dans lês andains, publicada somente em 1966, e também publicou o seu primeiro poema, sob o pseudônimo Bison Ravi (anagrama de seu nome), no Boletim do Hot Clube de França; bibliografia: J’irai cracher sur vous tombes (Irei cuspir-vos nos túmulos, prefaciada pelo autor Boris Vian e editada com o pseudônimo de Vernon Sullivan este romance sofreu censura , 1946), Vercoquin et le plâncton, L’Écume des jours (novelas, 1947), Trouble dans les Andains (novela escrita em 1947, publicação póstuma em 1966), Cantilènes en gelée (poesias, 1949), Les Fourmis (conto, 1949), Les Lurettes fourrées (contos, 1948 e 1949, publicados com L’Herbe rouge, 1950), L’Herbe rouge (romance, 1950), Le Déserteur, La Java des bombes atomiques (canções, 1954 e 1955); Je voudrais pas crever (poesias, 19511952, publicação póstuma, 1962), entre outros títulos em verso, prosa, canções e dramaturgia; traduziu Raymond Chandler e Alfred Elton van Vogt; em jornais e revistas da época, na divulgação de suas obras, Boris Vian, fez uso de dezenas de pseudônimos, Vernon Sullivan, Bison Ravi, Michel Delaroche, Gérard Dunoyer entre muitos outros; o poeta conviveu, desde criança, com problemas de saúde que afetaram o seu coração, vindo a morrer precocemente de causa cardíaca.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Boris Vian: Irei cuspir-vos nos túmulos [XIX]

 
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[traduzido por Cascais Franco]

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                    XIX

                    Devia ter ido buscar a pá e a picareta e enterrá-la ali, mas agora arreceava-me da polícia. Não queria que me apanhassem antes de haver liquidado Jean. Decerto que a partir daqui era o miúdo que me governava; ajoelhei-me diante de Lou. Desatei a corda que lhe prendia as mãos; ela tinha profundas marcas nos punhos e mostrava-se flácida ao tacto como é costume nos mortos logo após eles morrerem; já os seus seios se amolentavam. Não lhe tirei a saia do rosto. Preferia não voltar as ver as feições dela, mas abarbatei-lhe o relógio. Precisava de uma coisa sua.
                    Pensei bruscamente no meu próprio rosto e corri para a carripana. Observando-me no retrovisor, vi que não havia necessidade de grandes retoques. Lavei-me com uma porção de uísque; o meu antebraço já não sangrava; consegui sacá-lo de uma manga e cingi-lo bem junto ao torso com o meu lenço de seda e um pedaço de corda. Pouco faltou para verter lágrimas, tão fortes eram as dores, pois tinha de o dobrar; ainda assim fui bem sucedido depois de ir buscar uma segunda garrafa ao porta-bagagens. Perdera um tempor precioso e o Sol não tardaria a despontar. Levei a capa de Lou para fora do carro e estendi-a por cima dela, visto não querer laurear com aquilo. Já não sentia as pernas, mas as mãos tremiam-me um pouco menos.
                    Reinstalei-me ao volante e arranquei. Perguntei a mim mesmo o que ela teria dito a Dex; a sua alusão à polícia começava a atenazar-me, embora eu não me capacitasse verdadeiramente dela. Acompanhava-me qual fundo sonoro.
                    Eu agora desejava deitar a unha a Jean e sentir o que sentira duas vezes ao demolir a sua irmã. Acabara de encontrar o que sempre procurara. É claro que a polícia me chateava, mas num plano inteiramente diferente; isto não me impediria de fazer o que pretendia, o meu avanço chegava e sobejava. Eles seriam obrigados a vir na estilha para me caçarem. Restava-me um pouco menos de trezentas milhas a percorrer. O meu braço esquerdo entrara num quase torpor e eu carreguei no prego.

