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domingo, 4 de setembro de 2022

Henry Murger: Antítese

 
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[traduzido por Lúcio de Mendonça]

É um asilo pobre, é um retiro austero,
Onde a estudar se encerra um solitário hóspede.
Dorme ao dia; mal vem
A noite, se levanta a trabalhar; acende
Sobre a mesa truncada a fumegante lâmpada,
Que vela aí também.

Na lareira apagada amontoa-se a cinza,
E o grilo friorento e de fagulhas ávido,
Não as vendo no lar,
Cessa de modular a costumada endeixa
Sobre a grade de ferro, onde a lenha em suplício
Torcia-se a estalar.

No entanto, sopra enregelado vento,
E quem passa na rua, agasalhado e trêmulo,
As garras lhe sentiu.
Na esfera divinal tiritam as estrelas,
E a peliça de arminho a mais e mais adensa-se,
Que o teto já vestiu.

Na vidraça, resvala o vento pelas frestas,
E a geada, burilando os caprichos fantásticos,
Já fez dali saltar
Um sutil arabesco onde em roscas se torce
A fronde tropical de flora imaginária
Quase a desabrochar.

A janela é estreita e nunca se alumia
Da alegria do sol nos ósculos esplêndidos.
Pelas paredes vai
Do teto até ao chão o suor de novembro,
Qual comprido colar de pérolas e de âmbares,
Que se debulha e cai.

E ele pôs-se a velar a sublime vigília,
Mas ao que mora ali, quando a cidade dorme,
Tudo se transverteu...
Um palácio encantado aos olhos se lhe ostenta,
Porque tem por amante uma divina Piéride,
Que canta ao lado seu!

[S. Paulo, 1871]

Henry Murger

Anthithèse

C'est un asile pauvre, une retraite austère
Où s'est clos, dans l'étude, un hôte solitaire.
Le jour, il dort; la nuit,
Pour se mettre à son oeuvre il se relève, allume
Sur sa table boiteuse une lampe qui fume,
Et qui veille avec lui.

Dans l'âtre mort la cendre en talus s'amoncelle
Et le grillon frileux, amant de l'étincelle,
N'en voyant plus, hélas!
Cesse de lamenter sa plainte accoutumée
Sur le vieux chenet-sphinx où la bûche enflammée
Se tordait en éclats.

Et pourtant au dehors souffle une bise aiguë;
Sous de triples manteaux le passant, dans la rue,
Sent les ongles du froid;
L'étoile a des frissons dans la sphère divine,
Et la neige épaissit la fourrure d'hermine
Dont s'est vêtu le toit.

Aux vitres, où le vent par la fêlure glisse,
Le givre, en burinant son étrange caprice,
A déjà fait saillir
Une souple arabesque où se tord en spirale
Le feuillage irisé d'une flore idéale
Prête à s'épanouir.

La fenêtre est étroite et jamais ne s'éclaire
Au rayon matinal de la clarté solaire.
Du sol jusqu'au plafond,
Sur les jaunes parois, la sueur de novembre
Semble un long chapelet formé de perles d'ambre
Qui s'égrène et qui fond.

Mais pour l'hôte du lieu, lorsque Paris sommeille,
Et qu'auprès de son oeuvre il commence sa veille,
Toute sa pauvreté,
Comme un palais féerique, à ses yeux s'illumine,
Car cet hôte est l'amant d'une muse divine
Qui chante à son côté!

1843.

[Les Nuits d’hiver — 1861)
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Louis-Henri Murger ou Henry Murger (1822 1861), francês parisiense, com escassa e fragmentada educação escolar, foi romancista e poeta; abandonando os estudos aos 15 anos, Henry Murger enfrentou uma variedade de trabalhos braçais antes de se empregar no escritório de um advogado; passou a escrever poemas e, chamando a atenção do escritor Étienne de Jouy, com quem teve ligação, tornou-se secretário do conde Aleksey Tolstoi, um nobre russo que vivia em Paris; iniciou a carreira literária em 1841 com ensaios literários e poéticos e, para sobreviver, escreveu sobre tudo o que o mercado gráfico jornalístico era demandado e aceitava; foi editor de um jornal de moda, Le Moniteur de la Mode, e de comércio de chapelaria, Le Castor; suas obras: Scènes de la vie de bohème (novela, 18471849), Scènes de la vie de jeunesse (1851) Le Bonhomme Jadis (comédia, 1852), Ballades et Fantaisies (poesias, 1854), Les Nuits d’hiver (poesias, 1861) etc.; vários de seus romances surgiram na revista Revue des deux Mondes, entre os quais Les Pays Latin (1851), Adeline Prótat (1853) e Les Buverus d’eau (1854); o poeta viveu sempre atormentado por questões financeiras, morreu aos 38 anos e, de sua biografia, consta que seu funeral foi custeado pelo governo francês e que o jornal Le Figaro criou um fundo para arrecadar dinheiro e construir um monumento à memória do poeta, com ampla aceitação e colaboração de expoentes do jornalismo, literatura, teatro e artes; sua obra Scènes de la vie de bohème inspirou e serviu de base para os compositores Giacomo Puccini e Ruggero Leoncavallo criarem as óperas La Bohème, ambas de mesmo nome, em 1896 e 1897.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Henri Murger: A Balada do Desesperado

 
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[traduzido por Castro Alves]

Quem bate à porta a tais horas?
Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.

