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A poesia não é somente o verso, nem mesmo principalmente o verso. Ao contrário pode-se sustentar, com muito fundamento, que o verso vai em decadência crescente e tende a desaparecer. E por mais que pareça à primeira vista extraordinário, é isto o que entre muitas outras cousas se explica como uma das conseqüências gerais da descoberta da Imprensa.
Não é, pois, do verso, nem mesmo da poesia em sua acepção comum, mas da poesia em sua significação mais ampla, que vou tratar, e, assim compreendida, a poesia é eterna, porque nasce da essência mesma da natureza. "É tudo o que é belo", na frase decisiva de Lange, e forma com a filosofia e a ciência, a tríplice cadeia do espírito humano, sendo que é com estes três elementos — ciência, poesia e filosofia — que há de ser constituída a religião do futuro.
Entramos, porém, no estudo analítico do fato.
Estudando os diversos elementos que concorrem para a determinação dos atos humanos e observando a marcha da humanidade através da história, vê-se, claramente, que dois princípios subjetivos fundamentais, combinados com uma multiplicidade infinita de causas objetivas, presidem o desenvolvimento do homem, desde o obscuro habitante das cavernas até os brilhantes filhos da civilização hodierna. Tais são: o interesse e a paixão. Esses dois princípios combinados dão em resultado a necessidade; e tal é a grande força motora a que são devidas todas as obras, todas as grandes conquistas da atividade humana. As nossas necessidades podem ser reduzidas a duas ordens: necessidades físicas e necessidades intelectuais ou morais. Das necessidades físicas nascem os esforços tendentes à apropriação do universo, os quais têm por fim o desenvolvimento físico do indivíduo. As necessidades intelectuais dão lugar aos esforços tendentes ao conhecimento das coisas, ao aperfeiçoamento indefinido da inteligência, a estas grandes manifestações do pensamento: a ciência, a religião, a filosofia.
Tal é, com efeito, o grande campo em que se exerce a atividade humana; e a história inteira não tem outro fim senão registrar as conquista do espírito 2, já relativas à satisfação das necessidades intelectuais. Mas ao lado das necessidades físicas e intelectuais coloca-se outra ordem de necessidades, as necessidades estéticas. O homem não precisa apenas 3 de conhecer e dominar as forças da natureza: admira e precisa de traduzir sua admiração; sente e precisa manifestar seu sentimento. Em virtude de suas necessidades intelectuais observa atentamente o espectro 4 do mundo e desta observação eleva-se ao conhecimento das leis que regulam a marcha das coisas; põe-se depois, por força de suas necessidades físicas, em luta com as forças da natureza, e dominando-as, para o que se serve dos conhecimento já adquiridos pela experiência quotidiana, transforma estas mesmas forças em utilidades, assegurando assim a conservação e o desenvolvimento da vida.
Há, porém, além desta esfera em que gira a atividade humana, outra ordem de fatos ainda mais elevada. esforçando-se pela apropriação e conhecimento do universo, sucede que o homem encontra sempre e por toda a parte, embaraços de toda a sorte e dificuldades de toda a parte 5, no exercício de suas faculdades. Vem primeiro o sentimento da própria fraqueza em face da soberania inalterável da natureza. Depois há uma infinita complexidade nos fatos da sociedade e vivemos, continuamente, no meio de lutas contínuas e intermináveis. Nestas condições, o homem, cercado de dúvidas, rodeado de incertezas, na grandeza, nos gozos, bem como na miséria e no sofrimento e, em qualquer situação, tendo sempre diante dos olhos o espetáculo maravilhoso do mundo, sente agitar-se dentro de si um elemento desconhecido que o transporta: entusiasma-se 6, suspira, enlouquece e chora.
A história é, sem dúvida, uma série de lutas intelectuais e de lutas físicas ou econômicas; mas é também e ao mesmo tempo uma série de lutas emocionais: e a lágrima, o sentimento, o entusiasmo, o amor não deixam de exercer poderosa influência sobre a vida e sobre os destinos do homem.
Werther, suicidando-se por não lhe ter sido permitido o amor de Carlota, não foi o produto híbrido de uma imaginação doentia, porém um símbolo vivo da humanidade.
Dante afogando-se em um oceano de luz, depois de haver passado pelos sombrios horrores do inferno; Dante afagando a imaginação e inundando as profundezas d'alma com a deliciosa perspectiva da felicidade celeste, depois de haver feito sentir os horrores do inferno; Dante, dominado por uma só idéia que o inflamava, a idéia de Beatriz, confundindo-se com a idéia mesma da humanidade; Dante, o profundo Dante, com seu admirável poema, não foi um simples exercício de metrificação, o produto de um longo e paciente trabalho, porém os mais elevados paroxismos, os últimos delírios, a profundeza, o transcendentalismo do amor.
Quem foi que no meio das grandes agitações da sociedade, entre a alegria e a tristeza, o prazer e a dor, o sorriso e a lágrima, em face das grandes lutas da humanidade, tendo em vista os incompreensíveis arcanos do coração e as produções admiráveis do pensamento alguma vez não sentiu-se poeta? Há momentos em que um só homem concentra em si a totalidade das emoções que constituem a vida da humanidade: é quando uma grande idéia revoluciona o seu ser.
(Transcrito de Finalidade do Mundo
por Marques Rebelo, Antologia
Escolar Brasileira, pp. 136 — 138,
1ª ed. MEC, 1967)
por Marques Rebelo, Antologia
Escolar Brasileira, pp. 136 — 138,
1ª ed. MEC, 1967)
Notas das Organizadoras:
* Conferido com Farias Brito, Finalidade do Mundo, Estudos de Filosofia e Teleologia Naturalista, 2a. edição, 2 volumes, primeiro volume, Rio de Janeiro, 1957, pp. 113 - 116;
1 quando depois da em vez de com a;
2 já relativa à satisfação das necessidades físicas, omitido pelo antologista;
3 somente em vez de apenas;
4 espetáculo em vez de espectro;
5 ordem em vez de parte;
6 canta, omitido pelo antologista.
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* Conferido com Farias Brito, Finalidade do Mundo, Estudos de Filosofia e Teleologia Naturalista, 2a. edição, 2 volumes, primeiro volume, Rio de Janeiro, 1957, pp. 113 - 116;
1 quando depois da em vez de com a;
2 já relativa à satisfação das necessidades físicas, omitido pelo antologista;
3 somente em vez de apenas;
4 espetáculo em vez de espectro;
5 ordem em vez de parte;
6 canta, omitido pelo antologista.
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Antologia de Antologias — prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo — SP; Raimundo de Farias Brito (1862 — 1917), cearense de São Benedito, formado em Direito pela Faculdade de Recife — PE, é das figuras mais representativas do pensamento filosófico brasileiro; atuou como advogado e promotor, foi secretário de estado no governo do Ceará, lecionou na Faculdade de Direito de Belém do Pará e foi professor de Lógica no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro; escreveu Cantos Modernos (poesia, 1889), Finalidade do Mundo (filosofia, 3 volumes, 1894/1899/1905), A Verdade como Regras das Ações (filosofia, 1905) etc.