domingo, 31 de julho de 2022

Laura Riding: O porquê do vento


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Frequentemente temos considerado o vento,
Os imutáveis porquês do vento.
De outro tempo nenhum de nós se espanta.
Já conhecemos essas mudanças 
Nossa saúde não é diferente.
Acordamos com um calafrio,
Vamos pra cama com febre:
Esses são os turnos pelos quais persiste a natureza,
Pelos quais, bem ou doentes,
Vivemos variavelmente,
Tantos nós misturados, e um mundo tão variável.
É a regra do que medra,
Um dia ser de um jeito, no outro, de outro.
Não especulamos.
Quando chega o frio fechamos a janela.
Aquilo é inverno, e entendemos.
Também nosso sangue não faz o mesmo,
Ora gela, ora queima por dentro,
De acordo com os climas ritminstáveis
De nossas convivências com a gente?

Mas quando o vento salta como um cão sem dentes
E nem sequer somos mordidos,
Só como se censurados pelo que não sabemos,
E isso não podemos responder
O que fazer, senão entender?
E isso não podemos,
Embora quando o vento está solto
Nossas mentes vão arfando, infeccionadas de vento,
Até nossos corações maternos,
Perseguindo em porquês de sangue
A lógica desse massacre do pensamento.

Quando o vento corre, a gente corre com ele.
Não podemos entender porque não existimos
Quando o vento leva nossas mentes.
Estes são lapsos como um ódio pela terra.
Ficamos como se em lugar nenhum,
Soprados de interrupção a interrupção,
Daí fugimos para o que somos
E acusamos nossa sóbria natureza
De selvagem deserção de si mesma,
E perguntamos o motivo como um traidor
A mendigar ao rei um porquê da traição.

Devemos aprender melhor
O que somos e não somos.
Não somos o vento.
Não somos cada humor nômade que tenta
Nossas mentes com vertigem desterrada.
Devemos distinguir melhor
Entre nós mesmos e estranhos.
Há tanta coisa que não somos.
Há tanta coisa que não é.
Há tanta coisa que não precisamos ser.
Nos rendemos ao vento imenso
Contra nossa letrada insignificância.
Mas sempre voltamos e lamentamos:
“Por que fiz isso?”

Laura Riding

The why of the wind

We have often considered the wind,
The changing whys of the wind.
Of other weather we do not so wonder.
These are changes we know.
Our own health is not otherwise.
We wake up with a shiver,
Go to bed with a fever:
These are the turns by which nature persists,
By which, whether ailing or well,
We variably live,
Such mixed we, and such variable world.
It is the very rule of thriving
To be thus one day, and thus the next.
We do not wonder.
When the cold comes we shut the window.
That is winter, and we understand.
Does our own blood not do the same,
Now freeze, now flame within us,
According to the rhythmic-fickle climates
Of our lives with ourselves?

But when the wind springs like a toothless hound
And we are not even savaged,
Only as if upbraided for we know not what
And cannot answer —
What is there to do, if not to understand?
And this we cannot,
Though when the wind is loose
Our minds go gasping wind-infected
To our mother hearts,
Seeking in whys of blood
The logic of this massacre of thought.

When the wind runs we run with it.
We cannot understand because we are not
When the wind takes our minds.
These are lapses like a hate of earth.
We stand as nowhere,
Blow from discontinuance to discontinuance,
Then flee to what we are
And accuse our sober nature
Of wild desertion of itself,
And ask the reason as a traitor might
Beg from the king a why of treason.

We must learn better
What we are and are not.
We are not the wind.
We are not every vagrant mood that tempts
Our minds to giddy homelessness.
We must distinguish better
Between ourselves and strangers.
There is much that we are not.
There is much that is not.
There is much that we have not to be.
We surrender to the enormous wind
Against our learned littleness,
But keep returning wailing
‘Why did I do this?’
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

sábado, 30 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto das raízes

 
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XX

De múltiplas imagens se estrutura
essa efígie inconclusa. Aço de medos,
a alquimia do sonho, o ar de aventura,
tons de espanto nos íntimos degredos

em reinos de lembrança; ou a textura
das fibras ancestrais, os arremedos
do que é flama na cinza da moldura:
águas/séculos idos entre os dedos

nos silêncios rurais desentranhando
testemunhos do tempo, luz secreta
ora rememorada, ora vivida;

e os pousos de renúncia mesmo quando
do infinito do ser partia a seta
nas chamas das raízes incendida.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; suas obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

António Nobre: Ó Virgens que passais, ao Sol-poente, . . . [soneto]

 
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Ó virgens que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai-me, nessa voz onipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu Lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!

