sábado, 31 de março de 2012

Júlia Lopes de Almeida: A Casa dos Mortos

À Francisco Júlia da Silva

Que frio e que negrume!

E eu ia andando no meio da treva, corajosa e firme, em busca daquela que me deu a vida, que nos criou nos seus seios, que me enchia as faces de beijos e nos vestia a alma de alegrias.

Eu estava agora faminta, mal vestida, mal consolada, cheia de mágoas, saudosa do seu afago  quente e doce, da sua palavra cheirosa como o mel da abelha em tronco de especiaria.

E fui andando na treva, seguindo uns passos que eu não ouvia, não sei de quem, não sei para onde.

Nem uma estrelinha orientadora; tudo era mudo; só aqueles passos diante de mim; tan, tan, tan, tan, como marteladas através de uma parede grossa!

E fui, sem medo, até que os passos pararam e uma porta se abriu sem rumor, larga e macia. Veio uma rajada; encostei-me ao umbral e divisei então, uma luz frouxíssima, uns vultos mal definidos, quase apagados.

Perto de mim um homem, embuçado como um esquimó, tirou da cabeça um fardo e pousou-o no chão; depois, voltando-se, disse-me com uma voz soluçada como o vento na ramaria de um salgueiro:

 Por que viestes atrás de mim? Esta é a casa dos mortos. Vai-te embora! A estrada negra é proibida aos vivos; és o primeiro que as percorre sem ter morrido...

Sombras esparsas iam tomando formas humanas e vinham curiosas, lentas, resvalando, debruçarem-se sobre o meu corpo, em atitude de espanto. Eu resistia ao pavor e sôfrega perscrutava tudo, em busca daquela que me deu a vida, que me enchia as faces de beijos, que me embalava com as suas palavras mais cheirosas que o mel de abelhas em tronco de especiaria.

 Quem procuras? perguntou o mesmo homem, cujos traços eu não percebia sob a proteção do capuz.

 Minha mãe. O som da minha voz fez fugir em revoada todas aquelas figuras de névoa, como a badalada de um sino em torre coberta de passarinhos. Eu mesma tremi, estranhando a vibração das minhas palavras, tal a clareza e a vida da minha voz ecoando entre os fracos murmúrios das outras, de um tênue sopro de brisa.

Então lá do fundo, do meio de um amontoado de novelos alvadios que se dissipavam aqui para se juntarem acolá, a minha mãe veio até mim, sorrindo, com o seu vestido caseiro, a sua bela pela rosada, gorda e fresca como nos tempos em que eu repousava no seu largo seio a minha cabeça sonhadora e febril, e ela me alisava os cabelos com as suas mãos formosíssimas.

Radiante, atirei-me para beijá-la; ela, porém, sempre tão pronta em receber os meus carinhos, paralisou-me com um gesto:

 Não me toques! Não me beijes! Todo o meu corpo se desfaria ao mais leve contato... Tereis horror da minha carne e desmaiarias se meus lábios se unissem aos teus. Por que vieste procurar-me? Foge, meu amor, o teu lugar é lá, na vida, na febre, na luz, no sofrimento. Vai sofrer. Saudades? tinhas saudades? Pobrezinha! Esquece; não há nada que valha o esquecimento, eu nunca te apareceria, se não viesses procurar-me. fizeste mal ao meu repouso, porque, vendo-te, eu não te posso apertar ao meu seio! E as tuas irmãs! E ele?!

Eu chorava; e não perdia um só de seus gestos. Lembro-me de que ela quis dar-me uma fruta, e que depois sorriu com amargura, vendo desfazer-se entre meus dedos lívidos a fruta que me entendia.

 Até os mortos têm ilusões... eu esquecia-me... disse ela com a sua voz tão outra, apenas audível, como um murmúrio de vento muito ao longe...

Então eu vi, eu vi que todas aquelas sombras flutuantes cercavam o fardo que o homem de capuz pousara ao chão; eram dois caixões com defuntos; em um ia uma virgem, no outro um homem. Ela era branca e fina, com umas madeixas negras sobre a túnica pálida e uma haste de nardos nas mãos postas em cruz. Ele era igualmente pálido, e moço, e belo, com a sua linda cabeça loira pousada em violetas.

A Morte, em pé, muito alta e muito esguia, diante dos dois caixões, lançava-lhes uma benção vagarosa, larga, com dizeres que eu não entendia.