Boris Vian
J’irai cracher sur vos tombes

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                    XIX

                    J’aurais dû aller chercher la pelle et la pioche et l’enterrer là, mais j’avais peur de la police maintenant. Je ne voulais pas qu’on me rattrape avant d’avoir liquidé Jean. Sûr, c’est le gosse qui me guidait maintenant; je me suis agenouillé devant Lou. J’ai défait la corde qui lui tenait les mains; elle avait des traces profondes sur les poignets et elle était flasque à toucher comme sont les morts juste après qu’ils sont morts; déjà ses seins s’avachissaient. Je n’ai pas retiré la jupe de sa figure. Je ne voulais plus voir sa tête, mais j’ai pris sa montre. J’avais besoin de quelque chose à elle.
                    J’ai repensé brusquement à ma figure à moi et j’ai couru à la bagnole. En me regardant dans le rétroviseur, j’ai vu que ce n’était pas grand-chose à arranger. Je me suis lavé avec un peu de whisky; mon bras ne saignait plus; j’ai réussi à le retirer de ma manche et à l’attacher serré autour de mon torse avec mon foulard et de la corde. J’ai failli chialer tellement j’avais mal, car il fallait que je le replie; j’y suis arrivé quand même en sortant du coffre une seconde bouteille. J’avais perdu pas mal de temps et le soleil n’était guère loin. J’ai pris le manteau de Lou dans la voiture et j’ai été le coller sur elle, je ne voulais pas trimbaler ça avec moi. Je ne sentais plus mes jambes, mais mes mains tremblaient un peu moins.
                    Je me suis réinstallé au volant et j’ai démarré. Je me suis demandé ce qu’elle avait pu dire à Dex; son histoire de police commençait à me tracasser, je n’y pensais pas vraiment. C’était derrière, comme un fond sonore.
                    Je voulais avoir Jean maintenant et sentir encore ce que j’avais senti deux fois en démolissant sa sœur. Je venais de trouver ce que j’avais toujours cherché. La police, ça m’embêtait, mais tout à fait sur un autre plan; ça ne m’empêcherait pas de faire ce que je voulais, j’avais trop d’avance. Ils seraient obligés de cavaler dur pour me rattraper. Il me restait un peu moins de trois cents milles à faire. Mon bras gauche était à peu près engourdi maintenant et je donnai toute la sauce.

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Irei cuspir-vos nos túmulos — Boris Vian, Tradução de Cascais Franco, Coleção Clube do Crime 28, 1973, Publicações Europa-América, Mira-Sintra, Mem Martins — Portugal; Boris Paul Vian (1922 1959), francês de Ville-d’Avray, foi poeta, romancista, compositor, crítico musical, instrumentista, dramaturgo e engenheiro, além de outras incursões artísticas e literárias; fez seus estudos iniciais no Liceu de Sévres, onde aprendeu latim, grego e alemão; depois, no Liceu Hoche Versalhes, bacharelou-se em Matemática, Filosofia e, ampliando seus estudos em línguas, também bacharelou-se em latim, grego e alemão; nesse período, como trompetista, participou da orquestra do Hot Clube de França, envolvendo-se no mundo do jazz; estudou matemáticas especiais no Liceu Condorcet Paris e formou-se engenheiro especializado em Metalurgia na Escola Central de Paris; em 1943, já trompetista reconhecido, escreveu sua primeira novela, Trouble dans lês andains, publicada somente em 1966, e também publicou o seu primeiro poema, sob o pseudônimo Bison Ravi (anagrama de seu nome), no Boletim do Hot Clube de França; bibliografia: J’irai cracher sur vous tombes (Irei cuspir-vos nos túmulos, prefaciada pelo autor Boris Vian e editada com o pseudônimo de Vernon Sullivan este romance sofreu censura , 1946), Vercoquin et le plâncton, L’Écume des jours (novelas, 1947), Trouble dans les Andains (novela escrita em 1947, publicação póstuma em 1966), Cantilènes en gelée (poesias, 1949), Les Fourmis (conto, 1949), Les Lurettes fourrées (contos, 1948 e 1949, publicados com L’Herbe rouge, 1950), L’Herbe rouge (romance, 1950), Le Déserteur, La Java des bombes atomiques (canções, 1954 e 1955); Je voudrais pas crever (poesias, 19511952, publicação póstuma, 1962), entre outros títulos em verso, prosa, canções e dramaturgia; traduziu Raymond Chandler e Alfred Elton van Vogt; em jornais e revistas da época, na divulgação de suas obras, Boris Vian fez uso de dezenas de pseudônimos, Vernon Sullivan, Bison Ravi, Michel Delaroche, Gérard Dunoyer entre muitos outros; o poeta conviveu, desde criança, com problemas de saúde que afetaram o seu coração, vindo a morrer precocemente de causa cardíaca.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Boris Vian: Irei cuspir-vos nos túmulos [III]

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[traduzido por Cascais Franco]

