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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Baudelaire: O Gosto do Nada

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Morno espírito, antigamente afeito à luta,
a Esperança que te esporeava outrora o ardor
Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,
Cavalo que tropeça em tudo e em vão reluta.

Dorme, ó meu coração; desiste, ó massa bruta!

Espírito vencido, em ti, velho impostor,
Já não tem gosto o amor, nem o tem a disputa;
Não mais a voz do cobre ou da flauta se escuta!
Deixa esta alma sombria, ó Prazer tentador!

Perdeu a Primavera o cheiro de flor.

E o Tempo me devora em marcha resoluta,
Como a ampla neve um corpo rijo de torpor;
Contemplo do alto o globo túmido e incolor,
E nele nem procuro o abrigo de uma gruta!

Vais levar-me, avalancha, em tua queda abrupta?

Baudelaire

Le Goût du Néant

Morne esprit, autrefois amoureux de la lutte,
L'Espoir, dont l'éperon attisait ton ardeur,
Ne veut plus t'enfourcher! Couche-toi sans pudeur,
Vieux cheval dont le pied à chaque obstacle butte.

Résigne-toi, mon coeur; dors ton sommeil de brute!

Esprit vaincu, fourbu! Pour toi, vieux maraudeur,
L'amour n'a plus de goût, non plus que la dispute;
Adieu donc, chants du cuivre et soupirs de la flûte!
Plaisirs, ne tentez plus un coeur sombre et boudeur!

Le Printemps adorable a perdu son odeur!

Et le Temps m'engloutit minute par minute,
Comme la neige immense un corps pris de roideur;
   Je contemple d'en haut le globe en sa rondeur
Et je n'y cherche plus l'abri d'une cahute!

Avalanche, veux-tu m'emporter dans ta chute?
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Algumas Flores de Flores do Mal — Charles Baudelaire, Seleção dos Textos de Maura Sardinha e Tradução de Guilherme de Almeida, 1997, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Baudelaire: A Alma do Vinho

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
"Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custou, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À goela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retirar a domingueira toada
E esperanças chalrar em meu seio, febris?
Cotovelos na mesa a manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!"

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Baudelaire

L'âme du vin

Un soir, l'âme du vin chantait dans les bouteilles:
"Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité!

Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
De peine, de sueur et de soleil cuisant
Pour engendrer ma vie et pour me donner l'âme;
Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

Car j'éprouve une joie immense quand je tombe
Dans le gosier d'un homme usé par ses travaux,
Et sa chaude poitrine est une douce tombe
Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

Entends-tu retentir les refrains des dimanches
Et l'espoir qui gazouille en mon sein palpitant?
Les coudes sur la table et retroussant les manches,
Tu me glorifieras et tu seras content:

J'allumerai les yeux de ta femme ravie;
A ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
Et serai pour ce frêle athlète de la vie
L'huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

En toi je tomberai, végétale ambroisie,
Grain précieux jeté par l'éternel Semeur,
Pour que de notre amour naisse la poésie
Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur!"

Les fleurs du Mal  1857
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Algumas Flores de Flores do Mal — Charles Baudelaire, Seleção dos Textos de Maura Sardinha e Tradução de Guilherme de Almeida, 1997, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), nascido em Paris França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Baudelaire: Remorso póstumo

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Num negro e mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar teu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,

O túmulo, que tem um confidente em mim
 Porque o túmulo sempre há de entender o poeta ,
Na insônia sepulcral dessas noites sem fim,

Dir-te-á: "De que valeu, cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?”
 E o verme te roerá como um remorso atroz.

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Baudelaire

Remords posthume

Lorsque tu dormiras, ma belle ténébreuse,
Au fond d'un monument construit en marbre noir,
Et lorsque tu n'auras pour alcôve et manoir
Qu'un caveau pluvieux et qu'une fosse creuse;

Quand la pierre, opprimant ta poitrine peureuse
Et tes flancs qu'assouplit un charmant nonchaloir,
Empêchera ton coeur de battre et de vouloir,
Et tes pieds de courir leur course aventureuse,

Le tombeau, confident de mon rêve infini
(Car le tombeau toujours comprendra le poète),
Durant ces grandes nuits d'où le somme est banni,

Te dira: «Que vous sert, courtisane imparfaite,
De n'avoir pas connu ce que pleurent les morts?»
 Et le ver rongera ta peau comme un remords.

[Les fleurs du Mal]
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Algumas Flores de Flores do Mal — Charles Baudelaire, Seleção dos Textos de Maura Sardinha e Tradução de Guilherme de Almeida, 1997, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

sábado, 9 de julho de 2016

Baudelaire: Spleen 4

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Quando o céu baixo e hostil pesa como uma tampa
Sobre a alma que, gemendo, ao tédio ainda resiste,
E do horizonte todo enleando a curva escampa,
Destila um dia escuro e mais que as noites triste;

Quando a terra se torna em úmida enxovia                 
Onde a Esperança, como um morcego perdido,
Nos muros vai bater a asa tímida e fria
E a cabeça ferir no teto apodrecido;

Quando a chuva, a escorrer suas cordas tamanhas,
De uma vasta prisão, as grades delineia,
E a muda multidão das infames aranhas
No cérebro da gente estende a sua teia,

Sinos badalam, de repente, furibundos
E lançam contra o céu um rugido insolente,
Como espíritos que, sem pátria e vagabundos,
Começam a gemer recalcitrantemente.

