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sábado, 8 de setembro de 2018

Patativa do Assaré: O Meu livro

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Meu nome é Chico Braúna
eu sou pobre de nascença,
diserdado de fortuna
mas rico de consciença.
Nas letra num tive istudo
sou mafabeto de tudo
de pai, de mãe, de parente.
Mas tenho grande prazê
pruquê aprendi a lê
duma forma deferente.

ABC nem beabá
no meu livro não se encerra.
O meu livro é naturá
é o má, o céu e a terra
cum a sua imensidade.
Livro chio de verdade
da beleza e do primô,
tudo incadernado, iscrito
pelo pudê infinito
do nosso Pai Criadô.

O meu livro é todo cheio
de muita coisa incelente,
em suas foia é que leio
o pudê do Onipotente.
Nesta leitura suave
eu vejo coisa agradave
que muita gente não vê
por isso sou conformado
sem eu nunca tê pegado
numa carta de ABC.

Num é preciso a pessoa
cunhecê o beabá
pra se honesta e sê boa
e em Jesus acreditá
Deus e seu milagre isato
eu vejo mesmo nos mato
justiça, verdade e amô
de minha mente não sai
deste jeito era meu pai
e o finado meu avô.

De que adiante a ciença
do professô estudioso
se ele não crê na existença
de um grande Deus Poderoso?
Eu sem lê letra nem arte
vejo Deus em toda parte.
O seu pudê radiante
tá bem visive e presente
na mais piquena simente
e no maió elefante.

Deus é força infinita
é o esprito sagrado
que tá vivendo e parpita
em tudo que foi criado.
Não há quem possa contá
é assunto que não dá
pra se dizê no papé
não inziste professô
nem sábio, nem inscritô
prá sabê Deus cuma é.

Apenas se tem certeza
que ele é a santa verdade
e é a subrime grandeza
em bondade e divindade.
Porém se ele é infinito
e soberano e bendito
de tudo superiô
que até os bicho lhe adora
proquê muitos tão pru fora
das orde do Criadô?

Deus quando o mundo criou
ordenou a paz comum
e com amô insinou
o devê de cada um
os home pra trabaiá
um ao outro respeitá
e a boa istrada segui...
e os bicho irracioná
promode se alimentá
produzi e reproduzi.

Ainda hoje os animá
as orde santa obedece
sem uma virga faltá
se alimenta, omenta e cresce
eles que nada magina
que nada raciocina
não pensa nem tem razão
continua sem disorde
sempre obedecendo as orde
do Sinhô da criação.

Segue o seu caminho isato
até a própria furmiga
trazendo foia dos mato
dentro da terra se abriga
sem nada contrariá,
cumprindo as lei naturá
ao divino mestre atende.
Sabe até fazê iscoia
pois ela só corta a foia
das foia que não lhe ofende.

Se o João de Barro, o Pedreiro
sabendo que não se atrasa
faz de dezembro a janêro
a sua bunita casa
com a porta pro poente
pois nunca faz pro nascente
é orde do Sumo bem.
Nunca aquele passarinho
faz a porta do seu ninho
do lado que a chuva vem.

Tudo segue a orde santa
sem havê ninhuma fáia
inquanto a cigarra canta
a furmiguinha trabáia
bria o lindo vagalume
faz a aranha o seu tissume
e o passo beija-fulô
voa pra frente e pra trás
e o certo é que todos faz
aquilo que Deus mandô.

Será que o home, esse ingrato
dotado de inteligença
vendo os bichinho do mato
cum tamanha obidiença
não se sente incabulado,
acanhado, invergonhado,
por não sigui as lição
da istrada da sua vida
esta graça concedida
pelo autô da criação?

A Divina Pruvidença
com o seu imenso pudê
deu ao home intiligença
foi pra ele se regê.
Não precisa o Soberano
chegá e dizê: Fulano
seu caminho é por ali
Deus lhe deu o dom divino
o dom do raciocino
pra ele se conduzi.

Ninguém vem contrariá
a mim, o Chico Braúna
não precisa Deus mandá
que a humanidade se uma
pois todos tem cunciença
tem o dom da intiligença
por dereito e gratidão
todos tem de obedecê
cada um tem o devê
de defendê seu irmão.

Se todos observasse
a lei da santa doutrina
e um ao outro ajudasse
cumo manda a lei divina
num fizesse papé feio
defendesse o que é aleio
cum amô e cum respeito
não precisava formado
cum ané de adevogado
e nem juiz de dereito.

Mas a farça humanidade
continua desunida
cheia de prevessidade
dos irmãos tirando a vida.
Fulano chinga bertrano
bertrano bate em sicrano
e de suja conciença
vão impregando no crime
o que tem de mais subrime
que é a sua intiligença.