Minha mãe explicou-me:

 Só o amor perdura além da morte. Aquilo é a celebração de um noivado. Os dois corpos ficaram lá embaixo, intactos, rígidos, mas aqui as duas almas estarão sempre unidas; e se voltarem à terra voltarão juntas e para o mesmo laço. Serão eternamente presas uma à outra; almas felizes, raras! Vês? Quem não amou na vida não tem nem a doçura da saudade para amenizar-lhe a tristeza deste exílio. Repara para as virgens sem noivos; que ar de lamento que elas têm! Essas nunca voltarão à terra, porque da vida não trouxeram lembrança. Só quem amou traz para o mistério da morte um aroma de sonho. Tudo mais é poeira que o vento leva, e espalha, e não se torna a encontrar... Vai-te embora!

Os olhos de minha mãe tinham um brilho de lágrima, e eu estendi-lhe os braços ansiosos, e logo o seu corpo se tornou imaterial, diáfano, como se de névoa fosse. Então o homem do capuz, cujas feições não vi, pegou-me pela mão e trouxe-me para fora, para a estrada, onde eu caminhei entre duas longas filas de ciprestes negros e de anêmonas roxas. Caminhei, caminhei, sem sentir o solo sob os passos cansados; e quando abri os olhos deste estranho sonho tinha o rosto coberto de lágrimas e as mãos em cruz sobre o coração.
Ânsia Eterna, contos 
H.Garnier, Livreiro-Editor, 1903, Rio de Janeiro - RJ
 (Biblioteca Virtual de Literatura)
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Júlia Valentina Lopes de Almeida (1862 - 1934), nascida na então Província do Rio de Janeiro, mudou-se para Campinas - SP e estreou sua carreira de escritora em 1881 escrevendo na Gazeta de Campinas; consta de sua biografia que "desde cedo mostrou forte inclinação pelas letras, embora no seu tempo de moça não fosse de bom-tom nem do agrado dos pais, uma mulher dedicar-se à literatura. Numa entrevista concedida a João do Rio entre 1904 e 1905, confessou que adorava fazer versos, mas os fazia às escondidas."; a partir de 1887, colaborou sistematicamente com a revista A Semana, que era dirigida pelo escritor português Filinto de Almeida, com quem Dona Júlia se casara naquele ano; teve uma vasta produção literária, com mais de 40 publicações abrangendo romances, contos, literatura infantil, teatro jornalismo, crônicas e obras didáticas, além de inúmeros artigos em jornais da época; por ser do sexo feminino, ficou excluída da composição da Academia Brasileira de Letras embora tivesse participado das reuniões de formação; nos meios literário e acadêmico da época ficou conhecida como uma das "três Júlias" famosas - as outras foram Francisca Júlia (1874 - 1920) e Júlia Cortines (1868 - 1948), poetisas). 

sexta-feira, 30 de março de 2012

Um naquinho de prosa: mês de março, mulheres, poesia

 
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Minas e manos,

Desde o início deste mês de março venho postando, privilegiadamente, textos de autoria feminina  a grande maioria, textos poéticos. Já são mais de 30 postagens. O evidente objetivo é/foi, através da poesia, render tributo às mulheres no seu dia/mês internacional, tributo este remissivo a 8 de março de 1917.

E é neste mês também que, por coincidência, o texto poético é reverenciado duplamente: no dia 14, comemoramos o dia nacional da poesia — data do nascimento do poeta Castro Alves (1847 
 1871) e, no dia 21, os poemas têm/tiveram o seu dia mundial. Eis as razões explícitas para a empreitada poética deste Verso e Conversa neste mês.

Aqui pra nós, confesso ter sido bem gratificante ler e reler poemas, e também crônicas e outros textos, elaborados por inúmeras gerações femininas e selecionar alguns para serem postados. Dos registros que encontrei, manuseando 22 volumes 
 8 antologias, coletâneas e roteiros, quase que absolutamente adquiridos em sebos, nos últimos anos , constatei que, quanto mais se voltava no tempo, retornando até meados do século XIX, mais difícil foi garimpar textos de autoria feminina. Os registros que estiveram ao meu alcance são/foram bem poucos. De épocas anteriores, então, a tarefa me pareceu algo impossível.

