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terça-feira, 7 de maio de 2024

Junqueira Freire: Temor


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Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
            Não sinta o nosso peso.

Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.
Escondamo-nos um no seio do outro.
Não há de assim nos avistar a morte,
            Ou morreremos juntos.

Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz,  nem um suspiro,
            Nem um arfar mais forte.

Fala-me só com o revolver dos olhos.
Tenho-me afeito à inteligência deles.
Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto,
            Somente pra os meus beijos.

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.
Pisemos devagar. Olha que a terra
            Não sinta o nosso peso.

(Grandes Poetas Românticos do Brasil, organização,
revisão e notas de Federico José da Silva Ramos
— Edições Lep, São Paulo, 1952, pág. 477.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Luis José Junqueira Freire (1832 1855), baiano e soteropolitano, aos sete anos iniciou de forma irregular seus estudos primários e os de Latim, eis que era acometido de moléstia cardíaca; em 1849, matriculou-se no Liceu Provincial, de Salvador, tendo sido “excelente aluno, grande ledor e já poeta”; em 1851, por razões familiares, ingressou na Ordem Beneditina, mas a abandonou por não se considerar vocacionado para a vida monástica, “embora permanecesse sacerdote, por força dos votos perpétuos”; teve um único livro publicado em vida: Inspirações do Claustro (1855) e, postumamente, seguiu-se Contradições Poéticas (1868); faleceu em 24 de junho de 1855, com apenas 23 anos de idade.

terça-feira, 26 de março de 2024

Franco de Sá: Nênia

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Neste momento, último, supremo,
Dizendo ao nosso amigo o adeus extremo,
           Amigos, não chorai!
Ele passou da vida nos caminhos
Os pés dilacerando nos espinhos,
           Demais... não teve pai!

Oh, sim! na infância, do viver a aurora,
Na juventude não tiveste uma hora,
           Que não fosse de dor!
Uma esperança, que não fosse rola,
E na taça da vida uma só gota,
           Que não fosse amargor!

Se um dia no horizonte escuro e triste
Uma estrela de luz brilhando viste,
           E adorando-a, talvez,
Fitaste nela leu olhar contente,
O fugaz meteoro de repente
           Nas sombras se desfez.

A arvore fatal donde brotaste
Nos ramos afogou-te a frágil haste,
           Privando-a do sol.
Mas, ao sopro cruel da desventura
Elevou-se lua alma inda mais pura
           Das mágoas no crisol!

Pensando em Deus, passaste pelo mundo,
Sem as asas manchar no lodo imundo
           De fétido paul;
Como por sobre lodaçal impuro
Voa a garça, esquecendo o charco escuro,
           Olhando o céu azul.

E cansaste por fim! Então voando
Foste dos justos reunir-te ao bando
           Junto ao trono de Deus;
E ao mundo, que só dera-te veneno,
Sem pesares, com ânimo sereno
           Disseste o último adeus!

Nada esperavas dele! Se uma trança
De cabelos te dava inda esperança
           De um amor de mulher,
Guardaste no teu peito este segredo,
Ninguém ouviu-te murmurar a medo
           O seu nome sequer.

Nessa agonia, que o viver consome,
Na hora de morrer somente um nome
           Em teus lábios soou.
Era de tua mãe o nome santo,
Que lua alma de filho amava tanto,
           Que, chamando-a, voou!

Foi longo teu sofrer; descansa agora
Onde ludo sorri e ninguém chora,
           Onde tudo é fiel.
Terás por cada dor mil alegrias,
Por cada gota amarga, que bebias,
           Mil ânforas de mel.

Como o cativo na estrangeira praia
As cadeias depõe, se o dia raia
           Que à pátria o reconduz,
Depuseste no exílio um corpo frio,
Ninho sem rouxinol, templo vazio,
           Alâmpada sem luz!

Sobre ele o adeus extremo te dirijo;
Se o mar foi tormentoso e o vento rijo,
           Bonança lá terás.
Da virtude seguiste o duro trilho;
Foste amigo fiel, foste bom filho;
           Adeus, repousa em paz!

Meu Deus, se em minha vida agora calma
Lançares provações, dá que minh’alma
           Saia delas assim!
E que um amigo sobre a minha lousa,
Invocando leu nome, a mesma cousa
           Dizer possa de mim!

