quinta-feira, 30 de abril de 2015

Manoel Cerqueira Leite: Cordas e correntes

____________________
Na terra verde, os homens cor de sangue,
adorando a lua,
estirando cordas,
 pele nua, ao vento 
encurvavam arcos, ao calor do sol.

Os brancos vieram, através dos mares verdes,
em monstros pardos de asas brancas, longas,
temperando violas, esticando cordas,
ao passar do vento.

Os negros vieram, através dos mares negros,
em repelentes bojos de navios;
e, num banzo agoniado, esticaram correntes,
lanhando-se na alma nostálgica, branca...

E hoje inda vibra, na alma brasileira,
aquela indecisão de corda que, estirada,
não sabe se o alvo há-de ser atingido;

vibram as vibrações das cordas da guitarra,
numa saudade mole, que inda espera;

tinem uns elos de correntes retrementes,
ansiando ainda pela liberdade!

São Paulo, 08.09.1935

____________________
Poesias  Manoel Cerqueira Leite, Tomo I: Terra Verde, Água na Cuia, Fonte na Serra, Prefácio de Fernando de Azevedo, 1974, Editora Alfa Ômega Ltda., São Paulo — SP; Manoel Cerqueira Leite (1916 1975), paulista de Sarapuí, formado pela USP Universidade de São Paulo, foi poeta, crítico literário, professor de literatura brasileira (USP e UNESP) e colaborou com jornais da capital (Folha da Manhã, Jornal de São Paulo) e do interior paulista (O Democrata, de Itapetininga); escreveu e publicou: Terra Verde, poemas (1946); Água na Cuia, sonetilhos (1948); Rumo; Fonte na Serra, poemas (1959); Pairando sobre o abismo (prosa, 1966); História da Literatura Brasileira volume I Introdução (incompleto, 1967); Poesias (1974); A Crítica Funcional I, II, III e IV (crítica literária, 1972 1974).

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Fernando Pessoa: Poema em linha reta

____________________
[heterônimo: Álvaro de Campos]


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe 
 todos eles príncipes  na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos  mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Resultado de imagem para poema em linha reta fernando pessoa
____________________
Antologia Escolar de Poesia Portuguesa — De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo — SP; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário e tradutor; fez seus estudos escolares no Convento de West Street e na High School, em Durban, África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925),entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em vida, além do livro Mensagem, única obra sua publicada em português, publicou, em inglês, Antinous, 35 Sonnets, English Poems I e II, English Poems III; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Farias Brito: Filosofia e Poesia *


