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terça-feira, 28 de abril de 2015

Farias Brito: Filosofia e Poesia *


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                    A poesia não é somente o verso, nem mesmo principalmente o verso. Ao contrário pode-se sustentar, com muito fundamento, que o verso vai em decadência crescente e tende a desaparecer. E por mais que pareça à primeira vista extraordinário, é isto o que entre muitas outras cousas se explica como uma das conseqüências gerais da descoberta da Imprensa.
                    De fato, o que deu origem ao verso foi a necessidade que tinha a antigüidade de reduzir a linguagem a uma forma mais própria para facilitar a tradição oral das idéias. Ora, o verso conserva-se na memória com muito mais facilidade que a prosa, e o pensamento transmite-se de geração em geração muito mais prontamente por meio do verso que por meio da prosa; por isto era o verso que mais convinha aos antigos na falta de um sistema aperfeiçoado de escrita; e é assim que se explica o extraordinário desenvolvimento que teve primitivamente o verso, sendo que era em verso que entre os primeiros povos se escrevia tudo, história, legislação, ciência. Daí os grandes poemas didáticos, como as epopéias homéricas. Mas hoje  com a 1 descoberta da Imprensa, ao verso sucede o livro que é a objetivação material das idéias, ou em outros termos, o pensamento gravado em bronze, o verso já não tem mais razão de ser e só pode explicar-se como arte auxiliar da música. É assim que se explica, por um lado o descrédito em que têm caído e a má vontade mesma com que são, por via de regra, recebidos pelos homens de letras especialmente e pelo povo em geral, os livros de versos; e por outro lado, o desenvolvimento crescente do romance que é a forma literária destinada a substituir o poema. Laboram, porém, em grande confusão aqueles que partem da decadência do verso para a condenação da poesia.
                    Não é, pois, do verso, nem mesmo da poesia em sua acepção comum, mas da poesia em sua significação mais ampla, que vou tratar, e, assim compreendida, a poesia é eterna, porque nasce da essência mesma da natureza. "É tudo o que é belo", na frase decisiva de Lange, e forma com a filosofia e a ciência, a tríplice cadeia do espírito humano, sendo que é com estes três elementos  ciência, poesia e filosofia  que há de ser constituída a religião do futuro.
                    Entramos, porém, no estudo analítico do fato.
                    Estudando os diversos elementos que concorrem para a determinação dos atos humanos e observando a marcha da humanidade através da história, vê-se, claramente, que dois princípios subjetivos fundamentais, combinados com uma multiplicidade infinita de causas objetivas, presidem o desenvolvimento do homem, desde o obscuro habitante das cavernas até os brilhantes filhos da civilização hodierna. Tais são: o interesse e a paixão. Esses dois princípios combinados dão em resultado a necessidade; e tal é a grande força motora a que são devidas todas as obras, todas as grandes conquistas da atividade humana. As nossas necessidades podem ser reduzidas a duas ordens: necessidades físicas e necessidades intelectuais ou morais. Das necessidades físicas nascem os esforços tendentes à apropriação do universo, os quais têm por fim o desenvolvimento físico do indivíduo. As necessidades intelectuais dão lugar  aos esforços tendentes ao conhecimento das coisas, ao aperfeiçoamento indefinido da inteligência, a estas grandes manifestações do pensamento: a ciência, a religião, a filosofia.
                    Tal é, com efeito, o grande campo em que se exerce a atividade humana; e a história inteira não tem outro fim senão registrar as conquista do espírito 2, já relativas à satisfação das necessidades intelectuais. Mas ao lado das necessidades físicas e intelectuais coloca-se outra ordem de necessidades, as necessidades estéticas. O homem não precisa apenas 3 de conhecer e dominar as forças da natureza: admira e precisa de traduzir sua admiração; sente e precisa manifestar seu sentimento. Em virtude de suas necessidades intelectuais observa atentamente o espectro 4 do mundo e desta observação eleva-se ao conhecimento das leis que regulam a marcha das coisas; põe-se depois, por força de suas necessidades físicas, em luta com as forças da natureza, e dominando-as, para o que se serve dos conhecimento já adquiridos pela experiência quotidiana, transforma estas mesmas forças em utilidades, assegurando assim a conservação e o desenvolvimento da vida.
                    Há, porém, além desta esfera em que gira a atividade humana, outra ordem de fatos ainda mais elevada. esforçando-se pela apropriação e conhecimento do universo, sucede que o homem encontra sempre e por toda a parte, embaraços de toda a sorte e dificuldades de toda a parte 5, no exercício de suas faculdades. Vem primeiro o sentimento da própria fraqueza em face da soberania inalterável da natureza. Depois há uma infinita complexidade nos fatos da sociedade e vivemos, continuamente, no meio de lutas contínuas e intermináveis. Nestas condições, o homem, cercado de dúvidas, rodeado de incertezas, na grandeza, nos gozos, bem como na miséria e no sofrimento e, em qualquer situação, tendo sempre diante dos olhos o espetáculo maravilhoso do mundo, sente agitar-se dentro de si um elemento desconhecido que o transporta: entusiasma-se 6, suspira, enlouquece e chora.
                    A história é, sem dúvida, uma série de lutas intelectuais e de lutas físicas ou econômicas; mas é também e ao mesmo tempo uma série de lutas emocionais: e a lágrima, o sentimento, o entusiasmo, o amor não deixam de exercer poderosa influência sobre a vida e sobre os destinos do homem.
                    Werther, suicidando-se por não lhe ter sido permitido o amor de Carlota, não foi o produto híbrido de uma imaginação doentia, porém um símbolo vivo da humanidade.
                    Dante afogando-se em um oceano de luz, depois de haver passado pelos sombrios horrores do inferno; Dante afagando a imaginação e inundando as profundezas d'alma com a deliciosa perspectiva da felicidade celeste, depois de haver feito sentir os horrores do inferno; Dante, dominado por uma só idéia que o inflamava, a idéia de Beatriz, confundindo-se com a idéia mesma da humanidade; Dante, o profundo Dante, com seu admirável poema, não foi um simples exercício de metrificação, o produto de um longo e paciente trabalho, porém os mais elevados paroxismos, os últimos delírios, a profundeza, o transcendentalismo do amor.
                    Quem foi que no meio das grandes agitações da sociedade, entre a alegria e a tristeza, o prazer e a dor, o sorriso e a lágrima, em face das grandes lutas da humanidade, tendo em vista os incompreensíveis arcanos do coração e as produções admiráveis do pensamento alguma vez não sentiu-se poeta? Há momentos em que um só homem concentra em si a totalidade das emoções que constituem a vida da humanidade: é quando uma grande idéia revoluciona o seu ser.


