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A Mario de Andrade
Senzala da fazenda dos meus avós...
Vão-se desmoronando pouco a pouco
as tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados
seculares.
Mas ainda és, no teu desmoronamento,
a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós.
Senzala da fazenda...
As tuas ruínas ainda estão impregnadas do sangue
machucado
dos negros que gemeram nos teus troncos,
sob o chicote ameaçador dos homens brancos — feitores da
fazenda.
Mas tudo isso há de desaparecer um dia.
As tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados
seculares,
— ruínas ainda impregnadas do sangue e do suor dos
escravos —
lembram os gemidos que se perderam pelos teus cubículos
de tabique;
e as lágrimas que rolaram pelo teu chão de terra socada;
e o relho de três tranças dos algozes feitores da
fazenda;
e os gritos lancinantes que vararam o horror das tuas
trevas;
e a mancha apagada que ficou na braúna dos teus troncos.
Mas — bendito seja Deus! — as tuas ruínas desaparecerão
um dia
na bruma longínqua da história dos tempos.
E então se apagará também, esse dia, na minha memória
a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós...
(Revista Verde, ano.1, nº 4, p. 20, dezembro de 1927.)
(Poemas Cronológicos — 1928)
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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar,
Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel
Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Enrique
de Rezende ou Henrique de Resende ou Henrique Vieira de Resende (1899 — 1973), mineiro e
cataguasense, fez seus estudos iniciais na Fazenda do Rochedo, Cataguases,
cursou o Colégio Anglo-Brasileiro [Rio de Janeiro], estudou Matemática em Ouro
Preto — MG, formou-se
engenheiro civil pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora [hoje Faculdade de
Engenharia da UFJF — Universidade
Federal de Juiz de Fora — MG],
exerceu o ofício de engenheiro, foi escritor e poeta; [H]Enrique de Rezende fez parte da geração modernista mineira,
participando ativamente da criação da modernistíssima revista Verde (1927—1929),
editada em Cataguases, tendo sido um dos signatários do Manifesto do Grupo
Verde, o qual deu origem à verdejante revista; suas obras: Turris
Eburnea (poemas simbolistas, 1923), Poemas Cronológicos (com Rosário Fusco e
Ascânio Lopes, 1928), Cofre de Charão (poemas, 1933), Retrato de Alphonsus de
Guimaraens (ensaio, 1938), Rosa dos Ventos (coletânea: poemas escolhidos + 16
trabalhos originais, 1957), A Derradeira Colheita (reunião de sua obra poética,
1964), Pequena história sentimental de Cataguases (ensaio histórico, 1969),
Estórias e memórias (crônicas memorialísticas, 1971), Obras Completas, ...; foi
eleito membro da Academia Mineira de Letras em 1966.

