Mostrando postagens com marcador Edgard Rezende. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Edgard Rezende. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de agosto de 2015

Alcides Ferreira: Natal de um menino pobre

Fui menino e você, Papai Noel,
Não pôs presentes nos meus sapatinhos!...
No entanto, aos muitos outros garotinhos,
Você dava brinquedos a granel.

Muitos dezembros vi, bebendo o fel
De uma infância deserta de carinhos,
Enquanto os meus amigos e vizinhos
Das flores do Natal sorviam o mel.

Você, que eu via em todos os recantos
Da cidade, tão meigo para tantos,
Não teve, para mim, um gesto nobre!

Porém, o seu desprezo eu justifico:
Você só gosta de menino rico...
Você não gosta de menino pobre!
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; José Alcides Ferreira da Silva (1888   ?  ), potiguar de São José do Mipibu, foi funcionário da Alfândega, no Rio de Janeiro, jornalista e poeta; utilizou o pseudônimo Zé do Norte; bibliografia: Um Punhado de Rimas (de colaboração), Rosal de Rimas, A Vingança de Creusa (poema), As Moças do Malaquias (romance), Toca de Satanás (contos) e Poemas da Angústia e da Melancolia (versos), todos inéditos.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

João Antônio: Camponesa

joao-antonio-neto
____________________
Quando o sol acorda os ninhos,
Ela vai, ridente e grata,
Colhendo por entre espinhos,
As ternas flores da mata.

Os cândidos passarinhos,
Em matinal serenata,
Vão ouvir pelos caminhos
Os cantos que ela desata.

E colhe as flores mais belas,
Brancas, rosas, amarelas,
Que sobre a estrada se deitam...

E vendo-as, não sei, senhores,
Se são flores que a enfeitam,
Ou se ela que enfeita as flores!...
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João Antônio Neto, natural de Couto de Magalhães TO (Ex-Goiás), nasceu em 1920, formou-se advogado, foi professor universitário em áreas do Direito e das Letras e é desembargador aposentado e poeta; ocupa a cadeira 25 da Academia Mato-Grossense de Letras; escreveu e publicou Vozes do Coração (poesia, 1941), Três gerações (1949), Poliedro (1970), Remanso (1982), Silhuetas (1988) e outros títulos na área do Direito.

domingo, 19 de julho de 2015

Eduardo Guimarães: Aos lustres

Resultado de imagem para eduardo guimarães poeta Dos Lustres
____________________
Suspensos nos salões dos tetos decorados,
Que de arabescos orna o gesso alvinitente,
Ó lustres de cristal, enganadoramente
Ao mesmo tempo sois sonoros e calados.

Pesados, emprestais, no entanto, à pompa ambiente,
Onde há ricos painéis entre florões doirados,
A mais aérea graça, e os olhos deslumbrados
Sentem que os cega o vosso encanto reluzente.

Que o silêncio em redor guarde a fragilidade
Translúcida que sois, e ouçam-se quase a medo
Os rumores quaisquer que em torno a vós se formem!

Toquem-vos docemente a sombra e a claridade...
Nem se turbe, jamais, ó lustres, o segredo
Das vibrações que em vós, musicalmente dormem!
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Eduardo Gaspar da Costa Guimarães, (1892  1928), ou Eduardo Guimaraens, gaúcho de Porto Alegre, foi escritor, tradutor, jornalista e poeta; colaborou com diversos periódicos da capital gaúcha (Folha da Manhã, Jornal do Comércio, Diário, Federação e Correio do Povo) e do Rio de Janeiro (A Hora, Rio-Jornal, A Imprensa, Boa Hora e revista Fon-Fon); junto a Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, formou a trindade simbolista no Brasil; escreveu e publicou Caminho da Vida (poesias, 1908), Arabela e Atanael (contos, 1912), A Divina Quimera (poesias, 1916), As Mulheres de D. João (comédia, sem data), Núpcias de Antígone (tragédia, sem data); consta que, aos dezesseis anos, para ver publicado seu primeiro soneto, ‘Aos Lustres’, teve que convencer o editor do Jornal da Manhã, que exigiu do poeta a comprovação de autoria do poema; assinava suas obras como Eduardo Guimaraens.  

sábado, 18 de julho de 2015

Alberto de Oliveira: A vingança da porta

____________________
Era um hábito antigo que ele tinha:
Entrar dando com a porta nos batentes.
Que te fez esta porta? a mulher vinha
E interrogava... Ele, cerrando os dentes:

Nada! Traze o jantar.  Mas à noitinha
Calmava-se; feliz, os inocentes
Olhos revê da filha e a cabecinha
Lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

Uma vez, ao tornar à casa, quando
Erguia a aldraba, o coração lhe fala:
Entra mais devagar... Pára, hesitando...