Porto, 1886

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Poesia Simbolista — Literatura Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biográficos e Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; António Pereira Nobre (1867 1900), português do Porto, licenciado em Ciências Políticas pela École Libre des Sciences Politiques, de Paris, foi poeta decadentista e simbolista; colaborou com suas poesias nas revistas A Mocidade de Hoje e Boémia Nova, além de nos periódicos Branco e Negro, A Imprensa, A Leitura e Revista de turismo; obras: (1892), sua única obra poética editada em vida e que consta constituir-se num dos marcos da poesia portuguesa do século XIX, postumamente publicaram-se Despedida e Primeiros Versos, com alguns inéditos reunidos.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Rimbaud: Carta de Rimbaud a Georges Izambard [05.09.1870]

 
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[traduzido por Alexandre Ribondi]

Paris, 5 de setembro de 1870.

          Caro Senhor,
          O que o senhor me aconselhou a não fazer, eu fiz: parti para Paris e abandonei a casa materna! Fiz esta viagem dia 29 de agosto.
          Preso ao descer do vagão por não ter um tostão e dever treze francos à estrada de ferro, fui conduzido à delegacia e hoje aguardo meu julgamento em Mazzas! Oh! Confio no senhor como em minha mãe; o senhor sempre foi para mim como um irmão: peço-lhe imediatamente a ajuda que me ofereceu. Escrevi a minha mãe, ao procurador imperial, ao comissário de polícia de Charleville; se o senhor não receber nenhuma notícia minha até quarta-feira, antes do trem que parte de Douai para Paris, tome este trem, venha aqui reclamar-me por carta ou apresentando-se ao procurador, implorando, respondendo por mim, pagando minha dívida! Faça tudo que puder e quando receber esta carta, escreva, o senhor também, eu o ordeno, sim, escreva à minha pobre mãe (Quai de la Madeleine, 5, Charleville) para consolá-la. Escreva-me também; faça tudo! Eu o amo como um irmão eu o amarei como um pai.
          Aperto sua mão.

Do seu pobre

Arthur Rimbaud
detido em Mazas.

          (e se conseguir me libertar, o senhor me levará consigo para Douai).

          Senhor Georges Izambard,
          em Douai.

Arthur Rimbaud

[Correspondance] Rimbaud à Georges Izambard

Paris, 5 septembre 1870.

          Cher Monsieur,
          Ce que vous me conseilliez de ne pas faire, je l’ai fait: je suis allé à Paris, quittant la maison maternelle! J’ai fait ce tour le 29 août.
          Arrêté en descendant de wagon pour n’avoir pas un sou et devoir treize francs de chemin de fer, je fus conduit à la préfecture, et, aujourd’hui, j’attends mon jugement à Mazas! oh!  J’espère en vous comme en ma mère; vous m’avez toujours été comme un frère: je vous demande instamment cette aide que vous m’offrîtes. J’ai écrit à ma mère, au procureur impérial, au commissaire de police de Charleville; si vous ne recevez de moi aucune nouvelle mercredi, avant le train qui conduit de Douai à Paris, prenez ce train, venez ici me réclamer par lettre, ou en vous présentant au procureur, en priant, en répondant de moi, en payant ma dette! Faites tout ce que vous pourrez, et, quand vous recevrez cette lettre, écrivez, vous aussi, je vous l’ordonne, oui, écrivez à ma pauvre mère (Quai de la Madeleine, 5, Charlev[ille]) pour la consoler. Écrivez-moi aussi; faites tout! Je vous aime comme un frère, je vous aimerai comme un père.
          Je vous serre la main.

Votre pauvre

Arthur Rimbaud
[détenu] à Mazas.

          (et si vous parvenez à me libérer, vous m’emmènerez à Douai avec [vous].)

          Monsieur Georges Izambard,
          A Douai.
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Correspondência de Rimbaud: Cartas da África — Correspondência com Verlaine — Agonia em Marselha, Tradução e Notas de Alexandre Ribondi e Apresentação de Ivo Barroso, 2ª edição, Coleção Rebeldes & Malditos volume 4, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Dario Vellozo: Ângelus

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Vamos, poeta, ilumina a mesquita da mágoa,
Veste, agora, da mágoa o negro sambenito;
Eleva para a cruz os olhos rasos de água
E sobre o pó da nave ajoelha-te contrito

Ouves? Baomba o sino as orações da noite...
Há em toda a amplidão o mistério da Cruz...
Perpassa à luz do círio a sombra de um açoite
De mortas ilusões e de flechas de luz.

As místicas visões elevam-se das campas,
Na destra apresentando os missais do Destino...
E a larva do pesar sobe as íngremes rampas
Do país da saudade e do amor peregrino.

