segunda-feira, 31 de julho de 2017

Da Costa e Silva: A Cigarra

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De alma boêmia, a vida efêmera e bizarra
Leva alegre a cantar o áureo inseto estival
Que, sedento de seiva, a uma árvore se agarra
Até secar, cantando unido ao vegetal.

A harpa, a lira, o arrabil, a cítara, a guitarra
Não na igualam nos sons do canto original,
Quando estridente, ao sol, zine e chia a cigarra
Pelo atrito sutil das asas de cristal.

A alma de ouro em canções o áureo inseto descerra,
Quando o éter filtra a luz no intangível crisol
Do amplo céu tropical, que ardente cinge a terra...

Canta, ingênua e feliz, de um ao outro arrebol;
E estalando ao morrer, no último canto encerra,
Em louvor do verão, o epinício do sol.

Zodíaco — 1917

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Poesias Completas — Da Costa e Silva, 2ª edição revista e anotada por Alberto da Costa e Silva, 1976, Livraria Editora Cátedra e MEC, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, foi poeta assentado em dois períodos literários o Simbolismo e o Parnasianismo, e teve seus primeiros poemas divulgados desde 1901; obra poética: Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); consta que nos seus últimos 17 anos de vida teve a mente perturbada. 

domingo, 30 de julho de 2017

Péricles Eugênio da Silva Ramos: Mundo, o Novo Mundo

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Porque tentasse decifrar os signos da matéria,
com seu rumor de concha sob a forma silenciosa;
porque sem olhos se entregasse a tal empenho,
feriu os pés à margem do caminho,
dilacerou as mãos nas grimpas da montanha.

Um deus, porém — ah! foi um deus! — 
penalizado o socorreu no meio da jornada,
oferecendo-lhe, na voz, os olhos com que visse,
as asas com que o vale do mistério transpusesse.

E canta o socorrido, e em sua voz um novo sol gravita,
como o que luz no céu, porém mais quente,
como o que apaga estrelas, mas sem corpo.

Ei-lo que canta, e um novo mar se encrespa;
ei-lo que canta, e um novo homem nasce,
um novo homem sob um novo sol.

Ei-lo que canta; e uma só língua ecoa pela Torre de Babel;
ei-lo que canta!
           E surge o mundo, o novo mundo, sobre o túmulo da esfinge.

(Lamentação Floral  S. Paulo  1946)

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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke — Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Péricles Eugênio da Silva Ramos (1919 1992), paulista de Lorena, formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário  e professor; fundou, em 1947, junto com outros escritores e poetas, a Revista Brasileira de Poesia, para divulgação dos trabalhos da chamada Geração de 45, criou o Clube da Poesia de São Paulo e, por vários anos, escreveu sobre crítica literária nos periódicos Jornal de São Paulo, Correio Paulistano e Folha da Manhã e lecionou Literatura Portuguesa e Técnica Redatorial na Faculdade Cásper Libero, em São Paulo; traduziu Byron, François Villon, Gôngora, Mallarmé, Shakespeare, John Keats etc. e organizou antologias de diversos poetas e períodos poéticos; escreveu e publicou Lamentação Floral (poemas, 1946), Sol sem Tempo (poemas, 1953), O Amador de Poemas (ensaios, 1956), O Verso Romântico e Outros Ensaios (ensaios, 1959), Lua de Ontem (poemas, 1960), Do Barroco ao Modernismo: estudos da poesia brasileira (ensaios, 1967) Futuro (poemas, 1968), Poesia quase Completa (1972), A Noite da Memória (prêmio Poesia da Associação Paulista de Críticos de Arte, 1988), e outros; por sua obra, foi laureado com o Prêmio Jabuti (1969 e 1972) e o Prêmio Machado de Assis (1986).

sábado, 29 de julho de 2017

Ernani Rosas: O Bêbedo

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Vi tudo bailar à roda
danço em minha bebedeira
macabra dança da moda
entre as vidas e caveiras!...