Se não, vejamos:

  • Manuel Bandeira, em Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Editora Casa do Estudante do Brasil, Rio de Janeiro  RJ), nos apresenta 103 poemas de 40 poetas  de meados do século XVII (com Gregório de Matos) até a primeira metade do século XX  dos quais é feito registro de apenas uma mulher, Cecília Meireles (1901  1964), com 4 poemas;
  • Edgard Rezende, por sua vez, em Os Mais Belos Sonetos Brasileiros (1947, Casa Editora Vecchi, Rio de Janeiro RJ), seleciona 324 sonetos de igual número de poetas, também do século XVII até o século XX. Ali, se registram 23 sonetos escritos por 23 mulheres poetas. Eis os quatro registros mais antigos: Emiliana Delminda (1865 1963), Úrsula Garcia (1865  1905), Júlia Cortines (1868  1948), Ibrantina Cardona (1872  1956 ?);
  • Ainda Edgard Rezende, em Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros (1950, Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro RJ), selecionando trabalhos de 43 poetas já mortos à época, abrangidos da 2ª metade do século XIX até os anos 30 do século XX, nos apresenta uma só poeta mulher, Carmen Cinira (1905 1933), com um soneto;
  • Já Sergio Faraco, organizador do Livro dos Sonetos: 1500 1900, poetas portugueses e brasileiros (1999, L&PM, Porto Alegre  RS), o qual nos apresenta 84 sonetistas e 99 sonetos  desde o português Sá de Miranda (1481 1558) até o brasileiro Raul de Leoni (1895 1926), seleciona e nos presenteia com 7 poetisas e 10 sonetos de autoria delas. Eis os três registros mais antigos: Violante do Céu (1602 1693), portuguesa, com dois sonetos; Marquesa de Alorna (1750 1839), outra portuguesa, com um soneto; e Júlia Cortines (1868 1948), brasileira, também com um soneto;
  • Ítalo Moriconi, por sua vez, em Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século (2001, Editora Objetiva, Rio de Janeiro RJ), seleciona textos poéticos de 59 autores do Século XX, dos quais registra 20 poemas de 12 poetisas. Seguem os três registros mais antigos: Gilka Machado (1893 1980), um poema; Cecília Meireles (1901 1964), seis poemas; e Maria Ângela Alvim (1926 1959), um poema;
  • Em Antologia de Antologias — 101 poetas brasileiros "revisitados" (2004, Musa Editora, São Paulo  SP), Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Maria Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva registram 297 poemas de um período compreendido entre a década de 50 do século XVI e meados do século XX, todos já constantes de antologias editadas anteriormente por diversos estudiosos. Nesta revisitação, somos presenteados com 9 textos de 3 poetisas: Francisca Júlia (1871  1920), com três poemas; Auta de Souza (1876  1901), com um poema; e Cecília Meireles (1901 1964), com cinco poemas;
  • As mesmas autoras/pesquisadoras acima, em Antologia de Antologias  prosadores brasileiros "revisitados" (1996, Musa Editora, São Paulo  SP), de 221 textos em prosa selecionados de 120 escritores e poetas do século XVI à primeira metade do século XX, e também constantes de antologias editadas anteriormente, nos põe em contato com duas escritoras, Raquel de Queiroz (1910  2003), com dois textos, e Clarice Lispector (1920  1977), com um texto;
  • Em Roteiro da Poesia Brasileira 15 volumes, de "Raízes" aos "Anos 2000" (edições de 2006 a 2011, Global Editora, São Paulo SP), com seleção de diversos literatos e estudiosos, nos deparamos com o seguinte quadro nos períodos literários mais antigos: em dois volumes, "Raízes" e "Arcadismo", com 8 e 7 poetas respectivamente, não há nenhum registro de autoria feminina; em "Romantismo" foram selecionados 20 poetas dos quais apenas 1 registro feminino, Narcisa Amália (1852 1924), com 2 poemas; em "Parnasianismo" constam 19 poetas, sendo duas mulheres, Francisca Júlia (1871 1920), com 8 sonetos, e Júlia Cortines (1868 1948), com 5 poemas; em "Simbolismo", entre 24 poetas, só um registro feminino, Auta de Souza (1876 1901), com 3 poemas; em "Pré-Modernismo", de 14 poetas, uma só é mulher, Gilka Machado (1893 1980), com 10 poemas registrados;
Ufa! Isso foi 99% do que manuseei e li nesta minha empreitada. Contudo e apesar de tudo, agora vocês estão sabendo, entreguei a "encomenda" autoprometida no início do mês: a postagem de poemas (e outros textos) de autoras de diversas gerações. Espero que tenham gostado. 