____________________
                    A poesia não é somente o verso, nem mesmo principalmente o verso. Ao contrário pode-se sustentar, com muito fundamento, que o verso vai em decadência crescente e tende a desaparecer. E por mais que pareça à primeira vista extraordinário, é isto o que entre muitas outras cousas se explica como uma das conseqüências gerais da descoberta da Imprensa.
                    De fato, o que deu origem ao verso foi a necessidade que tinha a antigüidade de reduzir a linguagem a uma forma mais própria para facilitar a tradição oral das idéias. Ora, o verso conserva-se na memória com muito mais facilidade que a prosa, e o pensamento transmite-se de geração em geração muito mais prontamente por meio do verso que por meio da prosa; por isto era o verso que mais convinha aos antigos na falta de um sistema aperfeiçoado de escrita; e é assim que se explica o extraordinário desenvolvimento que teve primitivamente o verso, sendo que era em verso que entre os primeiros povos se escrevia tudo, história, legislação, ciência. Daí os grandes poemas didáticos, como as epopéias homéricas. Mas hoje  com a 1 descoberta da Imprensa, ao verso sucede o livro que é a objetivação material das idéias, ou em outros termos, o pensamento gravado em bronze, o verso já não tem mais razão de ser e só pode explicar-se como arte auxiliar da música. É assim que se explica, por um lado o descrédito em que têm caído e a má vontade mesma com que são, por via de regra, recebidos pelos homens de letras especialmente e pelo povo em geral, os livros de versos; e por outro lado, o desenvolvimento crescente do romance que é a forma literária destinada a substituir o poema. Laboram, porém, em grande confusão aqueles que partem da decadência do verso para a condenação da poesia.
                    Não é, pois, do verso, nem mesmo da poesia em sua acepção comum, mas da poesia em sua significação mais ampla, que vou tratar, e, assim compreendida, a poesia é eterna, porque nasce da essência mesma da natureza. "É tudo o que é belo", na frase decisiva de Lange, e forma com a filosofia e a ciência, a tríplice cadeia do espírito humano, sendo que é com estes três elementos  ciência, poesia e filosofia  que há de ser constituída a religião do futuro.
                    Entramos, porém, no estudo analítico do fato.
                    Estudando os diversos elementos que concorrem para a determinação dos atos humanos e observando a marcha da humanidade através da história, vê-se, claramente, que dois princípios subjetivos fundamentais, combinados com uma multiplicidade infinita de causas objetivas, presidem o desenvolvimento do homem, desde o obscuro habitante das cavernas até os brilhantes filhos da civilização hodierna. Tais são: o interesse e a paixão. Esses dois princípios combinados dão em resultado a necessidade; e tal é a grande força motora a que são devidas todas as obras, todas as grandes conquistas da atividade humana. As nossas necessidades podem ser reduzidas a duas ordens: necessidades físicas e necessidades intelectuais ou morais. Das necessidades físicas nascem os esforços tendentes à apropriação do universo, os quais têm por fim o desenvolvimento físico do indivíduo. As necessidades intelectuais dão lugar  aos esforços tendentes ao conhecimento das coisas, ao aperfeiçoamento indefinido da inteligência, a estas grandes manifestações do pensamento: a ciência, a religião, a filosofia.
                    Tal é, com efeito, o grande campo em que se exerce a atividade humana; e a história inteira não tem outro fim senão registrar as conquista do espírito 2, já relativas à satisfação das necessidades intelectuais. Mas ao lado das necessidades físicas e intelectuais coloca-se outra ordem de necessidades, as necessidades estéticas. O homem não precisa apenas 3 de conhecer e dominar as forças da natureza: admira e precisa de traduzir sua admiração; sente e precisa manifestar seu sentimento. Em virtude de suas necessidades intelectuais observa atentamente o espectro 4 do mundo e desta observação eleva-se ao conhecimento das leis que regulam a marcha das coisas; põe-se depois, por força de suas necessidades físicas, em luta com as forças da natureza, e dominando-as, para o que se serve dos conhecimento já adquiridos pela experiência quotidiana, transforma estas mesmas forças em utilidades, assegurando assim a conservação e o desenvolvimento da vida.
                    Há, porém, além desta esfera em que gira a atividade humana, outra ordem de fatos ainda mais elevada. esforçando-se pela apropriação e conhecimento do universo, sucede que o homem encontra sempre e por toda a parte, embaraços de toda a sorte e dificuldades de toda a parte 5, no exercício de suas faculdades. Vem primeiro o sentimento da própria fraqueza em face da soberania inalterável da natureza. Depois há uma infinita complexidade nos fatos da sociedade e vivemos, continuamente, no meio de lutas contínuas e intermináveis. Nestas condições, o homem, cercado de dúvidas, rodeado de incertezas, na grandeza, nos gozos, bem como na miséria e no sofrimento e, em qualquer situação, tendo sempre diante dos olhos o espetáculo maravilhoso do mundo, sente agitar-se dentro de si um elemento desconhecido que o transporta: entusiasma-se 6, suspira, enlouquece e chora.
                    A história é, sem dúvida, uma série de lutas intelectuais e de lutas físicas ou econômicas; mas é também e ao mesmo tempo uma série de lutas emocionais: e a lágrima, o sentimento, o entusiasmo, o amor não deixam de exercer poderosa influência sobre a vida e sobre os destinos do homem.
                    Werther, suicidando-se por não lhe ter sido permitido o amor de Carlota, não foi o produto híbrido de uma imaginação doentia, porém um símbolo vivo da humanidade.
                    Dante afogando-se em um oceano de luz, depois de haver passado pelos sombrios horrores do inferno; Dante afagando a imaginação e inundando as profundezas d'alma com a deliciosa perspectiva da felicidade celeste, depois de haver feito sentir os horrores do inferno; Dante, dominado por uma só idéia que o inflamava, a idéia de Beatriz, confundindo-se com a idéia mesma da humanidade; Dante, o profundo Dante, com seu admirável poema, não foi um simples exercício de metrificação, o produto de um longo e paciente trabalho, porém os mais elevados paroxismos, os últimos delírios, a profundeza, o transcendentalismo do amor.
                    Quem foi que no meio das grandes agitações da sociedade, entre a alegria e a tristeza, o prazer e a dor, o sorriso e a lágrima, em face das grandes lutas da humanidade, tendo em vista os incompreensíveis arcanos do coração e as produções admiráveis do pensamento alguma vez não sentiu-se poeta? Há momentos em que um só homem concentra em si a totalidade das emoções que constituem a vida da humanidade: é quando uma grande idéia revoluciona o seu ser.