Por meu mal abro a janela,
que dá p’ro desconhecido:
vejo uma estrela a dançar
a dança vã de São Guido!...

Dançando, vou pela vida
aos tombos dentro em mim mesmo
sou um poeta  um visionário
gosto de errar a esmo!...

Eu gosto de andar alheio
às desventuras do mundo:
amo a morte o mealheiro
de mitos de Astro profundo

Na esfera da nossa vida
Que muita campa indomável
a consciência insofrida
da tu’alma inexorável

Meu amor dei-me ao desprezo
ao desdém do teu olhar:
a razão, porque não rezo...
sobre as ondas do alto mar!..

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Cidade do ócio: entre sonetos e retalhos — Ernani Rosas, Organizado por Zilma Gesser Nunes, 2008, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida (1886 1955), catarinense de Desterro, atual Florianópolis, foi poeta; desde os três anos de idade passou a residir na cidade do Rio de Janeiro e, depois, com a morte do pai (Oscar Rosas, político e também poeta, que basicamente lhe garantia as mesadas), mudou-se com a mãe e irmãs para Nova Iguaçu, também no Rio, onde morreu em difíceis condições; levou uma vida boêmia e sofreu discriminação pela sua gagueira e homossexualidade; foi um homem reservado que tentou ficar o máximo possível no anonimato; colaborou com os periódicos O Imparcial, Maçã e A Época; sua bibliografia: Certa Lenda numa Tarde — Paráfrasis de Narciso (assina Rictus da Cruz, 1917), Poemas do Ópio (1918) e Silêncios (sem data); após sua morte, houve o resgate de sua obra poética: em Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Organização de Andrade Muricy (1952), foram incluídos vinte e sete de seus poemas e, em Poesias — Organização de Iaponan Soares e Dalila Carneiro da Cunha Luz Varella (1989), estão reunidos oitenta e oito poemas, manuscritos e plaquetes * encontrados, já nos arquivos da Academia Catarinense de Letras; depois, vieram outros estudos: História do Gosto e Outros Poemas — Organização de Ana Brancher (1997) e Cidade do Ócio — entre sonetos e retalhos, Organizadora: Zilma Gesser Nunes (2008).

* Nota: plaquetes: este aprendiz de blogueiro faz constar que, conforme o História do Gosto e Outros Poemas (1997), as plaquetes, em torno de trinta e sete, organizadas pelo poeta, são pequenos livros costurados à mão e com barbante, com capa de papel “de embrulho”, onde foi escrito à mão o título da plaquete; pelas plaquetes, tem-se que Ernani Rosas também fez uso de alguns pseudônimos para assiná-las: N. Cáspio, A. Luzo, N. Luzo, além do já anteriormente citado Rictus da Cruz. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ernani Rosas: Monólogo das Coisas . . .

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Que vida religiosa, parecia
sonhar na paz d’aquele cemitério
as plantas tinham alma e a voz dizia
que falavam p’la boca do mistério!...

Tudo revela, misteriosamente...
As árvores eram numes, que falavam,
e num vago silêncio do inconsciente...
eram sonhos silentes, que rezavam?...

Sobre a Asa de um sonho, quero tê-las!
sim, oniricamente, comovidas...
ver a noite passar sobre as estrelas!...

E os Astros, repetir quase em segredo:
num músico murmúrio... porque a vida:
E um sussurro orquestral de vão degredo!...