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                    III

                    Isso continuou assim até Setembro. Havia, no grupo deles, cinco ou seis outros miúdos, raparigas e rapazes: B. J., aquela a quem pertencia a guitarra, bastante mal feita, mas cuja pele tinha um odor extraordinário, Susie Ann, outra loura, mas mais roliça do que Jicky, e uma rapariga de cabelo castanho, insignificante, que dançava de manhã até à noite. Os rapazes eram tão estúpidos quanto eu podia desejar. Não voltara a cair na asneira de me mostrar com eles na cidade: não tardaria a ficar queimado na região. Encontrávamo-nos perto da ribeira, e eles guardavam segredo acerca dos nossos encontros porque eu era uma cômoda fonte de bourbon e de gin.
                    Desfrutava todas as raparigas umas atrás das outras, mas era demasiado simples, algo desgostoso. Elas faziam aquilo quase tão facilmente como se lava os dentes, por higiene. Portavam-se como um bando de macacos, descompostos, lambões, barulhentos e depravados; de momento era o que me convinha.
                    Eu tocava frequentemente guitarra; teria sido o bastante, mesmo que não fosse capaz de dar uma sova àqueles rapazes todos em simultâneo e com uma única mão. Eles ensinavam-me o jitterburg e o jive; não precisava de me aplicar muito para fazer melhor do que eles. Não tinham culpa.
                    No entanto, recomeçara a apensar no miúdo e dormia mal. Tornara a ver o Tom duas vezes. Ele arrostara com tudo. Agora já ninguém se referia ao caso lá na terra. As pessoas deixavam Tom sossegado na sua escola, e a mim, elas nunca me tinham visto muito. O pai de Anne Moran enviara a filha para a universidade do condado; continua a viver com o filho. Tom perguntou-me se estava tudo a correr-me bem, e eu disse-lhe que a minha conta bancária já se elevava a cento e vinte dólares. Cortava em tudo, menos no álcool, e a venda dos livros mantinha-se boa. Contava com um acréscimo lá para o fim do Verão. Ele recomendou-me que não descurasse os meus deveres religiosos. Era uma coisa que eu pudera livrar-me, mas agia de modo a que isto passasse tão despercebido quanto o resto. Tom acreditava em Deus. Eu cá ia ao ofício do domingo, tal como Hansen, mas julgo que não se pode ter lucidez e acreditar em Deus, e a lucidez era-me indispensável.
                    Mal saíamos do templo, íamo-nos encontrar na ribeira e passávamos as raparigas de uns para os outros, com o mesmo pudor que um bando desenfreado de macacos no cio; em verdade, não éramos mais do que isto, sou eu quem vo-lo diz. E depois o Verão chegou ao fim sem que o notássemos, e vieram as chuvas.
                    Voltei mais amiudamente ao bar do Ricardo. Visitava de quando em quando o drugstore para dar um pezinho de dança com a pequenada do sítio; realmente, eu principiava a saber  mais da poda do que eles e tinha disposições naturais para isso. Começou a voltar de férias uma autêntica chusma de tipos mais abastados de Buckton; regressavam da Flórida, de Santa Mónica, eu sei lá que mais... Todos muito bronzeados, muito louros, mas nós não o estávamos menos, apesar de nos termos quedado ao pé da ribeira. A loja transformou-se num dos seus pontos de reunião.
                    Estes ainda não me conheciam, mas eu tinha tempo à minha frente e não me precipitava.

