terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Dušan Matić: Diante da tempestade

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

Que seja a noite novamente assim como desejais
Eu nada sei mais
Nada compreendo mais
À noite pegajosa e agroamarga só se aconchega
A noite e a noite e a noite.

Em vez do ouro e do mal e do bem e da parede de desespero
Que não tem mais fim e onde com a cabeça bato a cada instante
Um encantamento sem forma um entendimento sem grito
Pela longa noite que se aproxima
Um olhar e uma visão risível e turvieterna

Além do sangue que corre entre todas as dores e todas as dores
Não há altura que possa medir-lhes a profundidade.

Esquece tuas lembranças esquece teu esquecimento
Como o viajante esquece distraído o lenço na estação desconhecida
a ponte chagosa das chagas do mundo estende-se por sobre esses
precipícios

Por sobre esse horror e barro
Em que se despedaça o hábito de luz em lágrimas irresgatáveis

Eis aí na clareira deste tremor sem fundo que eu vele e durma
Quebradiço e tristonho e só
Em nada me auxilia a audácia.

Dušan Matić

Pred buru

Neka noć bude opet onakva kakvu vi hoćete
Ja više ništa ne znam
Ništa ne razumem
Do samo noć kako opora i smolasta nadolazi
Noć i noć i noć.

Mesto zlata i zla i dobra i zida očaja
Koji se ne svršava o koji udarim glavom svaki čas
Jedan zanos bez lika jedan razum bez krika
Za dugu noć koja nailazi
Pogled i vidik smešni i smešani zanavek.

Sem krvi koja teče izmedju bola svakog i bola svakog
Nema tog viska koji će da im meri dubinu.

Zaboravi svoje pamćenje zaboravi svoj zaborav
Ko putnik rasejani bošču na nepoznatoj stanici
Most ranjav od rana sveta pruža se preko tih urvina
Preko tog užasa i blata
Gde se lomi navika svetlosti u suzi neotkupljenoj.

Eto na proplanku te jeze bez dna da bdim i spavam
Lomljiv i tavan i sam
Drskost mi ništa ne pomaže.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Dušan Matić (1898 —  1979[?] [1980]), iugoslavo nascido em Tchúpria, matriculou-se em Filosofia na Sorbonne Paris em 1917, motivado por doença interrompeu o curso e, de volta a Belgrado, completou o curso em 1922, formando-se pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta do surrealismo, crítico, ensaísta, professor e tradutor; viajou pela França, Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda e Dinamarca; foi participante do grupo surrealista de Belgrado e de seu almanaque surrealista Nemoguće (O Impossível); colaborou com os periódicos de vanguarda modernistas surrealistas e suas dissenções: revistas Zenit [Zenith], Putevi (Estradas), Svedočanstva (Testemunhos), da qual o poeta foi um iniciador, Naša stvarnost (Nossa Realidade) e 50 u Evropi [50 na Europa], todas de Belgrado, nas quais publicou poemas, ensaios e outros escritos; ainda em 1922, já em Dresden-Alemanha, estudou filosofia romântica alemã; antes, aos 16 anos e sob o pseudônimo de Uroš Jovanović, publicara sua primeira poesia no Radničke novine (Jornal dos Trabalhadores) do Partido Social-Democrata Sérvio; em duas épocas, foi professor de ensino médio e lecionou línguas sérvia e francesa; suas obras: Položaj nadrealizma u društvenom procesu (em colaboração com Oskar Davičo e Đorđe Kostić, A Posição do Surrealismo no Processo Social, 1932), Gluho doba (Os Tempos Surdos, romance, 1940), Bagdala (poemas [cancioneiro emotivo], 1954), Buđenje materije (O Despertar da Matéria, ensaio, 1959), Proplanak i um (coleção de ensaios, artigos e entrevistas, O Prado e a Mente, 1969), Bitka oko zida (seleção de ensaios, Uma luta sobre o muro, 1971), André Breton oblique (1976) Tajni plamen (Chama Secreta, 1976) ...; traduziu Émile Zola (Germinal e Son Excellence Eugène Rougon) e Ivan Pavlov (obra sobre reflexos condicionados), foi cotradutor de Roger Martin du Gard (do multivolume Les Thibault: Le Cahier gris [O Caderno Cinzento]); Dušan Matić, que sofreu prisões por suas atividades e teve que se aposentar de dar aulas, sem condenação, foi um dos principais membros da Associação de Cientistas, Escritores e Artistas da Sérvia.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Antonio Cicero: Prova