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História do Gosto e Outros Poemas — Ernani Rosas, Organização de Ana Brancher e Biobbliografia de Iaponan Soares, 1997, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida (1886 1955), catarinense de Desterro, atual Florianópolis, foi poeta; desde os três anos de idade passou a residir na cidade do Rio de Janeiro e, depois, com a morte do pai (Oscar Rosas, político e também poeta, que basicamente lhe garantia as mesadas), mudou-se com a mãe e irmãs para Nova Iguaçu, também no Rio, onde morreu em difíceis condições; levou uma vida boêmia e sofreu discriminação pela sua gagueira e homossexualidade; foi um homem reservado que tentou ficar o máximo possível no anonimato; colaborou com os periódicos O Imparcial, Maçã e A Época; sua bibliografia: Certa Lenda numa Tarde — Paráfrasis de Narciso (assina Rictus da Cruz, 1917), Poemas do Ópio (1918) e Silêncios (sem data); após sua morte, houve o resgate de sua obra poética: em Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro Organização de Andrade Muricy (1952) foram incluídos vinte e sete de seus poemas e em Poesias Organização de Iaponan Soares e Dalila Carneiro da Cunha Luz Varella (1989) estão reunidos oitenta e oito poemas, incluídos manuscritos e plaquetes * encontrados, já nos arquivos da Academia Catarinense de Letras; depois, vieram outros estudos: este História do Gosto e Outros Poemas (1997) e Cidade do Ócio entre sonetos e retalhos, Organizadora: Zilma Gesser Nunes (2008).

* Nota: plaquetes: este aprendiz de blogueiro faz constar que, conforme o História do Gosto e Outros Poemas, as plaquetes, em torno de trinta e sete, organizadas pelo poeta, são pequenos livros costurados à mão e com barbante, com capa de papel “de embrulho”, onde foi escrito à mão o título da plaquete; por elas tem-se que Ernani Rosas também fez uso de alguns pseudônimos para assiná-las: N. Cáspio, A. Luzo, N. Luzo, além do já anteriormente citado Rictus da Cruz.

Cláudio Manuel da Costa: Ai Nise amada! se este meu tormento, . . . [soneto]

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Lira XXIX *

Ai Nise amada! se este meu tormento,
Se estes meus sentidíssimos gemidos
Lá no teu peito, lá nos teus ouvidos 
Achar pudessem brando acolhimento;

Como alegre em servir-te, como atento
Meus votos tributaria agradecidos!
Por séculos de males bem sofridos 
Trocara todo o meu contentamento.

Mas se na incontrastável ** pedra dura 
De teu rigor não há correspondência,
Para os doces afeitos de ternura;

Cesse de meus suspiros a veemência; 
Que é fazer mais soberba a formosura 
Adorar o rigor da resistência.

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Notas da Edição
O soneto, dos mais musicais de Cláudio, ostenta figuras de palavras e aliterações, sábia distribuição de tônicas e versos amplamente sugestivos, como os dois últimos da segunda quadra.
** Incontrastável: contra a qual é inútil lutar.
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Poesia do Ouro (Antologia) — Os Mais Belos Versos da “Escola Mineira”, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Cláudio Manuel da Costa (1729  1789), mineiro de Mariana (antiga Vila do Ribeirão do Carmo), foi advogado, magistrado, e poeta; fez seus primeiros estudos em Vila Rica, hoje Ouro Preto, estudou no Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro, e formou-se em Cânones (Direito), pela Universidade de Coimbra, em Portugal; por vezes assinou seus textos com o pseudônimo de Glauceste Satúrnio; escreveu e publicou Culto Métrico (1749), Munúsculo Métrico (poesia, 1751), Epicédio (poesia, 1753), Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio (1768), O Parnaso Obsequioso e Obras Poéticas (1768), Vila Rica (poesia, 1773), Poesias Manuscritas (1779); de família rica, fazendeiro e minerador, participou da Inconfidência Mineira, foi preso em maio de 1789 e encontrado morto na prisão em julho do mesmo ano uma versão diz que ele se suicidou e outra, que foi assassinado.

Anastácio Ayres de Penhafiel: labirinto cúbico

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Ao Excelentíssimo Senhor Vasco Fernandes César de Meneses, Vice-Rei do Estado do Brasil


Nota da edição: A frase IN UTROQUE CESAR * lê-se nas beiras assim: na 1ª linha, de cima para baixo ou da esquerda para a direita; na última, de baixo para cima ou da direita para a esquerda. É possível lê-la a partir de cada I na diagonal: de cima para baixo, virando para a esquerda; de baixo para cima, virando para a direita; para a direita, virando para cima; para a esquerda, virando para baixo. É possível, também, ler em ziguezague, vindo p. ex. de cima para baixo, virando à esquerda, descendo outra vez, virando à esquerda de novo, etc. É mesmo um verdadeiro labirinto.