(Parnaso Maranhense, Tip. do Progresso,
São Luís do Maranhão, 1861, págs. 35/38.)
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Antônio Joaquim Franco de Sá (1836 1856), maranhense de Alcântara, fez seus primeiros estudos no Maranhão e no Rio de Janeiro, frequentou o curso de Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade de Recife, foi poeta e não teve obra publicada em vida; seus poemas foram reunidos postumamente e editados em Poesias de Antônio Joaquim Franco de Sá (1867); dele, constam composições no Parnaso Maranhense (1861), além de versos esparsos e traduções de trechos de Childe Harold, de Byron, e de Sganarelle, de Moliére, não reunidos em Poesias; o poeta veio a falecer em 28 de janeiro de 1856, ainda estudante do 4º ano de Direito e muito jovem, sem ter completado seus vinte anos de idade.

terça-feira, 19 de março de 2024

Fagundes Varela *: Arquétipo


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Ele era belo; na espaçosa fronte
O dedo do Senhor gravado havia
O sigilo do gênio; em seu caminho
O hino da manhã soava ainda,
E os pássaros da selva gorjeando
Saudavam-lhe a passagem neste mundo.

Sim, era uma criança, e no entanto
Friez de morte lhe coava n'alma!
O seu riso era triste como o inverno,
E dos olhos cansados, nem um raio
Nem um clarão, nem pálido lampejo
Da mocidade o fogo revelavam!

Era-lhe a vida uma comédia insípida,
Estúpida e sem graça, ele a passava
Com a fria indiferença do marujo
Que fuma o seu cachimbo reclinado
Na proa do navio olhando as vagas,
Vivia por viver.... porque vivia.

Em nada acreditava; há muito tempo
Que a idéia de Deus soprara d'alma
Como das botas a poeira incômoda.
O Evangelho era um livro de anedotas,
Beethoven torturava-lhe os ouvidos,
A Poesia provocava o sono.

Muita donzela suspirou por ele,
Muita beleza lhe dormiu nos braços,
Mas frio como o gênio da descrença,
Após um'hora de gozar maldito,
Saciado as deixou, como o conviva,
A mesa do festim, farto e cansado.

Era mais caprichoso, mais bizarro
Do que um filho de Álbion, mais volúvel
Que um profundo político; uma tarde
Após haver jantado, recordou-se
Que ainda era solteiro; pelo Papa!
— É preciso tentar, disse consigo.

Quatro dias depois tinha casado.
Escolhera uma noiva descuidoso,
Como um brinco chinês — um livro in-fólio,
Ao altar conduziu-a, distraído,
E as juras divinais do casamento
Repetiu bocejando ao sacerdote.

Como tudo na vida, o matrimônio
Bem cedo o aborreceu; após três meses
Disse Adeus à mulher que pranteava,
E acendendo um cigarro, a passos lentos
Dirigiu-se ao teatro onde assistiu
Um drama de Feuillet, quase dormindo.

Por fim de contas, uma noite bela,
Depois de ter ceado entre dois padres,
Em casa de morena Cidalisa,
Pegou numa pistola e entre as fumaças
De saboroso Havana à eternidade
Foi ver se divertia-se um momento.

São Paulo, 1861.

(Grandes Poetas Românticos do Brasil, organização,
revisão e notas por Federico José da Silva Ramos,
Editora Lep, São Paulo, 1949, págs.824/25.)


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Em 60 Poetas Trágicos [L&PM Editores, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca de Fagundes Varela:
“[...] se casou com uma artista de circo, escandalizando sua família conservadora. Com a morte prematura do filho, a má saúde da esposa e as agruras da subsistência, recorreu ao álcool e sua vida se desregrou. Em 1865, o pai o enviou para Recife e lá cursou o 3º ano do Direito, mas com a morte da esposa, que ficara em São Paulo, retornou e, entre uma bebedeira e outra, inscreveu-se no 4º ano. Logo desistiu e, em 1866, voltou a morar com os pais. Em 1869 casou-se com uma prima, com a qual teve duas meninas e outro menino, que também faleceu. Já residia em Niterói, onde morreria aos 33 anos de apoplexia. Nome celebrado de nosso romantismo, era um poeta eclético. Segundo o professor Celso Luft, era naturista e indianista como Gonçalves Dias, byroniano como Álvares Penteado e poeta social como Castro Alves.”
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 1875), nascido em Rio Claro RJ, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Direito de Recife, abandonou os estudos no 4º ano, foi poeta romântico e boêmio inveterado; é considerado um dos expoentes da poesia brasileira em seu tempo (terceira geração do Romantismo); obras poéticas: Noturnas (1860), Vozes da América (1864), Pendão Auri-verde (poemas patrióticos), Cantos e Fantasias (1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou O Evangelho nas Selvas (publicação póstuma, 1875), Obras Completas — 3 volumes (1886?, Editora Garnier, Le Havre França); morreu de alcoolismo.