 
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para José Miguel Wisnik

Traçada em vermelho sangue, a nota, sob
o triângulo retângulo formado
por uma dobra ao canto superior
direito da folha de papel almaço
pautado que suportara aquela prova
final de matemática, reprovava-o.
Justa recompensa para quem em toda
aula refolhando-se em si mesmo, sáfaro,
ensimesmado e contudo alienado
de si, não reconhece jamais a imagem
pura que dele o duro espelho cifrado
da matemática, ao refletir, refrange.
Distrai-se a ouvir sirenes, risos de moças
lá longe, lotações, bondes, bicicletas
a fugir da escola rumo a nebulosas
destinações. Vê que esqueceu a caneta.
Acha um toco de lápis que com os dentes
e as unhas aponta e, surdo para leis
que alguém que não ele mesmo delibere
gênio, deus, demônio, anjo, monstro ou rei ,
debruça-se em seu caderno a rabiscar
quiçá uma gramática especulativa
ou uma característica universal
excogitada por via negativa
e abstrusa, e acintosamente descura
das matérias do curso e dos professores
e alunos que o cercam e jamais capturam.

A sineta toca. Pelos corredores
pensa no pai, na mãe, na avó, no vexame
e na decepção de todos. Seu fastio
é enorme: despreza a vida e a gravidade
com que a encaram. Pondera o suicídio
e se sente mais leve. Pode atirar-se
do terraço do prédio do consultório
do seu dentista, alto sobre a cidade.
Fora da escola toma um sorvete e um ônibus
até o ponto final, no centro. Caminha
até o edifício, pega o elevador
até o último andar, depois ainda
galga um lance de escadas e alcança ao pôr
do sol a cidade alâmbar a seus pés.
Decide escrever uma carta ou uma nota
no próprio papel da prova, mas cadê
o toco de lápis? Largara-o na escola.
Resolve deixar para alguma outra hora
o suicídio. Dobra o papel, desdobra,
dobra e o solta a dar voltas, revoltas, voltas
acima de todas as coisas, gaivota.

(Teresa: revista de literatura brasileira, nº 4/5,
São Paulo: Departamento de Letras Clássicas e
Vernáculas, Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas. Universidade de
São Paulo; Ed. 34, 2003, p. 302-3.)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Antonio Cicero Correia Lima (1945 2024), carioca, fez seus estudos secundários em Washington, D.C, iniciou seu curso de filosofia no Rio de Janeiro (PUC e UFRJ), vindo a conclui-lo na Inglaterra (Universidade de Londres), depois fez pós-graduação pela Georgetown University, nos EUA, onde estudou Grego e Latim, foi compositor, poeta, crítico literário, filósofo, escritor e professor universitário; suas obras: O Mundo desde o Fim (ensaio filosófico, 1995), Guardar (poemas, 1996), A cidade e os livros (poemas, 2002), Finalidades sem fim (ensaio filosófico, 2005), Livro de sombras: pintura, cinema e poesia (com o artista plástico Luciano Figueiredo, 2010), Porventura (poemas, 2012), Poesia e Filosofia (ensaio filosófico, 2012), entre outros títulos, além de participações em coletâneas e em parceria de diversas obras reflexões filosóficas, poéticas e artísticas; lecionou Filosofia e Lógica em universidades do Rio de Janeiro, fez parcerias musicais com Waly Salomão, João Bosco, Adriana Calcanhoto, Lulu Santos e Marina Lima [sua irmã, e cantora], foi colunista da Folha de São Paulo; em 2017 tornou-se membro eleito da ABL Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 27; em outubro de 2024, o poeta, filósofo e escritor Antonio Cicero anunciou, em carta de despedida a seus amigos, que tinha sido diagnosticado com o mal de Alzheimer e que se encontrava na Suiça, optara pela morte assistida [eutanásia] e ali o procedimento de suicídio assistido é legalizado; sua morte foi anunciada em 23 de outubro.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Ludwig Uhland: A freira

