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quinta-feira, 3 de abril de 2025

Stevan Raičković *: Balada sobre o anoitecer

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Saístes da cidade durante o anoitecer para morrer olhos
E ficastes completamente sós.
Sequer soubestes como o silêncio aprecia ferir os desconhecidos com um fuzil invisível
E durante longo tempo estivestes dobrados à toa sobre a terra
Como um arco quebrado:
Ingenuamente desejastes apanhar justo aquela gota de tempo
Em que a grama intocada esticou-se um milímetro novo.
Partistes durante o anoitecer:
Nem soubestes
Que os ombros vos doem de telhados invisíveis
que as mãos vos estão pesadas de amores não totalmente naturais
Pensastes que algo ocorre na audição
E esquecestes que arrastastes atrás de vós as paredes de uma rua bastante costumeira
Partiste durante o anoitecer:
Caminhastes com vagar
E somente então pudestes perceber que aquele não era o vosso passo embora os pés fossem completamente vossos.
Andastes devagar:
Agora bem mais devagar
Como se nem mesmo andásseis.
Parastes
E parecia-vos que caminharíeis adiante com um passo que não era o vosso passo.
Saístes da cidade durante o anoitecer para morrer olhos
E agora estais deitados no gramado
Embora saibais que desejáveis apenas sentar-vos.

Ao lado de vosso ouvido
Um fio de grama cresceu um milímetro com fragor razoável
Vós nada ouvistes.
No ar dois pássaros executam com as asas uma simples arte
Vós nada vistes.
Partistes durante o anoitecer
E do gramado agora em segredo abris os olhos
E tendes a impressão de que alguém faz pontaria sobre vós de um fuzil invisível.

Stevan Raičković

Balada o Predvečerju

Pošli ste izvan grada u predvečerje da umirite oči
I ostali ste sasvim sami.
Niste ni znali kako tišina voli nepoznate da rani iz nevidljive puške.
I dugo ste uzalud bili svigeni prema zemlji
kao polomljen luk: 
Hteli ste naivno da uhvatite baš onu kap vremena
Kad se nedirnuta travka popela u vis za novi milimetar.
Pošli ste u predvečerje:
Niste ni znali
Da vas ramena bole od nevidljivih krovova
Da su vam ruke teške od ne sasvim prirodnih ljubavi
Pomislili ste da vam se u sluhu nešto dogadja
A zaboravili ste da ste sa sobom povukli zidove jedne jako navikle ulice.
Pošli ste u predvečerje:
Išli ste polako
I tek ste odjedanput shvatili da to nije vaš korak iako su noge sasvim vaše.
Išli ste polako:
Samo sad još laganije
Skoro kao da ne idete.
Stali ste
a učinilo vam se kao da i dalje idete korakom koji nije vaš
korak.
Pošli ste izvan grada u predvečerje da umirite oči
I sada ležite u travi
Iako znate da ste hteli samo da sednete.

Pored vašeg uha
Jedna travka je prilično sumno porasla za milimetar
— Vi ništa niste čuli
U vazduhu su dve ptice obeležile krilima skromnu umetnost
— Vi ništa niste videli.
Pošli ste u predvečerje
I sada iz trave krišom otvarate oči
I čini vam se da vas još uvek neko nišani iz nevidljive puške.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Stevan Raičković (1928 2007), sérvio de Norésnitzi (uma aldeia na Sérvia Oriental), após concluir o ensino médio, estudou Línguas e Literaturas Iugoslavas na Faculdade de Filosofia de Belgrado, foi poeta, escritor de literatura infantil, ensaísta, editor e tradutor; escreveu seus primeiros versos aos quatorze anos durante a segunda guerra, em 1942, em Kruševac, numa Sérvia então ocupada pelas tropas alemãs nazistas; desde 1945 e por dez anos, Stevan Raičković foi “associado” de redação literária da Rádio Belgrado; seu primeiro livro de poemas, Detinjstva (Infância, canções), veio à luz em 1950; como editor da editora Prosveta, foi responsável pela publicação de obras poéticas de autores russos Anna Akhmatova, Marina Tsvetaeva e Boris Pasternak, dentre outros, além de autores da poesia russa moderna, na canção “Sete Poetas Russos” e em Rimas Eslavas (antologia); suas obras: Infância (canções, Detinjstva, 1950), Canção do silêncio (Pesma tišine, 1952), Grande Quintal (literatura infantil, Veliko dvorište, 1955), Família sob o sol (literatura infantil, Družina pod suncem, 1960), Canção de ninar pétrea (Kamena Uspavanka, 1963), Versos (Stihovi, 1964), O barco que passa pelo rio (Prolazi rekom ladja, 1967), Krajcara e outras canções (literatura infantil, Krajcara i druge pesme, 1971), Pequenos contos de fadas (literatura infantil, Male bajke, 1974), Memórias casuais (Slučajni memoari, 1978) etc.; traduziu os sonetos de Shakespeare e os Dez Sonetos de Amor de Francesco Petrarca; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes; a poesia de Raičković recebeu edições nos idiomas russo, polonês, tcheco, eslovaco, húngaro, búlgaro, ruteno, albanês, esloveno e macedônio; recebeu premiações por suas obras.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Stevan Raičković: Poema da grama