Parabéns, poetisas, cronistas, contistas e escritoras!
Parabéns, mulheres!
Parabéns, leitoras... e leitores, claro!
Genésio dos Santos,
aprendiz de blogueiro
 e pesquisador-aprendiz
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    Elizabeth Lorenzotti: Criado-mudo

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    O rosário de jade sobre a Teogonia
    O livro de Leonardo
    Meu caderno de sonhos
    Cristais de gengibre
    A caixinha de Alhambra
    A pedra cor-de-rosa
    O hexágono da China
    Potinhos de pedra-sabão de Minas
    A obra em negro
    Os escritos de Blake:


    Tudo existe porque tem um nome

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    Elizabeth de Souza Lorenzotti, jornalista, escritora e poetisa, após ter vivido e residido na capital paulista, retornou recentemente a sua terrinha de origem, Poços de Caldas MG; de lá, continua exercendo suas atividades profissionais; é doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Ciências da Comunicação e graduação em Jornalismo, também pela USP; escreveu Suplemento Literário Que falta ele faz! (2007, Imprensa Oficial, São Paulo SP), Tinhorão, o Legendário (2010, Imprensa Oficial, São Paulo SP), As Dez Mil Coisas, poesia (2011, Biblos Editora, São Paulo SP), além de publicações em jornais e revistas; pilota um blogue, o Viva Babel

    Xandra Stefanel: Jogo

     

              A voz quase não saiu. Contou até dez. Inspirou e soltou o ar bem devagar. No fundo sabia que nada adiantaria. Sempre ficava assim nessas situações. Olhou para o lado para ter certeza que ninguém observava a cena, que achava ridícula e infantil. Quase 30 anos e não conseguia perder aquela vergonha que a fazia corar quando alguém flertava com ela de maneira mais incisiva.
              Seus pés sob a mesa estavam inquietos, apoiados no chão apenas com as pontas. ­Suas mãos suadas sobre as coxas denunciavam nervosismo. Quando sentiu que a conversa estava chegando ao ápice, percebeu que sua bexiga não aguentaria mais um minuto. Odiava levantar da mesa. Todos pensariam “de novo!”, e ririam das pernas a se esbarrarem uma na outra pelo caminho.
              Quis brincar com a própria timidez. “Depois que a gente vai pela primeira vez...”, disse. Riso sem graça e aflito. Virou as costas e sentiu que ele olhava para sua bunda e para o lado, como a insinuar aos outros observadores que aquele seria seu troféu. Olhou para trás antes de entrar no banheiro e comprovou sua teoria. “Não disse? Esse sorrisinho não me engana”, pensou. Aquela carinha de bom moço escondia um conquistador barato que faz lista de mulher que já pegou.
              Baixou o zíper, abriu o botão e desceu a calça até os joelhos. Encostou a mão esquerda na parede de trás do vaso e equilibrou-se. Esboçou um quase sorriso de alívio. Quando olhou para sua calcinha viu que não havia possibilidade de mostrar aquela peça de museu nem para o espelho, quanto mais a um homem. Essa mania de sair com calcinhas de usar em casa ainda a mataria de vergonha. “Ah, mas por que não?” Deu uma risada baixa, a cerveja já estava fazendo efeito.
              Lavou as mãos enquanto fazia careta na frente do espelho, molhou os lábios com a língua e em seguida passou-a nos dentes. Sentiu-se objeto e poderosa ao mesmo tempo, e gosta de perceber a contradição. O recato e a indecência eram características que, juntas, faziam estrago na cabeça dos homens. Era o charme que começava a assumir depois da terceira ou quarta cerveja.
              Quando abriu a porta e olhou para toda aquela gente do bar, fincou as unhas na palma da mão. Respirou e andou até sua cadeira. Encheu seu copo de novo e bebeu metade. “Calor, né?” Continuou ouvindo aquele papo furado sobre o tempo, mulheres que demoravam no banheiro, histórias sobre as “amigas” e tantas outras coisas que a faziam rir cada vez mais por menos motivo, a cada novo copo. Sabia que amanhã seria dia de ressaca moral e física, mas era tarde demais.
              Depois de algumas insinuações, indiretas, mão na coxa, pernas semiabertas e muitos copos, o celular tocou. Ela fez uma careta, pediu desculpas sem soltar som algum dos lábios e se levantou já falando alto com a pessoa do outro lado da linha. Quando percebeu o volume da sua voz e do riso, ali em pé, bem no meio do bar, resolveu ir até o banheiro para terminar a conversa. “A conversa estava boa, hein?”, teve de ouvir, quase num tom de inquisição. “Pois é, era uma amiga me chamando para uma festa.”
              “Hoje?” “Daqui a pouco. Preciso ir.” Ele passou a mão nervosa na boca e pediu que ela não o deixasse ali sozinho. “Desculpe, sei que você vai entender.” Claro que não entendia. Ele balançou a cabeça e, como se estivesse se conformando, tirou a carteira do bolso para pedir a conta. “Hoje eu pago”, disse ela. “Além de você não conseguir o que quer, vai ter prejuízo?”, riu alto. Já em pé, abraçando-o pelas costas, colocou uma nota de 50 no bolso da camisa dele e piscou como se dissesse “fique com o troco”. Deu-lhe um beijo bem no canto da boca e saiu rebolando muito mais do que quando entrou.
    Revista do Brasil, nº 68, fevereiro de 2012
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    Xandra Stefanel é editora assistente e jornalista da Revista do Brasil.