domingo, 3 de março de 2024

Machado de Assis: Musa Consolatrix


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Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
Da íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!

[Crisálidas, 1864]
(Poesias Completas, W. M. Jackson, Rio, 1937, págs. 11/12.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto escrito em versos publicado na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Fagundes Varela*: Névoas**

 
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Nas horas tardias que a noite desmaia,
Que rolam na praia mil vagas azuis,
E a lua cercada de pálida chama
Nos mares derrama seu pranto de luz,

Eu vi entre os flocos de névoas imensas
Que em grutas extensas se elevam no ar,
Um corpo de fada, serena dormindo,
Tranquila sorrindo num brando sonhar.

Na forma de neve puríssima e nua
Um raio da lua de manso batia,
Assim reclinada no túrbido leito
Seu pálido peito de amores tremia.

Oh! filha das névoas! das veigas viçosas,
Das verdes, cheirosas roseiras do céu,
Acaso rolaste tão bela dormindo,
E dormes sorrindo, das nuvens no véu?

O orvalho das noites congela-te a fronte,
As orlas do monte se escondem nas brumas,
E queda repousas num mar de neblina,
Qual pérola fina no leito de espumas!

Nas suas espáduas, dos astros dormentes,
Tão frio não sentes o pranto filtrar?
E as asas de prata do gênio das noites,
Em tíbios açoites a trança agitar?

Ai! vem que nas nuvens te mata o desejo
De um férvido beijo gozares em vão!…
Os astros sem alma se cansam de olhar-te,
Não podem amar-te, nem dizem paixão!

E as auras passavam, e as névoas tremiam,
E os gênios corriam no espaço a cantar,
Mas ela dormia tão pura e divina
Qual pálida ondina nas águas do mar!

Imagem formosa das nuvens da Ilíria,
Brilhante Valquíria das brumas do norte,
Não ouves ao menos do bardo os clamores,
Envolta em vapores, mais fria que a morte!

Oh! vem! vem, minh’alma! teu rosto gelado,
Teu seio molhado de orvalho brilhante,
Eu quero aquecê-los no peito incendido,
Contar-te ao ouvido paixão delirante!…

Assim eu clamava tristonho e pendido,
Ouvindo o gemido da onda na praia,
Na hora em que fogem as névoas sombrias,
Nas horas tardias que a noite desmaia.

E as brisas d’aurora ligeiras corriam,
No leito batiam da fada divina;
Sumiram-se as brumas do vento à bafagem
E a pálida imagem desfez-se em neblina!

Santos — 1861.

(Grandes Poetas Românticos do Brasil, organização,
revisão e notas por Federico José da Silva Ramos,
Editora Lep, São Paulo, 1949, págs.823/824.)