Nisso nos gonzos range a velha porta,
Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala
A mulher como doida e a filha morta!
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Antônio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937), fluminense de Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias primeira série (1900), e mais Poesias  segunda série (1906), Poesias  terceira série (1913) e Poesias  quarta série (1927).

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Henrique Castriciano: Lição errada

____________________
... E o sábio disse: "Meus senhores, esta
Mulher que vemos sobre a laje fria,
Foi como a noite vinda após um dia
De cerração, num ermo de floresta.

Seus olhos verdes como a verde giesta,
Tinham brilhos de fúnebre ardentia,
Fosforescentes como a pedraria
De um colar de Princesa em régia festa.

Não teve coração!" E, nisto, o sábio
Rasgou-lhe o seio e... recuou... Seu lábio
Contraiu-se num gesto estranho e lento...

No peito havia um coração partido
Morto de amor, de lágrimas ungido,
E lacerado pelo sofrimento!
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Henrique Castriciano de Sousa (1874 1947), potiguar de Macaíba, bacharel em Direito, foi poeta, teatrólogo, jornalista e político exercente de cargos públicos; na vida literária, fez uso de diversos pseudônimos (Alex César, Erasmus van der Does, Frederico de Menezes, J. Cláudio, José Braz, José Capitulino, Mário do Vale, Rosa Romariz, Y. H. C., Zumba de Timbó); escreveu e publicou Iriações (1892), Ruínas (1899), Mãe (com prefácio de Olavo Bilac, 1899), Vibrações (1893), Enjeitado (1900), A Promessa (peça infantil, 1907), Os Mortos (romance, 1920), O Tísico (romance, 1931); foi fundador da Escola Doméstica de Natal, a primeira escola especializada na Educação da Mulher, no Brasil.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Ciro Costa: Pai João

Resultado de imagem para livros antigos
____________________
Do taquaral à sombra, em solitária furna,
(Para onde, com tristeza, o olhar, curioso, alongo),
Sonha o negro, talvez, na solidão noturna,
Com os límpidos areais das solidões do Congo...

Ouve-lhe a noite a voz plangente e taciturna,
Num profundo suspiro, entrecortado e longo...
E o rouco, surdo som, zumbindo na cafurna,
É o urucungo a gemer na cadência do jongo...

Bendito sejas tu, a quem, certo, devemos
A grandeza real de tudo quanto temos!
Sonha em paz! Sê feliz! E que eu fique de joelhos,

Sob o fúlgido céu, a relembrar, magoado,
Que os frutos do café são glóbulos vermelhos
Do sangue que escorreu do negro escravizado!
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Ciro Costa (1879 1937), paulista de Limeira, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, cronista e conferencista; teve seus poemas divulgados em revistas paulistas da época A Cigarra e A Vida Moderna; não publicou livro em vida; postumamente, publicou-se Terra Prometida (1938), volume em que foram reunidos todos os seus versos; pertenceu à Academia Paulista de Letras (cadeira nº 4).

sábado, 4 de julho de 2015

Félix Pacheco: Estranhas lágrimas

Resultado de imagem para Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende
____________________
Lágrimas... Noutras épocas verti-as.
Não tinha o olhar enxuto como agora,
 Alma, dizia então comigo, chora,
Que o pranto diminui as agonias.

Ah! Quantas vezes pelas faces frias,
Por mal do meu amor que se ia embora,
Gota a gota rolando, elas outrora
Marcaram noites e marcaram dias!

Vinham do oceano da alma, imenso e fundo,
Ondas de angústia, em suspiroso arranco,
Numa desesperança acerba e e louca.

Nos olhos, hoje as lágrimas estanco;
Mas rolam todas, sem que as veja o mundo,
Sob a forma de risos  pela boca.

