Mostrando postagens com marcador Joaquim Branco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Joaquim Branco. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Ascânio Lopes: Natal do tuberculoso & Minha morte

 
____________________
Natal do tuberculoso

Eu pensei que Papai Noel passasse por aqui
e pus na janela do quarto
meus sapatos inúteis de doente que não mais andará.
Depois rezei. Uma oração feita por mim,
entrecortada pelo arfar do peito e pela tosse rouca.
Pedi uma morte mansa suave
o coração parando, sem aflição, sem dor.
Lá fora os sinos da Missa do Galo
acompanhando minha morte lenta.
E aqui dentro ninguém... o silêncio... o descanso... o mistério...
Mas Papai Noel passou sem nada me dar.
Achou decerto enormes meus sapatos...

— o —

Minha morte

Meus amigos dirão as palavras da amizade.
Meus inimigos dirão as palavras do perdão.
E os indiferentes continuarão indiferentes.
E ela que distante reza baixo por mim,
ela que dirá?

Sua boca dirá nada, mas seus olhos dirão tudo...

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

____________________
Ascânio, o poeta da Verde, coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 — 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

sábado, 26 de julho de 2025

Ascânio Lopes: A casa da família

 
____________________
Olha, minha amiga, nossa
velha casa de família, tão cheia de lembranças.
Neste quarto morreu minha avó,
neste outro casou-se minha avó,
neste outro casou-se minha irmã.
Os nossos pais olham sorrindo
os nossos brinquedos, os mesmos
que eles tinham, há cinquenta anos.
Os mesmos lugares.
O amor de meus pais das elegantes maneiras antigas.
O nosso amor-mocidade, o nosso amor-americano
vibrará nos mesmos luares.
E o mesmo berço
e o velho Cristo.
E o quarto da Ceia.
Até as goteiras são conhecidas.
O velho relógio de parede
que já marcou todas as horas da família.

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

____________________
Ascânio, o poeta da Verde, coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

terça-feira, 24 de junho de 2025

Joaquim Branco: “Oh Sir, the good die first”

 
____________________
Oh Sir, the good die first
(Wordsworth)

          Com este livro sobre Ascânio Lopes, iniciamos uma série sob o título geral de Cataguases Cartazes, focalizando escritores que fazem parte da história da literatura de nossa cidade, de Minas e do Brasil.
          Fomos achar no alto romantismo do inglês Wordsworth o verso definidor (Ó Senhor, os bons morrem primeiro.) do nosso poeta que ainda hoje, lá do final da década de 20, exerce um estranho magnetismo sobre todos que o lêem, especialmente sobre nós, cataguasenses: Ascânio Lopes.
          Entre os esboços da noivinha, a mãe bordando os serões da casa, um passado hoje quase impossível de ser reconstruído, brotam incríveis versos que resistem ao tempo, como se não tivessem sido suficientemente conhecidos por todos os seus conterrâneos e pedissem para ser lidos e relidos pelas gerações mais novas e outras e outras.
          Não existe maior lugar-comum do que dizer que os poetas mortos prematuramente poderiam ter escrito uma obra mais completa e importante, e que sua carreira foi cortada cedo, etc., etc. Mas também não se poderia fazer injustiça maior do que negar a Ascânio após a releitura de seus poemas um futuro de autor exponencial dentro da literatura brasileira se a doença não o tivesse levado.
          Se se comparar o Serão do menino pobre com o famoso Infância, de Carlos Drummond de Andrade seu companheiro e contemporâneo sobra um saldo qualificativo em favor de Ascânio, já afirmou um crítico.
          De seus poemas vem uma finura, uma leve teia, uma aragem que só se vêem nos artistas especiais, aqueles que chegam, mal têm tempo de deixar o seu recado e se vão rapidamente para algum outro lugar talvez. Mas ninguém os esquece mais.
          Ascânio Lopes foi assim. Sendo introspectivo, liderou um grupo era o mais velho do quarteto da Revista Verde (os outros: [Rosário] Fusco, [Francisco] Chico [Inácio] Peixoto e Guilhermino Cesar). Do seu canto, silencioso, foi o “motor” do movimento, juntamente com Fusco. Tímido, colocou em verso a sua curta história pessoal. Mas tornou tudo isso de tal maneira universal que transformou-a na sua própria trajetória poética.
          Sua morte em 1929 traçou o fim da Verde como movimento. Cada um foi para o seu canto, mas por outro lado, alguns, felizmente, puderam construir, com o tempo, obras que ficaram registradas, pela sua importância, na história da literatura brasileira.
          A edição deste volume, basicamente constituído pelos textos publicados no suplemento Cataguarte, editado por mim e publicado no dia 20 de abril de 1997 anexo ao jornal Cataguases tem como objetivo principal o sentido maior de permanência e registro que têm os livros em relação a revistas e jornais, viando à preservação da história literária de Cataguases e ao conhecimento das gerações futuras de que aqui, nos anos 20, já existia um grande poeta.

