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domingo, 6 de julho de 2025

Vladímir Maiakóvski: Socorro!

 
____________________
[traduzido por Letícia Mei]

Pare, almofada!
                          Esforço inútil.
Remo com minha pata
                                      péssima pá.
A ponte encolhe.
                          A correnteza do Nevá
me leva para lá,
                          lá, lá.
Estou longe já.
                       Um dia de viagem talvez.
Há um dia
                  vi minha sombra na ponte.
Mas o ruído de sua voz está no meu encalço.
Na perseguição estirou as velas da ameaça.
Está tramando esquecer o brilho do Nevá?!
Substituí-la?!
                       Não dá!
Lembre-se do marulho até a morte te levar,
marulhando o “Homem”.
Começou a gritar.
                          Será que conseguem sair dessa?!
A tempestade retumba
                                          não sairá nunca.
Socorro! Socorro! Socorro! Socorro!
   na ponte
                 sobre o Nevá,
                                        há um homem!

Maiakóvski

Спасите!

Стой, подушка!
                          Напрасное тщенье.
Лапой гребу
                          плохое весло.
Мост сжимается.
                             Невским течением
меня несло,
                     несло и несло.
Уже я далёко.
                          Я, может быть, за́ день.
За де́нь
              от тени моей с моста.
Но гром его голоса гонится сзади.
В погоне угроз паруса распластал.
Забыть задумал невский блеск?!
Ее заменишь?!
                          Некем!
По гроб запомни переплеск,
плескавший в «Человеке».
Начал кричать.
                          Разве это осилите?!
Буря басит
                          не осилить вовек.
Спасите! Спасите! Спасите! Спасите!
Там
         на мосту
                          на Неве
                                          человек!
____________________
Sobre Isto — Vladímir Maiakóvski, Tradução, Apresentação, Posfácio e Notas de Letícia Mei, Fotomontagens de Aleksandr Ródtchenko e orelha do livro por Mário Ramos, Coleção Leste, edição bilíngue, 1ª reimpressão, 2020, Editora 34, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique, foi preso algumas vezes e “no cárcere começou a escrever poemas e se dedicou à leitura de romances e poesia russa”; seu primeiro poema, Noite, data de 1912; em 1911, iniciava seus estudos na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou e, aluno, fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo, tornando-se “célebre por sua atitude irreverente e por suas polêmicas”; em 1914, o poeta sofreu expulsão da escola, “por sua ligação com o movimento futurista”; após serem expulsos, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; em 1915, em temporada na Finlândia, concluiu Nuvem de calças, o primeiro de seus poemas longos, tal obra o consagrou em definitivo entre seus pares e no ambiente literário russo; teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas, e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), Sobre Isto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plenos pulmões (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publicou Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, além de trabalhos para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Maiacovski: O amor [fragmento do longo poema ‘A propósito disto’]

 
____________________
[. . . ]

[traduzido por Emilio Carrera Guerra]

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
         numa alameda do zoo,
sorridente,
                tal como agora está
                   no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
         que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
                             ultrapassará o enxame
de mil nadas,
                        que dilaceravam o coração.
Então,
         de todo amor não terminado
seremos pagos
                        em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
                        nem que seja só porque te esperava
                                                           como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
                        nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
                        Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
        concupiscência,
                                salários.
Para que, maldizendo os leitos,
                                    saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
                           que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
                                        Camaradas!
atenta se volte a terra inteira.
Para viver
                livre dos nichos das casas.
Para que
                doravante
                            a família
                                         seja
o pai,
        pelo menos o Universo;
a mãe,
        pelo menos a Terra.

(1923)

Maiacovski

[ . . . ]

Любовь

Может,
            может быть,
                                 когда-нибудь
                                                       дорожкой зоологических аллей
и она
            она зверей любила
                                                тоже ступит в сад,
улыбаясь,
                 вот такая,
                                   как на карточке в столе.
Она красивая
                              её, наверно, воскресят.
Ваш
        тридцатый век
                                   обгонит стаи
сердце раздиравших мелочей.
Нынче недолюбленное
                                         наверстаем
звёздностью бесчисленных ночей.
Воскреси
                 хотя б за то,
                                        что я
                                                 поэтом
ждал тебя,
                  откинул будничную чушь!
Воскреси меня
                          хотя б за это!
Воскреси
                      своё дожить хочу!
Чтоб не было любви — служанки
замужеств,
                      похоти,
                                   хлебов.
Постели прокляв,
                              встав с лежанки,
чтоб всей вселенной шла любовь.
Чтоб день,
                     который горем старящ,
не христарадничать, моля.
Чтоб вся
                 на первый крик:
                                            Товарищ!
оборачивалась земля.
Чтоб жить
                    не в жертву дома дырам.
Чтоб мог
                 в родне
                               отныне
                                            стать
отец,
          по крайней мере, миром,
землёй по крайней мере мать.