    quinta-feira, 29 de março de 2012

    Janice Caiafa: Antologia dos Poetas Ocidentais


    Lembras quando tu me lias
    os pequenos livros de cores
    poesia brasileira
    poesia portuguesa e estrangeira
    portuguesa não era estrangeira
    eu nem sabia ler
    pequena muito pequena
    no balcão da portaria
    altíssimo na minha lembrança
    as pernas pendiam de cima
    sapatinho de criança
    te escutava atenta admirativa
    de tanta coisa já escrita
    eram histórias para mim só que em ritmo,
    eu sentia que o poema
    respirava e mais
    me embalava a palavra
    assim escandida e levemente
    cantada. Sentia
    enquanto tu lias
    que havia sonâncias
    pousos, rodopios
    e a leitura me embalava
    mas para ficar acordada
    olhos abertos
    ereta sentada
    em grande curiosidade
    que seria afinal a vida
    onde se abrigava tanta
    palavra? que belo
    assunto, que leitora
    sabida e boa
    para a criança que escutava.
    Que bonita mãe que bom ouvi-la
    para a menina que não lia
    e que viria então
    um dia a fazer poemas.
    Cinco Ventos (2001)
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    Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 80, Seleção e Prefácio de Ricardo Vieira Lima, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2010, São Paulo  SP; Janice Caiafa, nascida em 1958, no Rio de Janeiro, além de poeta, é doutora em Antropologia pela Universidade de Cornell (Estados Unidos), tradutora, pesquisadora e professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com diversos trabalhos publicados na área (Movimento Punk na cidade: a invasão dos bandos sub, Rio de Janeiro, 1985; Nosso Século XXI: notas sobre Arte, Técnica e Poderes, 2000; Jornadas Urbanas: exclusão, trabalho e subjetividade nas viagens de ônibus na cidade do Rio de Janeiro, 2002; Aventuras das cidades: ensaios e etnografias, 2007); participou nas traduções de Mille plateaux — de Gilles Deleuze e Félix Guattari , 1997, e Crônica dos índios Guayaki  de Pierre Clastres , 1995, e traduziu As Rosas  de Rainer Maria Rilke , 1996; Obra poética: Noite de Ela no céu, 1982; Neve Rubra, 1996; Fôlego, 1998; Cinco Ventos, 2001); Ouro, 2005; Exposições de antropologia, 2008 e Estúdio, 2009; tem também trabalhos em publicações digitais.

    quarta-feira, 28 de março de 2012

    Na Moita: Nenhum humorista atira pra matar! (Millôr Fernandes)