Todo poeta que sofre, a tristeza do monge
Sente, e sente do monge os longos desalentos:
É que a ambos o Amor fita-os de muito longe,
E sem amor não há nem céu nem firmamentos!...

Vamos, poeta, ajoelha! Esse templo é a tua alma.
Sobre o negro madeiro um anjo se debruça.
Seu semblante não tem a merencória calma
Das virgens; mas a dor que em teus versos soluça.

Esse arcanjo é a visão de teus dias mais santos,
É o místico ideal que te vibrava a lira;
E por ele subiste um calvário de prantos,
E por ele a tua alma estremece e suspira.

Vamos, reza, poeta! As orações confortam...
Perpassa à luz do círio a sombra de um açoite...
Os mistérios do Céu só as cruzes suportam,
Porque o Céu fala à cruz pelos astros da noite.

Abre o teu coração a todas as tristezas,
Vive na tua dor, silenciosamente...
E as tuas orações e as tuas incertezas
Sepulta junto à cruz de tua dor veemente.

Cinge mais sobre os rins os cordões do cilício,
Crava mais o punhal que te lacera o peito.
O céu quer muito pranto e muito sacrifício...
Morre, para que o céu se julgue satisfeito!

Irrisão! E não há quem te compreenda as dores.
E o sino do pesar toca sinistramente...
Monge, oscula essa cruz!... Monge, entoa louvores!...
Vive na tua dor silenciosamente.

Curitiba, 10 de março de 1894.

(Cinerário — 1894)

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Do Encantamento à Apostasia: A poesia brasileira de 1880—1919: antologia e estudo, por Fernando Cerisara Gil, 2006, Editora da UFPR, Curitiba — PR; Dario Persiano de Castro Vellozo (1869 1937), nascido no Rio de Janeiro, formado Mestre em Hermetismo pela Escola Superior de Ciências Herméticas, de Paris, foi encadernador, tipógrafo, poeta simbolista, narrador, ensaísta, orador, educador, pensador e catedrático em História; em sua juventude, estudou e aprendeu encadernação e tipografia, o que serviu para que ele mesmo compusesse tipograficamente os livros que escrevia; ainda jovem, radicou-se no Paraná e, em Curitiba, colaborou com jornais e revistas, fundou diversos periódicos entre estes a revista O Cenáculo e outras de cunho literário simbolista, além de ter exercido o ofício de professor de História; obras: Efêmeras (versos, Curitiba, 1890), Esquifes (prosa poética, 1896), Alma Penitente (poemas, Curitiba, 1897), Esotéricas (Curitiba, Imprensa Paranaense, 1900), Helicon (Curitiba, 1908), Rudel (poemas, Curitiba, 1912), Horto de Lísis (Curitiba, 1922), Cinerário (poesias, Curitiba, Livraria Mundial, 1929), Atlântida (poemas, São Paulo, 1938), e outros títulos.

terça-feira, 26 de julho de 2022

haroldo de campos: enigma

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a rainha nefertiti
lábios de desenho perfeito
perfeita a linha do nariz
cútis bronzeada pelos raios
ultra-violeta de aton-ra o sol
jubilante do egito
uma elegante tiara trapezóide
azul-grafite
encimando-lhe a testa
sobre uma faixa de ouro
(e deixando-se ainda listar
por uma outra banda áurea
com engastes de vermelho e safira
e o símbolo dourado sempre
do poder real: o cetro
verticalmente inscrito
de alça dupla)

seu
pescoço delgado de modelo de dior
orna-o tripla fileira de colares de cor
as sobrancelhas e pálpebras
delineadas com meticuloso
traço rímel-negro
por hábil mão maquiladora
e nos olha
a rainha nos olha
(que a olhamos)
impassível:
quase-sorriso na carnação
túmida dos lábios
fixa-nos a pupila
castanho-verde
do olho esquerdo

o direito
o tempo milenar cegou-o:
esbranca-se no gesso
fitando em alvo o nada
de dentro da moldura
oval-amêndoa
do rímel

seu enigma está aí
nesse branco esgazeado
que turba há (quantos?)
séculos o semblante
irretocável da rainha

