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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Lêdo Ivo: A René Descartes

 
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Nesta manhã na Holanda
penso em René Descartes.
Olhando a água fugir
nos canais sucessivos
como fogem os dias
no mar encarcerado
junto às casas de câmbio,
eu penso, logo existo.
E perto dos navios
e bondes amarelos
minha verdade é chama
que não resiste ao vento.
Ó meu caro Descartes,
tua certeza é dúvida
oculta nas tulipas
abertas para a noite
de sol e sacramento.
Todos nós somos sombras.
Nosso existir é um sonho
que sonha o pensamento
entre os plátanos verdes
e as vacas apojadas
que margeiam a estrada
por onde eu passo e penso.

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Antologia Poética — Coleção Prestígio: Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio Carlos Villaça, 1990, Ediouro — Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, fez o primário no Grupo Escolar D. Pedro II e o secundário no Colégio Diocesano, bacharelou-se pela Faculdade Nacional de Direito (hoje UFRJ) e não exerceu a profissão, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1938, deu início à colaboração na imprensa local [Maceió] e teve textos publicados na revista Carioca [Rio de Janeiro]; em 1940, transferindo-se para Recife, cursou o Colégio Carneiro Leão e também colaborou na imprensa; em 1942, de volta a Maceió, concluiu o curso “complementar” no Liceu Alagoano, trabalhou como repórter e, em 1943, já no Rio de Janeiro, formou-se em Direito, passou a colaborar em suplementos literários e trabalhou como jornalista; em 1944, estreou na vida poética com a publicação de As Imaginações; suas obras: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Finisterra (poesia, 1972, laureado com o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa), A Noite Misteriosa (1982), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance [recebeu o Prêmio Graça Aranha], 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; Lêdo Ivo, que obteve diversas premiações na área da literatura, teve obras vertidas para os idiomas espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski; viajou por diversos países das Américas e da Europa.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Lêdo Ivo: Os Pobres na Estação Rodoviária

 
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Os pobres viajam. Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus.  E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.
Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus
eles temem perder a própria viagem
escondida no névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistas
em consultórios assépticos como o algodão que tapa o nariz dos
mortos.
Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências, não sabem portar-se em
público.
O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite
escorre para a pequena boca habituada ao choro.
Na plataforma eles vão o vêm, saltam e seguram malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidas nos guichês, sussurram palavras
misteriosas
e contemplam os capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida.
Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite-de-dendê que doem na vista delicada
do viajante obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?
Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos lugares
mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.

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Antologia Poética — Coleção Prestígio: Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio Carlos Villaça, 1990, Ediouro — Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, fez o primário no Grupo Escolar D. Pedro II e o secundário no Colégio Diocesano, bacharelou-se pela Faculdade Nacional de Direito (hoje UFRJ) e não exerceu a profissão, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1938, deu início à colaboração na imprensa local [Maceió] e teve textos publicados na revista Carioca [Rio de Janeiro]; em 1940, transferindo-se para Recife, cursou o Colégio Carneiro Leão e também colaborou na imprensa; em 1942, de volta a Maceió, concluiu o curso “complementar” no Liceu Alagoano, trabalhou como repórter e, em 1943, já no Rio de Janeiro, formou-se em Direito, passou a colaborar em suplementos literários e trabalhou como jornalista; em 1944, estreou na vida poética com a publicação de As Imaginações; suas obras: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Finisterra (poesia, 1972, laureado com o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa), A Noite Misteriosa (1982), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance [recebeu o Prêmio Graça Aranha], 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; Lêdo Ivo, que obteve diversas premiações na área da literatura, teve obras vertidas para os idiomas espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski; viajou por diversos países das Américas e da Europa.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Lêdo Ivo: Ode à Permanência