 
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[traduzido por Geir Campos]

No ermo jardim do claustro
ia branca donzela,
triste ao luar sem cor;
iam, nos cílios dela,
gotas de mar de amor.

“Ai de mim, que está morto
o doce amado meu!
Mas vive o amor em mim:
sendo ele anjo no céu,
a um anjo eu amo assim!”

Buscou, a passo incerto,
a Imagem de Maria
tão maternal e pura
a luz que lhe servia
de esplêndida moldura;

de joelhos ante a Virgem,
firmou o olhar no céu
até a Morte lhe vir
as pálpebras cobrir;
leve caiu-lhe o véu.

Ludwig Uhland

Die Nonne

Im stillen Klostergarten
Eine bleiche Jungfrau ging;
Der Mond beschien sie trübe,
An ihrer Wimper hing
Die Thräne zarter Liebe.

“O wohl mir, dass gestorben
Der treue Buhle mein!
Ich darf ihn wieder lieben:
Er wird ein Engel seyn,
Und Engel darf ich lieben.“

Sie trat mit zagem Schritte
Wohl zum Mariabild;
Es stand in lichtem Scheine,
Es sah so muttermild
Herunter auf die Reine.

Sie sank zu seinen Füssen,
Sah auf mit Himmelsruh,
Bis ihre Augenlider
Im Tode fielen zu;
Ihr Schleier wallte nieder.

[1815]
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã [diversos autores e tradutores], Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, coleção Clássicos de Bolso nº 82128, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Ludwig Uhland (1787 1862), alemão de Tübingen, à época ducado de Württemberg, fez seus estudos iniciais na Schola Anatolica, escola latina de sua cidade natal, estudou jurisprudência e formou-se em Direito na universidade local, estudioso da literatura medieval, em especial da poesia alemã e francesa antigas, foi poeta, filólogo, professor, historiador literário, advogado e político; em viagem educacional a Paris, um mês após se formar, interessado nos escritos franceses e alemães antigos, concluiu seus estudos na Bibliotèque Nationale de France (Pariser Nationalbibliothek); data de 1812 seu poema Frühlingsglaube, “provavelmente o mais conhecido”; em 1829, foi nomeado professor da língua e literatura alemã na Universität Tübingen [Universidade de Tübingen]; como político, foi eleito membro do parlamento estadual de Württemberg e da Nationalversammlung, Assembléia Nacional, com sede em Frankfurt; suas obras: Vaterländische Gedichte (coleção de poemas, 1815, com várias outras edições nas quais se incluíam novos poemas), Ernst, Herzog von Schwaben — Trauerspiel in fünf Aufzügen (Ernesto, Duque da Suábia — peça fúnebre em 5 atos, 1817), Ludwig der Baier — Schauspiel in 5 Aufzügen (Ludwig, o Bávaro — peça em 5 atos, 1819), Der Mythus von Thôr nach nordischen Quellen — Studien zur nordischen Mythologie (O Mito de Thór de acordo com fontes nórdicas — Estudos em mitologia nórdica, 1836), Sagenforschungen (Pesquisa sobre lendas, 1836) ...; consta da biografia do poeta que suas baladas se tornaram amplamente populares e que várias delas se converteram em hinos nas composições de Johannes Brahms, Franz Liszt, Felix Mendelssohn Bartholdy, Franz Schubert, Richard Strauss e mais autores da música clássica e outros músicos.