Cataguases — 1998

____________________
Ascânio, o poeta da Verde [várias autorias], coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Joaquim Branco Ribeiro Filho, nascido em 1940, mineiro e cataguasense, formou-se em Direito pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em Letras pela FIC Faculdades Integradas de Cataguases, mestrado em Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora MG e doutorado em Literatura Comparada pela UERJ, além de ter atuado como bancário do Banco do Brasil em várias agências mineiras e no Rio de Janeiro, e ali se aposentado, foi professor universitário, lecionou por 17 anos nas Faculdades Integradas de Cataguases, é poeta, cronista, contista, crítico literário e pesquisador; suas obras: Concreções da fala (poemas, 1969), Consumito (poemas, 1975), Laser para lazer (poemas, 1984), 500 anos do descobrimento da América (1993), O caça-palavras (poemas, 1997), Do pré ao pós-moderno (manual de literatura, 1998), Ascânio, o poeta da Verde ([várias autorias], homenagem a Ascânio Lopes, 1998), Recr(e,i)ações críticas (artigos críticos, 1999), Passagem para a Modernidade (2002), O menino que procurava o reino da poesia (narrativa de ficção, 2005), Verdes Vozes Modernistas (crítica literária, 2006), Totem e as vanguardas dos anos 1960/70 (crítica literária, 2009, 1ª reimpressão, 2013), Janelas de Leitura (vários temas, 2010), Zona de Conflito (poemas, 2024), etc.; colaborou publicando seus textos em jornais e revistas no Brasil (Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Suplemento Literário de Minas Gerais, ...) e no exterior; Joaquim Branco participou de edições dos jornais O Muro, SLD — Suplemento de Literatura e Difusão e Totem; recebeu premiações por sua obra, atualmente reside em Cataguases.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Joaquim Branco: TXT — CLIP

 
____________________
PRS  = prosa
PM   = poema
TXT  = texto
VRS  = verso

          Texto notou os escritos em prosa que se espalhavam sobre sua mesa. O escritor não gostou. Sua PRS hoje soltava uma tinta vermelha e cheirava a álcool. TXT precisava criar uma lauda e meia por dia. Já havia algum tempo que tinha essa obrigação.
          Admirava PMs em prosa nas mãos de um sr. Rimbaud e um tal sr. K tivera PRS rascunhada em papéis e brumas que falavam de muralhas, castelos, ratos e aldeões. Para os melhores VRS escolhera Pessoa, de pessimismo concentrado que levou Carneiro ao suicídio em noite de mágoas parisiense.
          TXT para sondar o PM perguntou: Um lance de dados, quem escreveu? Eu sei quem lançou. Bah! O Castelo de cartas de Kafka, quem empilhou?
          Teria que escolher palavras que fossem à página como uma matriz ao molde. Era sempre assim, tantas linhas, tantos toques. Um quadro na moldura. Mais do que isto, soldados gutemberguianos parados sobre o próprio chumbo. Mallarmé na ponta do abismo arriscaria: “um lance de dados jamais abolirá o acaso”. A página branca faísca como nunca na rampa de onde os dados vão rolar. Sorte ou azar, teria que ser. Sem opção, ela vai atraindo todas as palavras, conjunções alheias, verbos em substantivos vivos ou em farrapos, esparadrapos com preposições. Farelos de outras categorias mal-saídas da forja. Era iminente o choque. Sintaxe x dicionário.
          Naquele dia o escritor não conseguia equacionar nada. Palavras fugiam rompidas, deslizavam pela beirada lisa do papel ou se escondiam na banda escura de uma folha que tinha a ponta alevantada. TXT não esperava tanto. Pensou: o poema é um lance de dados, a prosa, o vivenciar dos dados na rampa do lançamento. Após o toque no sintetizador de textimagens, TXT viu as palavras chegarem de todos os lados cada vez mais rapidamente. Juntavam-se e subiam na mesa monstros-palavrões que penetravam nos papéis e aderiam aos objetos da sala, num sistema tático de ocupação total. Num instante a sala viu-se invadida por sílabas e letras, palavras e números de vários tamanhos e formatos.
          TXT entrou em parafuso. Sua cabeça doía muito e fundo, mas num certo prazo tudo pareceu estancar, e da tela do vídeo jorrou então um clip-poema, qual uma sinfonia de poder dominador, e TXT dormiu como se aquela máquina fosse capaz de engendrar o sono dentro de sua própria paz.

