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Nacionalização de tabuletas1
Tive a
honra de conversar com um respeitável cidadão que se dá ao estudo do português,
nas suas transcendentes questões de vernaculismos, galicismos e barbarismos em
geral.
Fui
interrogá-lo sobre o negócio de tabuletas em línguas estrangeiras que tanto
inquieta o nosso patriotismo de hoje, que se reforçou com as nossas vitórias
militares, econômicas e políticas na guerra mundial, que é acusada de ter
cessado.
Em tese,
disse-me o gramático, sou pelo desejo dos nacionalistas que querem que os
dísticos das casas comerciais e outras sejam escritos no nosso idioma; mas a
verdade é que muitos jornais não o são. Quer ver? Veja só — Jornal do Commercio — é
português?
— Como?
— Jornal
é galicismo e dos bons; e só foi admitido, como significando folha de papel
impressa diariamente, depois de muita relutância dos sábios linguistas. Gazeta também
não é?
— Que é?
— É
veneziano. Era uma moeda de Veneza com a qual se comprava certo diário
impresso. Mais ainda.
— Ainda
mais!
— Temos.
Em papéis oficiais você vê contrôle, cahiers de charges, hinterland, self-government e tantos outros que não custa catar por aí. Os jornais
então abusam e abusam dos estrangeirismos, conforme a moda. Você viu aparecer,
durante a guerra, camouflage, poilus, tommies etc.
Como é
que você quer então que os particulares, ainda mais negociantes, sejam mais
escrupulosos do que o Estado que chama de divisões as suas repartições — ou
seções, o que deve ser um rematado galicismo.
Não tenho
tempo para fornecer exemplos de que todos nós, nessa história de linguagem,
somos tão nacionalistas como o comerciante que põe, na fachada de suas casas de
negócio, este título que nada diz com o fito das suas mercadorias: À la Ville de Brest, quando o
que ele vende são fazendas e artigos de armarinhos. De resto, é tradição do
comércio essas denominações extravagantes para as suas casas. Você que é
viajado e lido, sabe bem disso; e os comerciantes que se transportam dos seus
países para aqui trazem esse hábito na massa do sangue.
Porque
você queria que a “Notre Dame”, por exemplo, fosse chamada “Nossa Senhora de
Paris”? Adiantava isso muito para a nacionalização do Brasil?!
Não acho
lá grande a medida, porquanto o que primeiro devíamos fazer era nacionalizarmos
a nós, depois, os recém-chegados.
— o —
As tabuletas da Avenida2
Durante
muito tempo, nós, os do Rio, não soubemos ver a transcendental significação da
tabuleta, hoje, porém, as coisas vão mudando.
Não tão
rapidamente como era de esperar, pois que há na Avenida um Armazém Central.
Ignóbil!
Nos
atuais tempos de transformações radicais, é bom que as tabuletas obedeçam a
todas as condições de elegância, brilho e novidades; é bom também que atendam à
satisfação geral, ao abarrotamento de satisfação, que enche a cidade.
Café
Jeremias3, por exemplo,
inconveniente, desgracioso, perfeitamente desgracioso.
Evocar o
nome do eminente profeta hebraico, mesmo no âmago da nossa alegria e da nossa
felicidade!...
O
governo, ao meu ver, devia proibir; tanto mais que uma tal tabuleta bem pode
influir para que voltemos aos tempos do pessimismo, do “isto vai mal,
Jeremias”, na Avenida! Que gafe!
Há,
entretanto, alguma coisa de smart. Felizmente, uma feliz reação se operou no seio dos nossos
criadores de tabuleta. Café Chic! Eis aí a tabuleta que salva a nossa civilização. Todos os
perigos internos e externos que porventura nos ameacem serão evitados se formos
chics, extraordinariamente chics. Sejamos chics, smarts, gentlemen, das quatro em
diante, quando saímos dos escritórios e das repartições... Café Chic é genial!
Junto ao chic, temos o rosé — Maison Rosé.
Rosé é o otimismo, é a satisfação do viver...
Chic e Rosé — é a expressão do anseio da nossa modernidade carioca.
Não
quiseram os retrógrados que a coisa ficasse tão bem; puseram em Lira — Casa
Lira — título romântico, conciso, a mesmo que não seja em honra ao ministro. Se
o for, é moderno, smart, gentleman, XPTO4, London.
Num
desvio de O País,
deparamos com Trust — tabuleta soberbamente expressiva. Recorda milhões de
Carnegie, de Vanderbilt; é uma tabuleta super-homem. Fascina, atrai, empolga...
Por quê? É a obscuridade, é a não significação.
Ponham
uma em hieróglifos e verão que sucesso! O Rio transforma-se — graças a Deus! —
é de esperar que em breve tenhamos uma. Que doce esperança!...
* Nota
do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página
registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução
deste Sátiras e outras subversões:
“Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, [Mié,] entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.”
Notas do
Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1. Assinado por Horácio Acácio. Publicado em Careta, nº 586, 13 set. 1919;
2. Assinado por Mié. Publicado em Fon-Fon, nº 5, 11 mai. 1907;
3. Localizado na avenida Central, 150, era um dos cafés mais frequentados por Lima
Barreto;
4. Expressão popularizada em Portugal para designar algo sofisticado.
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Sátiras e
outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução,
Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das
Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 — 1922), carioca,
estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica
do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista,
romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon,
A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio
da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do
Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar
um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905),
Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma
(editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros
Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado,
publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal,
editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...