Notas:
* O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa expõe que em 60 Poetas Trágicos [L&PM Editores, 2016] o organizador Sergio Faraco registra acerca de Fagundes Varela:
“[...] se casou com uma artista de circo, escandalizando sua família conservadora. Com a morte prematura do filho, a má saúde da esposa e as agruras da subsistência, recorreu ao álcool e sua vida se desregrou. Em 1865, o pai o enviou para Recife e lá cursou o 3º ano do Direito, mas com a morte da esposa, que ficara em São Paulo, retornou e, entre uma bebedeira e outra, inscreveu-se no 4º ano. Logo desistiu e, em 1866, voltou a morar com os pais. Em 1869 casou-se com uma prima, com a qual teve duas meninas e outro menino, que também faleceu. Já residia em Niterói, onde morreria aos 33 anos de apoplexia. Nome celebrado de nosso romantismo, era um poeta eclético. Segundo o professor Celso Luft, era naturista e indianista como Gonçalves Dias, byroniano como Álvares Penteado e poeta social como Castro Alves.”
** Edgard Cavalheiro, organizador deste Panorama da Poesia Brasileira, Volume II – O Romantismo, registra acerca do poema Névoas:
"Com pequenas variantes, esta poesia, publicada em Noturnas, foi mais tarde reproduzida nos Cantos Meridionais.”
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Luís Nicolau Fagundes Varela (1841 1875), nascido em Rio Claro RJ, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP — Largo São Francisco) e na Faculdade de Direito de Recife, abandonou os estudos no 4º ano, foi poeta romântico e boêmio inveterado; é considerado um dos expoentes da poesia brasileira em seu tempo (terceira geração do Romantismo); obras poéticas: Noturnas (1860), Vozes da América (1864), Pendão Auri-verde (poemas patrióticos), Cantos e Fantasias (1865), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta ou O Evangelho nas Selvas (publicação póstuma, 1875), Obras Completas — 3 volumes (1886?, Editora Garnier, Le Havre França); morreu de alcoolismo.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Júlia Cortines: A Vingança de Cambises *

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Disseram diz o rei a Prexaspes que o vinho
Sobe presto à cabeça em denso torvelinho
De vapores, e a febre, o delírio produz,
Que irradiam no olhar uma sinistra luz.
Ou, pouco a pouco, pelo organismo se entorna,
Qual onda de torpor, voluptuosa e morna?
Disseram; e tu tens a ousadia de vir
Em face de teu rei palavras repetir
De estultos, e afirmar que o vinho afrouxa braços
Que fazem, como os meus, os reinos em pedaços?
Ao contrário; verás; (e bêbado entesou
No arco a flecha) porém é preciso que aponte
Um alvo; o coração de teu filho.
                                                    E atirou,
Da criança, que nele o doce olhar fitava,
Olhar que o etéreo azul do infinito espelhava,
Varando lado a lado o peito e o coração.

E o pai disse, curvando humildemente a fronte:

"Nem de Apolo é mais firme e mais certeira a mão."

[1888]

Versos (1894)
(In: Valentim Magalhães, A Literatura Brasileira (1870-1895),
Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1896, págs. 297/298).


* Nota do organizador Péricles Eugênio da Silva Ramos: A Vingança de Cambises — A poesia traz a data de 1888.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume III — Parnasianismo, por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Tobias Barreto: O Gênio da Humanidade


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Sou eu quem assiste às lutas,
Que dentro d’alma se dão;
Que sonda todas as grutas
Profundas do coração:
Quis ver dos céus o segredo;
Rebelde, sobre um rochedo
Cravado, fui Prometeu;
Tive sede do infinito,
Gênio, feliz ou maldito,
A Humanidade sou eu.

Ergo o braço, aceno aos ares,
E o céu se azulando vai;
Estendo a mão sobre os mares
E os mares dizem:  “Passai!…”
Satisfazendo ao anelo
Do bom, do grande e do belo,
Todas as formas tomei:
Com Homero fui poeta,
Com Isaías, profeta,
Com Alexandre fui rei.

Ouvi-me: venho de longe,
Sou guerreiro e sou pastor;
As minhas barbas de monge
Têm seis mil anos de dor:
Entrei por todas as portas
Das grandes cidades mortas,
Aos bafos do meu corcel,
E ainda sinto os ressábios
Dos beijos que dei nos lábios
Da prostituta Babel*.

E vi Pentápolis nua,
Que não corava de mim,
Dizendo ao sol:  “Eu sou tua,
Beija-me… queima-me assim!”
E dentro havia risadas
De cinco irmãs abraçadas
Em voluptuoso furor…
Ânsias de febre e loucura,
Chiando em polpas de alvura,
Lábios em brasas de amor!…

Travei-me em lutas imensas;
Por vezes, cansado e nu,
Gritei ao céu:  “Em que pensas?”
Ao mar:  “De que choras tu?”
Caminho… e tudo o que faço
Derramo sobre o regaço
Da história, que é minha irmã:
Chamem-me Byron ou Goethe,
Na fronte do meu ginete
Brilha a estrela da manhã.