berlim 14 out. 1998


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Entremilênios Haroldo de Campos, Organização e Nota de Carmen de P. Arruda Campos, 2009. 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo SP; Haroldo Eurico Browne de Campos (1929 2003), paulista e paulistano, fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco) e com doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi professor universitário, ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor; ainda no Colégio São Bento, aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros (latim, inglês, espanhol e francês); em 1952 foi coinventor da revista literária Noigandres em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e passou a ser reconhecido como um dos criadores do Concretismo e um dos representantes e difundidores do movimento internacional da Poesia Concreta; em 1972, no doutorado pela FFLCH USP e sob a orientação de Antonio Candido, apresentou a tese Para uma teoria da prosa modernista brasileira: morfologia do Macunaíma, transformada em livro no ano seguinte; como professor universitário, lecionou na PUC SP e na Universidade do Texas, em Austin USA; obras: Auto do Possesso (1950), O Âmago do Ômega (1956), Fome de Forma (1959), Re-Visão de Sousândrade (crítica literária, em conjunto com Augusto de Campos, 1962), Morfologia do Macunaíma (crítica literária, 1973), Xadrez de Estrelas: Percurso Textual, 19491974 (antologia, 1976), Signantia: Quase Coelum Signância: quase céu (1979), Galáxias (1986), Metalinguagem & outras metas (crítica literária, 1992), O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Matos (crítica literária, 2000), etc. etc.; Haroldo de Campos também escreveu e publicou ensaios diversos e traduziu autores (Ezra Pound, Mallarmé, Homero, Dante, Poesia Russa Moderna, Eclesiastes [livro bíblico], Octavio Paz, Kaváfis, Maiakóvski), em voo solo ou em co-autoria com estudiosos da literatura, inclusos Augusto de Campos, Décio Pignatari e Boris Schnaiderman; o poeta e ensaísta teve obras premiadas, 5 Prêmios Jabuti inclusos.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Waldemar Lopes: Soneto da insônia

 
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XXI

Na emanação da noite o leve peso
das sombras ancestrais. Vozes tardias
em vago marulhar, talvez desprezo
às turvas ambições, seiva dos dias.

E sobre o ser profundo, vivo-aceso,
o lume das vigílias. (Nas sombrias
urnas do tempo há de ficar defeso
o enigma das mortais mitologias

imunes à esperança.) Agora é essa
onipresença onírica, ou apenas
a ácida indiferença à vã promessa:

em seu ambíguo reino indefinido
a consciência noturna sofre as penas
da vida, o rude esforço sem sentido.

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Sonetos do Tempo Perdido — Waldemar Lopes, Introdução de Aurélio Buarque de Holanda, 1970, Editorial Palmares, Rio de Janeiro — RJ; Waldemar Freire Lopes (1911 2006), pernambucano de Quipapá, foi jornalista, literato, poeta e atuou também nas áreas de economia, administração pública e direito público internacional junto às instituições IBGE e OEA (Organização dos Estados Americanos); no jornalismo, atuou no Jornal do Commercio (Recife), n’A Noite (Rio de Janeiro), na Folha Carioca, na Tribuna de Imprensa e em outros jornais e revistas especializadas; obras: Legenda (poesias, 1929), Sonetos do Tempo Perdido (1970), Inventário do Tempo (1974), Os Pássaros da Noite (1974), Sonetos da Despedida (1976), Sonetos do Natal (1977), Elegia a Joaquim Cardozo (1978), O Jogo Inocente (1979), Memória do Tempo (1981), Sonetos de Portugal (1984, 1994 e 2005), As Dádivas do Crepúsculo (1996), Austro-Costa no centenário do seu nascimento (1999), Cinza de Estrelas (2001); participou de várias instituições técnicas e culturais no Brasil e no exterior.

Laura Riding: Como nasce um poema


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Para James F. Mathias

A necessidade nos acossa como acusação de impotência:
Você pode ou não falar mais alto,
Provar que está presente?
O que você precisa encontrar para dizer,
Para passar o saber que você existe
À revelia dos crentes ou descrentes
Da nossa espécie em cada um,
Você pode chegar junto ao chegar perto deles
E deixar o assunto de aceitação
Suspenso entre sua oferta
E seu destino com eles no tempo.
(Isto se chama "prosa"!)
Ou você pode convidar ouvintes,
Sem esperar por eles
Fazendo do que você acha para dizer
Um testemunho de si, se ausente de ouvintes.
(Assim o poema se constrói:
Para ser entregue numa distância curta.
Mesmo sem plateia, fala.)

A realidade num poema é inextensível.
Abrange a vontade de falar mais alto,
Mas, se presume incluir
A vontade visitante de ouvir o que é dito,
Finge ser uma Presença além da sua mesma.

O que mais pode ser feito?
Não falamos mais um com o outro?
Pomos palavras no ar e no papel
Que viajam entre nós como se o real,
Sob a proteção do tempo,
Com nem tudo perdido entre uma e outra,
Estas, aquelas e suas outras,
Ou perdidas de uma vez?