 
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          Repilo a voz iracunda que condena antecipadamente os sinais da vida e do mundo.
          Não me agradam os passantes que, contemplando os arranha-céus e os mendigos que se lavam nos lagos imundos das praças, as arquibancadas dos estádios e as luzes dos aeroportos, os transeuntes e as estátuas, as escadas rolantes dos centros comerciais e as inscrições obscenas dos mictórios dos botequins, as brancas represas murmurantes e o chão industrial que esconde os gasodutos, os cemitérios de automóveis e os paletós pendentes como espantalhos decepados na porta das lavanderias, os motéis ajardinados e os cartazes dilacerados dos outdoors, advertem que este presente haverá de desfazer-se, e será menos que cinza espalhada pelo vento do mundo.
          Incomoda-me a agressão dessa voz rancorosa que, apontando para o passado esvaído, desde já argumenta que o futuro, embora ainda seja uma promessa suspensa no ar como um balão invisível, também passará, e esse monótono rumor dos homens espremidos nos bancos das estações rodoviárias ou caminhando pelos corredores ministeriais se dissipará, tornado nada, a exemplo das grandes cidades milenares convertidas em relva.
          Que a permanência, e não o pó, seja o exemplo  e a memória, e não o esquecimento, seja o argumento de nossas vidas e a consolação de nossas mortes.

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Antologia Poética — Coleção Prestígio, Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio Carlos Villaça, 1990, Ediouro — Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, fez o primário no Grupo Escolar D. Pedro II e o secundário no Colégio Diocesano, bacharelou-se pela Faculdade Nacional de Direito (hoje UFRJ) e não exerceu a profissão, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1938, deu início à colaboração na imprensa local [Maceió] e teve textos publicados na revista Carioca [Rio de Janeiro]; em 1940, transferindo-se para Recife, cursou o Colégio Carneiro Leão e também colaborou na imprensa; em 1942, de volta a Maceió, concluiu o curso “complementar” no Liceu Alagoano, trabalhou como repórter e, em 1943, já no Rio de Janeiro, formou-se em Direito, passou a colaborar em suplementos literários e trabalhou como jornalista; em 1944, estreou na vida poética com a publicação de As Imaginações; suas obras: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Finisterra (poesia, 1972, laureado com o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa), A Noite Misteriosa (1982), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance [recebeu o Prêmio Graça Aranha], 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; Lêdo Ivo, que obteve diversas premiações na área da literatura, teve obras vertidas para os idiomas espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski; viajou por diversos países das Américas e da Europa.

sábado, 25 de outubro de 2025

Lêdo Ivo: Barganha

 
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Domingo é dia de barganha.
Troco um relógio dos antigos
por um cavalo rosilho,
um bode por um trinca-ferro,
e uma roda de cabriolé
por um radinho de pilha.
Troco um gibão de cigano
pela serra que serrou
o tronco mais odorante
e por um fogão de lenha
troco um cachorro de caça
e uma panela de cobre.
Troco toda a luz do sol
pela sombra de um só pássaro.
Por uma espingarda troco
um tacho que foi de escravos
além de um almofariz
e uma xícara sem asa.
Troco a salmoura dos peixes
por qualquer gosto de lágrima.
Pela vitrola rachada
dou a minha bicicleta
com os pneus arriados.
Troco o entulho que restou
do muro que derrubei
pelo calor da fogueira
que por uma noite apenas
negou o frio dos pobres.
Troco um lençol de noivado
e uma toalha bordada
pela lua refletida
na escuridão das cisternas.
Troco o meu selim de couro
por um arreio de prata.
Dou um caminhão de pedra
por um portão de peroba.
Na tabuada do mundo
troco o número um
pelo número dois.
E troco o bolor do dia
pelo silêncio guardado
na boca aberta dos doidos.
Troco a alvorada dos galos
pelo rumor dos reis mouros
que passam com seus vassalos
pelas antigas muralhas
rubras de tantas batalhas.
Também troco uma tigela
feita de barro da terra
por um jarro e uma gamela.
Barganho a chuva celeste
pela água negra da terra
e troco a nuvem que passa
por tudo o que for eterno.
Só a minha alma é inegociável.
Não a dou por dinheiro nenhum.

