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Se o galo gala o pombo pomba?
este pombava
ao sol das três da tarde
lisboeta num passeio da Rua da Rosa senhor
de si não digo nem arrogante
mas com alguns direitos v. g. do apetite
pombava enquanto carros subiam
em segunda aí está cauteloso
o peito inflado as penas do
rabo num leque amorável sendo
nele tudo isto «a procura de
Deus derramado na urbe» a vinte
e dois anos e meio do fim do
mundo
ó futurólogos que me não
largais
preciso para o voyeur: pombava
e dançava e nos intervalos
da célere dança pombava ainda
apesar de tudo obsequioso
com a fêmea não fosse ela
sôbolos pneus que rodam
rua acima ficar-se como a
amiga de Ignacio Morel (in Ramón J.
Sender)
igual a mim quando pombo ia
pombando este pois que se trata
de a buscar sempre mesmo repetida
de uma geração a outra aquilo
que é soberbo o amor a novidade
[Memórias do Contencioso — 1976]
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Poesia portuguesa contemporânea
[várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos
por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP;
Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (1937 — 1995), português coimbrão, formado
e licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, foi poeta, escritor,
jornalista, crítico literário e tradutor; no cumprimento do serviço militar iniciado
em 1961, logo seguiu para Angola, à época colônia portuguesa, e ali exerceu funções
como expedicionário, “experiência que viria a marcar sua obra, sobretudo a poética”;
na juventude foi ator do TEUC — Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra
e do CILAC — Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, e redator da revista
Vértice; sempre atuou no jornalismo, única profissão exercida: foi repórter no Diário
de Lisboa, na República, no Jornal das Letras, Artes e Ideias, no Musicalíssimo
e no Se7e, neste também foi diretor-adjunto; ainda trabalhou como redator e chefe
de redação n’O Jornal, para o qual escreveu críticas literárias durante dez anos,
e colaborou na RTP — Rádio e Televisão de Portugal; suas obras: Cuidar dos Vivos
(1963), Câu Kiên: um resumo (1972), Viagens na minha guerra (1972), Memórias do
Contencioso (1976), Catalabanza, Quilolo e Volta (‘republicação de Câu Kiên’ [com
outro nome], 1976), Siquer este refúgio (1976), Memórias do Contencioso e Outros
Poemas (1981), A Musa Irregular (antologia poética, 1991), todos de poesia, Walt (romance-novela,
1978), Paixões e Trabalhos de Benito Prada (romance, 1993) e outros títulos, incluso
alguns póstumos; traduziu para o português obras de Pablo Neruda, Gabriel García
Márquez e Ievgueni Ievtuchenko; o poeta, no dia 30 de novembro de 1995, ‘amante de livros e da vida, morreu [subitamente, de ataque
cardíaco] aos 58 anos, à porta da “Livraria Buchholz [Lisboa]”, com um saco de livros
na mão, acabados de comprar.’.