Não fosse isto um poema
Eu falaria sobre o falar,
Escreveria sobre o falar (e sobre o escrever),
Que se guardaria para o outro, outros,
Se construiria para todo mundo,
Ou para ninguém, contendo em si sua força viajante,
Sem precisar de uma graça de tempo para resgatá-Io
De uma perda total.

Ou eu falaria, escreveria, assim,
Esforçando-me para construir, quero dizer,
Algo ligando nossos entendimentos
Numa realidade de palavras, de eus, de outros,
Mais dizível, mais penetrável, habitável, aberta.

Laura Riding

How a poem comes to be

for James F. Mathias

Necessity haunts us as an accusation of impotence:
Can you or can you not speak up,
Prove yourself present?
What do you have to find to say,
To deliver the knowledge that you are
To the mercies of the believing and not-believing
Of our kind in one another,
You may gather as you approached them,
And leave the issue of acceptance
Suspended between your offering
And its fate with them in time.
(This is named ‘prose’!)
Or you may call for listeners,
And not wait upon them
Making what you find to say
Self-witnessing, be listeners absent.
(Thus does the poem constructs itself:
As for delivery within narrow throw.
If there is no attendance, it yet speaks.)

Reality in a poem is inextensible.
It embraces the will to speak up,
But, if it presumes to include
Visiting will to hear the said,
It feigns Presence to it besides its own.

What else can be done?
Do we not speak to one another?
Put words into the air and on paper
That travel between us as real,
Under the protection of time,
Not all lost between one and another,
These, those, and their others,
Or lost all at once?

Were this not a poem
I would speak on speaking,
Write on speaking (and writing),
That saved itself for the other, others,
Constructed itself for one and all,
Or none, contained its travel-force within it,
Needed no grace of time to rescue it
From total loss.

Or I would so speak, so write,
Endeavour to construct, I mean,
Something binding our understandings
In a reality of words, selves, others,
More utterable, enterable, occupiable, open.
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Mindscapes Poemas — Laura Riding, Seleção, Tradução e Introdução de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue [mais a seção 'Laura Riding: um fórum', seleção de textos diversos referentes à autora poeta], 2004, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

domingo, 24 de julho de 2022

Arthur Rimbaud: Aurora

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e
Maurício Arruda Mendonça]

          Eu abracei a aurora de verão.
          Nada ainda se mexia na fachada dos palácios. A água estava morta. Acampamentos de sombras não deixavam a trilha do bosque. Eu marchava, despertando hálitos vivos e cálidos, e as pedrarias espiavam, e as alas se levantavam sem um som.
          A primeira missão foi, num atalho já cheio de centelhas frescas e pálidas, uma flor que me disse seu nome.
          Sorri para a loira wasserfall* que se descabelava através dos pinheiros; reconheci a deusa no cimo de prata.
          Então, um a um, levantei os véus. Nas alamedas, agitando os braços. Pela planície, onde a denunciei ao galo. Na cidade grande ela fugia entre cúpulas e campanários, e correndo como um mendigo entre docas de mármore, eu a caçava.
          No alto da trilha, perto de um bosque de louros, eu a envolvi com seu monte de véus, e senti um pouco seu corpo imenso. A aurora e a criança caíram na beira do bosque.
          Ao acordar, meio-dia.

Arthur Rimbaud

          Aube

          J'ai embrassé l'aube d'été.
          Rien ne bougeait encore au front des palais. L'eau était morte. Les camps d'ombres ne quittaient pas la route du bois. J'ai marché, réveillant les haleines vives et tièdes, et les pierreries regardèrent, et les ailes se levèrent sans bruit.
          La première entreprise fut, dans le sentier déjà empli de frais et blêmes éclats, une fleur qui me dit son nom.
          Je ris au wasserfall blond qui s'échevela à travers les sapins: à la cime argentée je reconnus la déesse.
          Alors je levai un à un les voiles. Dans l'allée, en agitant les bras. Par la plaine, où je l'ai dénoncée au coq. À la grand'ville elle fuyait parmi les clochers et les dômes, et courant comme un mendiant sur les quais de marbre, je la chassais.
          En haut de la route, près d'un bois de lauriers, je l'ai entourée avec ses voiles amassés, et j'ai senti un peu son immense corps. L'aube et l'enfant tombèrent au bas du bois.
          Au réveil il était midi.

(Illuminations, 1873—1875)

* Nota dos tradutores: Wasserfall. Rimbaud emprega esta palavra em alemão e significa “cascata”.
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Iluminuras — Gravuras coloridas: Arthur Rimbaud, Tradução, Notas e Ensaio de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, edição bilíngue, 2002, 3ª edição, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.