
____________________
Quando as fadas do
ostracismo,
Embrulhadas num lençol,
Cantavam em si bemol
As trovas do paroxismo,
Veio dos fundos do abismo
Um fantasma de alabastro
E arvorou no grande mastro
Quatro panos de toicinho,
Que encontrara no caminho
Da casa do João de Castro.
Nas janelas do destino,
Quatro meninos de rabo
Num só dia deram cabo
Das costelas de um Supino.
Por tamanho desatino,
Mandou o Rei dos Amores
Que se tocassem tambores
No alto dos chaminés
E ninguém pusesse os pés
Lá dentro dos bastidores.
Mas este caso nefando
Teve a sua nobre origem
Em uma fatal vertigem
Do famoso conde Orlando.
Por isso, de vez em quando,
Ao sopro do vento sul,
Vem surgindo de um paul
O gentil Dalai-lama,
Atraído pela fama
De uma filha de Irminsul.
Corre também a notícia
Que o Rei Mouro, desta feita,
Vai fazer grande colheita
De matéria vitalícia.
Seja-lhe a sorte propícia,
É o que mais lhe desejo.
Portanto, sem grande pejo,
Pelo tope das montanhas,
Andam de noite as aranhas
Comendo cascas de queijo.
O queijo, — dizem os
sábios, —
É um grande epifonema,
Que veio servir de tema
De famosos alfarrábios.
Dá três pontos nos teus lábios,
Se vires, lá no horizonte,
Carrancudo mastodonte,
Na ponta de uma navalha,
Vender cigarros de palha,
Molhados na água da fonte!…
Há opiniões diversas
Sobre dores de barriga:
Dizem uns que são lombrigas;
Outros, — que vêm de conversas.
Porém as línguas perversas
Nelas vêm grande sintoma
De um bisneto de Mafoma,
Que, sem meias, nem chinelas,
Sem saltar pelas janelas,
Num só dia foi a Roma.
* Nota de Alphonsus de Guimaraens Filho: Disparates
rimados — A respeito deste
poema, escreve Basílio de Magalhães à pág. 122 de seu estudo [Bernardo
Guimarães: Esboço Biographico e Crítico, 1926]: “O
Ipiranga”, periódico literário
surto no Rio de janeiro em 1865, recebeu do poeta ouropretano e deu à luz no nº
74, de 27 de outubro de 1867, uma curiosa produção, do gênero escurril. Entre
os elogios que tributou a referida folha ao seu espontâneo colaborador vem a
asserção de que este lhe enviara outros versos do mesmo facecioso engenho. Teriam
sido publicados? Não pude averiguá-lo. Vejam-se, porém, os que ali vieram a
lume e que se afiguram nova “charge” contra o “ultra-condoreirismo”. No livro de J. M. Vaz
Pinto Coelho, pág. 194, vem transcrita a nota do referido número de “O
Ipiranga”: “À musa engenhosa de
B. Guimarães, o inspirado poeta dos Cantos da solidão, devemos estes e outros Disparates rimados,
que bem nos atestam a variedade do seu talento, que, por ter escrito “O ermo” e as “Inspirações da tarde”, nem por isso desdenha da musa da galhofa”.
____________________
Poesias Completas de
Bernardo Guimarães — Organização, Introdução e Notas de Alphonsus de Guimaraens
Filho e Apresentação de José Renato Santos Pereira, 1959, Instituto Nacional do
Livro — Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Bernardo Joaquim
da Silva Guimarães (1825 — 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade
de Direito de São Paulo (atual USP — Largo São Francisco), foi poeta,
romancista, jornalista, crítico literário, magistrado e professor de Retórica,
Poética, Latim e Francês; obras: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O
Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (drama, 1860), Inspirações
da tarde, Poesias diversas e Evocações (todos de 1865), Lendas e Romances: Uma
História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos,
1871), O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso (romances, todos de 1872),
A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883)
e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome
(1976—1977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada
para mais de uma centena de países — na China, por exemplo, a Escrava Isaura,
protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de
pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil
exemplares.








