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Grandeza oculta
Estes vão para as guerras
inclementes,
Os absurdos heróis sanguinolentos,
Alvoroçados, tontos e sedentos
Do clamor e dos ecos estridentes.
Aqueles para os frívolos e ardentes
Prazeres de acres inebriamentos:
Vinhos, mulheres, arrebatamentos
De luxúrias carnais, impenitentes.
Mas Tu, que na alma a imensidade
fechas,
Que abriste com teu Gênio fundas
brechas
No mundo vil onde a maldade exulta,
Ó delicado espírito de Lendas!
Fica nas tuas Graças estupendas,
No sentimento da grandeza oculta!
—
o —
Voz fugitiva
Às vezes na tu'alma que adormece
Tanto e tão fundo, alguma voz
escuto
De timbre emocional, claro,
impoluto
Que uma voz bem amiga me parece.
E fico mudo a ouvi-la como a prece
De um meigo coração que está de
luto
E livre, já, de todo o mal corruto *,
Mesmo as afrontas mais cruéis
esquece.
Mas outras vezes, sempre em vão,
procuro
Dessa voz singular o timbre puro,
As essências do céu maravilhosas.
Procuro ansioso, inquieto,
alvoroçado,
Mas tudo na tu'alma está calado,
No silêncio fatal das nebulosas.
* Nota de Adriano da Gama Kury: No
manuscrito e nas várias edições se lê corrupto; a despeito
disso, a rima com luto (no manuscrito lucto)
aconselha a forma corruto, igualmente usual.
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Cruz e Sousa
— Últimos Sonetos, Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e Notas por Adriano
da Gama Kury, 5ª edição revista, 2013, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; João
da Cruz e Sousa (1861 — 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis,
filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa
e esposa, estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu
francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta
considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores
teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais,
foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio
Várzea e Santos Louzada, criou o jornal Colombo, em cujas páginas proclamou
adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a
Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle,
Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal
ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto
com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta
Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e
através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a
Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo,
Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão
ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com
a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha
Popular e n’O Tempo, fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os
“decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis
(poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego
miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central [do Brasil]; foram editados
postumamente Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900)
e Últimos Sonetos (1905).

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