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quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Lindomar 3L: Cabeça de gado


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Fui renegado, meus pedidos de ajuda foram todos negados
Portas bateram na minha cara, verbos foram rasgados
Ninguém me deu ouvido, agora fico aqui largado
Com dor de cabeça em meio às cabeças de gado

Sou consequência do desdém do Estado sossegado
Nos albergues da vida é onde me vejo abrigado
Não vivo assim porque eu gosto, sim por ser obrigado
Sem pé nem cabeça em meio às cabeças de gado

O jogo do Sistema é me manter aqui jogado
Por falta de oportunidade tô desempregado
Pra tudo exige experiência pra ser empregado
É preciso cabeça em meio às cabeças de gado

E se sofrer é uma merda eu já tô todo cagado
Pois minha esmola não paga o suborno do delegado
Agora sou mais um réu que acaba de ser julgado
A perder a cabeça em meio às cabeças de gado

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Poetas do Sarau Suburbano — Volume 2, (vários autores), Organizador: Alessandro Buzo, Prefácio de César Tralli, Posfácio I de Kamau e Posfácio II de Rashid MC, 2013, Edições Suburbano Convicto, São Paulo — SP; Lindomar 3L, nascido em 1984, mineiro de Uberaba e criado em uma comunidade na periferia da cidade, é oficineiro de rap, arte-educador [na Fundação Casa], poeta, músico...; o ex-engraxate aprendeu o rap pelas ruas e iniciou sua carreira em 1981, aos dezessete anos, como membro do grupo de MC’s 3L; em 2008, fez estréia com o álbum Das Ruas Mineiras, na produção musical de Ariel Feitosa, Diogo Santos e RAPadura; em 2006, a convite do rapper GOG, teve participação especial no CD Aviso às Gerações e, a partir daí, realizou vários shows e também fez parte da gravação do CD/DVD Cartão Postal Bomba!, ao lado de Lenine, Maria Rita, Gerson King Combo e Paulo Diniz; em 2010, Lindomar lançou o single “El Tio!”, transformado em videoclipe em 2011, época em que o músico e poeta se mudou das Minas (Uberaba) para São Paulo; e a música continua, precisa continuar sempre, com Lindomar 3L dividindo seu tempo também com a militância, ativismo cultural, saraus...

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Rocha Miranda: Escrevendo barras

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Tô na Barra Funda truta escrevendo as barras
lá na Sapopemba parça nóis se esbarra
Barra, Barrabás quase que o sangue jorra
Burro é homem só com o berro, sem ele o cu se borra

Gata borralheira no Princesa Izabel
Uma preta é pedra e uma foda é um pel
Torre de chopp no shopping como fosse torre Eifel
Só que em Paris o sabor é trufa, São Paulo é só fel

Uns nos bancos dos réus, outros no Banco Central
a dor que fere a alma sara no sarau
Todo inferno astral aqui parece místico
Ponto de prostituição também é ponto turístico

É São Paulo, cê tá ligado
rico é executivo, pobre é executado
No turismo paulista eu sou o guia perfeito
Conheço os guetos do centro e o epicentro dos gueto

Pecado capital, pecado nas capitais
olha os capitães matando nos matagais
Moda escravagista dentro do metrô
Lembra navio negreiro, visual retrô

No mundo tenho marra, no caos ou na farra
nada me amarra, caminho eu não erro
Vou escrevendo barras, a vida é uma barra
quero barra de ouro e não barra de ferro

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Poetas do Sarau Suburbano — Volume 2, (vários autores), Organizador: Alessandro Buzo, Prefácio de César Tralli, Posfácio I de Kamau e Posfácio II de Rashid MC, 2013, Edições Suburbano Convicto, São Paulo — SP; MC Rocha Miranda, nascido em 1987, paulista e paulistano, morador do Sapopemba, Zona Leste, é músico, rapper, poeta e participante do grupo Q. I. Alforria e do coletivo/banca Audácia; em 1997 ouviu os Racionais MC, já conhecia Gabriel o Pensador, e aí a coisa foi andando...; em 2014 estreou em projeto solo o álbum Pra 5ª Categoria Também Ser 5 Estrelas, com produções de Tico Pro, Hadji Suinara, Nefasto e Rincon Sapiência, lançado pela South2East Recordz.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Jefferson Santana: Crime poético *

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Hoje minha mão está armada,
de caneta muito bem carregada
de tinta, que deixa marcas graciosas
na folha, e as intenções objetivas:

Surge como sol na ponta do cano,
indo em direção ao meio do crânio,
como tiro de chumbo certeiro,
a modificar os neurônios do hospedeiro.

A mão é ansiosa e intencional,
a caneta é mero objeto acidental,
a folha cúmplice e prova criminal,

e o crânio é do gigante que cai,
com a palavra mais ardente que vai,
como bala que explode e não sai.

(Cantos e Desencantos de um Guerreiro  2011)


* Clique no título acima e ouça o poema na voz do próprio autor.
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Poetas do Sarau Suburbano  Volume 2, (vários autores), Organizador: Alessandro Buzo, Prefácio de CésarTralli, Posfácio I de Kamau e Posfácio II de Rashid MC, 2013, Edições Suburbano Convicto, São Paulo  SP; Jefferson Santana de Jesus, nascido em 1988, paulista e paulistano, formado em Letras na Universidade Presbiteriana Mackenzie, é poeta; de sua biografia consta que “sua grande graduação é a vida, que lhe mostrou a necessidade de lutar pelo que acredita” e que "começou a brincar de escrever aos treze anos de idade, época em que estudava no EMEF Antônio Estanislau do Amaral, uma escola da região (Jardim Ângela  Zona Sul)"; em 2006, "participou da Oficina Experimental de Jornalismo do projeto Becos e Vielas" e também "começou a frequentar o Sarau da Cooperifa"; escreveu e publicou Cantos e Desencantos de um Guerreiro (poesia, Scortecci Editora, 2011).