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25.X.1980
Larga, poeta, a mesa de
escritório,
esquece a poesia burocrática
e vai cedinho à fila do feijão.
Cedinho, eu disse? Vai, mas
é de véspera,
seja noite de estrela ou chuva grossa,
e sem certeza de trazer dois quilos.
Certeza não terás, mas
esperança
(que substitui, em qualquer caso, tudo),
uma espera-esperança de dez horas.
Dez, doze ou mais: o tempo
não importa
quando aperta o desejo brasileiro
de ter no prato a preta, amiga vagem.
Camburões, patrulhinhas te
protegem
e gás lacrimogêneo facilita
o ato de comprar a tua cota.
Se levas cassetete na cabeça
ou no braço, nas costas, na virilha,
não o leves a mal: é por teu bem.
O feijão é de todos, em
princípio,
tal como a liberdade, o amor, o ar.
Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.
Bocas oitenta mil vão disputando
cada manhã o que somente chega
para de vinte mil matar a gula.
Insiste, não desistas:
amanhã
outros vinte mil quilos em pacotes
serão distribuídos dessa forma.
A conta-gotas vai-se
escoando o estoque
armazenado nos porões do Estado.
Assim não falta nunca feijão-preto
(embora falte sempre nas
panelas).
Método esconde-pinga: não percebes
que ele torna excitante a tua busca?
Supermercados erguem
barricadas
contra esse teu projeto de comer.
Há gritos, há desmaios, há prisões.
Suspense à la Hitchcock ante as cerradas
portas de bronze, guardas do escondido
papilionáceo grão que ambicionas.
É a grande aventura
oferecida
ao morno cotidiano em que vegetas.
Instante de vibrar, curtir a vida
na dimensão dramática da
luta
por um ideal pedestre mas autêntico:
Feijão! Feijão, ao menos um tiquinho!
Caldinho de feijão para as
crianças...
Feijoada, essa não: é sonho puro,
mas um feijão modesto e camarada
que lembre os tempos tão
desmoronados
em que ele florescia atrás da casa
sem o olho normativo da Cobal.
Se nada conseguires... tudo
bem.
Esperar é que vale — o povo sabe
enquanto leva as suas bordoadas.
Larga,
poeta, o verso comedido,
a paz do teu jardim vocabular,
e vai sofrer na fila do feijão.
Amar Se Aprende Amando, 1985
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Amar Se Aprende Amando, poesia de convívio e de humor, sexta edição, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond
de Andrade (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu
intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso
e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo
das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões
de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos
Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola
de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro
do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de
Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967);
Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João
Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As
Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De
Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de
Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca
de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O
Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...