Cum a inveja e o goirmo
cum a suberba e a vaidade
vão se socando no abirmo
se afastando da verdade
muitos não presa o seu dom
fazendo aquilo que é bom
cuma nada o Criadô
pru fora das lei divina
não segue a santa doutrina
que Jesus Cristo insinou.

Eu sempre pensei assim:
Deus com a sua ciença
não permite o que é ruim
é justo por incelença.
Se iziste luta e mais luta
e fruto da má conduta
a divina Majestade
nunca quis briga na terra
o assassinato e a guerra
é obra da humanidade.

Quem será que num conhece
quando sunda e pensa um pouco
que o nosso mundo parece
um azio cheio de louco?
Por causa dessa loucura
só lá na vida futura
as arma no Paraíso
tão sujeita a jugamento
não se sarva dez por cento
vai sê grande o prijuízo.

Este mundo está perdido
e o povo perdeu a fé
é muié contra marido
marido contra muié
tá tudo materiá
ninguém pode protestá
esta certeza que digo
do campo inté a cidade
os amigo de verdade
cum certeza tão cumigo.

Eu sou o Chico Braúna
não digo palavra im vão
fala o dotô na tribuna
e eu falo no meu sertão
o que achá ruim me perdôi
mas o mundo sempre foi
duro de se cuncertá.
Dispois criaro o divorço
e com a lei desse troço
acabô de desgraçá.

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Patativa do Assaré  Cordéis, Coleção Nordestina, Organização e Apresentação de Gilmar de Carvalho e Prefácio de Luíz Tavares Júnior, 2ª edição ampliada, 2012, Edições UFC, Fortaleza CE; Patativa do Assaré (1909  2002), ou Antônio Gonçalves da Silva, cearense de Assaré, foi poeta popular, compositor, cantor e repentista, teve sua obra registrada em folhetos de cordel, discos e livros; frequentou por apenas alguns meses o banco escolar e, desde criança, mesmo trabalhando na roça para ajudar no sustento da família, aprendeu a ler e a escrever e se tornou um apaixonado pela poesia; projetou-se nacionalmente com a música "Triste Partida" gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, o rei do baião; teve seus poemas traduzidos em vários idiomas e foi tema de estudos na Sorbonne, na Cadeira de Literatura Popular Universal; obra poética: Inspiração Nordestina (1956), Inspiração Nordestina — Cantos Patativa do Assaré (1967), Cante Lá que Eu Canto Cá (1978), Ispinho e Fulô (1988), Cordéis (caixa com 13 folhetos, 1993), Aqui Tem Coisa (1994), Ao Pé da Mesa (co-autoria de Geraldo Gonçalves de Alencar, 2001), Antologia Poética (organizada por Gilmar de Carvalho, 2002) entre outros; como poeta da oralidade, o que sempre foi, também teve seus poemas registrados em discografia: Poemas e Canções  (1979), A Terra é Naturá (1981), Patativa do Assaré (Projeto Cultural do BEC, 1985), Canto Nordestino — 80 Anos de Luz (1989), Patativa do Assaré — 88 Anos de Poesia (1995), Patativa do Assaré (CD incluído no livro O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa de Assaré, de Assis Ângelo,1999) entre outros; pelo conteúdo de sua obra cultural, de cunho social e popular, o poeta recebeu inúmeros prêmios e homenagens concedidos pelos poderes municipal e estadual, particularmente nos estados nordestinos, tendo sido agraciado ainda com o título de Doutor Honoris Causa em universidades daqueles estados.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Patativa do Assaré: O Bode de Miguel Boato

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O praciano e o roceiro
já sabem Miguel quem é
este grande caixãozeiro
do mercado de Assaré,
sua língua é uma mola
fala mais do que vitrola
é amigo muito exato
seu nome é Miguel de Souza
mas devido tanta causa
lhe chamam Miguel Boato.

Miguel é negociante
É um grande caixãozeiro,
mas também banca o marchante
comprando bode e carneiro
só compra para ganhar
porque sabe avaliar
o peso da criação;
mas desta vez se lascou
com um bode que comprou
no sítio do Boqueirão

Totonho de Zé Candinha
que anda atrás de melhora
vendendo um bode que tinha
fez grande recurso agora
Miguel foi o preferente
E o Totonho, inteligente
fingindo ser bem fiel
chegou de cara risonha
e um cigarro de maconha
fumou perto de Miguel

Totonho, por um capricho
vendo Miguel maconhado
disse: vamos ver o bicho
que está ali no cercado
e na vista do marchante
era um bode extravagante
do tamanho de um camelo,
Miguel com gosto sorria,
coitado! inda não sabia
do seu grande desmantelo

