sexta-feira, 31 de julho de 2020

Cesário Verde: Contrariedades

LIVRO DO CESARIO VERDE, O - POEMAS - Livraria Blulivro
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Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
           Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
           E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
           E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
           Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
           Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
           Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine*
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
           Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó**. Chuvisca. O populacho
           Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
           Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
           Deliram por Zaccone***.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
           Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
           Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
           E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
           Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
           Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
           Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
           Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde - Wikiwand

Notas do editor Sergio Faraco:
* Hippolyte Taine, filósofo, historiador e crítico francês (1828  1893);
** (Pop.) Música simples, sem ondulações e de acordes repetitivos;
*** P. Zaccone, romancista francês (1817  1895), autor melodramático).
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O livro do Cesário Verde poemas, Edição e Notas de Sergio Faraco, coleção L&PM Pocket vol. 303, 2010 (reimpressão, 1ª edição em 2003), L&PM, Porto Alegre RS; José Joaquim Cesário Verde (1855 1886), português e lisboeta, frequentou por alguns meses o curso de Letras da Universidade de Coimbra, foi comerciante e poeta; desde 1873 divulga seus poemas através dos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna, das revistas Renascença, O Ocidente e no periódico O Azeitonense; Cesário Verde não publicou livro em vida; após sua morte, suas poesias foram compiladas e organizadas por seu amigo ‘António José da’ Silva Pinto, escritor, ensaísta e crítico literário, editando-se então O Livro de Cesário Verde (1901).  

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Sosígenes Costa: A barcarola da noite

Livro: Pavao Parlenda Paraiso - Jose Paulo Paes | Estante Virtual
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Para Alves Ribeiro

A noite vem numa falua
e a brisa vem do mar nos botes.
O mar cintila e espera a lua
e tem a cor de um miosótis.
A luz do acaso é tão bizarra
que lembra a chama dos archotes.
A noite vem entrando a barra
tão negra como os hotentotes.

A noite vem entrando a barra
trazendo o aroma lá das ilhas.
Sonoro como uma cigarra,
improvisando redondilhas.
A cor do acaso é tão bizarra
que lembra o pó das cochonilhas.

A noite vem numa falua
e a brisa vem do mar nos barcos.
Surgem redondas como a lua
rosas de fogo pelos arcos.
Um véu de opala além flutua
e andam santelmos pelos charcos.

A noite vem entrando a barra
mais aromal do que as baunilhas
e as açucenas de Navarra
e as orquídeas das Antilhas.

A noite vem numa falua
entrando a barra, entre as galeras.
As sombras trazem para a rua
rosas de estranhas primaveras.
Eis que ansiosas pela lua
as ondas gritam como feras.
O mar no entanto cintilando
parece a flor de um miosótis
e o olhar de opala das quimeras.

Os ventos passam fustigando
como demônios com chicotes.
Surge uma estrela recordando
o anel lilás dos sacerdotes.
Os ventos passam fustigando
as próprias árvores austeras
e vão aos uivos como um bando
de velocíssimas panteras.

A noite vem entrando a barra
mais aromal do que as baunilhas.
Com  suavidades de guitarra,
o mar oscula as verdes ilhas.
O vento traz a cimitarra,
com que cortou jasmins nas ilhas,
e corta as ondas lá da barra.
Como serpentes em rodilhas,
e as ondas silvam junto às ilhas
e vão florindo pela barra
ramos de brancas granadilhas.
E o mar parece uma cigarra,
todo rendado de escumilhas.

A noite vem entrando a barra
para dormir aqui no porto.
Parou dos ventos a fanfarra.
Os ventos foram para o horto,
dentro do bojo das galeras.

Trazem das ilhas as galeras
flores brilhantes como archotes.
Trazem das ilhas as galeras
cravos com mirra nas anteras
e os lindos ramos das gerberas
e os orientais estefanotes.
Trazem das ilhas as galeras
cerusa em cândidos pacotes,
vinhos em urnas e em crateras
e esses estranhos rapazotes
com o ar de deuses de outras eras.