Resultado de imagem para félix Pacheco poesias
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; José Félix Alves Pacheco (1879 1935), piauiense de Teresina, formado em Direito, foi jornalista, político, poeta e tradutor; trabalhou nos jornais O Debate e Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro; como político, foi deputado, senador e ministro de estado; escreveu e publicou Chicotadas, poesias revolucionárias (1897), Via Crucis (1900), Mors-amor (1904), Luar de Amor (1906), Poesias (1914), Ignezita (1915), Tu, Só Tu (1917), Lírios Brancos (1919), Em louvor de Paulo Barreto (1921), A Canaã de Graça Aranha (1931) etc.; traduziu Baudelaire.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Emiliana Delminda: Delirando

____________________
Musa, deixa-me só. O ambiente que respiro
A custo, eivado está de lúgubres sinais:
Sobre minha cabeça, ao jeito de um vampiro
Paira a sombra da morte. Adeus! Não voltes mais!

Não! perdoa-me. Vem, num último suspiro
Ouvir-me o cavo som de concentrados ais.
Eu sofro; a dor crucia e bem vês que deliro
Sonhando o rosicler de auroras celestiais!

No azul esplende o sol e eu tenho tanto frio!
Pulsa-me acelerado o coração doentio
E o tédio de viver a mente me entorpece...

O momento supremo aguardo ansiosamente,
Não me abandones, vem piedosa e complacente
Trazer-me a extrema-unção na esmola de uma prece!
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Emiliana Delminda do Amaral (1865  1963?), paulista de Silveiras, foi poetisa, romancista e professora autodidata; durante anos deu aulas particulares; escreveu e publicou Violetas (poesia, 1906), Miragens (poesia, 1908), Crepúsculo (poesia, 1914), Fragmentos d’Alma (poesia, 1918), Segredo Fatal (romance, 1925), Calvário do Amor (romance, 1935), Folhas Caídas (poesia, 1947); seus textos foram divulgados pela imprensa paulista (A Tribuna e Flama, de Santos, Clarim, de Matão, Nova Era, de Franca, e outros periódicos); deixou inéditos Minúsculas (contos) e O despertar da luz (poesia).

domingo, 28 de junho de 2015

José Oiticica: Última página

____________________
A alma do poeta errou pelo universo afora,
Concentrou-se em si mesma, auscultou seu mistério,
E fez dos sons do mundo uma tumba sonora,
E dos salmos da vida a voz do seu saltério.

Viu, nos sem-fins do caos como o ser se incorpora,
Que o "fiat" sideral provém do vácuo etéreo;
Ouviu a dor do peito humano quando chora
Mas não lhe pôde dar, na rima, um refrigério!

Volta, assim, da excursão cheia de luz, mais triste...
Sente que tudo é um logro; ama a glória e, no entanto,
Sofre, por não saber a causa do que existe!

E abrindo o olhar sem fé para o antro ou para a serra,
Vê que o pranto de agora é o mesmo e amargo pranto
Que há seis mil anos cai sobre as mágoas da terra!
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os períodicos Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa e colaborou com a imprensa operária libertária, através dos jornais A Lanterna, Spartacus, Livre Pensador, A Plebe, e a revista A Vida; obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode Ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955), e outros títulos.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Maria Sabina: Eterno amor

____________________
Não sei se o grande amor que hoje floresce
Nossa existência, embalsamando tanto,
Será da própria essência do que cresce
Dia a dia na vida, eterno e santo.

Dizem, que o afeto que hoje me enriquece
Será diluído em pérolas de pranto,
Porque o homem que adora, um dia esquece
Por outro amor o seu maior encanto...

Que importa? Viverei pela saudade,
Venturosa talvez, mesmo esquecida,
Pois meu amor contém a eternidade...

Amor forte demais para esquecê-lo,
Que passa além da Morte, porque a Vida
É pequena demais para contê-lo!
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Maria Sabina de Albuquerque (1898 1991), mineira de Barbacena, doutora em Letras Inglesas pela Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi professora, jornalista, poetisa e feminista atuante; lecionou inglês, francês, literatura universal, arte poética e oratória, escreveu e publicou Na Penumbra do Sonho (poesia, 1921), Água Dormente (poesia, 1925), Alma Tropical (contos, 1928), O País sem Caminhos (poesia, 1931), Entusiasmo (poesia, 1ª. edição em 1938), Adolpho Lutz (biografia), e outros títulos.

