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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Itamar Siqueira: Visita à casa da sogra

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Como urubu que regressasse ao ninho,
A ver se ainda um bom caminho logra,
Eu quis rever também a minha sogra,
O meu primeiro e virginal carinho.

Entrei. Pé ante pé, devagarzinho,
O fantasma, talvez, daquela cobra...
Tomou-me as mãos, olhou-me bem, de sobra...
E levou-me para dentro, de mansinho.

Era este quarto, oh! se me lembro, e quando...
Em que, à luz da lua que brilhava,
O pau roncava forte, tanto e tanto,

No costado da gente, sem piedade,
Um cacete bem grosso lá no canto...
Minhas costas choraram de saudade...


(Humor e Humorismo, organizado por Idel Becker  1961)

Livro: Humor e Humorismo Parodias - Idel Becker | Estante Virtual
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Os Poetas Satíricos do Café Paris — Clássicos Fluminenses Volume 9, Organização e Introdução de Luiz Antonio Barros, e Apresentação de Luiz Augusto Erthal, 2014, Nitpress, Niterói — RJ; sobre Itamar Siqueira, autor deste poema-paródia, nada consta neste Poetas Satíricos, nem mesmo pode-se afirmar que o autor tivesse frequentado o Café Paris; Luiz Antonio Barros registrou nas Referências Biográficas desta obra que o poema foi colhido de Humor e Humorismo (Brasiliense, São Paulo  SP, 1961), organizado por Idel Becker; o aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa, até onde pode pesquisar, também nada encontrou a respeito do poeta e do poema; fica o agradecimento a quem se aprofundar a respeito e quiser repartir com o blogue.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Luís Guimarães Júnior: O Filho

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A vida dele era uma gargalhada,
A vida dela um pranto. Ela chorava
Sob o cruel trabalho que a matava,
Ele ria na tasca enfumaçada.

Jamais nos lábios dela a asa doirada
De um sorriso passou; jamais na cava
E horrenda face dele resvalava
Sequer de um pranto a pérola nevada.

Mas Deus, que deu à entranha de Maria
O redentor dos homens, Deus lhes fez
Uma esmola: — Deus fê-los pais um dia;

E, enfim, beijando ao filho os níveos pés,
Pela primeira vez ela sorria
E ele chorou pela primeira vez.

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Poetas Cariocas em 400 Anos — Frederico Trotta, 1966, Casa Editora Vecchi, Rio de Janeiro — RJ; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845 ?  1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata; escreveu e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Luís Guimarães Júnior: A Borralheira *

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Meigos pés, pequeninos, delicados,
Como um duplo lilás, se os beija-flores
Vos descobrissem entre as outras flores,
Que seria de vós, pés adorados!

Como dois gêmeos silfos animados,
Vi-vos ontem pairar entre os fulgores
Do baile, ariscos, brancos, tentadores,
Mas, ai de mim! como os mais pés, calçados.

“Calçados como os mais! Que desacato!
Disse eu... Vou já talhar-lhes um sapato
Leve, ideal, fantástico, secreto...”

Ei-lo. Resta saber, Anjo faceiro,
Se acertou na medida o sapateiro:
Mimosos pés, calçai este soneto.

(Transcrito de Sonetos e Rimaspor Marques Rebelo, em
Antologia Escolar Brasileira  1a. edição, MEC, p.200)

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Nota das Organizadoras:
* Conferido com Péricles Eugênio da Silva Ramos, Panorama da Poesia Brasileira, v. III: Parnasianismo, p.27.
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Antologia de Antologias — 101 poetas brasileiros "revisitados", Organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e Prefácio de Alfredo Bosi, 1ª  edição (2ª  reimpressão), Musa Editora, 2004, São Paulo — SP; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845? 1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata, e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Luís Guimarães Júnior: A primeira entrevista *

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Ela não tarda. Disse-me que vinha:
Mas quem sabe! Se acaso acontecesse
Qualquer cousa imprevista, e não viesse!
Oh! Deus do céu! que situação a minha!

E este relógio vil que não caminha!
E o tempo! 
 uma hora apenas e parece
Noite fechada já! Ah! se chovesse!...
Mas, não: alguém tocou a campainha,

Alguém subiu veloz a minha escada:
Ouço um rumor de seda machucada
E uns miudinhos, uns nervosos passos...

