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Verdes mares bravios de minha
terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;
Verdes mares que brilhais como
líquida esmeralda aos raios do Sol nascente, perlongando as alvas praias
ensombradas de coqueiros;
Serenai verdes mares, e alisai
docemente a vaga impetuosa para que o barco aventureiro manso resvale à flor
das águas.
Onde vai a afoita jangada, que
deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela?
Onde vai branca
alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano?
Três entes respiram sobre o frágil
lenho que vai singrando veloce, mar em fora.
Um jovem guerreiro cuja tez branca
não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro que viram a luz no berço
das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
A lufada intermitente traz da
praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:
— Iracema!...
O moço guerreiro, encostado ao
mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar
empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes
criaturas, companheiras de seu infortúnio.
Nesse momento o lábio arranca d’alma
um agro sorriso.
Que deixara ele na terra do
exílio?
Uma história que me contaram nas
lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a lua passeava no céu
argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.
Refresca o vento.
O rulo das vagas precipita. O
barco salta sobre as ondas e desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade dos
mares, e a borrasca enverga como o condor, as foscas asas sobre o abismo.
Deus te leve a salvo, brioso e
altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada amiga! Soprem
para ti as brandas auras, e para ti jaspeie a bonança mares de leite.
Enquanto vogas assim à discrição
do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompanha,
mas não se parte da terra onde revoa.
(Trecho inicial
de Iracema)
de Iracema)
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Antologia Escolar
Brasileira — Marques Rebelo, primeira edição, 1967, Companhia Nacional de
Material de Ensino — MEC, Rio de Janeiro — RJ; José Martiniano
de Alencar (1829 — 1877), cearense de Messejana, formado em Direito em São
Paulo (atual USP — Largo São Francisco, fez parte do curso em Olinda — PE), foi
advogado, jornalista, crítico literário, político, orador, romancista e teatrólogo;
no Rio, colaborou nos jornais Correio Mercantil, Jornal do Commercio, e Diário
do Rio de Janeiro, onde escrevia seus textos e folhetins, depois editados em
livros; escreveu e publicou os romances Cinco Minutos (1857), O Guarani (inicialmente
editado em folhetins, 1857), A viuvinha (1860), Lucíola (1862), Diva (1864),
Iracema (1865), As minas de prata (em dois volumes, 1865 e 1866), A pata da
gazela (1870), O tronco do ipê (1871), Til (1872), Ubirajara (1874), Senhora (1875)
etc.; além de textos para teatro, Verso e reverso (1857), Mãe (1860), crônicas,
Ao correr da pena (1874), texto autobiográfico, Como e porque sou romancista (1873)
e críticas, Cartas sobre a Confederação dos Tamoios (1856) ...; foi um dos
patronos da Academia Brasileira de Letras.