____________________
Março de 1992 — Agência Centro do Banco do Brasil em São Paulo — SP
CAIXA MARA JÁ DECIDIU: VAI TER QUE TER UM NOVO FILHO
A caixa habituée Mara já decidiu que, em função do abrupto achatamento salarial que desaba sobre a cabeça, tronco e membros do funcionalismo, a única saída viável é ter um novo rebento pra engrossar a renda familiar, via auxílio-natalidade e auxílio-creche. A habituée (detém abono-habitualidade!), que já é mãe de quatro lindos pimpolhos menores de sete anos, não está nem um pouco preocupada com as despesas que um novo baby pode acarretar à medida que vai crescendo. Diz, sorridente, que isso a gente vai empurrando com a barriga e o futuro a Deus pertence. O que não pode, conclui, é continuar essa situação atual que está uma vergonha.
____________________
MINISTRO JATENE JÁ TEME UMA EPIDEMIA DE DOENÇAS CORONARIANAS NO SEIO DO FUNCIONALISMO
Em reunião reservada, com a participação da Comissão Nacional de Saúde, cipeiros das Agências e Secretaria de Saúde do Sindicato, o ministro Jatene declarou que já teme que uma epidemia de doenças coronarianas assole o corpo de funcionários da empresa. Informou que todos os índices atuais de stress, causados pelo LERR (Lesões por Esforços por Reclamações Repetitivas), indicam que, no curto prazo, haverá um aumento da incidência de tais doenças. Em off, para preservar a sua imagem de ministro que não pretende virar ex, disse que está com muita cólera, pois o que andam fazendo com a saúde dos funcionários do BB é uma vergonha.
____________________
GERENTE PULA DO 23° ANDAR E DEIXA UMA CARTA ONDE DIZ QUE A SITUAÇÃO ATUAL DOS FUNCIONÁRIOS DA CASA É UMA VERGONHA
Um dos gerentes da casa, que não quis se identificar, depois de examinar gráficos, planilhas, mapas, estatísticas e projeções sobre o comportamento da empresa nesta gestão collorida, não tendo tempo suficiente para se aposentar, não viu saída e pulou da platibanda do 23° andar do edifício. Em descida vertiginosa, ao passar pelo 11° andar, exclamou eufórico para os que lá se encontravam almoçando: — Até aqui, tudo bem!
____________________
JAPONÊS DEIXA A COMISSÃO DE ASSISTENTE E VAI CONFERIR RELATÓRIOS, SEPARAR FICHAS E BATER CARIMBO NO CESEC NOTURNO
Um japonês por demais conhecido na casa rompeu unilateralmente com a comissão de assistente de supervisão depois de mais de meia vida funcional dedicada inteiramente aos clientes e, tal qual uma coruja, transferiu-se para o CESEC noturno, onde anda às voltas com relatórios, fichas, carimbos e carimbeiras. Perguntado sobre o porquê de troca do dia pela noite, respondeu sem pestanejar que se de dia a gente briga, de noite se ama e que, além do mais, a situação atual dos assistentes de supervisão está uma vergonha.
____________________
CAIXA JANETE PEDE DEMISSÃO VOLUNTÁRIA COM EFEITO RETROATIVO A JANEIRO/91
Fontes seguras do médio escalão do 13° andar dão conta de que uma caixa janete, substituta e não fixada, resolveu pedir demissão voluntária do Banco, com retroação a janeiro/91, de acordo com a Carta-Circular DIRGE-Deasp 91/090, de 25.01.91. As mesmas fontes informam que, em seu pedido, a caixa arrependida compromete-se a devolver todos os créditos que a empresa fez em sua conta-corrente desde a época e que, em contrapartida, requer, com justiça, o estorno de todos os débitos, tais como INSS, IR/FONTE, PREVI, CASSI, CAPEC, AABB, SATÉLITE, SATEL, COTAS DA COOPE, APABB, AFABB, desconto dos dias parados por razão das últimas greves e outros que porventura lhe tenha fugido da memória. A caixa, confirmam as mesmas fontes seguras, diz que o seu pedido de demissão é irrevogável e que a situação dos funcionários da casa é uma vergonha! Nestes termos, pede deferimento.