* Nota deste aprendiz de blogueiro: IN UTROQUE CESAR, frase latina, pode-se traduzir como “há um outro césar” ou “de ambos os lados um césar” (Jayro Luna, em Caderno de Anotações  2005) 
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Poesia Barroca, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Anastácio Ayres de Penhafiel, poeta do Barroco baiano, consta como tendo participado da Academia Brasílica dos Esquecidos, cuja duração foi curta, com sua 18ª e última conferência realizada em 4 de fevereiro de 1725, seu primeiro e único ano social; assinala Péricles Eugênio nos traços biobibliográficos sobre o ‘Labirinto Cúbico’: “Segundo se lê nos próprios Códices dos Esquecidos, trata-se de um anagrama. Pedro Calmon não registra a circunstância, nem se conhece tentativa de identificação do poeta, que assina um labirinto cúbico baseado na expressão in utroque cesar e era dos acadêmicos mais bem dotados.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Antônio Rangel Bandeira: Fim do mundo

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Todos os jornais darão edições especiais
E ainda um bonde terá tempo de colher um transeunte.
O Presidente dirá palavras de conforto à Nação.
Os bombeiros ficarão a postos
Como à espera dos grandes cataclismos.
À falta de luz elétrica os homens usarão querosene
Em candeiros alados.
O poeta se perderá em cogitações
De interesse particular.
Um telegrama esclarecerá pequenos detalhes:
— As agulhas das bússolas ficarão desnorteadas
E os sinais telegráficos perder-se-ão no espaço.
Além do mais algumas estrelas cairão sobre o mar
 Parnasianas.
E entre palmas e gritos dos espectadores
A ressurreição da carne será anunciada.

(In. Supl. Autores & Livros  Rio  1943)
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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke — Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Antônio Rangel Bandeira (1917 1988), nascido em Recife PE, foi advogado, jornalista, poeta, cronista e ensaísta; escreveu e publicou Poesias (1945), O Retrato Fantasma (1953), Jorge de Lima — o roteiro de uma contradição (1959), Diálogos no Espelho (1968).

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Tomás Antônio Gonzaga: Meu prezado Glauceste * . . . [Lira IX]

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Lira IX

          Meu prezado Glauceste,
          Se fazes o conceito,
          Que, bem que réu, abrigo
A cândida Virtude no meu peito;
Se julgas, digo, que mereço ainda
          Da tua mão socorro ;
          Ah! vem dar-mo agora,
          Agora sim que morro!

          Não quero que, montado
          No Pégaso fogoso,
          Venhas com dura lança
Ao monstro infame traspassar raivoso.
Deixa que viva a pérfida calúnia,
          E forje o meu tormento:
          Com menos, meu Glauceste,
          Com menos me contento.

          Toma a lira doirada,
          E toca um pouco nela:
          Levanta a voz celeste
Em parte que te escute a minha bela;
Enche todo o contorno de alegria;
          Não sofras, que o desgosto
          Afogue em pranto amargo
          O seu divino rosto.

          Eu sei, eu sei, Glauceste,
          Que um bom cantor havia,
          Que os brutos amansava;
Que os troncos, e os penedos atraía.
De outro destro Cantor também afirma
          A sábia Antiguidade,
          Que as muralhas erguera
          De uma grande Cidade.

          Orfeu as cordas fere;
          O som delgado, e terno
          Ao Rei Plutão abranda,
E o deixa, que penetre o fundo Averno.
Ah, tu a nenhum cedes, meu Glauceste,
          Na lira, e mais no canto:
          Podes fazer prodígios,
          Obrar ou mais, ou tanto.