A noite vem numa falua
E a brisa vem do mar nos botes.
O mar cintila e espera a lua
e tem a cor de um miosótis.
A luz do acaso é tão bizarra
que lembra a chama dos archotes.
A noite vem entrando a barra
tão negra como os hotentotes.

(1930)

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Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa — José Paulo Paes, 1977, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Fábio Carvalho: A Constituição da poesia, Título I — Dos Princípios Fundamentais

A constituição da poesia – Livraria Expressão Popular
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Art. 1º Poesia, a princípio, é só uma palavra. Palavra, artifício, que pertence aos poetas. Poetas que, por vício, manifestam-se ora pela ausência, ora pela presença da poesia.
Parágrafo único. A palavra poesia também pertence àqueles e àquelas que simplesmente a soltam no ar, a encontram estampada ou a presenciam soando. E pertence a mais gente... e pertence a melodias...

Art. 2º Além da singela palavra, a poesia pode, de repente, ser um precioso sentimento, observadas as seguintes características:
  1. um sentimento que não se define com frases de efeito. O que é sentir a poesia todos sabem e, ao mesmo tempo, não sabem direito;
  2. um sentimento que não se sente facilmente com tão poucos sentidos, pois o sentir não tem gosto, nunca foi visto, não tem cheiro, não se tateia e nem entra pelos ouvidos.
Parágrafo único. A poesia já foi, é e poderá ser sentida em inúmeras situações, quase sempre boas. Não depende da cor, do sexo, da religião, da idade e, às vezes, nem da intenção das pessoas. Não depende nem de saber definir o que é poesia, nem de saber senti-la. Em muitos momentos, ou em surpreendentes e impressionantes tipos de relação, o determinado estado de espírito é suficiente para a poesia surgir sentida.

Art. 3º Sendo um precioso sentimento, a poesia naturalmente poderá se transformar em gestos, feitos, maneiras de agir, compreendendo que:
  1. ações individuais e coletivas quase sempre regem a vida;
  2. vida também é organizada, além de acontecer;
  3. as formas de organização são politicamente definidas;
  4. a política, certamente, poetizada pode ser;
  5. poesia manifesta o amor de infinitas maneiras;
  6. qualquer amor tem a seriedade como suporte;
  7. seriedade tem o sorriso como norte;
  8. sorriso é um poema em tom de brincadeira.
Parágrafo único. A poesia pode ser politizada.

Meia Palavra Bastaria (2014)
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A Constituição da poesia — Fábio Carvalho, 2008, 2ª edição, Thesaurus Editora, Brasília — DF; Fábio Simoni Homem de Carvalho é agrônomo, escritor, compositor e poeta, contribui com a elaboração e publicação de materiais destinados à educação popular, em sua maioria cartilhas relacionadas aos temas sociedade, meio ambiente e agroecologia; bibliografia: A Constituição da poesia (2008), Passeio poético pela obra de Marx e outros poemas necessários (2015), Na asa da algema — Papo de poeta, Conversa de bar (2016); na música, compôs os CDs Conta Outra, Clarice — adaptação da obra de Clarice Lispector (trilha sonora, 2007), No Chão de Abá (2009), Meia Palavra Bastaria (2014) e, em parceria com Pedro Nathan, No Batuque das Ideias (2011); pilota o blogue meia palavra bastaria.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Emily Dickinson: Partir

Antologia da Nova Poesia Norte-Americana | Livro Editora ...
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[traduzido por Jorge Wanderley]

Duas vezes morri, antes da morte;
Falta agora ver somente
Se a imortalidade me revela
Algum terceiro incidente

Inconcebível como os dois primeiros,
Que de lembrar me consterno.
Partir é tudo o que do céu sabemos
E desejamos do inferno.

Emily Dickinson

My life...