(Transcrito de Finalidade do Mundo
por Marques Rebelo, Antologia
 Escolar  Brasileira,  pp. 136 — 138,
1ª ed. MEC, 1967)


Resultado de imagem para Farias Brito filósofo

Notas das Organizadoras:
* Conferido com Farias Brito, Finalidade do Mundo, Estudos de Filosofia e Teleologia Naturalista, 2a. edição, 2 volumes, primeiro volume, Rio de Janeiro, 1957, pp. 113 - 116;
quando depois da em vez de com a;
2  já relativa à satisfação das necessidades físicas, omitido pelo antologista;
3 somente em vez de apenas;
espetáculo em vez de espectro;
ordem em vez de parte;
6 canta, omitido pelo antologista.
____________________
Antologia de Antologias — prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo  SP; Raimundo de Farias Brito (1862 1917), cearense de São Benedito, formado em Direito pela Faculdade de Recife PE, é das figuras mais representativas do pensamento filosófico brasileiro; atuou como advogado e promotor, foi secretário de estado no governo do Ceará, lecionou na Faculdade de Direito de Belém do Pará e foi professor de Lógica no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro; escreveu Cantos Modernos (poesia, 1889), Finalidade do Mundo (filosofia, 3 volumes, 1894/1899/1905), A Verdade como Regras das Ações (filosofia, 1905) etc.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Silvio de Almeida: Hoje

Resultado de imagem para A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira Volume I IMESP
____________________
A lira antiga que pulsei, pulsava
Por tua causa apenas compelido;
E sabia o meu verso umedecido
Das lágrimas ardentes que chorava.

Hoje não choro mais, nem a alma escrava
Derrama agora o pranto já vertido;
Não te lancei, porém, do meu sentido,
Amo-te mais até do que te amava!

É que me alenta o teu amor, senhora,
Que eu não supunha que te merecia
Naqueles tempos infantis de outrora.

E, se não faço os versos que fazia,
É porque tenho nesse amor agora
O que dantes busquei na fantasia!

Resultado de imagem para Silvio de Almeida A Mensageira
____________________
A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Silvio Tibiriçá de Almeida (1867 1924), mineiro de Pouso Alegre, bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi filólogo, professor, crítico, ensaísta, cronista e poeta; colaborou com os periódicos Ilustração Brasileira e Gazeta Artística; iniciou-se no jornalismo através do Diário Popular e de A Paulicéia (folha jurídico-literária) e foi colunista do jornal O Estado de São Paulo; como professor, lecionou Português e Literatura; foi criador e sócio-fundador da Academia Paulista de Letras; escreveu Efêmeras (poesia, 1898), O Antigo Vernáculo, Estudos Camonianos, A Sistematização Ortográfica.