          Levanta pois as vozes:
          Que mais, que mais esperas?
          Consola um peito aflito;
Que é menos inda, que domar as feras.
Com isto me darás no meu tormento
          Um doce lenitivo;
          Que enquanto a bela vive,
          Também, Glauceste, vivo.

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* Nota da EdiçãoGlauceste: Cláudio Manuel da Costa. Gonzaga ignorava que ele estivesse preso ou que tivesse morrido.
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Poesia do Ouro (Antologia) Os Mais Belos Versos da “Escola Mineira”, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Edições Melhoramentos, São Paulo SP; Tomás Antônio Gonzaga (1744 1810), português do Porto, foi jurista, ativista político e poeta; aos quatro anos de idade mudou-se para o Brasil, tendo estudado no Colégio dos Jesuítas, na Bahia, e se formado em Leis pela Universidade de Coimbra; posteriormente, retornando de Portugal, fixou residência em Vila Rica (atual Ouro Preto MG) e ali foi nomeado ouvidor e juiz; escreveu Marília de Dirceu (Dirceu foi um seu pseudônimo arcádico) e Cartas Chilenas; com participação ativa na Inconfidência Mineira, teve seus bens sequestrados, foi preso na Ilha das Cobras, Rio de Janeiro, e depois degredado para Moçambique, continente africano, onde cumpriu o restante da pena e morreu; parte de sua obra foi escrita na prisão e a primeira impressão só se deu com o poeta já no exílio.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Astrid Cabral: Esquartejamento

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Vendeu o branco sorriso 
à fábrica de dentifrício 
a cabeleira basta 
a xampu Número Um 
o busto farto à marca 
de sutiãs de náilon 
as axilas depiladas 
a desodorantes espreis 
ancas e partes pudendas 
a firmas de absorventes 
e as belas pernas a casas 
de meias transparentes. 
Depois foi pendurada
nas paredes da cidade 
 pasto de milhões de olhos 
que lhe compram os pedaços 
ao preço vil do mercado. 

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Lição de Alice, poemas (1980 — 1983) — Astrid Cabral, 1986, Philobiblion, Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

domingo, 23 de julho de 2017

Caldas Barbosa: Ter amor não é defeito

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Cantigas

          Desafoga pelas vozes
A paixão, que oprime o peito,
Não te envergonha a verdade,
Ter amor não é defeito.

          Aceita de amor cadeias,
Do modo que eu as aceito,
Os ferros de amor dão honra,
Ter amor não é defeito.

          Com amor não há fugir-lhe,
Nem por força, nem por jeito,
Que importa amar e servi-lo?
Ter amor não é defeito.

          É Glória amar um semblante,
Tão gentil e tão perfeito;
Se é sem defeito o motivo,
Ter amor não é defeito.

          Belisa, gentil Belisa,
Eu te adoro, eu te respeito,
Não me castigues por isso
Ter amor não é defeito.

          Em contemplar os teus olhos
O dia, e noite aproveito,
Contemplar é ação d’alma,
Ter amor não é defeito.

          Eu acordo em ti cuidando,
Em ti cuidando me deito,
Não é defeito o cuidado,
Ter amor não é defeito.

          Aos homens a natureza,
Impôs de amor o preceito,
O defeito está no modo,
Ter amor não é defeito.

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Domingos Caldas Barbosa (1738  1800), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta, violonista, compositor e cantor de modinhas, teatrólogo e presbítero; fixou residência em Lisboa  Portugal, por volta de 1772, fez curso de formação religiosa e ordenou-se; fundou a Academia de Belas Artes, a Nova Arcádia, em Portugal, juntamente  com Bocage e outros poetas; sob o pseudônimo de Lereno Selenuntino, aderiu à Arcádia Romana; o poeta árcade teve sua obra vinculada à canção popular; Viola de Lereno foi publicada em 1798.

sábado, 22 de julho de 2017

Frédéric Gros: O 'flâneur' das cidades

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          Walter Benjamin, com seus estudos parisienses, conferiu celebridade ao personagem do flâneur, muito distante do passeador galante das Tulherias. Ele o analisou, descreveu, captou relendo Baudelaire. Seu O Spleen de Paris, seus “Quadros Parisienses” em As Flores do Mal, suas pinturas da Vida Moderna. Perambular, “flanar”, pressupõe três elementos, ou a superposição de três condições: a cidade, a multidão, o capitalismo.