(1923)
____________________
Maiacovski — Antologia Poética, Prefácio [datado de 30.11.1956], Estudo biográfico e Tradução de Emilio Carrera Guerra, 3ª edição [1ª pela Max Limonad], 1981, Editora Max Limonad, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique, foi preso algumas vezes e “no cárcere começou a escrever poemas e se dedicou à leitura de romances e poesia russa”; seu primeiro poema, Noite, data de 1912; em 1911, iniciava seus estudos na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou e, aluno, fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo, tornando-se “célebre por sua atitude irreverente e por suas polêmicas”; em 1914, o poeta sofreu expulsão da escola, “por sua ligação com o movimento futurista”; após serem expulsos, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; em 1915, em temporada na Finlândia, concluiu Nuvem de calças, o primeiro de seus poemas longos, tal obra o consagrou em definitivo entre seus pares e no ambiente literário russo; teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas, e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), Sobre Isto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plenos pulmões (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publicou Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, além de trabalhos para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Maiacovski: A fé [fragmento do longo poema ‘A propósito disto’]

 
____________________
[traduzido por Emilio Carrera Guerra]

Distendei vossa espera o quanto quiserdes
tão clara,
duma clareza tão alucinante
é minha visão
que, dir-se-ia,
bastava o tempo de liquidar esta rima,
para, grimpando ao longo dum verso,
entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar
o que e como.
Vejo-o,
nítido,
até os últimos detalhes,
no ar,
camada cobre camada,
como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se,
fulgurando no pináculo dos séculos,
isento de podridões ou poeira,
o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico,
a vasta fronte
franzida
em meio à experiência.
Num livro, “Toda a Terra”,
procura ele um nome.
“O Século Vinte... vejamos,
a quem ressuscitar?
A Maiacovski talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta”.
Será então minha vez de gritar
daqui mesmo,
desta página de hoje:
“Pára, não folheies mais!
É a mim que deves ressuscitar!”

(1923)

Maiakóvski

Вера

Пусть во что хотите жданья удлинятся
вижу ясно,
ясно до галлюцинаций.
До того,
что кажется
вот только с этой рифмой развяжись,
и вбежишь
по строчке
в изумительную жизнь.
Мне ли спрашивать
да эта ли?
Да та ли?!
Вижу,
вижу ясно, до деталей.
Воздух в воздух,
будто камень в камень,
недоступная для тленов и крошений,
рассиявшись,
высится веками
мастерская человечьих воскрешений.
Вот он,
большелобый
тихий химик,
перед опытом наморщил лоб.
Книга
«Вся земля»,
выискивает имя.
Век двадцатый.
Воскресить кого б?
Маяковский вот...
Поищем ярче лица
недостаточно поэт красив.
Крикну я
вот с этой,
с нынешней страницы:
Не листай страницы!
Воскреси!

(1923)
____________________
Maiacovski — Antologia Poética, Prefácio [datado de 30.11.1956], Estudo biográfico e Tradução de Emilio Carrera Guerra, 3ª edição [1ª pela Max Limonad], 1981, Editora Max Limonad, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique, foi preso algumas vezes e “no cárcere começou a escrever poemas e se dedicou à leitura de romances e poesia russa”; seu primeiro poema, Noite, data de 1912; em 1911, iniciava seus estudos na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou e, aluno, fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo, tornando-se “célebre por sua atitude irreverente e por suas polêmicas”; em 1914, o poeta sofreu expulsão da escola, “por sua ligação com o movimento futurista”; após serem expulsos, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; em 1915, em temporada na Finlândia, concluiu Nuvem de calças, o primeiro de seus poemas longos, tal obra o consagrou em definitivo entre seus pares e no ambiente literário russo; teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas, e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), Sobre Isto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plenos pulmões (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publicou Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, ialém de trabalhos para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Vladímir Maiakóvski: Romança [fragmento do longo poema 'Sobre Isto']


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[traduzido por Trajano Vieira]

Um menino avança, a vista fixa no ocaso
Era o caso de um amarelo insuperável.
Até a neve do posto Tver amarelava.
Ninguém por perto e o menino segue.
Num ato, da ação
arreda
o passo.
Na mão
da seda
o aço.
O pôr-do-sol olha por uma hora
a renda que atrás dele se enredara.
A neve crispante roía as rótulas.
Por que?
Para quê?
Para quem?
Ventoladro o garoto era checado.
O bilhete passa seu direito ao vento
que pára pra ligar do parque Pedro:
Adeus...
Tudo acabado...
Que ninguém seja culpado...