sábado, 28 de dezembro de 2024

Lima Barreto: Os grandes tapeceiros

 
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          Em todas as épocas da história, e mesmo da pré-história, tem havido pessoas soberanas e principais que se interessam pelos tapetes.
          Em geral, essa gente gosta mais de capachos, mas não despreza os tapetes.
          Nos baixos relevos assírios, nós vemos o poderoso Senaquerib, não só furando os olhos dos prisioneiros de suas guerras, mas também sacudindo o pó dos tapetes dos seus palácios.
          O terrível Sesóstris, o famoso Ramsés II, conforme hieróglifos de Luxor, ocupava o seu mando com duas coisas principais: examinar os seus carros de guerra e inspecionar os seus depósitos de tapetes.
          Salomão, o voluptuoso Salomão, não podia deixar de apreciar tapetes, tanto assim que no Cântico dos Cânticos, 69, há esta passagem que denuncia bem esse seu gosto:
          “69 E eu farei com as minhas próprias mãos macios tapetes onde os teus meigos pés de gazela irão pisar.”
          Muitos soberanos e príncipes modernos têm seguido o exemplo dos amigos. Gongunhana, quando os portugueses o internaram em Cabo Verde ou em São Tomé, não reclamava nunca comida ou bebida; queria tapetes.
          A Rainha Ranavalo na sua detenção na Argélia, depois de despojada do seu trono de Madagascar, pediu e obteve do governo francês que ficasse a seu lado o seu antigo ministro dos Tapetes, cujo nome não me recordo agora.
          Quando menino conheci, aqui, um príncipe que, embora não sendo nosso, se pode assim considerá-lo pois viveu entre nós e batalhou ao nosso lado. Quero falar do Príncipe Obá II, d’África. Pois bem: o Príncipe Obá era um grande apreciador de tapete. Não podendo comprá-los, fabricava-os com sacos de aniagem que, naqueles tempos, os vendeiros davam de graça e hoje custam os olhos da cara.
          O formidável Cunhambebe*, aquele famoso chefe de coligação dos tamoios que se gabava de lhe correr no corpo o sangue de mais de mil inimigos, esse Cunhambebe deliciava-se com tapetes.
          Os deles eram de peles humanas de incautos cidadãos que esfolava, não com unguentos, mas com facas de fabricação francesa, pois era aliado de piratas normandos.
          Não é, portanto, de admirar que o senhor Epitácio Pessoa, nosso presidente da República e transitoriamente nosso imperador, tenha, ao visitar a Câmara dos Deputados, a fim de preparar o Monroe e ensaiar o parlamento para recepção do rei Alberto; não é de admirar, dizia, ter Sua Excelência se preocupado com tapetes.

[revista] Careta, Rio [de Janeiro], 25.9.1920
(Coisas do Reino do Jambon 1956)


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Na edição deste Lima Barreto: obra reunida volume 3, está grafado "Cunhabembe" [talvez por erro de digitação e/ou falha de revisão]; Cunhambebe ( ? – c. 1555) foi um chefe indígena tupinambá brasileiro.
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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), História e sonhos (contos, 1920), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948), Coisas do Reino do Jambon (coletânea de crônicas, publicação póstuma, 1956) e outros ...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Benjamin Péret: Nascente

 
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[traduzido por Sérgio Lima e Pierre Clemens]

É Rosa menos Rosa
diz a chuvarada que se alegra por refrescar o vinho branco
aguardando arrombar as igrejas num qualquer dia de Páscoa
É Rosa menos Rosa
e como está o tempo
quando o touro furioso da grande catarata me invade
sob suas asas de corvos escorraçados de mil torres em ruínas
como está o tempo
É um tempo Rosa com um sol de verdade de Rosa
e vou beber Rosa comendo Rosa
até adormecer num sono de Rosa
vestido de sonhos Rosa
e o alvorecer Rosa me despertará com um cogumelo Rosa
onde se verá a imagem de Rosa rodeada de um halo Rosa