          A experiência do passear é, sim, a da caminhada, mas fica-se bem longe de Nietzsche ou de Thoreau. Sem falar que caminhar na cidade reverte-se num sofrimento para o amante das longas caminhadas naturais porque dá a entender, como veremos, que o ritmo será entrecortado, irregular. Seja como for, o flâneur caminha, o que não acontece com o simples curioso, que enquanto passa vai parando continuamente e estanca diante das atrações, ou fica fascinado pelo apelo dos mostruários. O flâneur caminha, ele se esgueira até no meio de um mundaréu de gente.

          Uma flânerie subentende essas concentrações urbanas que se desenvolvem no século XIX, concentrações tamanhas que se pode caminhar horas a fio sem avistar o menor pedaço de campina. Caminhando assim nessas novas megalópoles (Berlim, Londres, Paris), atravessa-se vários bairros que constituem mundos diferentes, à parte, separados. Tudo pode mudar de um distrito ao outro: a dimensão das casas, a arquitetura geral, o ambiente, o ar que se respira, o modo de vida, a luz, as categorias sociais. O flâneur subentende o momento em que a cidade tomou proporções tais que vira paisagem. Pode-se percorrê-la como se percorre uma montanha com suas travessias de desfiladeiros, reviravoltas de perspectiva, perigos também, e surpresas. Virou uma floresta, uma selva.

          O segundo elemento característico do despontar do perambulador é a multidão. O flâneur caminha dentro da multidão, através dela. Essa multidão em meio à qual ele progride já são as massas: laboriosas, anônimas, atarefadas. Nas grandes cidades industriais, essas pessoas que voltam do trabalho ou então que estão indo para o trabalho ou a encontros de negócios, que se apressam para entregar um pacote ou chegar na hora marcada, são os representantes da nova civilização. Essa multidão é hostil, hostil com cada um daqueles que a compõem. Cada um quer ir depressa, e o outro se torna um obstáculo no caminho. A multidão transforma imediatamente o outro em concorrente. Não é a multidão em marcha, a das manifestações, greves, reivindicações unitárias, a multidão épica, o formidável bloco de energia. Pelo contrário, nessa multidão cada um descobre para si interesses contraditórios, na própria base concreta de seu deslocamento. Não se encontra ninguém lá. Caras desconhecidas, na maior parte do tempo fechadas, e que estatisticamente se tem pouca chance de conhecer. A experiência comum, nos séculos anteriores, era a surpresa de um forasteiro na cidade: um rosto desconhecido. De onde vem, o que vem fazer aqui? Mas hoje em dia o anonimato é a regra. O choque é reconhecer. Na multidão, os códigos básicos do encontro desaparecem totalmente. Fica impossível cumprimentar, parar, trocar três palavras a respeito do tempo que está fazendo.

          Terceiro elemento: O capitalismo ou, mais precisamente, segundo Walter Benjamin, o reinado da mercadoria. O capitalismo vai designar esse momento em que a mercadoria expande seu modo de ser para muito além dos produtos industriais: até a obra de arte e as pessoas. Mercadorização do mundo: tudo se torna objeto de consumo, tudo se vende e se compra, tudo está ofertado no grande mercado da demanda indefinida. Reinado da prostituição generalizada: trata se de vender e de vender-se.


          *

          O flâneur é subversivo. Ele subverte a multidão, a mercadoria e a cidade, bem como seus valores. O caminhador dos vastos espaços, excursionando com sua mochila às costas, opõe à civilização o impacto vívido de uma ruptura, o gesto cortante de uma negação (Jack Kerouac, Gary Snyder...). O ato de caminhar do flâneur é mais ambíguo, sua resistência à modernidade, ambivalente. Subversão não é opor-se, mas contornar, desviar, exagerar até deturpar, aceitar até ultrapassar.