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 27.07.86

Vladímir Maiakóvski

Романс

Мальчик шёл, в закат глаза уставя.
Был закат непревзойдимо жёлт.
Даже снег желтел к Тверской заставе.
Ничего не видя, мальчик шёл.
Шёл,
вдруг
встал.
В шёлк
рук
сталь.
С час закат смотрел, глаза уставя,
за мальчишкой лёгшую кайму.
Снег хрустя разламывал суставы.
Для чего?
Зачем?
Кому?
Был вором-ветром мальчишка обыскан.
Попала ветру мальчишки записка.
Стал ветер Петровскому парку звонить:
 Прощайте…
Кончаю…
Прошу не винить…

[1923]

Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
____________________
Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique, foi preso algumas vezes e “no cárcere começou a escrever poemas e se dedicou à leitura de romances e poesia russa”; seu primeiro poema, Noite, data de 1912; em 1911, iniciava seus estudos na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou e, aluno, fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo, tornando-se “célebre por sua atitude irreverente e por suas polêmicas”; em 1914, o poeta sofreu expulsão da escola, “por sua ligação com o movimento futurista”; após serem expulsos, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; em 1915, em temporada na Finlândia, concluiu Nuvem de calças, o primeiro de seus poemas longos, tal obra o consagrou em definitivo entre seus pares e no ambiente literário russo; teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas, e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), Sobre Isto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plenos pulmões (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publicou Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, além de trabalhos para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Maiacovski: A esperança [fragmento do longo poema ‘A propósito disto’]

 
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[traduzido por Emilio Carrera Guerra]

Injeta sangue
no meu coração,
enche-me até o bordo as veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra.
não vivi o meu bocado de amor,
Eu era gigante de porte,
mas para que este tamanho?
Para tal trabalho bastava uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu o farei de graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar,
servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastantes porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesares...
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu  vos proporei charadas, hipérboles
e alegorias,
malabares dar vos-ei
em versos.
Eu amei...
mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?
Tanto pior...
Gosta-se, afinal, da própria dor.
Vejamos... Amo também os bichos
vós o criais,
em vossos parques?
Pois, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
um verdadeiro vira-lata!
e no entanto,
por ele,
arrancaria meu próprio fígado:
“Toma, querido, sem cerimônia, come!”

(1923)

Maiacovski

Надежда

Сердце мне вложи!
КровИщу
до последних жил.
В череп мысль вдолби!
Я своё, земное, не дожИл,
на земле
своё не долюбил.
Был я сажень ростом.
А на что мне сажень?
Для таких работ годна и тля.
Пёрышком скрипел я, в комнатёнку всажен,
вплющился очками в комнатный футляр.
Что хотите, буду делать даром
чистить,
мыть,
стеречь,
мотаться,
месть.
Я могу служить у вас
хотя б швейцаром.
Швейцары у вас есть?
Был я весел
толк весёлым есть ли,
если горе наше непролазно?
Нынче
обнажают зубы если,
только, чтоб хватить,
чтоб лязгнуть.
Мало ль что бывает
тяжесть
или горе...
Позовите!
Пригодится шутка дурья.
Я шарадами гипербол,
аллегорий
буду развлекать,
стихами балагуря.
Я любил...
Не стоит в старом рыться.
Больно?
Пусть...
Живёшь и болью дорожась.
Я зверьё ещё люблю —
у вас
зверинцы
есть?
Пустите к зверю в сторожа.
Я люблю зверьё.
Увидишь собачонку
тут у булочной одна
сплошная плешь,
из себя
и то готов достать печёнку.
Мне не жалко, дорогая,
ешь!

(1923)
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Maiacovski — Antologia Poética, Prefácio [datado de 30.11.1956], Estudo biográfico e Tradução de Emilio Carrera Guerra, 3ª edição [1ª pela Max Limonad], 1981, Editora Max Limonad, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique, foi preso algumas vezes e “no cárcere começou a escrever poemas e se dedicou à leitura de romances e poesia russa”; seu primeiro poema, Noite, data de 1912; em 1911, iniciava seus estudos na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou e, aluno, fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo, tornando-se “célebre por sua atitude irreverente e por suas polêmicas”; em 1914, o poeta sofreu expulsão da escola, “por sua ligação com o movimento futurista”; após serem expulsos, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; em 1915, em temporada na Finlândia, concluiu Nuvem de calças, o primeiro de seus poemas longos, tal obra o consagrou em definitivo entre seus pares e no ambiente literário russo; teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas, e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), Sobre Isto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plenos pulmões (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publicou Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, além de trabalhos para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.