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[traduzido por Castro Fonseca]
O verde colibri, rei das
colinas,
sentindo o orvalho e o sol
claro brilhar
em seu ninho tecido de ervas
finas,
qual fresco raio libra-se no
ar.
Rápido voa às fontes
cristalinas,
onde os bambus murmuram como o
mar,
onde o "açoká" * de
exaltações divinas
abre-se e vem no coração
radiar.
Desce e, pousando na dourada
flor,
bebe na rósea taça tanto amor,
que morre sem saber se a flor
secara!
Sobre os teus puros lábios,
minha amada,
assim morrer minha alma
desejara
do teu primeiro beijo
perfumada.
Le
Colibri
Le vert colibri, le roi des
collines,
Voyant la rosée et le soleil
clair
Luire dans son nid tissé
d’herbes fines,
Comme un frais rayon s’échappe
dans l’air.
Il se hâte et vole aux sources
voisines
Où les bambous font le bruit
de la mer,
Où l’açoka rouge, aux odeurs
divines,
S’ouvre et porte au cœur un
humide éclair.
Vers la fleur dorée il
descend, se pose,
Et boit tant d’amour dans la
coupe rose,
Qu’il meurt, ne sachant s’il
l’a pu tarir.
Sur ta lèvre pure, ô ma
bien-aimée,
Telle aussi mon âme eût voulu
mourir
Du premier baiser qui l’a
parfumée!
* Nota do organizador Vasco
de Castro Lima: Verso 7 — Açoká (ou asoká, ou açocá, ou asocá) — Árvore
indiana de belas flores, que se ofereciam aos ídolos (vários séculos antes de
Cristo).
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O Mundo Maravilhoso do Soneto,
de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho,
1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 — 1894), francês
nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito,
sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego,
italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e
tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental;
trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes
antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la
Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide
(ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros
textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes;
em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.