          O flâneur desvirtua a solidão, a velocidade, o atarefamento e o consumo.

          Subversão da solidão. Discorreu-se muito sobre o efeito do isolamento das massas. Sequência indefinida de rostos estranhos, grossa camada de indiferença em que a solidão moral fica mais profunda. Cada um sente-se um estranho para o outro e o desdobramento desse sentimento produz uma hostilidade espessa que faz de cada um a presa de todo mundo. O flâneur busca esse anonimato, pois nele esconde-se. Ele se dissolve, de fato, na massa mecânica, mas a partir de um movimento voluntário, para dissimular-se ali. Sendo assim, o anonimato não é para ele uma pressão a esmagá-lo, mas uma oportunidade de regozijo: passa a se sentir tanto mais ele mesmo, a partir de suas reservas interiores. E já que está se escondendo, não sentirá o anonimato como uma imposição, mas como uma sorte. No interior da solidão pesada, espessa da multidão, ele escava a do observador e do poeta: ninguém vê que ele está olhando! Ele é como uma dobra na massa. O flâneur está defasado, e esse desnivelamento decisivo, sem excluí-lo nem mantê-lo afastado, o distrai da massa anônima, o singulariza para si mesmo.

          Subversão da rapidez. Na multidão cada um está apressado, em duplo sentido: quer andar rápido e sofre pressão em contrário. * Já o flâneur não está obrigado a ir aqui ou acolá. Então ele pára diante de brilhos de luz, rostos o detêm, ele diminui o passo nos cruzamentos. Mas, resistindo à velocidade do sistema da sobrecarga de afazeres, sua lentidão se transforma na condição para uma agilidade superior: a do espírito. Pois ele vai captando no ar, imagens. O transeunte precipitado alia o ritmo rápido do corpo ao embrutecimento do espírito. Ele só quer saber de andar depressa e seu espírito é como uma máquina girando à toa, ocupado simplesmente em contabilizar o vazio. O caminhante desacelera o corpo, mas seus olhos continuam a deslocar-se e seu espírito é atraído por mil coisas ao mesmo tempo.

          Subversão do ocupacionismo. O flâneur resiste terminantemente ao produtivismo circundante, ao utilitarismo que o cerca. Ele é um inútil perfeito e sua ociosidade o condena a permanecer à margem. Mas nem por isso ele se mantém inteira e constantemente passivo. Não faz nada, mas está com todas as coisas encurraladas, observa, seu espírito conserva-se incessantemente atento. E agarrando no ar os choques e os encontros, ele não pára de criar imagens poéticas. E se não houvesse um flâneur, cada qual seguiria seu próprio caminho, produziria sua própria sequência de fenômenos, sem que ninguém pudesse testemunhar daquilo que ocorre nos cruzamentos. O flâneur nota as faíscas, as aproximações, os encontros.

          Subversão do consumo. A multidão é vivenciar a experiência de um virar-mercadoria. Empurrado, arrastado por ela, fico reduzido a não ser nada além de um produto entregue a movimentos anônimos. Ofereço-me, largo-me ao tráfego. Na multidão, sempre me sinto como que consumido: pelos movimentos que se impõem ao meu corpo, os arrebatamentos que me tragam. Sou consumido pelas ruas, pelas alamedas. As placas de lojas e as vitrines existem tão só para intensificar a circulação, a troca de mercadorias. O flâneur não consome, tampouco é consumido. Ele garimpa ou até furta. Não recebe, como o caminhante das planícies ou das montanhas, a paisagem em paga de seus esforços. Mas ele apreende, intercepta no ar encontros improváveis, instantes furtivos, coincidências fugitivas. Não consome, muito embora não pare de apanhar vinhetas, de chamar a si um chuvisco de imagens roubadas, no improvável instante dos encontros.

