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quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Otaviano Hudson *: O operário [fragmentos]

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Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
                Extorcem-se de fome.

"Papai um pão papai exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
                Pede-lhe o pão oh! pai!"

E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
                Implorando-o debalde!

Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
                Protege-nos oh Deus!

Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
                Lastimam-se chorando.

A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê d’angústias
                Travam-se à sua sombra!

Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa-lhe
                Estúpida vaidade!

Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infelice operário
                Horribile existência!

Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito uma trindade abraça-os:
                Miséria, escárnio e dores!

As mãos cheias de calos, as mãos que nobilitam-se
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas d’ouro e como as conchas níveas
                Pródigas emergem pérolas!

Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
                Defende-a té morrer!

Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
                Libérrimos direitos.

O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
                Saúda-te operários!

(Peregrinas, Tip. da Gazeta Jurídica,
Rio, 1874, págs. 28/29.)

* Nota/acréscimo deste Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa exposto que o poeta Fagundes Varela, no Prólogo de Peregrinas, registra acerca de Otaviano Hudson e seu ofício:
     “Octaviano Hudson, o homem do povo, o poeta dos operários, aprendeu aos dezesseis anos de idade, a arte tipográfica na casa dos Srs. Soares & Comp., á rua da Alfandega; passou daí para as oficinas do Diário do Rio de Janeiro de que era redator e proprietário o Sr. conselheiro Alencar. Saindo do Diário do Rio de Janeiro, tomou à administração da extinta empresa do periódico — Cidadão —, á rua de S. José, —; d'onde no fim de um ano partiu para Petrópolis e trabalhou gratuitamente na composição e paginação do — Parahyba — jornal do Sr. Zaluar, e do finado Ramígio de Senna Pereira. De Petrópolis foi Octaviano Hudson para a província do Espirito Santo montar a tipografia do — Mercantil — Sempre infeliz, iludido sempre, volveu do Espirito Santo, trazendo por única recompensa de seus labores, como filosoficamente o diz.... um feixe de canas. Empunhou os componidores da Nova Phase, de Angra dos Reis, onde também foi redator de um periódico literário, dedicado ás senhoras, denominado — Beija-Flor —, da República, Correio do Brasil e Diário do Povo, tipografia hoje ocupada pela Reforma, e finalmente do Diário de Notícias, onde muitos artigos escreveu em defesa dos operários.
     Exaltado embora em suas idéias políticas, franco ao excesso, descuidoso de si, a ponto de entregar o último óbulo ao primeiro mendigo que encontrar, tudo poderão os bufarinheiros das reputações alheias lançar em rosto ao autor das — Peregrinas — menos a ociosidade.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Otaviano Hudson (1837 1886), nascido no estado do Rio de Janeiro, foi operário tipógrafo e poeta; “aprendeu aos 16 anos a arte tipográfica”, trabalhou nas oficinas de A República e, convidado para ocupar-se na redação, “recusou a honraria, preferindo continuar entre as máquinas. Pobre, paupérrimo, sem nada de seu, vivia, contudo, auxiliando amigos ou simples conhecidos.”; escreveu e publicou Peregrinas (poesias, 1874); Fagundes Varela, amigo do tipógrafo-poeta, "ressalta a circunstância de ter sido o autor das Peregrinas o primeiro poeta proletário das nossas letras"; o poeta operário virou nome de rua (Rua Otaviano Hudson, Copacabana, Rio de Janeiro).