____________________
Marginais do Pomba [diversas autorias], contos, crônicas & etc., Apresentação de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985, Reproarte, Cataguases — MG; Joaquim Branco Ribeiro Filho, nascido em 1940, mineiro e cataguasense, formou-se em Direito pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em Letras pela FIC Faculdades Integradas de Cataguases, mestrado em Literatura Brasileira pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora MG e doutorado em Literatura Comparada pela UERJ, além de ter atuado como bancário do Banco do Brasil em várias agências mineiras e no Rio de Janeiro, e ali se aposentado, foi professor universitário, lecionou por 17 anos nas Faculdades Integradas de Cataguases, é poeta, cronista, contista, crítico literário e pesquisador; suas obras: Concreções da fala (poemas, 1969), Consumito (poemas, 1975), Laser para lazer (poemas, 1984), 500 anos do descobrimento da América (1993), O caça-palavras (poemas, 1997), Do pré ao pós-moderno (manual de literatura, 1998), Ascânio, o poeta da Verde ([várias autorias], homenagem a Ascânio Lopes, 1998), Recr(e,i)ações críticas (artigos críticos, 1999), Passagem para a Modernidade (2002), O menino que procurava o reino da poesia (narrativa de ficção, 2005), Verdes Vozes Modernistas (crítica literária, 2006), Totem e as vanguardas dos anos 1960/70 (crítica literária, 2009, 1ª reimpressão, 2013), Janelas de Leitura (vários temas, 2010), Zona de Conflito (poemas, 2024), etc.; colaborou publicando seus textos em jornais e revistas no Brasil (Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Suplemento Literário de Minas Gerais, ...) e no exterior; Joaquim Branco participou de edições dos jornais O Muro, SLD — Suplemento de Literatura e Difusão e Totem; recebeu premiações por sua obra; atualmente reside em Cataguases.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Ascânio Lopes: Os guardas e o pastor & O tecelão

 
____________________
Os guardas e o pastor

          Os homens de sobrecenho carregado, vestidos de bronze, passaram na estrada com o rumor de espadas pesadas, batendo nos selins de prata e o som seco das ferraduras dos cavalos, batendo nas pedras e o estrídulo soar dos clarins e o pesado e compassado ruído dos tambores.
          Todo vale os ouviu, menos o pastor que estava entretido em guiar seu gado para o curral.
          Ele só tinha ouvidos para as coisas humildes e só enxergava as coisas quotidianas.

o

O tecelão

A mão do tecelão é leve
e breve, e traça iluminuras
de fios, como riscos
suaves e ligeiros
das aves
no ar.

Enquanto outros pensam
em glórias, desejam
palácios,
riquezas,
o tecelão
sonha com
teares pujantes e
tecidos fantásticos.

(Ascânio Lopes: Vida e poesia, de Delson Gonçalves Ferreira,
1967, Difusão Pan-Americana do Livro, Belo Horizonte — MG)

____________________
Ascânio, o poeta da Verde [várias autorias], coleção Cataguases Cartazes, Organização, Seleção e Notas de Joaquim Branco, texto[orelha do livro] por Ronaldo Werneck, 1998, Edições Totem, Cataguases — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; suas obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Carlos Drummond de Andrade: Um nome: O que diz *

____________________
Francisco Inácio Peixoto?
Este nome acende em redor um clarão verde,
do tempo em que o verde não era cor política,
cheia de caras fechadas e interjeições iracundas.
Era só verde-alegria, verde-vinte anos,
verde-festa, verde-algazarra, verde-pau no lombo dos passadistas,
verde-charanga altissonante em devoção de Oswald
e Tarsila e Mário e Guilherme e Ronald e Manuel
nossos ídolos bem nossos!

