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[traduzido por Rodrigo
Garcia Lopes]
Frequentemente temos considerado o vento,
Os imutáveis porquês do vento.
De outro tempo nenhum de nós se espanta.
Já conhecemos essas mudanças
Nossa saúde não é diferente.
Acordamos com um calafrio,
Vamos pra cama com febre:
Esses são os turnos pelos quais persiste a natureza,
Pelos quais, bem ou doentes,
Vivemos variavelmente,
Tantos nós misturados, e um mundo tão variável.
É a regra do que medra,
Um dia ser de um jeito, no outro, de outro.
Não especulamos.
Quando chega o frio fechamos a janela.
Aquilo é inverno, e entendemos.
Também nosso sangue não faz o mesmo,
Ora gela, ora queima por dentro,
De acordo com os climas ritminstáveis
De nossas convivências com a gente?
Mas quando o vento salta como um cão sem dentes
E nem sequer somos mordidos,
Só como se censurados pelo que não sabemos,
E isso não podemos responder —
O que fazer, senão entender?
E isso não podemos,
Embora quando o vento está solto
Nossas mentes vão arfando, infeccionadas de vento,
Até nossos corações maternos,
Perseguindo em porquês de sangue
A lógica desse massacre do pensamento.
Quando o vento corre, a gente corre com ele.
Não podemos entender porque não existimos
Quando o vento leva nossas mentes.
Estes são lapsos como um ódio pela terra.
Ficamos como se em lugar nenhum,
Soprados de interrupção a interrupção,
Daí fugimos para o que somos
E acusamos nossa sóbria natureza
De selvagem deserção de si mesma,
E perguntamos o motivo como um traidor
A mendigar ao rei um porquê da traição.
Devemos aprender melhor
O que somos e não somos.
Não somos o vento.
Não somos cada humor nômade que tenta
Nossas mentes com vertigem desterrada.
Devemos distinguir melhor
Entre nós mesmos e estranhos.
Há tanta coisa que não somos.
Há tanta coisa que não é.
Há tanta coisa que não precisamos ser.
Nos rendemos ao vento imenso
Contra nossa letrada insignificância.
Mas sempre voltamos e lamentamos:
“Por que fiz isso?”
The why of the wind
We have often considered the wind,
The changing whys of the wind.
Of other weather we do not so wonder.
These are changes we know.
Our own health is not otherwise.
We wake up with a shiver,
Go to bed with a fever:
These are the turns by which nature persists,
By which, whether ailing or well,
We variably live,
Such mixed we, and such variable world.
It is the very rule of thriving
To be thus one day, and thus the next.
We do not wonder.
When the cold comes we shut the window.
That is winter, and we understand.
Does our own blood not do the same,
Now freeze, now flame within us,
According to the rhythmic-fickle climates
Of our lives with ourselves?
But when the wind springs like a toothless hound
And we are not even savaged,
Only as if upbraided for we know not what
And cannot answer —
What is there to do, if not to understand?
And this we cannot,
Though when the wind is loose
Our minds go gasping wind-infected
To our mother hearts,
Seeking in whys of blood
The logic of this massacre of thought.
When the wind runs we run with it.
We cannot understand because we are not
When the wind takes our minds.
These are lapses like a hate of earth.
We stand as nowhere,
Blow from discontinuance to discontinuance,
Then flee to what we are
And accuse our sober nature
Of wild desertion of itself,
And ask the reason as a traitor might
Beg from the king a why of treason.
We must learn better
What we are and are not.
We are not the wind.
We are not every vagrant mood that tempts
Our minds to giddy homelessness.
We must distinguish better
Between ourselves and strangers.
There is much that we are not.
There is much that is not.
There is much that we have not to be.
We surrender to the enormous wind
Against our learned littleness,
But keep returning wailing
‘Why did I do this?’
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Mindscapes Poemas — Laura Riding,
Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a
seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta],
2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 —
1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e
literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta
do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha
de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a
saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923
abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias
Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of
Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not
Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A
Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas
selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973)
e outros títulos em verso e prosa; de 1939
a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma
obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson;
nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em
revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.