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Boris Vian

J’irai cracher sur vos tombes

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                    III

                    Cela a continué comme ça jusqu’en septembre. Il y avait, dans leur bande cinq ou six autres gosses, filles et garçons: B. J., celle à qui appartenait la guitare, assez mal faite, mais dont la peau avait une odeur extraordinaire, Susie Ann, une autre blonde, mais plus ronde que Jicky, et une fille châtain insignifiante, qui dansait d’un bout de la journée à l’autre. Les garçons étaient aussi bêtes que je pouvais le souhaiter. Je n’avais pas recommencé la blague de partir en ville avec eux: j’aurais vite été coulé dans la région. Nous nous retrouvions près de la rivière, et ils gardaient le secret sur nos rencontres, parce que j’étais une source de bourbon et de gin commode.
                    J’avais toutes les filles les unes après les autres, mais c’était trop simple, un peu écœurant. Elles faisaient ça aussi facilement qu’on se lave les dents, presque par hygiène. Ils se conduisaient comme une bande de singes, débraillés, gourmands, bruyants et vicieux; ça faisait mon affaire pour le moment.
                    Je jouais souvent de la guitare; rien que ça aurait suffi, même si je n’avais pas été capable de donner la fessée à tous ces garçons-là en même temps, et d’une seule main. Ils m’apprenaient le jitterbug et le jive; il ne me fallait guère de peine pour y arriver mieux qu’eux. Ce n’était pas leur faute.
                    Cependant, je pensais de nouveau au gosse et je dormais mal. J’avais revu Tom deux fois. Il arrivait à tenir. On ne parlait plus de l’histoire là-bas. Les gens laissaient Tom tranquille dans son école, et moi, ils ne m’avaient jamais beaucoup vu. Le père d’Anne Moran avait envoyé sa fille à l’université du comté; il continuait avec son fils. Tom me demanda si tout marchait bien pour moi, et je lui dis que mon compte en banque s’élevait déjà à cent vingt dollars. Je rognais sur tout, sauf sur l’alcool, et la vente des livres restait bonne. Je comptais sur un accroissement vers la fin de l’été. Il me recommanda de ne pas négliger mes devoirs religieux. Ça c’était une chose dont j’avais pu me débarrasser, mais je m’arrangeais pour qu’on ne s’en aperçoive pas plus que du reste. Tom croyait en Dieu. Moi, j’allais à l’office du dimanche, comme Hansen, mais je crois qu’on ne peut pas rester lucide et croire en Dieu, et il fallait que je sois lucide.
                    En sortant du temple, nous nous retrouvions à la rivière et nous nous repassions les filles avec la même pudeur qu’une sacrée bande de singes en rut; vraiment c’est ce que nous étions, je vous le dis. Et puis l’été s’est terminé sans qu’on le sente, et les pluies ont commencé.
                    Je suis retourné plus souvent chez Ricardo. Je passais de temps en temps au drugstore pour tailler une carpette avec les chats du coin; réellement, je commençais à parler le jive mieux qu’eux, et j’avais des dispositions naturelles pour ça aussi. Il a commencé à rentrer de vacances toute une floppée des types les plus à l’aise de Buckton, ils revenaient de Floride ou de Santa Monica, que sais-je encore. Tous bien bronzés, bien blonds, mais pas plus que nous qui étions restés près de la rivière. Le magasin est devenu un de leurs lieux de rendez-vous.
                    Ceux-là ne me connaissaient pas encore, mais j’avais le temps qu’il fallait, et je ne me pressais pas.

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Irei cuspir-vos nos túmulos — Boris Vian, Tradução de Cascais Franco, Coleção Clube do Crime 28, 1973, Publicações Europa-América, Mira-Sintra, Mem Martins — Portugal; Boris Paul Vian (1922 1959), francês de Ville-d’Avray, foi poeta, romancista, compositor, crítico musical, instrumentista, dramaturgo e engenheiro, além de outras incursões artísticas e literárias; fez seus estudos iniciais no Liceu de Sévres, onde aprendeu latim, grego e alemão; depois, no Liceu Hoche Versalhes, bacharelou-se em Matemática, Filosofia e, ampliando seus estudos em línguas, também bacharelou-se em latim, grego e alemão; nesse período, como trompetista, participou da orquestra do Hot Clube de França, envolvendo-se no mundo do jazz; estudou matemáticas especiais no Liceu Condorcet Paris e formou-se engenheiro especializado em Metalurgia na Escola Central de Paris; em 1943, já trompetista reconhecido, escreveu sua primeira novela, Trouble dans les andains, publicada somente em 1966, e também publicou o seu primeiro poema, sob o pseudônimo Bison Ravi (anagrama de seu nome), no Boletim do Hot Clube de França; bibliografia: J’irai cracher sur vous tombes (Irei cuspir-vos nos túmulos, prefaciada pelo autor Boris Vian e editada com o pseudônimo Vernon Sullivan este romance sofreu censura , 1946), Vercoquin et le plâncton, L’Écume des jours (novelas, 1947), Trouble dans les Andains (novela escrita em 1947, publicação póstuma em 1966), Cantilènes en gelée (poesias, 1949), Les Fourmis (conto, 1949), Les Lurettes fourrées (contos, 1948 e 1949, publicados com L’Herbe rouge, 1950), L’Herbe rouge (romance, 1950), Le Déserteur, La Java des bombes atomiques (canções, 1954 e 1955); Je voudrais pas crever (poesias, 19511952, publicação póstuma, 1962), entre outros títulos em verso, prosa, canções e dramaturgia; traduziu Raymond Chandler e Alfred Elton van Vogt; em jornais e revistas da época, na divulgação de suas obras, Boris Vian, fez uso de dezenas de pseudônimos, Vernon Sullivan, Bison Ravi, Michel Delaroche, Gérard Dunoyer entre muitos outros; o poeta conviveu, desde criança, com problemas de saúde que afetaram o seu coração, vindo a morrer precocemente de causa cardíaca.