(A Noite Misteriosa — 1982)

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Antologia Poética — Coleção Prestígio, Lêdo Ivo, Seleção de Walmir Ayala e Introdução de Antônio Carlos Villaça, 1990, Ediouro — Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, fez o primário no Grupo Escolar D. Pedro II e o secundário no Colégio Diocesano, bacharelou-se pela Faculdade Nacional de Direito (hoje UFRJ) e não exerceu a profissão, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1938, deu início à colaboração na imprensa local [Maceió] e teve textos publicados na revista Carioca [Rio de Janeiro]; em 1940, transferindo-se para Recife, cursou o Colégio Carneiro Leão e também colaborou na imprensa; em 1942, de volta a Maceió, concluiu o curso “complementar” no Liceu Alagoano, trabalhou como repórter e, em 1943, já no Rio de Janeiro, formou-se em Direito, passou a colaborar em suplementos literários e trabalhou como jornalista; em 1944, estreou na vida poética com a publicação de As Imaginações; suas obras: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Finisterra (poesia, 1972, laureado com o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa), A Noite Misteriosa (1982), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance [recebeu o Prêmio Graça Aranha], 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; Lêdo Ivo, que obteve diversas premiações na área da literatura, teve obras vertidas para os idiomas espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski; viajou por diversos países das Américas e da Europa.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Lima Barreto: O cemitério

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          Pelas ruas de túmulos, fomos calados. Eu olhava vagamente aquela multidão de sepulturas, que trepavam, tocavam-se, lutavam por espaço, na estreiteza da vaga e nas encostas das colinas aos lados. Algumas pareciam se olhar com afeto, roçando-se amigavelmente; em outras, transparecia a repugnância de estarem juntas. Havia solicitações incompreensíveis e também repulsões e antipatias; havia túmulos arrogantes, imponentes, vaidosos e pobres e humildes; e, em todos, ressumava o esforço extraordinário para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas.
          Amontoavam-se esculturas de mármore, vasos, cruzes e inscrições; iam além; erguiam pirâmides de pedra tosca, faziam caramanchéis extravagantes, imaginavam complicações de matos e plantas coisas brancas e delirantes, de um mau gosto que irritava. As inscrições exuberavam; longas, cheias de nomes, sobrenomes e datas, não nos traziam à lembrança nem um nome ilustre sequer; em vão procurei ler nelas celebridades, notabilidades mortas; não as encontrei. E de tal modo a nossa sociedade nos marca um tão profundo ponto, que até ali, naquele campo de mortos, mudo laboratório de decomposição, tive uma imagem dela, feita inconscientemente de um propósito, firmemente desenhada por aquele acesso de túmulos pobres e ricos, grotescos e nobres, de mármore e pedra, cobrindo vulgaridades iguais umas às outras por força estranha às suas vontades, a lutar...
          Fomos indo. A carreta, empunhada pelas mãos profissionais dos empregados, ia dobrando as alamedas, tomando ruas, até que chegou à boca do soturno buraco, por onde se via fugir, para sempre do nosso olhar, a humildade e a tristeza do contínuo da Secretaria dos Cultos.
          Antes que lá chegássemos, porém, detive-me um pouco num túmulo de límpidos mármores, ajeitados em capela gótica, com anjos e cruzes que a rematavam pretensiosamente.
          Nos cantos da lápide, vasos com flores de biscuit e, debaixo de um vidro, à nívea altura da base da capelinha, em meio corpo, o retrato da morta que o túmulo engolira. Como se estivesse na rua do Ouvidor, não pude suster um pensamento mau e quase exclamei:
           Bela mulher!
          Estive a ver a fotografia e logo em seguida me veio à mente que aqueles olhos, que aquela boca provocadora de beijos, que aqueles seios túmidos, tentadores de longos contatos carnais, estariam àquela hora reduzidos a uma pasta fedorenta, debaixo de uma porção de terra embebida de gordura.
          Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência, nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo e fugaz.
          Abalei-me! Eu que dizia a todo o mundo que amava a vida, eu que afirmava a minha admiração pelas coisas da sociedade eu meditar como um cientista profeta hebraico! Era estranho! Remanescente de noções que se me infiltraram e cuja entrada em mim mesmo eu não percebera! Quem pode fugir a elas?
          Continuando a andar, adivinhei as mãos da mulher, diáfanas e de dedos longos; compus o seu busto ereto e cheio, a cintura, os quadris, o pescoço, esguio e modelado, as espáduas brancas, o rosto sereno e iluminado por um par de olhos indefinidos de tristeza e desejos...
          Já não era mais o retrato da mulher do túmulo; era de uma, viva, que me falava.
          Com que surpresa, verifiquei isso.
          Pois eu, eu que vivia desde os dezesseis anos, despreocupadamente, passando pelos meus olhos, na rua do Ouvidor, todos os figurinos dos jornais de modas, eu me impressionar por aquela menina do cemitério! Era curioso.
          E, por mais que procurasse explicar, não pude.