Duvido ainda! Espreito delirante:
Abro a tremer 
 e toda palpitante
Ela cai a sorrir entre os meus braços.

* (Transcrito de Alberto de Oliveira, Páginas de
 Ouro da Poesia Brasileira, p. 301, pelas orgs.)

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Antologia de Antologias — 101 poetas brasileiros "revisitados", Organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e Prefácio de Alfredo Bosi, 1ª edição (2ª  reimpressão), Musa Editora, 2004, São Paulo — SP; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845? 1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata, e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Furnandes Albaralhão: Bisita à casa du mo pai

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É impriscindíbel que não se confunda
rabulação intistina com rabulação
intistinále. O varulho da mitralha é
 muito dif'rente! GÓMES LIÁLE

Como um pardal que bólta para u ninho
dispois de andáre pur aí além,
eu quis tamvém ribêre Santarém,
u meu primâiro e birginal cantinho.

Pinitrei. Um fantasma, com querinho,
que era, talbez, a assumvração d'alguém,
pigando-me p'la mão, disse: — "Meu vem!
"Bem cumigo!" E lá fomos, de mansinho...

Era aqui nesta alcôba, o dia intâiro,
em que eu vrincaba d'iscundêre, e tanto
que punha fora os vófes... Um v'rrâiro

eu fiz logo, contra u meu disâijo.
Una pulga churaba em cada canto.
Churaba em cada canto um pulsebâijo.

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Furnandes Albaralhão, pseudônimo de Horácio Mendes Campos (1902 ant.1964), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta satírico e de paródias, escritor, libretista de teatro de revistas, violonista e compositor; publicou o livro de humor Caldo Berde (1ª edição impressa em 1930), no qual apresenta sátiras, paródias de sonetos famosos e pensamentos com linguagem macarrônica, bem à moda do pré-modernista Juó Bananére; Horácio Campos foi um dos muitos colaboradores quase ignorados de uma das várias fases de A Manha, jornal humorístico e satírico do Barão de Itararé o Aporelly; ao autor de Caldo Berde coube cuidar, com muita arte, do suplemento lusitano de A Manha, escrevendo paródias de poetas portugueses e brasileiros e composições de sua inteira inspiração; trechos de seu livro foram republicados na revista A Pomba (década de 60).

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Luís Guimarães Júnior: Visita à Casa Paterna *

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma, talvez, do amor materno,
Tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que, da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto

Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
 Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade...

(Luís Guimarães Júnior, Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros) **
(Transcrito por José de Sá Nunes  Língua Vernácula 
 Gramática e Antologia, 1a. e 2a. séries, 3a. edição, 1938,
 Edição da Livraria Globo, Porto Alegre  RS)

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* Conferido com Péricles Eugênio da Silva Ramos, Panorama da Poesia Brasileira, Volume III: Parnasianismo, com Obras Primas da Lírica Brasileira, Seleção de Manuel Bandeira, Livraria Martins Editora, São Paulo SP e Alberto de Oliveira, Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros.
** Esta é a forma encontrada em José de Sá Nunes. Entretanto, Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros é título de uma coletânea de Alberto de Oliveira, da qual faz parte Luís Guimarães Júnior.
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Antologia de Antologias — 101 poetas brasileiros "revisitados", Organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e Prefácio de Alfredo Bosi, 1ª edição (2ª  reimpressão), Musa Editora, 2004, São Paulo — SP; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845? 1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata, e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Luís Guimarães Júnior: A Escrava


Enquanto os outros negros companheiros
Bailam em frente à lúgubre senzala,
E da fausta vivenda a rica sala
Percorre a dança em giros feiticeiros;

Enquanto a noite com seus ais fagueiros
Como um segredo tropical se exala,
E a quente aragem que a palmeira embala,
Treme na leve rama dos coqueiros;

Enquanto a festa vívida, inclemente,
Louca de febre e graças soberanas,
Prende o senhor e o escravo juntamente:

Ela, fugindo às emoções humanas,
Recorda tristemente, tristemente,
A solidão das noites africanas.
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Páginas de Ouro da Poesia Brasileira (vários autores) Seleção e Prefácio de Alberto de Oliveira, 1911, H. Garnier, Livreiro Editor, Rio de Janeiro RJ; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845? 1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata, e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.