Perguntou achando graça:
Totonho responda a mim
onde encontrou esta raça
de bode tão grande assim?
Este é pra mais do contrato
por cento e oitenta é barato
o seu bonito animal,
o monstro parece um boi
faço de conta que foi
um presente de Natal

Para realizar seu sonho,
cheio de vida e contente
se despediu de Totonho,
tocando o bode na frente,
alegre, pelo caminho,
dizia mesmo sozinho:
agora eu ganho pacote,
desta vez eu dei um bolo
e a custa daquele tolo
eu vou aprumar o chote

Porém quando se sumiu
o efeito da maconha,
o bode diminuiu
de fazer raiva e vergonha,
o marchante encabulado
dizia impressionado:
o bode que era um sendeiro
se transformou de repente!
Foi quando ficou ciente
que o Totonho é maconheiro

Com uma raiva medonha
dizia: o bode mudou
com certeza foi maconha
que aquele diabo fumou,
pensando em sua caipora
seguindo de estrada a fora
sem prazer, sem alegria
na frente o bode tocava
e quando mais reparava
mais ele diminuía

Já quase desiludido
quando chegou na rodagem
achou que tinha perdido
o dinheiro e a viagem,
olhava e naquilo tudo
via um bodete pançudo
pequeno e muito esquisito,
o povo que o encontrava
reparava e perguntava:
cadê a mãe do cabrito?

Quando ele chegou na rua
enfadado e sem coragem
foi grande a vergonha sua
pra fazer a matutagem
e assim que o bode esfolou,
o povo se alvoroçou
tudo queria comprar
com algazarra e pagode
porém o diabo do bode
não deu nem pra começar

Lojas, bancas e bodegas
Todos queriam quinhão
e os marchantes seus colegas
fazendo chateação
chegava um e dizia
com a maior anarquia:
só negocia quem pode
e Miguel encabulado
calado, muito calado
pesava a carne do bode

Depois que a carne apurou
somou tudo e dividiu
com jeito multiplicou
e depois diminuiu.
Com a sua grande prática
abalou a matemática
sem perder operação.
E sabe o que aconteceu?
Oitenta contos perdeu
no bode do Boqueirão

A matutagem foi louca
Que o Miguel perdeu a feira
E além da carne ser pouca
A pele não deu primeira
ficou sem jeito o marchante.
Com a droga embriagante
Totonho lhe tapeou,
com tal negócio horroroso.
Miguel ficou desgostoso
E nunca mais boatou

Não quer negócio fazer
com gente do Boqueirão
o seu negócio é vender
farinha, milho e feijão
assim mesmo no mercado;
viver quieto e sossegado
o caixãozeiro não pode
por onde ele vai passando
vai o povo anarquizando:
seu Miguel, me compre um bode.

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Patativa do Assaré  Cordéis , Coleção Nordestina, Organização e Apresentação de Gilmar de Carvalho e Prefácio de Luíz Tavares Júnior, 2ª edição ampliada, 2012, Edições UFC, Fortaleza   CE; Patativa do Assaré (1909  2002), ou Antônio Gonçalves da Silva, cearense de Assaré, foi poeta popular, compositor, cantor e repentista, teve sua obra registrada em folhetos de cordel, discos e livros; frequentou por apenas alguns meses o banco escolar e, desde criança, mesmo trabalhando na roça para ajudar no sustento da família, aprendeu a ler e a escrever e se tornou um apaixonado pela poesia; projetou-se nacionalmente com a música "Triste Partida" gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, o rei do baião; teve seus poemas traduzidos em vários idiomas e foi tema de estudos na Sorbonne, na Cadeira de Literatura Popular Universal; obra poética: Inspiração Nordestina (1956), Inspiração Nordestina — Cantos Patativa do Assaré (1967), Cante Lá que Eu Canto Cá (1978), Ispinho e Fulô (1988), Cordéis (caixa com 13 folhetos, 1993), Aqui Tem Coisa  (1994), Ao Pé da Mesa (co-autoria de Geraldo Gonçalves de Alencar, 2001), Antologia Poética (organizada por Gilmar de Carvalho, 2002) entre outros; como poeta da oralidade, o que sempre foi, também teve seus poemas registrados em discografia: Poemas e Canções (1979), A Terra é Naturá (1981), Patativa do Assaré (Projeto Cultural do BEC, 1985), Canto Nordestino — 80 Anos de Luz (1989), Patativa do Assaré — 88 Anos de Poesia (1995), Patativa do Assaré (CD incluído no livro O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa de Assaré, de Assis Ângelo,1999) entre outros; pelo conteúdo de sua obra cultural, de cunho social e popular, o poeta recebeu inúmeros prémios e homenagens concedidos pelos poderes municipal e estadual, particularmente nos estados nordestinos, tendo sido agraciado ainda com o título de Doutor Honoris Causa em universidades daqueles estados.