(Histórias e sonhos — 1920)

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Lima Barreto: obra reunida — volume 2 — 2ª edição revista, texto/apresentação Lima Barreto: A autoridade do malogro, de Lêdo Ivo, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e sonhos (contos, 1920), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros ...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Lima Barreto: Uma vagabunda

 
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          É um caso bem curioso o que te vou contar e que me parece digno de registro. Para muitos parecerá fantástico; mas, como tu sabes, já houve quem dissesse que a realidade é mais fantástica do que imaginamos.
           Dostoiévski?
           Sim; creio que foi ele, embora não afiance que fosse com estas palavras. Sabes bem como são as palavras dele?
           Não; mas estou certo que não lhe trais o pensamento… Enfim! Isso não vem ao caso. Conta lá a história.
           Conto-a a ti com todos os detalhes, para que possas tirar dela todo o profundo sentido que tem. Se tratasse de outro, havia de abreviá-la, transformá-la-ia em anedota; mas, tratando-se de ti, não há nada que seja prolixo para a compreensão de semelhante fato.
          Eles estavam no Campo de Sant’Ana e aquelas cutias sempre ariscas e aquelas saracuras de galinheiro, apesar de tudo, não deixavam de dar um toque selvagem naquele jardim educado.
          O narrador continuou:
           Foi isto há alguns anos passados. Bebia eu muito nesse tempo, muito mesmo porque tinha por divisa ou tudo ou nada. Além disso adotam uma frase não sei de que autor, como complemento da divisa.
           Qual é? perguntou o outro.
           “O burguês bebe champanha; o herói bebe aguardente.”
           Essas duas sentenças cobiçadas deviam dar resultados surpreendentes.
           Deram, como tu sabes, mas eu te quero contar uma que tu não sabes.
           Duvido.
           Pois vais ver.
           Não acredito, pois sei todas as tuas proezas desse tempo.
           Essa proeza, porém, não é minha; é de outro ou de outra.
           Que outra?
           Conheceste a Alzira?
           Sim! Aquela vagabunda que ia à casa do “Guaco”, na rua do Carmo.
           É isso mesmo: aquela vagabunda que ia à casa do “Guaco”, na rua do Carmo. É isso.
           Homem! Pelo modo por que falas, parece que tiveste paixão por ela…
           Não tive paixão, mas sou-lhe grato.
           Por quê?
           Lembras-te bem que ela bebia conosco calistos de “Guaco”.
           Lembro-me bem.
           E que ela tivera um passado de lustre, de opulência, no alto mundanismo?
           Perfeitamente. Contudo, Frederico, eu penso que ela exagerava um pouco.
           É verdade. Aquele caso que ela nos contou de ter perdido uma noite, não sei em que jogo, em São Paulo, oitenta contos, não me parece verossímil; entretanto…
           Não é só isso. Todas as sumidades da República haviam sido seus amantes. Ora, isso não é possível, porquanto muitas delas, quando começaram, eram pobretões que não podiam aspirar a semelhante “objeto de luxo”.
           Tens razão; mas…
           Uma coisa: quando me recordo da Alzira, só me vem à mente o seu famoso chapéu de chuva de alpaca, com que, às vezes, quando embriagada, desancava um qualquer e ia parar no xadrez.
           Eu, quando me vem ela à lembrança, com a sua fisionomia triste, fanada, é com o seu orgulho de ter tido muito dinheiro, por meios tão baixos…
           A observação é boa. Ela não parecia ter dor em recordar os belos dias passados; parecia antes ter prazer… Afinal, que tem ela com a tua história?
