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É que eu sou terra, mas me
transformo em barro quando me deixo ser
misturada às águas salgadas, do mar,
suor e lágrimas.
Moldando e me
transformando,
trazendo novos
significados à essa vida tão empoeirada.
Areias que passam por meus
dedos como uma ampulheta,
Me renovando a cada rima
não escrita pela caneta.
Afirmando minha
ancestralidade preta.
Camada de relacionamentos
rasos, em que só me afogo sem afagos.
Me rasgo o peito
De mente aberta
E coração trancado!
Me sinto perdida, sem lar,
sem teto, sem ar, sem afeto... sem... com,
cem, dim, mim, sim, vim, fim.
E agora? O que eu vou
recitar?
Excitar
E se tá?
Em si tá
Em ti sa
Atiça
Cobiça
Atira
Mira
Mora
Alisa
Alista
Ali está
A beira
“eu queria falar de amor”
Nem queira
Se não repara a bagunça,
É que
Meu quarto é o reflexo da
minha cabeça
E na casa do meu coração
Todos os dias tenho como
vista a solidão
e eu a convido pra tomar
um chá
Que me mate... de saudade
Mas me sinto tão otária
Tentando me adaptar com
esse “estar só” de filha única solitária.
Todo mundo precisa de
mim... inclusive eu mesma!
Introspectiva,
intuitiva,
expectativa,
retrospectiva:
Corri, corri, corri,
E morri na praça
Deixada às traças
Traçando metas e medos,
De toda essa bagaça!
Que diz que meu talento tá
lento
E eu quase tive um treco
com o troco que ela me deu, dizendo:
“Tó minha fia pra vc fazer
seus teatro, suas coisinha...”
Pois é minha tia, eu ainda
vou pagar minhas contas com poesia!
Assim como Rashid disse um
dia:
Eu faço o que amo
parceiro, e se vender é fazer o que não gosta pelo
dinheiro!
Ah, isso é LouCURA
FresCURA
Uma Ex... CURA atual
De um passado presente
E um futuro que passou
Uma força braçal que a
cabeça não suportou
Nunca esquecerei de quando
eu tropecei, quem foi que me levantou
Desde criança aprendi a
não demonstrar anseios
Guardo tudo pra mim
O que aos 12 anos me
ocasionou uma gastrite
Ceis quer gritar pega a
visão pra mim que sou míope?
Vai pingar colírio nessa
sua conjuntivite!
Pra ver se ceis enxerga a
remela
Que cobre seu ponto de
vista
De dentro da hidro na sua
suíte,
Enquanto noiz tá na bacia
de alumínio tomando banho no cano de
conduíte.
E a água rasgando a pele
feita de aço
Forte abraço!
Quantas comun(idades)
precisam ser abraçadas?
há 519 anos sendo
golpeadas!
É mortal, cruzado
excludente
Gancho, soco inglês
evidente
faca nas costas, paulada
na frente,
“Tira a presidente, depois
tira o resto”
Eu tô me interPRETANDO a
cada verso disperso,
Imerso na imensidão
Manifesto reverso e só um
gesto de interpretação.
E ceis aí se achando
plateia
Comendo torrada e geleia
E nossa alcateia
Cheia de fome, de migalha em migalha
Como Marília Casaro cantou
“mastigando a miséria e cuspindo o pão”
que noiz mema amassou
Querem se aproveitar da
nossa dor
Já disse MC Martina, é a
tal “síndrome do colonizador”!
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pilares: raízes espelhadas — poesias: Jessica Marcele & Jaque Alves, Prefácio de MC
Martina e Posfácio de Patrícia Meira, 2019, nosotros, Editorial, São Paulo —
SP; Jessica Marcele, paulista e paulistana
nascida na ZL, bairro de São Miguel Paulista, aprendeu a ler em karaokê, formou-se
na Escola Livre de Teatro de Santo André e no Módulo de Pesquisa Teatral Continuada
do Espaço Cultural Aldeia Satélite, é atriz, performer, slammer, poeta, ativista,
produtora e empreendedora; foi/é oficineira no projeto Luâncias Crescentes da Cia.
EmQuadro, com foco no empoderamento feminino e voltado a jovens do ensino médio
em escolas públicas da periferia de sampa; a poetatriz também foi/é cofundadora
do selo/produtora CIM — Cultura
Independente em Movimento e do Brechó Breguenaite, além de integrar [ou ter integrado]
as companhias e grupos teatrais: Cia. Cínicos Cênicos, Cia. Utilidade Pública, Melancolia
e Visão Periférica; é atuante no Coletivo PARDOnizadas — grupo de intervenções cênico-poéticas que
aborda temas voltados às mulheres negras e no Coletivo Pilares; obras: pilares:
raízes espelhadas (zine [plaquete, livreto] em coautoria com Jaque Alves, 2019),
Teatro Íntimo, Monólogos Minimalistas (antologia, diversas autorias, 2021), Sua
língua é o seu corpo (antologia também traduzida em libras, várias autorias, 2022);
outras intervenções: compõe o elenco de Essa Cia. de Teatro, com Ensaio para dois
perdidos, colabora na criação de E lá fora o silêncio, do LABTD — Grupo Laboratório de Técnica Dramática,
projeto Manifesto das Margens, com o grupo Mundu Rodá, espetáculo itinerante Reset
Brasil, com o Coletivo Estopô Balaio.