Abre. Teu nome? Há geada,
Abre. Teu nome? És tardio!
Qual é teu nome? Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.

Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me Inda não!

Diz teu nome... Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
Passa fantasma irrisório...
Ó dá-me hospitalidade!

Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!

 Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...

Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
Posso dar-te a tua amante...
Podes dar-me o seu amor?

 Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta!   Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não são?!

Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!

Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.

Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.

Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!

Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás-de levar-me aos teus lares.

Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!

[tradução feita em S. Paulo, 1868]

Henri Murger

La Ballade du Désespéré

Qui frappe à ma porte à cette heure?
Ouvre, c’est moi. Quel est ton nom?
On n’entre pas dans ma demeure
À minuit ainsi, sans façon.

Ouvre. Ton nom? La neige tombe,
Ouvre. Ton nom? Vite, ouvre-moi!
Quel est ton nom? Ah! dans sa tombe
Un cadavre n’a pas plus froid.

J’ai marché toute la journée
De l’ouest à l’est, du sud au nord.
À l’angle de ta cheminée
Laisse-moi m’asseoir. Pas encor!

Quel est ton nom? Je suis la gloire,
Je mène à l’immortalité.
Passe, fantôme dérisoire!
Donne-moi l’hospitalité.

Je suis l’amour et la jeunesse,
Ces deux belles moitiés de Dieu.
Passe ton chemin: ma maîtresse
Depuis longtemps m’a dit adieu.

Je suis l’art et la poésie:
On me proscrit. Vite, ouvre. Non.
Je ne sais plus chanter ma mie,
Je ne sais même plus son nom.

Ouvre-moi! je suis la richesse,
Et j’ai de l’or, de l’or toujours.
Je puis te rendre ta maîtresse.
Peux-tu me rendre nos amours?

Ouvre-moi: je suis la puissance,
J’ai la pourpre. Vœux superflus!
Peux-tu me rendre l’existence
De ceux qui ne reviendront plus?

Si tu ne veux ouvrir ta porte
Qu’au voyageur qui dit son nom,
Je suis la mort: ouvre, j’apporte
Pour tous les maux la guérison.

Tu peux entendre à ma ceinture
Sonner les clés des noirs caveaux;
J’abriterai ta sépulture
De l’insulte des animaux.

Entre chez moi, maigre étrangère,
Et pardonne à ma pauvreté.
C’est le foyer de la misère
Qui t’offre l’hospitalité.

Entre: je suis las de la vie,
Qui pour moi n’a plus d’avenir.
J’avais depuis longtemps l’envie,
Non le courage de mourir.

Entre sous mon toit, bois et mange,
Dors, et quand tu t’éveilleras,
Pour payer ton écot, cher ange,
Dans tes bras tu m’emporteras.

Je t’attendais; je veux te suivre.
Où tu m’emmèneras, j’irai;
Mais laisse mon pauvre chien vivre,
Pour que je puisse être pleuré!
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Louis-Henri Murger ou Henry Murger (1822 1861), francês parisiense, com escassa e fragmentada educação escolar, foi romancista e poeta; abandonando os estudos aos 15 anos, Henry Murger enfrentou uma variedade de trabalhos braçais antes de empregar-se no escritório de um advogado; passou a escrever poemas e, chamando a atenção do escritor Étienne de Jouy, com quem teve ligação, tornou-se secretário do conde Aleksey Tolstoi, um nobre russo que vivia em Paris; iniciou a carreira literária em 1841 com ensaios literários e poéticos e, para sobreviver, escreveu sobre tudo o que o mercado gráfico jornalístico era demandado e aceitava; foi editor de um jornal de moda, Le Moniteur de la Mode, e de comércio de chapelaria, Le Castor; suas obras: Scènes de la vie de bohème (novela, 18471849), Scènes de la vie de jeunesse (1851), Le Bonhomme Jadis (comédia, 1852), Ballades et Fantaisies (poesias, 1854), Les Nuits d’hiver (poesias, 1861) etc.; vários de seus romances surgiram na revista Revue des deux Mondes, entre os quais Les Pays Latin (1851), Adeline Prótat (1853) e Les Buverus d’eau (1854); Murger viveu sempre atormentado por questões financeiras, morreu aos 38 anos e em sua biografia consta que teve o funeral custeado pelo governo francês e que o jornal Le Figaro criou um fundo para arrecadar dinheiro e construir um monumento à memória do poeta e romancista, com ampla aceitação e colaboração de expoentes do jornalismo, literatura, teatro e artes; sua obra Scènes de la vie de bohème inspirou e serviu de base para os compositores Giacomo Puccini e Ruggero Leoncavallo criarem as óperas La Bohème, ambas de mesmo nome, em 1896 e 1897.