           Estavas fora, lá, para Alagoas. Continuei a frequentar o “Guaco”, onde ia todas as tardes encontrar os companheiros. Ocasionalmente topava com Alzira e pagava-lhe um cálice. As nossas relações eram as mais amistosas possíveis. Ela me contava as histórias de aventuras passadas, quer as de jogo, quer as de amor; e eu as ouvia para aprender a vida com aquela mulher batida pela sorte, pelo infortúnio e pela maldade dos homens. Gostava até da emoção que ela sentia, narrando o seu triunfo, quando, trepada no alto dos carros de Carnaval, era aclamada pelas famílias, nas ruas apinhadas por onde passava. Pelo modo que ela me contava esses episódios, julguei que Alzira nesses dias se supunha resgatada. Talvez tivesse razão…
           Coitada! fez o outro.
           Bem. Como te contava, ia sempre ao “Guaco” e, em certo dia do pagamento, lá fui. Tinha os vencimentos quase intactos na algibeira. Encontrei-a, sentei-me e pedi cerveja. Ela não quis, ficou no seu cálice habitual. Em dado momento, ao passar o proprietário, o Martins tu te lembras dele?
           Pois não.
           Disse-lhe: Martins, vê quanto te devo.
          Ele respondeu e, logo que ele se afastou, Alzira perguntou-me: “Frederico, tens dinheiro?”. Disse-lhe que sim; e ela me pediu: “Podes ‘passar’ cinco mil-réis?”. Não me fiz esperar e dei-lhe uma nota de cinco mil-réis que tinha na algibeira do colete. Ela guardou e continuou a conversa. Veio a hora de sair e de pagar a despesa atual e as passadas. Martins fez a soma e tirei da algibeira da calça o grosso do dinheiro, dando-lhe uma nota que satisfizesse a conta. Logo que o Martins se dirigiu ao balcão, ela me disse ao ouvido: “Tu não podes dar mais cinco mil-réis?”. Disse-lhe peremptoriamente: não! Não teve um momento de hesitação: levantou-se e atirou-me a nota na cara. Foi saindo e descompondo-me baixamente.
           Era muito malcriada.
           Pensei isso e o Martins aconselhou-me a evitá-la, por isso. Um acontecimento posterior, porém, fez-me julgá-la melhor.
           É daí que…
           Vais ouvir: passaram-se meses e, para publicar um livro, meti-me em complicações. Se o livro deu dinheiro eu não sei, porque só perdi com ele; entretanto, fez um sucessozinho; mas, caí de roupas etc. etc. Uma noite estava sentado entre desanimados, como eu, num banco do largo da Carioca, considerando aqueles automóveis vazios, que lhe levam algum encanto. Apesar disso, não pude deixar de comparar aquele rodar de automóveis, rodar em torno da praça, como que para dar ilusão de movimento, aos figurantes de teatro que entram por um lado e saem pelo outro, para fingir multidão; e como que me pareceu que aquilo era um truque do Rio de Janeiro, para se dar ares de grande capital movimentada…  Estava assim, quando me bateram ao ombro: “Oh! Frederiquinho!”.
           Quem era?
           Era a Alzira.
           Queria ela alguma coisa?
           Queria dar-me. Nada mais.
           O quê?
           A passagem do bonde.
           Tu não a tinhas?
           Tinha. Disse-lhe isso até; mas o meu aspecto era da mais completa miséria. Minha roupa estava sebosa, meu chapéu de palha muito sujo, cabeludo, barba velha; e, além de tudo, sobreviera-me uma fraqueza de pálpebras, que me obrigava a usar uns sinistros óculos escuros de mendigo semicego. Apesar da minha recusa, ela insistiu de tal modo, de forma tão cheia de piedade e ternura, que me pareceu uma cruel desfeita não lhe aceitar o cruzado.
           Aceitaste?
           Aceitei.
           Curioso.
           Está aí a vagabunda do “Guaco”, meu caro Chaves.
          Levantaram-se, saíram do jardim e o advento da noite, misteriosa e profunda, era anunciado pelo acender dos lampiões de gás e o piscar dos globos de luz elétrica, naquele magnífico fim de crepúsculo.

