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[traduzido por Lúcio de Mendonça]
É um asilo pobre, é um retiro austero,
Onde a estudar se encerra um solitário hóspede.
Dorme ao dia; mal vem
A noite, se levanta a trabalhar; acende
Sobre a mesa truncada a fumegante lâmpada,
Que vela aí também.
Na lareira apagada amontoa-se a cinza,
E o grilo friorento e de fagulhas ávido,
Não as vendo no lar,
Cessa de modular a costumada endeixa
Sobre a grade de ferro, onde a lenha em suplício
Torcia-se a estalar.
No entanto, sopra enregelado vento,
E quem passa na rua, agasalhado e trêmulo,
As garras lhe sentiu.
Na esfera divinal tiritam as estrelas,
E a peliça de arminho a mais e mais adensa-se,
Que o teto já vestiu.
Na vidraça, resvala o vento pelas frestas,
E a geada, burilando os caprichos fantásticos,
Já fez dali saltar
Um sutil arabesco onde em roscas se torce
A fronde tropical de flora imaginária
Quase a desabrochar.
A janela é estreita e nunca se alumia
Da alegria do sol nos ósculos esplêndidos.
Pelas paredes vai
Do teto até ao chão o suor de novembro,
Qual comprido colar de pérolas e de âmbares,
Que se debulha e cai.
E ele pôs-se a velar a sublime vigília,
Mas ao que mora ali, quando a cidade dorme,
Tudo se transverteu...
Um palácio encantado aos olhos se lhe ostenta,
Porque tem por amante uma divina Piéride,
Que canta ao lado seu!
[S. Paulo, 1871]
Anthithèse
C'est un asile pauvre, une retraite austère
Où s'est clos, dans l'étude, un hôte solitaire.
Le jour, il dort; la nuit,
Pour se mettre à son oeuvre il se relève, allume
Sur sa table boiteuse une lampe qui fume,
Et qui veille avec lui.
Dans l'âtre mort la cendre en talus s'amoncelle
Et le grillon frileux, amant de l'étincelle,
N'en voyant plus, hélas!
Cesse de lamenter sa plainte accoutumée
Sur le vieux chenet-sphinx où la bûche enflammée
Se tordait en éclats.
Et pourtant au dehors souffle une bise aiguë;
Sous de triples manteaux le passant, dans la rue,
Sent les ongles du froid;
L'étoile a des frissons dans la sphère divine,
Et la neige épaissit la fourrure d'hermine
Dont s'est vêtu le toit.
Aux vitres, où le vent par la fêlure glisse,
Le givre, en burinant son étrange caprice,
A déjà fait saillir
Une souple arabesque où se tord en spirale
Le feuillage irisé d'une flore idéale
Prête à s'épanouir.
La fenêtre est étroite et jamais ne s'éclaire
Au rayon matinal de la clarté solaire.
Du sol jusqu'au plafond,
Sur les jaunes parois, la sueur de novembre
Semble un long chapelet formé de perles d'ambre
Qui s'égrène et qui fond.
Mais pour l'hôte du lieu, lorsque Paris sommeille,
Et qu'auprès de son oeuvre il commence sa veille,
Toute sa pauvreté,
Comme un palais féerique, à ses yeux s'illumine,
Car cet hôte est l'amant d'une muse divine
Qui chante à son côté!
1843.
[Les Nuits d’hiver — 1861)
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Antologia de Poetas Franceses do
séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos
tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. e Introdução de Michel
Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint
S. A., Rio de Janeiro — RJ; Louis-Henri
Murger ou Henry Murger (1822 — 1861), francês parisiense, com escassa e
fragmentada educação escolar, foi romancista e poeta; abandonando os estudos
aos 15 anos, Henry Murger enfrentou uma variedade de trabalhos braçais antes de
se empregar no escritório de um advogado; passou a escrever poemas e, chamando
a atenção do escritor Étienne de Jouy, com quem teve ligação, tornou-se
secretário do conde Aleksey Tolstoi, um nobre russo que vivia em Paris; iniciou
a carreira literária em 1841 com ensaios literários e poéticos e, para
sobreviver, escreveu sobre tudo o que o mercado gráfico jornalístico era
demandado e aceitava; foi editor de um jornal de moda, Le Moniteur de la Mode,
e de comércio de chapelaria, Le Castor; suas obras: Scènes de la vie de bohème
(novela, 1847—1849), Scènes de la vie de jeunesse (1851) Le Bonhomme Jadis
(comédia, 1852), Ballades et Fantaisies (poesias, 1854), Les Nuits d’hiver
(poesias, 1861) etc.; vários de seus romances surgiram na revista Revue des
deux Mondes, entre os quais Les Pays Latin (1851), Adeline Prótat (1853) e Les
Buverus d’eau (1854); o poeta viveu sempre atormentado por questões
financeiras, morreu aos 38 anos e, de sua biografia, consta que seu funeral foi
custeado pelo governo francês e que o jornal Le Figaro criou um fundo para
arrecadar dinheiro e construir um monumento à memória do poeta, com ampla
aceitação e colaboração de expoentes do jornalismo, literatura, teatro e artes;
sua obra Scènes de la vie de bohème inspirou e serviu de base para os
compositores Giacomo Puccini e Ruggero Leoncavallo criarem as óperas La Bohème,
ambas de mesmo nome, em 1896 e 1897.