(Transcrito de Finalidade do Mundo
por Marques Rebelo, Antologia
 Escolar  Brasileira,  pp. 136 — 138,
1ª ed. MEC, 1967)


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Notas das Organizadoras:
* Conferido com Farias Brito, Finalidade do Mundo, Estudos de Filosofia e Teleologia Naturalista, 2a. edição, 2 volumes, primeiro volume, Rio de Janeiro, 1957, pp. 113 - 116;
quando depois da em vez de com a;
2  já relativa à satisfação das necessidades físicas, omitido pelo antologista;
3 somente em vez de apenas;
espetáculo em vez de espectro;
ordem em vez de parte;
6 canta, omitido pelo antologista.
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Antologia de Antologias — prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo  SP; Raimundo de Farias Brito (1862 1917), cearense de São Benedito, formado em Direito pela Faculdade de Recife PE, é das figuras mais representativas do pensamento filosófico brasileiro; atuou como advogado e promotor, foi secretário de estado no governo do Ceará, lecionou na Faculdade de Direito de Belém do Pará e foi professor de Lógica no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro; escreveu Cantos Modernos (poesia, 1889), Finalidade do Mundo (filosofia, 3 volumes, 1894/1899/1905), A Verdade como Regras das Ações (filosofia, 1905) etc.