(Histórias e sonhos — 1920)

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Lima Barreto: obra reunida — volume 2 — 2ª edição revista, texto/apresentação Lima Barreto: A autoridade do malogro, de Lêdo Ivo, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A. B. C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e sonhos (contos, 1920), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros ...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Lima Barreto: A mulher do Anacleto


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          Este caso se passou com um antigo colega meu de repartição.
          Ele, em começo, era um excelente amanuense, pontual, com magnífica letra e todos os seus atributos do ofício faziam-no muito estimado dos chefes.
          Casou-se bastante moço e tudo fazia crer que o seu casamento fosse dos mais felizes. Entretanto, assim não foi.
          No fim de dois ou três anos de matrimônio, Anacleto começou a desandar furiosamente. Além de se entregar à bebida, deu-se também ao jogo.
          A mulher muito naturalmente começou a censurá-lo.
          A princípio, ele ouvia as observações da cara-metade com resignação; mas, em breve, enfureceu-se com elas e deu em maltratar fisicamente a pobre rapariga.
          Ela estava no seu papel, ele, porém, é que não estava no dele.
          Motivos secretos e muito íntimos talvez explicassem a sua transformação; a mulher, porém, é que não queria entrar em indignações psicológicas e reclamava. As respostas a estas acabaram por pancadaria grossa. Suportou-a durante algum tempo. Um dia, porém, não esteve mais pelos autos e abandonou o lar precário. Foi para a casa de um parente e de uma amiga, mas, não suportando a posição inferior de agregada, deixou-se cair na mais relaxada vagabundagem de mulher que se pode imaginar.
          Era uma verdadeira “catraia” que perambulava suja e rota pelas praças mais reles deste Rio de Janeiro.
          Quando se falava a Anacleto sobre a sorte da mulher, ele se enfurecia doidamente:
           Deixe essa vagabunda morrer por aí! Qual minha mulher, qual nada!
          E dizia coisas piores e injuriosas que não se podem pôr aqui.
          Veio a mulher a morrer, na praça pública; e eu que suspeitei, pelas notícias dos jornais, fosse ela, apressei-me em recomendar a Anacleto que fosse reconhecer o cadáver. Ele gritou comigo:
           Seja ou não seja! Que morra ou viva, para mim vale pouco!
          Não insisti, mas tudo me dizia que era a mulher do Anacleto que estava como um cadáver desconhecido no necrotério.
          Passam-se anos, o meu amigo Anacleto perde o emprego, devido à desordem de sua vida. Ao fim de algum tempo, graças à interferência de velhas amizades, arranja um outro, num estado do Norte.
          Ao fim de um ano ou dois, recebo uma carta dele, pedindo-me arranjar na polícia certidão de que sua mulher havia morrido na via pública e fora enterrada pelas autoridades públicas, visto ter ele casamento contratado com uma viúva que tinha “alguma coisa”, e precisar também provar o seu estado de viuvez.
          Dei todos os passos para tal, mas era completamente impossível. Ele não quisera reconhecer o cadáver de sua desgraçada mulher e para todos os efeitos continuava a ser casado.
          E foi assim que a esposa do Anacleto vingou-se postumamente. Não se casou rico, como não se casará nunca mais.

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Lima Barreto: obra reunida — volume 2 — 2ª edição revista, texto/apresentação Lima Barreto: a autoridade do malogro, de Lêdo Ivo, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Lima Barreto: Um que vendeu a sua alma