E no meu canto solene
Vibra a ira do Senhor:
Na vida, nesse perene
Crepúsculo interior,
O ímpio diz:  “Anoitece!”
O justo diz:  “Amanhece!”
Vão ambos na sua fé!…
E às tempestades que abalam
As crenças d’alma, que estalam,
Só eu resisto de pé!…

De Deus ao imenso ouvido
A humanidade é um tropel,
E a natureza um ruído
Das abelhas com seu mel,
Das flores com seu orvalho,
Dos moços com seu trabalho
De santa e nobre ambição,
De pensamentos que voam,
De gritos d’alma, que ecoam
No fundo do coração!...

(1866)

(Dias e Noites, Organização Simões,
Rio, 1951, págs. 14/17.)


* Nota do organizador Edgard Cavalheiro:
‘Da prostituta Babel: Conta Hermes Lima que o Padre Fonseca horrorizava-se com vozes como esta do O Gênio da Humanidade: “beijos dados nos lábios da prostituta Babel, Pentápolis nua, polpas de alvura”, e muitas outras. Acudia Tobias: “Sim, senhor. Tudo isso é de provocar um santo horror naqueles que sentem crescer-lhes o órgão da religião sobre as ruínas do órgão do amor”. E, para continuar na briga, explicava que fora a leitura dos livros sagrados que lhe desenvolvera o gosto do “decotado”. (Hermes Lima, Tobias Barreto, pág. 259.)
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Tobias Barreto de Meneses (1839 1889), nascido na ex-Vila de Campos do Rio Real, hoje Tobias Barreto SE, formou-se pela Faculdade de Direito de Recife e foi jurista, professor, crítico, orador, filósofo e poeta; estudou latim e alemão, em ambiente muito intelectualizado conviveu com Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Castro Alves , defendeu o germanismo contra o predomínio da cultura francesa no Brasil; sua contribuição filosófica e científica é lembrada pela contestação às linhas gerais do pensamento jurídico dominante; em Escada PE, com o intuito de reformar as ideias filosóficas, políticas e literárias, fundou o jornal Deutscher Kämpfer (Lutador Alemão), com curta existência e pouca repercussão; escreveu e publicou os poemas O Gênio da Humanidade (1866), A Escravidão (1868), Que Mimo (1874), entre outros, todos reunidos em Dias e Noites (poesias, 1881), além de Ensaios de Filosofia e Crítica (1875), Brasilien wie es ist (1876), Ensaios de Pré-História da Literatura Alemã (1879), Estudos Alemães (1880), etc.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Otaviano Hudson *: O operário [fragmentos]

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[ . . . ]

Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
                Extorcem-se de fome.

"Papai um pão papai exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
                Pede-lhe o pão oh! pai!"

E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
                Implorando-o debalde!

Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
                Protege-nos oh Deus!

Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
                Lastimam-se chorando.

A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê d’angústias
                Travam-se à sua sombra!

Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa-lhe
                Estúpida vaidade!

Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infelice operário
                Horribile existência!

Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito uma trindade abraça-os:
                Miséria, escárnio e dores!

As mãos cheias de calos, as mãos que nobilitam-se
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas d’ouro e como as conchas níveas
                Pródigas emergem pérolas!

Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
                Defende-a té morrer!

Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
                Libérrimos direitos.

O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
                Saúda-te operários!

(Peregrinas, Tip. da Gazeta Jurídica,
Rio, 1874, págs. 28/29.)