    (Fevereiro/1997  Na Moita é um jornaleco nem oficial nem clandestino. Muito pelo contrário!)
    O MILLÔR DO MOMENTO
    • Humorista  Fiquem tranqüilos: nenhum humorista atira pra matar.
    • Loterias  Resultado verdadeiro - nunca revelado - das loterias: "Esta semana, mais um recorde da Loteria: vinte e seis milhões, quatrocentos e vinte mil e trezentos e oito perdedores."
    • Efeito colateral  Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos.
    • Espanto  Deus do céu, eu sou do tempo em que bunda era palavrão!
    • Hindus  Certos líderes brasileiros continuarem com prestígio nos fazem entender os hindus adorarem as vacas.
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    (Abril/1996  O Na Moita é um jornaleco, sim! Sem som, mas tem tom.)
    O MELHOR DE MILLÔR PARA O MOMENTO
    • Habilidade  O máximo de habilidade político-econômica é a desses caras que se locupletam no capitalismo entrando pela esquerda.
    • Faculdade  Deve haver, escondido nos subterrâneos do Congresso, uma escola de malandragens, golpes, perfídias e corrupção. Não é possível que tantos congressistas já nasçam com tanto know-how.
    • Economia  Vocês aí que sempre economizaram tanto para os dias piores, podem começar a gastar: os dias piores chegaram.
    • Contracheque  De repente viu-se cheio de dinheiro. A empresa, por engano, em vez do ordenado, lhe pagou os descontos.
    • Justificativas  Justificativas: Eu nem sabia o que estava assinando. / A gente tem que sobreviver. / Se eu não desse ele me despedia. / Não me entreguei ao sistema, estou combatendo por dentro. / Ordens são ordens. / Que é que eu posso fazer? É o meu caráter. / Não fui eu que fiz o mundo. / Agora não posso mais recuar. / Se eu não fizesse, outro faria.
    • Anarquia  É apenas uma proposta social em que você dá ao palhaço a administração do circo. E quase sempre ele é muito bem sucedido.
    • Burrice  Conheço certos sujeitos que se caírem de quatro não só não se levantam como nem têm a menor vontade.
    • Humorista  Você aí, companheiro de profissão: uma coisa é ser o rei dos palhaços, outra coisa é ser o palhaço dos reis.
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    (Fevereiro/1996  Na Moita é um jornaleco flexível. Entorta, mas não verga pra direita.)
    MILLÔRIANAS
    • Ideologia  Se a tua ideologia não está dando, muda pra outra que esteja em alta no mercado.
    • Ambigüidade  Como é mesmo que Stefan Zweig disse: "País do futuro" ou "País do faturo"?
    • Financista  O grande financista é aquele que consegue arrancar dinheiro do banco usando a força do que deve.
    • Aposentadoria  A Previdência Social pretende substituir a Providência Divina. Como esta, só chega depois da morte.
    • Ameaça  Os banqueiros não perdem por esperar. Ganham.
    • Cidadão  Cidadão, neste país em que não há qualquer cidadania, passou a significar só cidade grande.
    • Burocrata  Um burocrata é uma pessoa que vê um sujeito assassinado com um canivete suiço e só se interessa em saber como o assassino conseguiu a guia de importação.
    • Grupo de Trabalho  Grupo de trabalho é um conjunto de pessoas nomeado por um poderoso que não conhece nenhum de seus elementos e que os indica para resolver um problema  do qual, individualmente, nenhum tem a menor noção.
    • Ambição  Basta olhar o número crescente de loterias para concluirmos que todo ser humano deseja ser milionário. Nunca vi um milionário querendo ser ser humano.
    • Americanismo  Tão americanizado que em vez de dizer outrossim, diz outroyes.
    • Humor  O humor compreende também o mau humor. O mau humor é que não compreende nada.
    • Pretensão  É normal que uma pessoa se ache mais inteligente do que outra. Mas Fernando Henrique Cardoso é o único intelectual que se acha mais inteligente do que ele próprio.
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    Millôr Fernandes (1923  2012), ou Milton Viola Fernandes, carioca do Méier, nascido em 16 de agosto de 1923 mas registrado em 27 de maio de 1924, transitou por inúmeras áreas ligadas às artes e a outros ofícios: foi escritor, dramaturgo, jornalista, humorista, tradutor, chargista, frasista, desenhista, poeta (de haikais) e caricaturista; as frases desta postagem foram extraídas de Millôr Definitivo  A Bíblia do Caos, 5ª edição, L&PM Editores, Inverno de 1994, Porto Alegre  RS; Millôr nos deixou como legado uma vasta obra, particularmente ligadas ao humor e ao teatro. O jornaleco Na Moita (1991  1997), um devezenquandário que circulou nas dependências da ex-Agência Centro do BB em São Paulo, teve como co-editores responsáveis e interinhos os hoje aposentados e ativistas da palavra Genésio dos Santos e Jorge Nagao.