Benjamin Péret

Source

Il est Rosa moins Rosa
dit la giboulée qui se réjouit de rafraîchir le vin
    blanc
en attendant de défoncer les églises un quelconque jour de Pâques
Il est Rosa moins Rosa
et quand le taureau furieux de la grande cataracte m’envahit
sous les ailes de corbeaux chassés de mille tours en ruines
quel temps fait-il
Il fait un temps Rosa avec un vrai soleil de Rosa
et je vais boire Rosa en mangeant Rosa
jusqu’à ce que je m’endorme d’un sommeil de Rosa vêtu de rêves Rosa
et l’aube Rosa me réveillera un champignon Rosa
où se verra l’image de Rosa entourée d’un halo Rosa

(Je sublime — 1936)
[Oeuvres completes, tome 2: Benjamin Péret — 1971]
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Amor sublime — Poesias [bilíngue] e Ensaio: Benjamin Péret, Organização e Apresentação de Jean Puyade, Pequeno texto “à guisa de Introdução”, por André Breton [nota transcrita de Anthologie de l’humour noir], Tradução de Sérgio Lima e Pierre Clemens, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Victor Maurice Paul Benjamin Péret (1899 1959), francês de Rezé, uma criança resistente à forte sujeição escolar, entre 1912 e 1913 frequentou a Arts et métiers (École Livet), teve "breve passagem por uma escola de desenho industrial” e, sem demonstrar interesse nos estudos, abandonou-os, foi importante poeta do movimento surrealista francês e militante trotskista; entre 1914 e 1918, alistou-se, foi designado para atuar na guerra e, num deslocamento do seu regimento, em uma estação entre dois trens encontrou em um banco “um exemplar abandonado da revista Sic contendo poemas de Apollinaire”, permaneceu na guerra até o fim e filiou-se ao Movimento Dadá; desde então passou a tomar contato e participar do convívio dos dadaístas e, logo após, dos surrealistas; de sua biografia, consta que em novembro de 1918 teve publicado seu primeiro poema, Crépuscule, em La Tramontane — revue de l’Association des Jeunes; foi em 1924 que Péret, “ao lado de seus companheiros franceses”, fundou o Movimento Surrealista; entre 1924 e 1929, colaborou no Petit Parisien, foi coeditor da revista La Révolution surréaliste; Benjamin Péret, casado com a cantora lírica Elsie Houston, brasileira, residiu no Rio de Janeiro em duas ocasiões: entre 1929 1931 e 1955 1956, aqui, atuando ao lado dos artistas plásticos e militantes trotskistas Mario Pedrosa, Lívio Xavier e Aristides Lobo, foi um dos cofundadores da Liga Comunista (Oposição de Esquerda), de orientação trotskista; em sua primeira estada no Brasil, o poeta foi preso “acusado de ser um agente comunista” e deportado para a França; Perét participou na primeira guerra e na guerra civil espanhola; com a França ocupada pelos nazistas, na segunda guerra, o poeta viveu no México entre 1942 e 1947; suas obras: publicou cerca de 20 livros, entre os quais Le Passager du transatlantique (1921), 152 Proverbes mis au goût du jour (com Paul Éluard, 1925), Le Grand Jeu (1928), Ne visitez pas l’exposition coloniale (1931), De derrière les fagots (1934), Je sublime (16 poemas, 1936), Je ne mange pas de ce pain-là (1936), Dernier malheur dernière chance (1945), Un point c’est tout (11 poemas, 1946), Les syndicats contre la révolution (1952), Le Livre de Chilam Balam de Chumayel (1955), Anthologie de l’amour sublime (1956) ...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

José Régio: Testamento do poeta

 
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Todo esse vosso esforço é vão, amigos:
Não sou dos que se aceita… a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos, hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos,
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.

Para reaver, porém, todo o Universo,
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!…,
Basta-me o gesto de contar um verso.