Mário de Sá-Carneiro: Álcool

____________________
Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longamente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo 
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante 
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Resultado de imagem para mario de sá carneiro
____________________
Antologia Escolar de Poesia Portuguesa — De Camões a Pessoa, Organização de Douglas Tufano, 1993, Impressão em 2000, Editora Moderna, São Paulo — SP; Mário de Sá-Carneiro (1890  1916), português de Lisboa, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, parte em vida, e depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; são de sua autoria Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes ter revelado tal intenção em carta a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

domingo, 26 de abril de 2015

Abelardo Rodrigues: Desamor

____________________
Nada do que eu escrevo é
alguma coisa nova
neste jogo sem juiz
de fora deste quarto
emparedado
de muros.

Jogo palavras on-line
nas paredes de loucuras
em que sonha
minha língua-falo

E a tua língua, Amada!
tem sabor de
amoras pretas.

Pelo canto da
minha boca intumescida
pelos teus beijos
escorre um rio doce
de cana-de-açúcar

Eu trago meu hálito
meu corpo seco
de ressaca e penso
tímido
na umidez
do teu precipício
 ó boca entreaberta
de um vulcão adormecido!

Navegar só
é assim:
do nada do teu sono
do sacolejar distante
do teu corpo frio,
ao calor das areias
noturnas
desse deserto
de amor.

& outros poemas, 2013

____________________
Memória da Noite — revisitada & outros poemas, Apresentações de Hélio Pinto Ferreira e Oswaldo de Camargo; 2013, segunda edição, Editora do Autor, parcerias com Ciclo Contínuo Editorial, Quinto Elemento Edições, Coletivo Esperança Garcia, Elo da Corrente, Axé Produções e Perifatividade, São Paulo — SP; Abelardo Rodrigues, nascido em 1952, em Monte Azul Paulista SP, é poeta com trajetória literária no movimento negro; co-fundador e um dos criadores do Grupo Quilombhoje e da revista Cadernos Negros; escreveu Memória da Noite (poemas, 1978) e participou em antologias: Cadernos Negros 2 (1979), Cadernos Negros 3 (1980), Axé  Antologia de Poesia Negra Contemporânea (1982), A Razão da Chama  Antologia de Poetas Negros Brasileiros (1986) e outras publicações; teve textos publicados e divulgados nos Estados Unidos e na Alemanha.

sábado, 25 de abril de 2015

Olegário Mariano: Tutu-marambá

____________________
“Tutu-marambá
Não venhas mais cá,
Que o pai do menino
Te manda matar.” 

No seu berço de rendas com brocados d’oiro
Os olhinhos redondos de espanto e alegria,

Ele olha a vida como quem olha um tesoiro...
 Meu filho é o mais lindo desta freguesia!

O filho da coruja!
A boquinha em rosa, a mãozinha suja,
Com os dedinhos gordos já dá adeus,
Fala uma língua que ninguém compreende...
Toda a gente que o vê se surpreende:
Tão bonitinho! Benza-o Deus!

É redondo como uma bola.
O seu polichinelo com um grande guizo,
É a única coisa que o consola...
Meu filho é o meu melhor sorriso.

Que noite clara anda lá fora!
O luar entra no quarto, manso e lindo,
Com a expressão angélica de quem chora...
Roça o berço: o menino está dormindo.

Então a voz que mal se sente,
vai cantando maquinalmente:

“Tutu-marambá
Não venhas mais cá,
Que o pai do menino
Te manda matar.” 

(Canto da Minha Terra  1930)

____________________
Toda Uma Vida de Poesia — Volume I (1911 a 1931) — Olegário Mariano, Primeira edição, 1957, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta, jornalista e letrista musical; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como o "poeta das cigarras" por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus (1911), Sonetos (1912), Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913), Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918), Últimas Cigarras (1920), Bataclan (crônicas em versos, 1923), Canto da minha terra (1930), Destino (1931), Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933), A Vida que já vivi, memórias (1945) e tantos outros títulos; como letrista, teve poemas musicados por Joubert de Carvalho ('Cai, cai balão', 'Tutu-marambá' e outros); também fez parcerias musicais com o maestro e compositor Hekel Tavares e outros autores.