          Essa criatividade poética do caminhante se conserva, entretanto, ambígua: como dizia Walter Benjamin, ela é uma “fantasmagoria”. Ultrapassa a atrocidade das cidades para resgatar suas maravilhas passageiras, explora a poesia das coisas, mas sem se deter para denunciar a alienação do trabalho e das massas. Esse flâneur tem coisa melhor para fazer: remitologizar a cidade, inventar novas divindades, explorar a superfície poética do espetáculo urbano.

          As posteridades da flânerie baudelariana são numerosas. Encontraremos a errância surrealista que enriquecerá a arte de deambular introduzindo duas novas dimensões: o acaso e a noite (Aragon no bairro das Buttes-Chaumont em O Camponês de Paris, Breton à procura alucinada do amor em Nadja). Encontraremos ainda a derivação situacionista que tem Guy Debord por teorizador: exploração sensitiva das diferenças (deixar-se transformar pelos ambientes). Fica a pergunta de saber se, na época atual, a padronização das placas com marcas comerciais (as “cadeias” como se diz sem ironia: elos por igual, que se fecham prendendo você) e o alastramento agressivo dos automóveis não teriam deixado a flânerie mais complicada, menos agradável e surpreendente. Criam-se, é fato, espaços para uma flânerie programada, mas vinculados à obrigatoriedade de comprar.

          O grande caminhador romântico, o eterno Wanderer, estava em comunhão com o Ser. A caminhada era uma grande cerimônia de união mística, o caminhante fazendo-se presente à Presença, aninhando-se junto ao seio puro de uma Natureza maternal. Em Rousseau, em Wordsworth, encontra-se essa celebração da caminhada como atestação da presença e fusão mística. E o que fica registrado no verso cadenciado de Wordsworth ou na prosa musical de Rousseau, é sem dúvida a profundidade dessa respiração, a brandura do ritmo.

          O caminhante das cidades não está presente a uma plenitude de Ser, está apenas disponível a impactos visuais esparsos. O caminhante se realiza no abismo de uma fusão, o flâneur na explosão de uma dispersão indefinida de estilhaços.

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* A etimologia de “apressar” remete a “oprimir”, o que possibilita o paralelo com o duplo significado do termo francês pressé, apressado e pressionado, muito embora em português sofra-se pressão para acelerar, ao passo que no contexto francês ela bloqueia. (Nota da Tradutora)
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Caminhar, uma filosofia — Frédéric Gros, Tradução de Lília Ledon da Silva, 2010, É Realizações Editora, São Paulo — SP; Frédéric Gros, nascido em 1965, francês de Saint-Cyr-l’École, formado pela École Normale Supérieure de Paris e com doutorado em Filosofia pela Université Paris-Est Créteil, Val de Marne, com o trabalho/tema Théorie de la connaissance et histoire des savoirs: de L’histoire de la folie à L’archéologie du savoir (Teoria do Conhecimento e da História do Conhecimento: A história da loucura na arqueologia do saber), é professor, filósofo, ensaísta e conferencista; escreveu e publicou Foucault et la folie (1997), Et sera justice. Punir en démocratie (avec Antoine Garapon et Thierry Pech, 2001), États de violence — Essai sur la fin de la guerre (2006), Caminhar, uma filosofia (Marcher, une philosophie, 2010), Le Principe sécurité (2012) e outros títulos, além de artigos em revistas especializadas; participou também de palestras do Ciclo Mutações realizadas em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais, com mais uma vintena de pensadores, as quais resultaram nas coletâneas Mutações: ensaios sobre as novas configurações do mundo (2009), Mutações: a experiência do pensamento (2011), Mutações: elogio à preguiça (2012), Mutações: o futuro não é mais o que era (2013), Mutações: o silêncio e a prosa do mundo (2014), Mutações: fontes passionais da violência (2015), Mutações: o novo espírito utópico (2016) e outros.