* Nota/acréscimo deste Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa exposto que o poeta Fagundes Varela, no Prólogo de Peregrinas, registra acerca de Otaviano Hudson e seu ofício:
     “Octaviano Hudson, o homem do povo, o poeta dos operários, aprendeu aos dezesseis anos de idade, a arte tipográfica na casa dos Srs. Soares & Comp., á rua da Alfandega; passou daí para as oficinas do Diário do Rio de Janeiro de que era redator e proprietário o Sr. conselheiro Alencar. Saindo do Diário do Rio de Janeiro, tomou à administração da extinta empresa do periódico — Cidadão —, á rua de S. José, —; d'onde no fim de um ano partiu para Petrópolis e trabalhou gratuitamente na composição e paginação do — Parahyba — jornal do Sr. Zaluar, e do finado Ramígio de Senna Pereira. De Petrópolis foi Octaviano Hudson para a província do Espirito Santo montar a tipografia do — Mercantil — Sempre infeliz, iludido sempre, volveu do Espirito Santo, trazendo por única recompensa de seus labores, como filosoficamente o diz.... um feixe de canas. Empunhou os componidores da Nova Phase, de Angra dos Reis, onde também foi redator de um periódico literário, dedicado ás senhoras, denominado — Beija-Flor —, da República, Correio do Brasil e Diário do Povo, tipografia hoje ocupada pela Reforma, e finalmente do Diário de Notícias, onde muitos artigos escreveu em defesa dos operários.
     Exaltado embora em suas idéias políticas, franco ao excesso, descuidoso de si, a ponto de entregar o último óbulo ao primeiro mendigo que encontrar, tudo poderão os bufarinheiros das reputações alheias lançar em rosto ao autor das — Peregrinas — menos a ociosidade.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Otaviano Hudson (1837 1886), nascido no estado do Rio de Janeiro, foi operário tipógrafo e poeta; “aprendeu aos 16 anos a arte tipográfica”, trabalhou nas oficinas de A República e, convidado para ocupar-se na redação, “recusou a honraria, preferindo continuar entre as máquinas. Pobre, paupérrimo, sem nada de seu, vivia, contudo, auxiliando amigos ou simples conhecidos.”; escreveu e publicou Peregrinas (poesias, 1874); Fagundes Varela, amigo do tipógrafo-poeta, "ressalta a circunstância de ter sido o autor das Peregrinas o primeiro poeta proletário das nossas letras"; o poeta operário virou nome de rua (Rua Otaviano Hudson, Copacabana, Rio de Janeiro).

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Machado de Assis: A flor do embiroçu


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Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
(Fil. Elís.) [Filinto Elísio]

Quando a noturna sombra envolve a terra
E à paz convida o lavrador cansado,
À fresca brisa o seio delicado
A branca flor do embiroçu descerra.

E das límpidas lágrimas que chora
A noite amiga, ela recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.

Então, à luz nascente, a flor modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o sono quando tudo é festa.

Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a asa impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!

Também ela ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ela da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio às ilusões viçosas.

É tudo seu, tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrelas;
Abrasada de amor, palpita ao vê-las,
E a todas cinge no ideal abraço.

O rosto não encara indiferente,
Nem a traidora mão cândida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.

Noite, melhor que o dia; quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua asa amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.

Ama-te a flor que desabrocha à hora
Em que o último olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, recende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.

(Poesias Completas, W. M. Jackson,
Rio, 1937, págs. 308/9.)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume II — O Romantismo [antologia: vários poetas e poemas], Seleção, Introdução, Traços biobibliográficos e Notas de Edgard Cavalheiro, 1959, Editora Civilização Brasileira, São Paulo — SP; Joaquim Maria Machado de Assis (1839 1908), nascido no Rio de Janeiro, autodidata, é tido como o maior ficcionista brasileiro, além de ter sido poeta; sabe-se que, já aos quinze anos, dominava a língua portuguesa e conhecia o francês e teve seu primeiro texto escrito em versos publicado na Marmota Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, ali passando a colaborar até 1861; em seu percurso literário publicou seus textos em inúmeros jornais e revistas: O Paraíba e Correio Mercantil (1858), revista O Espelho (crítica teatral, de 1859 a 1860), A Semana Ilustrada, revista Ilustração Brasileira (1876) entre outros veículos literários; escreveu e publicou: Crisálidas (poesias, 1864), Falenas (poesias, 1870), Contos Fluminenses (1870), Ressurreição (romance, 1872), Histórias da Meia-Noite (contos, 1873), A Mão e a Luva (romance, 1874), Americanas (poesias, 1875), Helena (romance, 1876), Iaiá Garcia (romance, 1878), Ocidentais (poesias de feição parnasiana, 1880), Memórias Póstumas de Brás Cubas (romance, 1881), Papéis Avulsos (contos, 1882), Quincas Borba (romance, 1891), Várias Histórias (contos, 1896), Dom Casmurro (romance, 1899), Páginas Recolhidas (contos, ensaios e teatro, 1899) etc, além de peças de teatro; foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.