domingo, 21 de junho de 2015

Emílio Kemp: Melancolia

Brazilian physician and writer. Emilio Kemp Larbeck Filho (Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1874 - Porto Alegre, 9 de outubro de 1955) foi um médico, poeta e jornalista brasileiro. Formou-se em medicina, sua tese de 1916 foi sobre a A defesa da saúde publica no Rio Grande do Sul. Exerceu o jornalismo durante muitos anos no Rio de Janeiro. Em 1899 fundou, com Ernesto José Ferreira da Paixão, o jornal O Comércio, em Petrópolis, onde também foi redator da Gazeta de Petropolis. Poeta, participou do movimento simbolista, colaborando na Revista Vera-Cruz. Assinava suas obras com, além do nome, os pseudônimos Acúrcio Benigno e Baianave.<br />
Foi redator do Correio do Povo e fundador do jornal A Manhã, em Porto Alegre, que funcionou entre 1920 e 1922. Educador foi fundador do Colégio Protásio Alves.
____________________
Vão-se os dias passando e cada dia
Que chega, traz consigo as mesmas cores
Desta perene e atroz melancolia
Que me prende num círculo de horrores!

Se desta dor que tanto me crucia,
Busco esquecer-me, procurando amores,
Neles, somente, encontro
que ironia!
Novos motivos para novas dores!...

E assim vivendo, eu vou como um precito
Que por estradas lúgubres caminha,
Rasgando os pés em pontas de granito.

Que importa a mim que a luz do sol se ria,
Se é tão profunda esta tristeza minha
Que eu já nem sei se fui alegre um dia!
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Emílio Kemp Larbeck Filho (1874 1955), fluminense de Niterói, foi médico, educador, poeta e jornalista; foi co-fundador do jornal O Comércio e redator da Gazeta, ambos em Petrópolis RJ; em Porto Alegre RS, fundou o jornal A Manhã (1920 1922) e foi redator do  Correio do Povo; participou do movimento simbolista, colaborando na Revista Rosa-Cruz, e, além do nome, também assinava suas obras com os pseudônimos Acúrcio Benigno e Baianave; escreveu e publicou Poesias (1900), Matinal (1916), Luz Suprema (1938), Cantos de Amor ao Céu e à Terra (1943), Histórias Animadas (1946).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Afonso Celso: Anjo Enfermo

Os versos iniciais do soneto abaixo, os retive na memória desde meus verdes tempos de ginásio em Iperó  SP, nos idos anos 60 do século e milênio passados. Não retivera o título do poema nem o autor.Só bem recentemente, pesquisando em sebos, o localizei neste livro e, como uma partícula do meu processo histórico de aprendizado escolar, imediatamente o adquiri
____________________

____________________
Geme no berço enferma a criancinha,
Que não fala, não anda e já padece...
Penas assim cruéis por que as merece
Quem mal entrando na existência vinha?!

Ó melindroso ser, ó filha minha,
Se os céus ouvissem a paterna prece
E a mim o teu sofrer passar pudesse,
Gozo me fora a dor que te espezinha.

Como te aperta a angústia o frágil peito!
E Deus, que tudo vê, não ta extermina,
Deus que é bom, Deus que é pai, Deus que é perfeito...

Sim... é pai, mas a crença no-lo ensina:
 Se viu morrer Jesus, quando homem feito,
Nunca teve uma filha pequenina!...

____________________
Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros — Seleção e Organização de Edgard Rezende, Segunda Série, Primeira Edição, 1950, Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Celso de Assis Figueiredo (1860 1938), mineiro de Ouro Preto, político do Império, professor, jornalista, historiador e poeta, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco) e, com o advento da República, acompanhou o pai Visconde de Ouro Preto no exílio, afastando-se da vida política; no retorno ao país, dedicou-se ao magistério e ao jornalismo; no magistério, exerceu a cátedra de Economia Política na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, e, no jornalismo, por mais de 30 anos divulgou seus artigos no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã; escreveu e publicou: Prelúdios (poesias, 1876), Devaneios (1877), Um ponto de interrogação (1879), Poenatos (1880), Rimas de outrora (1891), Vultos e Fatos (1892), O Imperador no Exílio (1893), Trovas de Espanha (1898), Aventuras de Manuel João (1899), Porque me ufano do meu país (1900), Biografia do Visconde de Ouro Preto (1905), etc.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Benedita de Melo: A Tristeza Maior

Ia ser mãe ou ser mulher, talvez;
Indizível anseio a dominava.
Veio-lhe belo o filho que esperava
Em róseo dia de ridente mês.

Pela primeira e derradeira vez
A criança nos seus braços apertava;
E na falta que ao anjo ela deixava,
Vi quanta falta minha mãe me fez.

Nesse momento de aflições sem termos,
Todos os vendavais, todos os ermos
Previ em torno ao ser por quem sofria.

