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quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Fernando Assis Pacheco: Rua da Rosa, Lisboa: O Pombo

 
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Se o galo gala o pombo pomba? este pombava
ao sol das três da tarde lisboeta num passeio da Rua da Rosa senhor
de si não digo nem arrogante mas com alguns direitos v. g. do apetite
pombava enquanto carros subiam em segunda aí está cauteloso
o peito inflado as penas do rabo num leque amorável sendo
nele tudo isto «a procura de Deus derramado na urbe» a vinte
e dois anos e meio do fim do mundo
ó futurólogos que me não largais

preciso para o voyeur: pombava e dançava e nos intervalos
da célere dança pombava ainda apesar de tudo obsequioso
com a fêmea não fosse ela sôbolos pneus que rodam
rua acima ficar-se como a amiga de Ignacio Morel (in Ramón J.
Sender)
igual a mim quando pombo ia pombando este pois que se trata
de a buscar sempre mesmo repetida
de uma geração a outra aquilo que é soberbo o amor a novidade

[Memórias do Contencioso — 1976]

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (1937 1995), português coimbrão, formado e licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, foi poeta, escritor, jornalista, crítico literário e tradutor; no cumprimento do serviço militar iniciado em 1961, logo seguiu para Angola, à época colônia portuguesa, e ali exerceu funções como expedicionário, “experiência que viria a marcar sua obra, sobretudo a poética”; na juventude foi ator do TEUC Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra e do CILAC Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, e redator da revista Vértice; sempre atuou no jornalismo, única profissão exercida: foi repórter no Diário de Lisboa, na República, no Jornal das Letras, Artes e Ideias, no Musicalíssimo e no Se7e, neste também foi diretor-adjunto; ainda trabalhou como redator e chefe de redação n’O Jornal, para o qual escreveu críticas literárias durante dez anos, e colaborou na RTP — Rádio e Televisão de Portugal; suas obras: Cuidar dos Vivos (1963), Câu Kiên: um resumo (1972), Viagens na minha guerra (1972), Memórias do Contencioso (1976), Catalabanza, Quilolo e Volta (‘republicação de Câu Kiên’ [com outro nome], 1976), Siquer este refúgio (1976), Memórias do Contencioso e Outros Poemas (1981), A Musa Irregular (antologia poética, 1991), todos de poesia, Walt (romance-novela, 1978), Paixões e Trabalhos de Benito Prada (romance, 1993) e outros títulos, incluso alguns póstumos; traduziu para o português obras de Pablo Neruda, Gabriel García Márquez e Ievgueni Ievtuchenko; o poeta, no dia 30 de novembro de 1995, ‘amante de livros e da vida, morreu [subitamente, de ataque cardíaco] aos 58 anos, à porta da “Livraria Buchholz [Lisboa]”, com um saco de livros na mão, acabados de comprar.’.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Fernando Assis Pacheco: Monólogo e Explicação

 
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Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papeis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.

(Catalabanza, Quilolo e Volta — 1976)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (1937 1995), português coimbrão, formado e licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, foi poeta, escritor, jornalista, crítico literário e tradutor; no cumprimento do serviço militar iniciado em 1961, logo seguiu para Angola, à época colônia portuguesa, e ali exerceu funções como expedicionário, “experiência que viria a marcar sua obra, sobretudo a poética”; na juventude foi ator do TEUC Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra e do CILAC Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, e redator da revista Vértice; sempre atuou no jornalismo, única profissão exercida: foi repórter no Diário de Lisboa, na República, no Jornal das Letras, Artes e Ideias, no Musicalíssimo e no Se7e, neste também foi diretor-adjunto; ainda trabalhou como redator e chefe de redação n’O Jornal, para o qual escreveu críticas literárias durante dez anos, e colaborou na RTP — Rádio e Televisão de Portugal; suas obras: Cuidar dos Vivos (1963), Câu Kiên: um resumo (1972), Viagens na minha guerra (1972), Memórias do Contencioso (1976), Catalabanza, Quilolo e Volta (‘republicação de Câu Kiên’ [com outro nome], 1976), Siquer este refúgio (1976), Memórias do Contencioso e Outros Poemas (1981), A Musa Irregular (antologia poética,1991), todos de poesia, Walt (romance-novela, 1978), Paixões e Trabalhos de Benito Prada (romance, 1993) e outros títulos, incluso alguns póstumos; traduziu para o português obras de Pablo Neruda, Gabriel García Márquez e Ievgueni Ievtuchenko; o poeta, no dia 30 de novembro de 1995, ‘amante de livros e da vida, morreu [subitamente, de ataque cardíaco] aos 58 anos, à porta da “Livraria Buchholz [Lisboa]”, com um saco de livros na mão, acabados de comprar.’.

domingo, 1 de setembro de 2024

Fernando Assis Pacheco: Os Cães

 
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Eram loucos. Alguns deles eram loucos,
parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.

(Catalabanza, Quilolo e Volta — 1976)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (1937 1995), português coimbrão, formado e licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, foi poeta, escritor, jornalista, crítico literário e tradutor; no cumprimento do serviço militar iniciado em 1961, logo seguiu para Angola, à época colônia portuguesa, e ali exerceu funções como expedicionário, “experiência que viria a marcar sua obra, sobretudo a poética”; na juventude foi ator do TEUC Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra e do CILAC Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, e redator da revista Vértice; sempre atuou no jornalismo, única profissão exercida: foi repórter no Diário de Lisboa, na República, no Jornal das Letras, Artes e Ideias, no Musicalíssimo e no Se7e, neste também foi diretor-adjunto; ainda trabalhou como redator e chefe de redação n’O Jornal, para o qual escreveu críticas literárias durante dez anos, e colaborou na RTP — Rádio e Televisão de Portugal; suas obras: Cuidar dos Vivos (1963), Câu Kiên: um resumo (1972), Viagens na minha guerra (1972), Memórias do Contencioso (1976), Catalabanza, Quilolo e Volta (‘republicação de Câu Kiên’ [com outro nome], 1976), Siquer este refúgio (1976), Memórias do Contencioso e Outros Poemas (1981), A Musa Irregular (antologia poética, 1991), todos de poesia, Walt (romance-novela, 1978), Paixões e Trabalhos de Benito Prada (romance, 1993) e outros títulos, incluso alguns póstumos; traduziu para o português obras de Pablo Neruda, Gabriel García Márquez e Ievgueni Ievtuchenko; o poeta, no dia 30 de novembro de 1995, ‘amante de livros e da vida, morreu [subitamente, de ataque cardíaco] aos 58 anos, à porta da “Livraria Buchholz [Lisboa]”, com um saco de livros na mão, acabados de comprar.’.