My life closed twice before its close;
It yet remains to see
If Immortality unveils
A third event to me,

So huge, so hopeless to conceive,
As these that twice befell.
Parting is all we know of heaven
And all we need of hell.
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Antologia da Nova Poesia Norte-Americana — Seleção, Tradução e Notas de Jorge Wanderley, edição bilíngue, 1992, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Emily Elizabeth Dickinson (1830 1886), nascida em Amherst, Massachusetts, Estados Unidos, foi poeta; cursou durante um ano o South Hadley Female Seminary e o abandonou após recusa pública em declarar sua fé, daí passando a viver reclusa em sua própria casa, por mais de vinte anos; nada publicou em vida; após sua morte, uma sua irmã, Lavínia, encontrou todos seus textos, uma grande quantidade de poemas inéditos, em cadernos e folhas soltas, e dispôs-se a publicá-los; editou-se, assim, Poems by Emily Dickinson (1890).

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Gilberto Mendonça Teles: Chá das cinco

Melhores Poemas Gilberto Mendonça Teles - Livro - Global Editora
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A Jorge Amado

chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver caruncho
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se

(pelo sim pelo não
                              chá de barbatimão)

Plural de Nuvens (1984)

Ode Martins: UM POUCO DE GILBERTO MENDONÇA TELES
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Gilberto Mendonça Teles — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Introdução de Luiz Busatto, 2007, Global Editora, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

domingo, 26 de julho de 2020

Stephen Crane: Havia um homem com uma língua de madeira

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(Tradução de Jorge Wanderley)

Havia um homem com uma língua de madeira
Que tentava cantar
E na verdade era deplorável.
Mas houve um que ouviu
Os estalos dessa língua de madeira
E entendeu o que o homem
Queria cantar
E com isto o cantor ficou feliz.

Stephen Crane | American writer | Britannica
Stephen Crane

There was a man with tongue of wood

There was a man with tongue of wood
Who essayed to sing,
And in truth it was lamentable.
But there was one who heard
The clip-clapper of this tongue of wood
And knew what the man
Wished to sing,
And with that the singer was content.
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Antologia da Nova Poesia Norte-Americana — Seleção, Tradução e Notas de Jorge Wanderley, edição bilíngue, 1992, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Stephen Crane (1871 1900), nascido em Newark, New Jersey USA, foi jornalista, romancista e poeta; escreveu Magie: A Girl of the Streets (1893), The Black Riders and Other Lines (poems, 1895), War is Kind (poems, 1899), The Red Badge of Courage: An Episode of the American Civil ("A glória de um covarde: um episódio da Guerra Civil americana", 1895), considerado um documento extraordinário e importante sobre a guerra de secessão, e outros títulos; foi correspondente de duas guerras (Grécia e Turquia, em 1897, e Espanha e Estados Unidos, em 1898).

sábado, 25 de julho de 2020

Paul Géraldy: Final

Livro: Eu e Voce - Paul Geraldy | Estante Virtual
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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Pois bem, adeus. Nada esqueceu?… Tem tudo já?
Não temos nada mais a dizer face a face.
Pode ir… Mas, não! Espere um pouco!
Como está chovendo!… Espere que isso passe.

Agasalhe-se bem! Está frio lá fora.
Você devia pôr um “manteau” mais pesado.
Já tem tudo o que é seu? Nada me resta agora?
As suas cartas? O retrato?…

Já que a gente se vai separar, olhe-me ainda um instante…
Mas sem chorar: seria idiota.
Como é horrível agora a lembrança remota
do que nós fomos numa vida antiga e linda!

Nossas vidas se confundiram totalmente…
E agora cada qual retoma o seu caminho!
Nós vamos partir, cada qual mais sozinho,
Recomeçar, vagar por aí… Certamente,

sofreremos também… Mas há de vir, depois
o esquecimento, a única cousa que perdoa.
E há de haver eu e haver você; seremos dois;
seremos isto: uma pessoa e outra pessoa.

Veja! Você já vai entrar no meu passado!
Havemos de nos ver na rua, casualmente…
Eu hei de olhar e de ir, sem ter atravessado…
Você irá com vestidos novos, diferentes…

E viveremos nossas vidas paralelas…
E amigos contarão a você minha história…
E eu direi de você, que foi a minha glória,
a minha força e a minha fé: “Como vai ela?”

O nosso amor… era esta cousa sem valor!…
No entanto, que loucura a dos primeiros dias!
Lembra-se bem? Que apoteose, que magia!…
Se nos amávamos!… E era isto o nosso amor!