E no meu modo de sentir ou ver,
Eu não chorei a mãe que ia morrer,
Chorei antes o filho que nascia.
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Benedita de Melo Amaral (1906  1991), nascida em Vicência  PE, cega de nascença, fez seus cursos no Instituto Benjamin Constant (antigo Imperial Instituto dos Meninos Cegos) no Rio de Janeiro, onde também foi professora de português; poetisa e escritora, escreveu e publicou Lanterna Acesa (1939), Sol nas Trevas (1944), e Versos do Meu Brasil (1945); hoje o Instituto Benjamin Constant é centro de referência nacional para questões relativas à deficiência visual, além da escola, capacita profissionais da área da deficiência visual, assessora escolas e instituições em geral e oferece reabilitação física; consta que o nome de batismo da poetisa fosse Benedicta de Mello.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Alfredo de Assiz: Pranto e Riso

No pranto da criança não diviso
Mágoa nenhuma, é tudo luz e encanto;
Tem, nuns restos de céu e paraíso,
Toda a alegria matinal de um canto.

Mas, de um velho, num rápido sorriso,
Mágoas profundas eu percebo entanto!
No pranto da criança há quase riso,
No sorriso do velho há quase pranto!...

Ri-se o velho, é um pôr de sol que chora;
Chora a criança, é como se uma aurora
Num chuveiro de pérolas se abrisse;

E tem muito mais luz, mais esperança,
A lágrima nos olhos da criança
Que o sorriso nos lábios da velhice!...

____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Alfredo Eugênio de Paula Assiz, paulista nascido em 1889, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi delegado de polícia e poeta; escreveu e publicou Chama Extinta.

Belmiro Braga: Olhando o rio

A Alencar Duarte
Nas noites claras de luar, costumo
Ir das águas ouvir o vão lamento;
E, após o ouvi-las, cauteloso e atento
Que o rio também sofre, eis que presumo.

Nesse que leva tortuoso rumo,
Que fado triste e por demais cruento:
Vai deslizando agora doce e lento
E agora desce encachoeirado e a prumo.

O dorso aqui lhe encrespa leve brisa,
Ali o deslizar calhau lhe veda;
Além, de novo, sem fragor, desliza...

És como o rio, coração tristonho:
Se ele vive a chorar de queda em queda,
Vives tu a gemer de sonho em sonho...

Brazilian poet and journalist. Nasceu o poeta na Fazenda da Reserva, antigo Distrito de Vargem Grande (hoje Município com o seu nome), perto de Juiz de Fora, a 7 de Janeiro de 1872, e morreu em Juiz de Fora, a 31 de Março de 1937. Foi comerciante e tabelião em Juiz de Fora. Escrevia artigos no jornal de Juiz de Fora O Farol, chegando até escrever um livro de versos-Rosa e Liros. Membro Fundador da cadeira 8 na Academia Mineira de Letras. Em sua homenagem, seu local de nascimento recebeu seu nome após ser elevado à categoria de município, passando a ser chamado Belmiro Braga.
____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Belmiro Belarmino de Barros Braga (1872 1937), mineiro de Vargem Grande, atual município de Belmiro Braga, à época distrito de Juiz de Fora, exerceu diversos ofícios (caixeiro de secos e molhados, empregado de padaria, comerciante, tabelião), foi poeta escreveu quadras, sonetos humorísticos e peças teatrais, e declarou uma vez: "Aos sete anos, na ânsia de saber tudo, apelidaram-me o Confessor; aos onze, quando no colégio, pelo desejo de aprender sobressaía nos estudos, fui retirado dele; aos treze, em vez de ir para um meio culto, fui conviver com analfabetos e, assim, tudo me tem corrido pela vida fora..."; publicou Montezinas (1902), Cantos e Contos (1906), Rosas (1911), A Moda (1918), Contas do Meu Rosário (1919), Tarde Florida (1923), Redondilhas (1934), Dias Idos e Vividos (memórias, 1936), Na Roça, Na Cidade, O Divórcio, Que Trindade (teatro) e deixou também numerosa produção poética esparsa em jornais e revistas; pertenceu à Academia Mineira de Letras.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Mário de Alencar: O Africano

Costuma estar ao sol, de pé, junto à porteira
Da fazenda, onde, escravo, arrastou toda a vida,
De um dos olhos é cego, e já do outro a cegueira
Lhe vai grudando à face a pálpebra caída.

Do corpo seminu, sob a pele entanguida
Se esboça a secular ossada quase inteira.
E a aparência ele tem, esguia e denegrida,
De um tronco solitário em queimada clareira.