 E enterros longos, sem tambor e sem trombeta,
Desfilam lentamente em minha alma; a Esperança,
Vencida, chora, e a Angústia prepotente avança
E em meu crânio infeliz planta a bandeira preta.

Baudelaire

Spleen 4

Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle
Sur l'esprit gémissant en proie aux longs ennuis,
Et que de l'horizon embrassant tout le cercle
II nous verse un jour noir plus triste que les nuits;

Quand la terre est changée en un cachot humide,
Où l'Espérance, comme une chauve-souris,
S'en va battant les murs de son aile timide
Et se cognant la tête à des plafonds pourris;

Quand la pluie étalant ses immenses traînées
D'une vaste prison imite les barreaux,
Et qu'un peuple muet d'infâmes araignées
Vient tendre ses filets au fond de nos cerveaux,

Des cloches tout à coup sautent avec furie
Et lancent vers le ciel un affreux hurlement,
Ainsi que des esprits errants et sans patrie
Qui se mettent à geindre opiniâtrement.

 Et de longs corbillards, sans tambours ni musique,
Défilent lentement dans mon âme; l'Espoir,
Vaincu, pleure, et l'Angoisse atroce, despotique,
Sur mon crâne incliné plante son drapeau noir.

[Les Fleurs du Mal]
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Algumas Flores de Flores do Mal — Charles Baudelaire, Seleção dos Textos de Maura Sardinha e Tradução de Guilherme de Almeida, 1997, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Baudelaire: Spleen 2

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Lembro-me mais do que se eu tivesse mil anos.

Um grande contador cheio de antigos planos,
Versos, cartas de amor, autos, literaturas,
Um cacho de cabelo enrolado em facturas,
Não tem segredos como meu cérebro inquieto.
É uma pirâmide, um jazigo amplo e repleto:
Não há fossa comum que mais mortos possua.

 Eu sou como um cemitério odiado pela lua,
Onde, como remorsos maus, vermes compridos
Andam sempre a atacar meus mortos mais queridos.
Sou como um camarim em que há rosas fanadas,
Toda uma confusão de modas já passadas,
Gravuras de Boucher que ainda inspiram decerto
O perfume sutil de um velho frasco aberto.

Nada é igual ao torpor desses trôpegos dias,
Quando, ao peso das cãs de antigas invernias
O tédio, a morna falta de curiosidade,
Assume as proporções da própria eternidade.
 Doravante hás de ser, matéria viva! o escombro
De um granito que causa em torno um vago assombro
Perdido nos confins de um Saara brumoso!
Velha esfinge que o mundo ignora, descuidoso,
Esquecida no mapa, e de um feroz desgosto
Que só sabe cantar os clarões do sol-posto.

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Baudelaire

Spleen 2

J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans.

Un gros meuble à tiroirs encombré de bilans,
De vers, de billets doux, de procès, de romances,
Avec de lourds cheveux roulés dans des quittances,
Cache moins de secrets que mon triste cerveau.
C'est une pyramide, un immense caveau,
Qui contient plus de morts que la fosse commune.

 Je suis un cimetière abhorré de la lune,
Où comme des remords se traînent de longs vers
Qui s'acharnent toujours sur mes morts les plus chers.
Je suis un vieux boudoir plein de roses fanées,
Où gît tout un fouillis de modes surannées,
Où les pastels plaintifs et les pâles Boucher,
Seuls, respirent l'odeur d'un flacon débouché.

Rien n'égale en longueur les boiteuses journées,
Quand sous les lourds flocons des neigeuses années
L'ennui, fruit de la morne incuriosité,
Prend les proportions de l'immortalité.

 Désormais tu n'es plus, ô matière vivante!
Qu'un granit entouré d'une vague épouvante,
Assoupi dans le fond d'un Sahara brumeux!
Un vieux sphynx ignoré du monde insoucieux,
Oublié sur la carte, et dont l'humeur farouche
Ne chante qu'aux rayons du soleil qui se couche.
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Algumas Flores de Flores do Mal — Charles Baudelaire, Seleção dos Textos de Maura Sardinha e Tradução de Guilherme de Almeida, 1997, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Baudelaire: O Albatroz

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O Poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

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Baudelaire

L'Albratos


Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.
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Algumas Flores de Flores do Mal  Charles Baudelaire, Seleção de Textos de Maura Sardinha e Tradução de Guilherme de Almeida, 1997, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro  RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), nascido em Paris  França, foi poeta, crítico de arte, tradutor e literato; escreveu e publicou Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos Artificiais (ensaios, 1860) e outros; considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.