Mesmo nós, até nós então, quando dizemos
“eu te amo!” o que é que vale o que estamos dizendo?…
É humilhante, meu Deus!… Somos todos os mesmos?
Iguais aos outros, nós?… Mas, como está chovendo!

Você não sai com um tempo assim… Fique comigo!
Fique! Vamos viver não sei… mais conformados…
Os nossos corações, embora bem mudados,
se reforçam talvez à luz do sonho antigo…

Vamos tentar. Ser bons, de novo. Que remédio!
Podem falar: a gente tem seus hábitos… Então?
Não vá! Fique! E retome ao meu lado o seu tédio,
Eu retomo ao seu lado a minha solidão.

Paul Géraldy

Finale

XXXII

Alors, adieu. Tu n’oublies rien?… C’est bien. Va-t’en.
Nous n’avons plus rien à nous dire. Je te laisse.
Tu peux partir… Pourtant, attends encore, attends.
Il pleut… Attends que cela, cesse.

Couvre-toi bien surtout! Tu sais qu’il fait très froid
dehors. C’est um manteau d’hiver qu’il fallait mettre…
Je t’ai bien tout rendu? Je n’ai plus rien à toi?
Tu as pris ton portrait, tes lettres?…

Allons! Regarde-moi, puisqu’on va se quitter…
Mais prends garde! Ne pleurons pas! Ce serait bête.
Quel effort il faut faire, hein? dans nos pauvres têtes,
pour revoir les amants que nous avons été!

Nos deux viés s’étaient l’une à l’autre données toutes,
pour toujours… Et voici que nous les reprenons!
Et nous allons partir, chacun avec son nom,
recommencer, errer, vivre ailleurs… Oh! sans doute,

nous souffrirons… pendant quelque temps. Et puis, quoi!
l’oubli viendra, la seule chose qui pardonne.
Et il y aura toi, et il y aura moi,
et nous serons parmi les autres deux personnes.

Ainsi, déjà, tu vas entrer dans mon passé!
Nous nous rencontrerons par hasard, dans les rues.
Je te regarderai de loin, sans traverser.
Tu passeras avec des robes inconnues.

Et puis nous resterons sans nous voir de longs mois.
Et des amis te donneront de mes nouvelles.
Et je dirai de toi qui fus ma vie, de toi
qui fus ma force et ma douceur: “Comment va-t-elle?”

Notre grand coeur, c’était cette petite chose!
Étions-nous assez fous, pourtant, les premiers jours!
Tu te souviens, l’enchantement, l’apothéose?
S’aimait-on!… Et voilà: c’était ça, notre amour!

Ainsi nous, même nous, quand nous disons “je t’aime”,
voilá donc la valeur que cela a! Mon Dieu!
Vrai, c’est humiliant. On est donc tous les mêmes?
Nous sommes donc pareils aux autres?… Comme il pleut!

Tu ne peux pas partir par ce temps… Allons, reste!
Oui, reste, va! On tâchera de s’arranger.
On ne sait pas. Nos coeurs, quoiqu’ils aient bien changé,
se reprendront peut-être au charme des vieux gestes.

On fera son possible. On sera bon. Et puis,
on a beau dire, au fond, on a des habitudes…
Assieds-toi, va! Reprends près de moi ton ennui
Moi près de toi je reprendrai ma solitude.

Toi et Moi 1912
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Eu e Você — Paul Géraldy, Tradução e Prólogo de Guilherme de Almeida, 1981, 17ª edição, Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Paul Géraldy (1885 1983), ou Paul Lefèvre-Géraldy, francês parisiense, foi dramaturgo e poeta; bibliografia: Les petites âmes (poesia, 1908), Toi et Moi (poesia, 1912), La Guerre, Madame! (narrativa, 1916), Les noces d’argent (comédia, 1917), Aimer (comédia, 1921), Les Grands Garçons (comédia, 1922), Robert et Marianne (comédia, 1925), Christine (comédia, 1932), Le prélude (narrativa, 1938), Vestiges (poesia, 1948), Vous et Moi (poesia, 1960), e outros textos em verso, narrativas e dramaturgia (comédias).