Francisco Inácio Peixoto...
Nome que lembra índio, os novos audazes cataguás!
invadindo o sono de Meia-Pataca para a conquista de outra espécie
de poder: o poder estético.
Deram duro, brigaram com alta e bela ingenuidade.
Marcaram um minuto mineiro, tão descontraído, tão macunaíma,
que a gente não esquece mais o cauim dessa bebedeira.

Francisco, eu disse, Francisco Inácio Peixoto!
Agora o nome abre-se no vasto pátio de um colégio
por sua vez aberto ao vento do mundo, e no centro o painel sangrento
de Portinari grita liberdade aos quatro cantos da Terra.
Podem tirá-lo dali: que importa?
A chama continua, sob as cinzas,
no destino de chama.
E o nome expande-se em museu moderno de arte,
museu que poderia ter sido e que não foi.
Francisco Inácio, usina pessoal de sonhos que se tornam realidade
para voltar depois ao reino escuro de antes do sonho.
Ainda uma vez, que importa?
Na água-espelho dos setent’anos
a face límpida do criador vence as mesquinhas contingências do
tempo.


* Nota de Joaquim Branco, autor deste Passagem para a Modernidade...:
Por ocasião das comemorações do 70º aniversário de Francisco Inácio Peixoto [um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde de Cataguases e participante da modernista e cataguasense revista Verde, 19271929], organizamos, com a colaboração dos poetas Francisco Marcelo Cabral, P. J. Ribeiro, Aquiles Branco, Márcia Carrano, Ronaldo Werneck e Carlos Sérgio Bittencourt, um número especial no [suplemento] “Totem” [do jornal Cataguases] em sua homenagem. Um dos convidados para colaborar foi o poeta Carlos Drummond de Andrade, que prontamente acedeu ao nosso convite, enviando o poema [Um nome: O que diz] ....
____________________
Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto, Introdução e Notas de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

sábado, 9 de dezembro de 2023

Guilhermino César: Noite de todos os poemas


____________________
No samba que explode lá fora
em voltas de gira
em giros de amor
em cantos e risos
puseram os poemas da raça cafusa.

Poemas vermelhos
poemas roxinhos de fazer pena
poemas brancos e inofensivos
todas as cores e todos os sentimentos
nas cabrochas repinicando,
sambando suadas.

Poemas de raça
Poemas da terra
poemas de tudo!

No samba que explode lá fora
em voltas de gira
em giros de amor
em cantos e risos
falta porém um poema maior...
Não se pode escrevê-lo somente:
é preciso sentir
é preciso viver
solidário com a gente morena
pra escrever o poema melhor
 o poema maior e mais fundo
que a raça exige de nós.

(1928: s/p)

____________________
Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Guilhermino César da Silva (1908 1993), mineiro nascido em Pinheiros, atual Pinhotiba, distrito de Eugenópolis, aprendeu as primeiras letras com Zizinha Negreiros, professora particular, estudou no Grupo Escolar Astolfo Dutra e no Ginásio Municipal de Cataguases, iniciou o curso de Medicina, desistiu, formou-se em Direito, foi escritor, crítico literário, administrador público, jornalista, professor, historiador e poeta; escreveu seus primeiros versos aos oito anos de idade, fez parte da geração modernista mineira e participou ativamente, inclusive na fundação, da modernistíssima revista Verde, editada em Cataguases MG; na década de 1940 transferiu-se para Porto Alegre RS e deu continuidade às atividades no magistério, à política e à cultura; suas obras: além da atuação na revista Verde, Guilhermino escreveu e publicou Meia-Pataca (em parceria com Francisco Inácio Peixoto, 1928), Sul (romance, 1939), História da Literatura do Rio Grande do Sul: 1737 — 1902 (1956), Ladrão de Cavalo (1964), Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa (poesia, ambos em 1965), O embuçado de Erval — mito e poesia de Pedro Canga (1968), Arte de matar (1969), Qorpo-Santo: relações naturais e outras comédias (1969), Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul: 1605 — 1801 (1969), Sistema do Imperfeito e Outros Poemas (1977), Banhados (1986), Cantos do canto chorado (poesia, 1990) e outros títulos; no jornalismo, dirigiu o jornalzinho Mercúrio, da Associação dos Empregados no Comércio de Cataguases, na década de 20, atuou, desde a fundação, na já mencionada revista Verde, foi um dos fundadores da revista Leite Criôlo (em Belo Horizonte, 1929), secretariou os jornais A Tribuna e O Diário, ambos também de BH, além de ter colaborado em outros periódicos; no magistério, foi professor-fundador e depois diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Minas Gerais, e ali lecionou Literatura Brasileira e História Moderna, professor, também de Literatura Brasileira, na Faculdade de Filosofia da UFRGS e na Universidade de Coimbra Portugal; assumiu funções públicas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.