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Os gramados têm um pensamento pesado como pedra.
Por que eles me dizem: “A tua poesia não é necessária.
Deita sobre nós. E guarda as mãos, em qualquer lugar, sob a cabeça.
E silencia. E silencia longamente, até que não te esqueças da fala.
E observa calmo o monte, todo distante, e azul.
E que se cala profundamente. E levanta os olhos devagar do monte
Para a nuvem, tão inquieta e branca, irrefreável no céu.
Baixa os olhos da nuvem para ti próprio. E refreado só em ti próprio.
Deita. E cala-te com os olhos em ti próprio sob a nuvem e junto ao
monte.
Confundido pela escuridão em ti próprio, observa e capta
simplesmente.
(Simplesmente, assim como o vento nos degola por acaso):
Sobre o monte não há nuvem. O monte silencia sozinho, um pouco
enegrecido pelo crepúsculo”.
Estou deitado no alto gramado e penso indeterminadamente.
Uma formiga sobre o meu joelho, como o homem sobre o monte.
Inquieta, a formiga está parada. Eu me calo. E esse é o meu poema.
Completamente pensativo, estou deitado no gramado. Os fios de grama silvam pesadamente como
pedra.

Stevan Raičković

Pesma Trave

Imaju trave jednu misao tešku kao kamen
jer one mini kažu: "Ne treba tvoja pesma.
Leži u nama. I skloni ruke, gde bilo, pod glavu.
I ćuti. Dugo ćuti dok ne zaboraviš govor.
I posmatraj mirno breg sasvim udaljen, i plav,
Što duboko ćuti. I digni oči polako sa brega
U oblak, tako nemiran i beo, nezaustavljen u nebu.
I spusti oči sa oblaka u sebe. I zaustavljen sam u sebi,
Leži. I ćuti sa očima u sebi pod oblakom kraj brega.
Zbunjen od mraka u sebi, pogledaj, i obično shvati
(Obično, kao što nas vetar slučajno zaklati):
Nad bregom nema oblaka. Breg ćuti sam, malo crn od sutona."
Ležim u travi visokoj i neodredjeno mislim.
Mrav jedan na mom kolenu kao na bregu čovek.
Nemiran, mrav stoji. Ja ćutim. I to je moja pesma.
Sasvim zamišljen, ležim u travi. Trave šume teško kao
kamen.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Stevan Raičković (1928 2007), sérvio de Norésnitzi (uma aldeia na Sérvia Oriental), após concluir o ensino médio, estudou Línguas e Literaturas Iugoslavas na Faculdade de Filosofia de Belgrado, foi poeta, escritor de literatura infantil, ensaísta, editor e tradutor; escreveu seus primeiros versos aos quatorze anos durante a segunda guerra, em 1942, em Kruševac, numa Sérvia então ocupada pelas tropas alemãs nazistas; desde 1945 e por dez anos, Stevan Raičković foi “associado” de redação literária da Rádio Belgrado; seu primeiro livro de poemas, Detinjstva (Infância, canções), veio à luz em 1950; como editor da editora Prosveta, foi responsável pela publicação de obras poéticas de autores russos Anna Akhmatova, Marina Tsvetaeva e Boris Pasternak, dentre outros, além de autores da poesia russa moderna, na canção “Sete Poetas Russos” e em Rimas Eslavas (antologia); suas obras: Infância (canções, Detinjstva, 1950), Canção do silêncio (Pesma tišine, 1952), Grande Quintal (literatura infantil, Veliko dvorište, 1955), Família sob o sol (literatura infantil, Družina pod suncem, 1960), Canção de ninar pétrea (Kamena Uspavanka, 1963), Versos (Stihovi, 1964), O barco que passa pelo rio (Prolazi rekom ladja, 1967), Krajcara e outras canções (literatura infantil, Krajcara i druge pesme, 1971), Pequenos contos de fadas (literatura infantil, Male bajke, 1974), Memórias casuais (Slučajni memoari, 1978) etc.; traduziu os sonetos de Shakespeare e os Dez Sonetos de Amor de Francesco Petrarca; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes; a poesia de Raičković teve edições nos idiomas russo, polonês, tcheco, eslovaco, húngaro, búlgaro, ruteno, albanês, esloveno e macedônio; recebeu premiações por suas obras.