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          A anedota que lhe vou contar, tem alguma coisa de fantástica e pareceria que, como homem de meu tempo, eu não devia dar-lhe crédito algum. Entra nela o Diabo e toda a gente de certo desenvolvimento mental está quase sempre disposta a acreditar em Deus, mas raramente no Diabo.
          Não sei se acredito em Deus, não sei se acredito no Diabo, porque não tenho as minhas crenças muito firmes.
          Desde que perdi a fé no meu Lacroix; desde que me convenci da existência de muitas geometrias a se contradizerem nas suas definições e teoremas mais vulgares; desde então deixei que a certeza ficasse com os antropologistas, etnólogos, florianistas, sociólogos e outros tolos de igual jaez.
          A horrível mania de certeza de que fala Renan, já a tive; hoje, porém, não. De modo que posso bem à vontade contar-lhes uma anedota em que entra o Diabo.
          Se os senhores quiserem, acreditem; eu, cá por mim, se não acredito, não nego também.
          Narrou-me o amigo:
           Certo dia, uma manhã, estava eu muito aborrecido a pensar na minha vida. O meu aborrecimento era mortal. Um tédio imenso invadia-me. Sentia-me vazio. Diante do espetáculo do mundo, eu não reagia. Sentia-me como um toco de pau, como qualquer coisa de inerte.
          Os desgostos da minha vida, os meus excessos, as minhas decepções, me haviam levado a um estado de desespero, de aborrecimento, de tédio, para o qual, em vão, procurava remédio. A morte não me servia. Se era verdade que a vida não me agradava, a morte não me atraía. Eu queria outra vida. Você se lembra do Bossuet, quando falou por ocasião de Mlle. de La Vallière tomar o véu?
          Respondi:
           Lembro-me.
           Pois sentia aquilo que ele disse e censurou: queria outra vida. E então só me daria muito dinheiro. Queria andar, queria viajar, queria experimentar se as belezas que o tempo e o sofrimento dos homens acumularam sobre a terra, despertavam em mim a emoção necessária para a existência, o sabor de viver. Mas dinheiro! como arranjar? Pensei meios e modos: furtos, assassinatos, estelionatos sonhei-me Raskólnikoff ou cousa parecida. Jeito, porém, não havia e a energia não me sobrava. Pensei então no Diabo. Se ele quisesse comprar-me a alma? Havia tanta história popular que contava pactos com ele que eu, homem cético e ultramoderno, apelei para o Diabo, e sinceramente!
          Nisto bateram-me a porta.
           Abri.
           Quem era?
           O Diabo.
           Como o conheceste?
           Espera. Era um cavalheiro como qualquer, sem barbichas, sem chavelhos, sem nenhum atributo diabólico. Entrou como um velho conhecimento e tive a impressão de que conhecia muito o visitante. Sem cerimônia sentou-se e foi perguntando: “Que diabo de spleen é esse?” Retorqui: ”A palavra vai bem mas falta-me o milhão.” Disse-lhe isso sem reflexão, e ele, sem se espantar, deu umas voltas pela minha sala e olhou um retrato.
          Indagou: “É tua noiva?” Acudi: “Não. É um retrato que encontrei na rua. Simpatizei e…” “Queres vê-la já?” perguntou-me o homem. “Quero”, respondi. E logo, entre nós dois sentou-se a mulher do retrato. Estivemos conversando e adquiri certeza de que estava falando com o Diabo. A mulher foi-se e logo o Diabo inquiriu: “Que querias de mim?”
          “Vender-te minha alma”, disse-lhe eu.
          E o diálogo continuou assim:
          Diabo Quanto queres por ela?
          Eu Quinhentos contos.
          Diabo Não queres pouco.
          Eu Achas caro?
          Diabo Certamente.
          Eu Aceito mesmo a coisa por trezentos.
          Diabo Ora! Ora!
          Eu Então, quanto dás?
          Diabo Filho, não te faço preço. Hoje, recebo tanta alma de graça que não me vale a pena comprá-las.
          Eu Então não dás nada?
          Diabo Homem! Para falar-te com franqueza, simpatizo muito contigo, por isso vou dar-te alguma coisa.
          Eu Quanto?
          Diabo Queres vinte mil-réis?
          E logo perguntei ao meu amigo:
           Aceitaste?
          O meu amigo esteve um instante suspenso, afinal respondeu:
           Eu… Eu aceitei.

A Primavera, Rio, julho 1913.

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Lima Barreto: obra reunida — volume 2 — 2ª edição revista, texto/apresentação Lima Barreto: a autoridade do malogro, de Lêdo Ivo, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...