sábado, 15 de janeiro de 2022

Rosário Fusco: A vendedora de morangos*

 
____________________
Na luz porosa da manhã de bruma
passas cantarolando pela minha porta!

Teu canto é branco como a luz
e móvel como as águas!
E fortes como a flecha
e ágil como o vento!
Teu canto é doce como o mel
e certo como a fala de Zic o rei dos sábios!

Mas eu não quero o teu canto
branco como a luz e móvel como as águas...
Mas eu não quero o teu canto
forte como a flecha e ágil como o vento...
Mas eu não quero o teu canto
doce como o mel
e certo como a fala de Zic o rei dos sábios...
Eu só quero saber ó vendedora de morangos
de quem é esse morango rubro dos teus lábios!...


* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Joaquim Branco, o autor de Passagem para a Modernidade — transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), registra sobre o poema: “De Rosário Fusco, dos mais vanguardistas de Verde, esta ‘pérola’ — A vendedora de morangos — datada de 1926.”
____________________
Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Rosario Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJRJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile; seu romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e editado na Itália.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Ascânio Lopes: Sanatório

 
____________________
Logo, quando os corredores ficarem vazios,
e todo o Sanatório adormecer,
a febre dos tísicos entrará no meu quarto,
trazida de manso pela mão da noite.

Então minha testa começará a arder,
todo meu corpo magro sofrerá.
E eu rolarei ansiado no leito
com o peito opresso e de garganta seca.

Lá fora haverá um vento mau
e as árvores sacudidas darão medo.
Ah! os meus olhos brilharão, procurando

a Morte que quer entrar no meu quarto.
Os meus olhos brilharão como os da fera
que defende a entrada do seu fojo.


* Nota de Joaquim Branco: Transcrito de Verde nº 1 (2ª fase), maio de 1929. No livro Ascânio Lopes — vida e poesia, este poema apresenta variações anotadas por Delson G. Ferreira de manuscritos fornecidos por Francisco Inácio Peixoto. São as seguintes: 1) “e todo meu corpo magro sofrerá:”; 2) e lá fora haverá um vento mau:”; 3) “Os meus olhos brilharão como os de uma fera:”; e 4) “que defende a entrada da sua morada.” (FERREIRA, 1967: 74)
____________________
Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano publicou o jornalzinho O Eco, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; bibliografia: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (em conjunto com Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte-Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Rosário Fusco: Poema da Rua do Porão

 
____________________
A noite desceu de repente
e encheu as casas de sombras.

Sacis cachimbavam na boca do mato
e acenderam faíscas no céu.
E a lua de louca serena subiu,
subiu e parou lá em cima
d’um galho de ingá.

(Do lado da ponte que é preta de sombra
chegam vozes longínquas de gente que fala...)

E lá longe,
beirando as guaximbas do açude,
coaxam sapos papudos no charco...

(1927)

____________________
Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Rosario Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJRJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; suas obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile; seu romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e editado na Itália.

domingo, 8 de agosto de 2021

Ascânio Lopes: Serão do menino pobre

____________________
Na sala pobre da casa da roça
papai lia os jornais atrasados.
Mamãe cerzia minha meias rasgadas.
A luz frouxa do lampião iluminava a mesa
e deixava nas paredes um bordado de sombras.
Eu ficava a ler um livro de histórias impossíveis
desde criança fascinou-me o maravilhoso.
Às vezes mamãe parava de costurar
a vista estava cansada, a luz era fraca,
e passava de leve a mão pelos meus cabelos,
numa carícia muda e silenciosa.

Quando mamãe morreu
o serão ficou triste, a sala vazia.
Papai já não lia os jornais
e ficava a olhar-nos silencioso.
A luz do lampião ficou mais fraca
e havia muito mais sombra pelas paredes...
E, dentro em nós, uma sombra infinitamente maior.

____________________
Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; bibliografia: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (em conjunto com Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a falecer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte-Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.