(Sonetos)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (1901 1969), português de Vila do Conde, fez seus primeiros estudos no liceu da cidade natal, formado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi escritor, poeta, professor, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, memorialista, epistológrafo, historiador de literatura, editor e diretor de revista; ainda jovem, publicou seus primeiros poemas nos jornais vilacondenses A República e O Democrático; em sua trajetória literária colaborou com seus textos nas revistas portuenses Crisálida e A Nossa Revista e nas coimbrãs Bisâncio e Tríptico, além de em outros periódicos “nacionais, ultramarinos, regionais e locais”, revista luso-brasileira Atlântico entre os quais; foi co-fundador da revista Presença, na companhia de João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca; lecionou no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, e no Liceu de Portalegre, no qual veio a se aposentar; suas obras: em poesia: Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As Encruzilhadas de Deus (1936), Fado (1941), A Chaga do Lado (1954), Filho do Homem (1961), Cântico Suspenso (1968), ... em prosa: Jogo da Cabra Cega (romance, 1934), O Príncipe com Orelhas de Burro (romance, 1942), A Velha Casa I — Uma gota de sangue (romance, 1945), depois vieram A Velha Casa II, III, IV e V, de 1947 a 1966, Histórias de Mulheres (novelas, 1946), Há Mais Mundos (contos, 1962), Ensaios de Interpretação Crítica (1964), Três Ensaios sobre Arte (1967), ... para teatro: Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a Virgem Maria (1947), El-Rei Sebastião (1949), ... e outros textos, parte deles em edição póstuma, tais como epistolografias e memória; José Régio, além deste seu pseudônimo incorporado em sua biografia, também fez uso dos alterônimos literários João Bensaúde, Pedro Serra e Lelito.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Gabriela Mistral: País da ausência

 
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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

É o país da ausência
estranho país,
mais leve do que anjo
e indício sutil,
cor de alga em desmaio
e ave peregrina,
com a idade de sempre
mas nunca feliz.

Jamais oferece
romã ou jasmim;
não tem claros céus
nem mares de anil;
entre outros, seu nome
de ninguém o ouvi.
Em país sem nome
vou por fim dormir.

Nem ponte nem barca
me trouxe até aqui;
nunca me falaram
sobre este país;
eu não o buscava
nem o descobri.

Parece uma fábula
que eu mesma teci;
sonho de tomar
e de desistir;
pátria onde se encontram
minha morte e vida.

Nasceu-me de cousas
que não são país:
de pátrias e pátrias
que tive e perdi;
de muitas criaturas
que morrerem vi;
de quanto era meu
e só foi de mim.

Perdi cordilheiras
onde me detive;
pomares com frutos
de suave delícia;
ilhas, canaviais
de verdes matizes;
tudo isso, com as sombras
a se confundirem
cerradas e amantes,
tornou-se país.

Cabelos de névoa
sem dorso e cerviz,
alentos de outrora
sempre a me seguirem
por percursos longos
viraram país.
Em país sem nome
vou por fim dormir.

Gabriela Mistral

País de la ausencia

A Ribeiro Couto

País de la ausencia,
extraño país,
más ligero que ángel
y seña sutil,
color de alga muerta,
color de neblí,
con edad de siempre,
sin edad feliz.

No echa granada,
no cría jazmín,
y no tiene cielos
ni mares de añil.
Nombre suyo, nombre,
nunca se lo oí,
y en país sin nombre
me voy a morir.

Ni puente ni barca
me trajo hasta aquí.
No me lo contaron
por isla o país.
Yo no lo buscaba
ni lo descubrí.

Parece una fábula
que yo me aprendí,
sueño de tomar
y de desasir.
Y es mi patria donde
vivir y morir.

Me nació de cosas
que no son país;
de patrias y patrias
que tuve y perdí;
de las criaturas
que yo vi morir;
de lo que era mío
y se fue de mí.