____________________
HABEMUS LUZ NO FIM DO TÚNEL
Fontes apartidárias informam que, recentemente, dirigentes sindicais e dirigentes de entidades de funcionários — Executiva Nacional, GAREF, AABBs, COOPEs, SATÉLITE, SATÉIs, ANABB, UNAMIBB, APABB, AFABB, AMUBB, etc, firmaram um documento comum onde concluem categoricamente que a situação atual do funcionalismo é uma vergonha.
____________________
FRASES SOBRE A SITUAÇÃO ATUAL DO FUNCIONALISMO DO BANCO
- de R.C.S., menor estagiário: A situação do menor nos bancos do Brasil é uma vergonha.
- de Carlos Lombardi, noveleiro, autor de Perigosas Peruas: Desculpem-me. Estou com vergonha.
- de um caixa janota que não quis se identificar: Tudo se resolveria se o Sindicato aceitasse a hora extra a 60%.
- do ex-presidente Policaro: Se o Projeto Novo Rosto tivesse continuado, teríamos fechado mais agências deficitárias, completado as aposentadorias compulsórias, reduzido os comissionamentos, incentivado mais demissões voluntárias, demitido menores estagiários e os que sobrevivessem hoje estariam em melhor situação.
- do tributarista Ives Gandra Martins: Isto é inconstitucional.
- do anchor-man Bóris Casoy, do SBT: Isso é uma vergonha!
- do ex-ministro Magri: Lafaiete Coutinho está apenas fazendo um teste com o funcionalismo. Fique sabendo que o meu querido amigo Lafa também é um ser humano.
- do ex-ministro Alceni: Se fosse comigo, essa situação eu tiraria de bicicleta.
- de um dos editores do NA MOITA: Só o humor corrói.
- da primeira dama Rosane Collor: Buááá... Buááá...!
- dos vendedores de lustres da Rua da Consolação, em carta-aberta à população: Há meses que não vendemos nada para nenhum funcionário do BB.
- do delegado Romeu Tuma: Recebi carta branca e cabeças vão rolar. Vai faltar cadeia.
- de uma caixa janete, demissionária voluntária retroativa: Feliz é o Adão, que não sei se tem sogra mas tem caminhão.
- de um funcionário crente: Invente! Tente! Peça ajuda pro gerente!
____________________
CLASSIFICADOS CLASSIMOITA
A empresa Na Moita & Associados, em fase de expansão, tendo em vista que a brutal recessão atual é uma vergonha, está aceitando colaboradores humoristas, chargistas, poetas, escritores, desenhistas e equilibristas, mesmo que sejam bancários. Contatos com o jornal.
É permitida a reprodução total ou parcial dos artigos, desde que seja para acordar o funcionalismo que anda dormindo de touca.
____________________
O jornaleco Na Moita (1991 — 1997), um devezenquandário que circulou nas dependências da ex-Agência Centro do BB em São Paulo, teve como co-editores responsáveis e interinhos os hoje aposentados e ativistas da palavra Genésio dos Santos e Jorge Nagao; o ponto de pauta desse Na Moita de março/1992 foi a situação do funcionalismo do BB que, organizado em sindicatos, travava um combate aberto contra o então governo Collor e sua política de desmonte de estatais e de ataques aos funcionários públicos e, de resto, aos demais trabalhadores: uma época de recessão, desmonte de empresas estatais, enxugamentos de quadro de funcionários, "convites" à aposentadoria, demissões, passeatas, atos públicos, recuos, enfrentamentos, greves, caras-pintadas... tudo isso redundando, em setembro de 1992, no impeachment do então presidente Fernando Collor com sua bandeira marqueteira de "caça aos marajás".