Dizem que ensandeceu de dor no mesmo dia
Em que morreu seu dono; outros, de nostalgia;
Outros, que é feiticeiro e simula mudez,

Porque, às vezes, lhe vem súbita vida estranha,
E ele pula e descanta e risos arreganha,
E ágil ginga no jogo ao batuque dos pés.

____________________
Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Mário Cochrane de Alencar (1872 1925), nascido no Rio de Janeiro, formado em Ciências e Letras no Colégio Pedro II (Rio) e em Direito (São Paulo, atual USP Largo São Francisco), foi advogado, poeta, jornalista, contista e romancista; colaborou na imprensa do Rio Almanaque Brasileiro Garnier, Brasilea, Correio do Povo, Gazeta de Notícias, O Imparcial, A Imprensa, Jornal do Commercio, O Mundo Literário, Renascença, Revista Brasileira, Revista da ABL, Revista da Língua Portuguesa e em periódicos paulistas; escreveu e publicou Lágrimas (poesia, 1888), Versos (1902), Ode cívica ao Brasil (poesia, 1903), Dicionário de Rimas (1906), Alguns escritos (ensaio, 1910), O que tinha de ser (romance, 1912), Se eu fosse político (1913), Catulo da Paixão Cearense: Sertão em flor (1919) e outros títulos, além de textos esparsos por diversos jornais e revistas; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Luís Carlos: A Pedra


____________________
Na pesada mudez da sua indiferença,
Deve a pedra esconder um riso de sarcasmo;
E, destarte, exprimir, pelo silêncio, o espasmo
De uma concentração em que há milênios pensa.

Afronta os temporais nos píncaros suspensa,
Sem um ríctus de horror, sem um sinal de pasmo!
E, ante a glória que inspire o máximo entusiasmo,
Tem a mesma expressão inerte da descrença.

Por todos nós pisada e escarnecida, exposta
Nas ruas, aos baldões, em pleno desabrigo,
Recebe humildemente o ultraje, sem resposta.

Mas, na morte  ai de nós!  o mal se lhe compensa
É de vê-la cobrindo estática o jazigo,
Na pesada mudez da sua indiferença.
____________________
Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros (segunda série, 1ª  edição), selecionados por Edgard Rezende, 1950, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Zeferino Brazil: Aspiração


____________________
Ser pedra! não sofrer nem amar, ó que ventura!
Excelsa aspiração que merece um poema!
Ser pedra e ter da pedra a consistência dura
Que resiste do tempo à corrupção extrema.

Alma! sopro de luz que me anima e depura,
Antes tu fosses pedra: um diamante, uma gema
Não te seria a vida esta insana loucura
Do eterno aspirar à perfeição suprema!

Homem, não mudarás! És homem, serás homem;
Lama vil animada, onde vive e onde medra
A venenosa flor das mágoas que consomem.

Homem sempre serás, imperfeito e corrupto...
E melhor é ser pedra e viver como pedra
Que ser homem assim e viver como um bruto!...

Zeferino Brasil
____________________
Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros (segunda série, 1ª  edição), selecionados por Edgard Rezende, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ, 1950; Zeferino Antônio de Souza Brazil (1870  1942), gaúcho de Taquari, foi cronista, romancista, dramaturgo, crítico literário e sobretudo poeta parnasiano e simbolista, tendo recebido o epíteto de "príncipe dos poetas riograndenses"; colaborou com os periódicos Jornal do Comércio, Correio do Povo, Última Hora e Gazeta do Comércio entre outros veículos, nos quais fazia uso, além do seu nome verdadeiro, também de vários pseudônimos (Nilo Castanheira, João Simplício, Lúcifer, Til, Eça de Oliveira, Brás Patife Júnior, José dos Cantinhos, Tic, Tac, Diabo Coxo, Vasco de Montarroyos, Phoebus de Montalvão, Luiz Denis, etc.); escreveu e publicou: Alegros e Surdinas (versos dos 15 anos, 1891) Traços Cor de Rosa (versos, 1892), Comédia da Vida (1896), Juca, o Letrado (estudo da psicologia mórbida, 1900), Vovó Musa (1903), Visão do Ópio (1906), Na Torre de Marfim (1910), Comédia da Vida (versos alegres para gente triste, segunda série, 1914) O Meio: psicofisiologia do alcoolismo (1922), Teias de Luar (1924), Boêmia de Pena (prosa velha, 1932), Alma Gaúcha (1935), entre outros títulos.