Perdí cordilleras
en donde dormí;
perdí huertos de oro
dulces de vivir;
perdí yo las islas
de caña y añil,
y las sombras de ellos
me las vi ceñir
y juntas y amantes
hacerse país.

Guedejas de nieblas
sin dorso y cerviz,
alientos dormidos
me los vi seguir,
y en años errantes
volverse país.
Y en país sin nombre
me voy a morir.

(Tala — 1938)
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Poesias Escolhidas: Gabriela Mistral, Tradução de Henriqueta Lisboa, Estudo Introdutivo de Jorge Edwards, Ilustrações de Marianne Clouzot e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Gabriela Mistral, por Dr. Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910 validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Oswald de Andrade: Anacronismo & Brinquedo

 
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ANACRONISMO

O português ficou comovido de achar
Um mundo inesperado nas águas
E disse: Estados Unidos do Brasil

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BRINQUEDO

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Da minha janela eu avistava
Uma cidade pequena
Pouca gente passava
Nas ruas. Era uma pena

Desceram das montanhas
Carochinhas e pastoras
Por dormir em meus olhos
Me levaram pra abrolhos

Os bondes da Light bateram
Telefones na ciranda
Os automóveis correram
Em redor da varanda

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Brinquedos de comadre
Começaram pela vida
Pela vida começaram
Comadres e mexericos

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Depois entrou no brinquedo
Um menino grandão
Foi o primeiro arranha-céu
Que rodou no meu céu

Do quintal eu avistei
Casas torres e pontes
Rodaram como gigantes
Até que enfim parei

Roda roda São Paulo
Mando tiro tiro lá

Hoje a roda cresceu
Até que bateu no céu
É gente grande que roda
Mando tiro tiro lá

(Primeiro caderno do aluno de
poesia Oswald de Andrade — 1927)

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Oswald de Andrade — Cadernos de Poesia do Aluno Oswald (Poesias reunidas), Ensaios & Apresentação: Uma poética da radicalidade, por Haroldo de Campos, e Poesia Pau-Brasil, por Paulo Prado, sem data [1985?], Círculo do Livro, São Paulo — SP; José Oswald de Sousa Andrade (1890 1954), paulista e paulistano, bacharel em Humanidades e em Direito, foi jornalista, redator, poeta, dramaturgo, escritor, crítico teatral, e um dos expoentes do Modernismo e da Semana de Arte Moderna de 1922 levada a efeito no Teatro Municipal de São Paulo; iniciou-se no jornalismo como redator e crítico teatral do Diário Popular, fez parte do grupo da revista Klaxon (1922 a 1923) e da Revista de Antropofagia (1928 a 1929); colaborou e publicou seus textos em diversos periódicos de sua época: revista A Cigarra, A Vida Moderna, Jornal do Comércio, O Jornal, A Gazeta, Correio Paulistano, Revista do Brasil, Diário de São Paulo, Correio da Manhã, entre outros, e fundou a revista O Pirralho, e, depois, Papel e Tinta, Terra Roxa, juntamente com outros modernistas; percurso literário: revista O Pirralho (humor em português macarrônico, 1912 1917), A recusa (teatro, 1913), Théâtre Brésilien — Mon coeur balance e Leur Âme (com Guilherme de Almeida, 1916), A trilogia do Exílio: I — Os Condenados, II — A estrela de absinto, III — A escada vermelha (romances, de 1922 1934), Memórias sentimentais de João Miramar (romance, 1924), Pau-Brasil (poesia, 1925), Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927), Serafim Ponte Grande (romance, 1933), O homem e o cavalo (teatro, 1934), O rei da vela (teatro, 1937), Marco Zero: I — A revolução melancólica, II — Chão (romances, ambos em 1943), Cântico dos Cânticos para flauta e violão (1945), O escaravelho de ouro (1946), além de manifestos e conferências, e outros textos em verso e prosa e para teatro; de família abastada, Oswald viveu entre o Brasil e a Europa, onde transitou por diversos países.